imagesA síntese da existência só Marcos Felicianos e Malafaias não é nada simples e por isso mesmo não pode, e nem precisa, ser reduzida à meras questões de religião.

O adágio “A religião é o ópio do povo”, repetido como mantra por legiões de socialistas “marxistas”, ganha ao ter de si excluído o contexto a condenação da religião de automático, a fé em si, como ferramenta de dominação dos mais pobres, que por conseguinte não passam de ovelhas assustadas, incompetentes, covardes e, porque não, completamente idiotas.

Ao terem diante de si os Felicianos Malafaias da vida e seus inúmeros seguidores e repetidores das loucuras odientas proferidas pela dupla, os discípulos do simplismo marxista ganham quase que um presente divino para a manutenção da repetição descontextualizada do adágio quase sacralizado “A religião é o ópio do povo”.

Essa guerra religiosa entre fiéis de Felicianos Malafaias e Marxianos do sétimo dia no entanto é apenas um péssimo Vaudeville que oculta questões muito maiores e que talvez nos ajudem tanto a compreender o adágio “A religião é o ópio do povo” em seu contexto, quanto a entender que o problema todo é muito mais amplo e complexo do que a religião.

Michel Lowy em seu texto “Marxismo e religião: ópio do povo?” nos dá uma dica que o problema é mais complexo inclusive em Marx ao nos explicar que:

é claro que qualquer perturbação histórica das condições sociais provoca ao mesmo tempo a perturbação das concepções e das representações dos homens e por conseguinte das suas representações religiosas”. Este método de análise macro‑social terá uma influência duradoura sobre a sociologia das religiões, mesmo para além do movimento marxista”.

Neste trecho Lowy cita de Marx que a religião é um dos aparelhos usados pela ideologia dominante para exercer sua dominação, ela não é em si, no plano da fé, a dominação ou o efeito dela, mas é um aparato, um mecanismo utilizado para a dominação assim como “O direito, a moral, a metafísica, as ideias políticas,etc. Ou seja, Lowy deixa claro ao analisar Marx que o adágio “A revolução é o ópio do povo” estava longe de isolar a fé como elemento opiáceo por si só, mas que ela é, junto com outros elementos, um mecanismo de uso pela elite dominante para controle social.

Marx mesmo no trecho citado indica que mudanças na conjuntura histórico-social alteram a religião e seu papel no plano social, de influência das massas. Por isso nenhuma fé é imune às mudanças históricas e tampouco seus fiéis, pastores e simpatizantes são nascido em marte, produzidos em caixas de sapato e importados posteriormente para nosso planetinha. A religião, assim como o direito e a ideologia política, refletem a conjuntura histórico-social, refletem o arcabouço cultural em andamento, refletem seu tempo.

Como aparato ideológico a Religião é o ópio do povo tanto quanto a TV ou o jornal, quanto o churrasquinho na laje ou o Varguismo e o Lulismo. O efeito opiáceo, no sentido de produtor de delírio, indicado por Marx então permite até outras interpretações que abundam no plano da justificativa cultural da religião ser uma arma de alienação consciente e temporária, via torpor da consciência, quanto o vinho ou místicas político-partidárias.

Grosso modo: Religião não nasce em árvore, não sai da tumba amaldiçoando o populacho da estupidez delirante, ela é um produto que além de não ser monolítico reflete a conjuntura e se torna a voz dela em muitos aspectos, é um dos aspectos visíveis da ideologia dominante, hegemônica, assim como a aversão ao Funk.

As provocações embutidas nos vários parágrafos não são a toa, é porque parte da hojeriza dirigida à religião, e classificando denominações inteiras, teologias inteiras, em caixinhas reduzidas, rasas, nada mais são que preconceitos de cunho elitista com os fiéis das denominações .

Os pentecostais são divididos entre ladrões (Pastores) e idiotas (fiéis) menos pelas características analisadas in loco destes indivíduos em suas manifestações e mais por generalizações que entendem que um pastor da Assembleia de Deus em Madureira é igual a um Feliciano, dado que ambos são pastores e da mesma denominação. Da mesma forma só há idiotas na plateia, só idiotas e a teologia da prosperidade é uma armação para a conquista de dinheiro, apenas isso.

Ao colocar desta forma os explicadores da religião e “iluminados” que veem a verdade não conseguem identificar em milhões de pessoas e quadros conjunturais diferentes as inúmeras variáveis possíveis na composição social das congregações, do quadro pastoral, de cada religião, da estrutura política montada por ela ou a que ela tem acesso e mais, da conjuntura cultural geral da sociedade brasileira e mundial hoje.

A solução via generalização seria genial se não fosse uma bobagem reducionista e que não explica nada.

Como explicou tio Marx a religião é vinculada à sua realidade social e responde a ela de acordo com as transformações culturais que esta lhe apresenta. A religião é, antes de mais nada, uma forma de ler o concreto a partir de um filtro não científico. A religião reage ao concreto e estabelece explicações a partir disso.

As religiões não se furtam a construirem respostas em um quadro de profunda guinada conservadora mundial após os anos 1960, onde uma revolução cultural mundial levou à profundas transformações no status quo desde no plano das relações afetivas até nas relações jurídicas, onde a lógica do sexo não monogâmico, a luta por direitos dos LGBT, negros, ampliação do eco do feminismo velho de guerra, o surgimento dos movimentos anticolonialistas, de valorização dos direitos dos povos originários se expandiram ao máximo no rescaldo da guerra fria que ainda se organizava no pós-segunda guerra onde medidas extremadas de repressão eram mundialmente rechaçadas depois da derrota das totalitárias Alemanha Nazista e Itália Fascista.

O Maio de 1968 foi um marco cultural fácil de ver e de ser reivindicado, assim como Stonewall, marcha dos milhões com Luther King, Cidade do México,etc, mas também foi, foram, marcos de um momento de expansão democrática das lutas e do sentimento mudancista e “revolucionário” que já incomodava não só a elite conservadora como a população que se via perdida diante de velozes transformações culturais que modificavam a própria rede de explicações do real que eram mantidas por eles pelo uso comum da cultura.

Na América Latina as ditaduras formam o elemento acabado da resistência político-cultural conservadora, mas o avanço de governos republicanos e de uma pregação antiliberal nos EUA, repressão na Itália, Alemanha, França e Inglaterra, tudo isso já era parte do movimentos das forças conservadoras de retomada de sua hegemonia abalada por movimentos múltiplos político-culturais que buscavam dentro da guerra fria criarem um mundo diferente.

O reflexo disso foi ao fim dos anos 1970 as eleições de Tatcher e Reagan na Grã-Bretanha e EUA como marco de definição política da hegemonia conservadora que se gestou em reação às transformações culturais dos “anos de ouro” pós-segunda guerra. Essa hegemonia conservadora assume a direção de duas potências e a liderança do golpe fatal numa decadente URSS que ainda tenta uma sobrevida em ações imperialistas e busca resistir às pressões internas por maior liberdade e mudanças econômicas, mas que cai ainda na década de 1980 abrindo o espaço para não só a consolidação da hegemonia ideológica neoliberal como para a cristalização a partir dela de um novo conservadorismo de cunho ultra-capitalista.

Se na América Latina esses movimentos foram menos claros nos anos 1980 de um sentimento desafogado de libertação das duras ditaduras militares, eles não foram, no entanto, menos eficientes. A partir da lei da anistia o sentimento de expansão da liberdade de que era o momento de libertação do povo Brasileiro o que se reorganizava como resistência era o rescaldo dos movimentos e organizações que forma triturados por uma máquina de destruição estatal chamada Ditadura Militar. Os principais quadros de organizações e movimentos foram mortos, os prováveis elementos de renovação idem. A teologia da libertação era severamente perseguida pelo aparato eclesiástico comandado por João Paulo II e sofria baixas constantes.

Com uma igreja incapaz de responder de forma competente aos anseios religiosos populares, com a dificuldade e o preconceito envolvidos no envolvimento com as religiões afro-brasileiras, com a ausência de movimentos de esquerda abertos ao diálogo para além do marxismo-leninismo clássico e a queda paulatina da esquerda religiosa, a teologia da prosperidade nadou de braçada em um quadro de paulatina crise econômica e cuja exigência de resignação das teologias mais tradicionais não encontrava mais eco em barrigas vazias e sem esperança de um povo bastante sofrido.

Neste rescaldo de ditadura crescem as igrejas neopentecostais no Brasil e crescem vivendo também a necessidade de um diálogo com um povo mergulhado em uma ideologia conservadora e também reticente quanto à “modernidade” das drogas, do sexo livre, dos LGBT publicamente expostos à sua frente. Vale dizer que nas décadas de 1980 e 1990 mesmo no seio da esquerda e dos movimentos progressistas a resistência a estes temas não só não eram isoladas como ainda hoje existem e muito no interior de quem em tese deveria se organizar de forma mais libertária.

Neste quadro a teologia da prosperidade nasce como uma resposta plenamente inserida no contexto cultural neoliberal crescente, ela nasce a partir de uma lógica simples onde “Se Deus está contigo você será próspero” e é construída não só a partir da simples pregação de mantras funcionais no cotidiano, mas também pela criação de uma rede de solidariedade e compartilhamento de experiências, e também de resultados, econômicos que acaba criando uma situação de plena resposta da fé ao cotidiano do fiel. Um fiel tem sucesso e o compartilha, por vezes gerando empregos, com outros da mesma denominação, e isso acaba virando uma espécie de “egrégora’ positiva, que atrai novos fiéis, que se entende agora também inseridos na sociedade, não só na sociedade local da igreja, mas também refletindo em sua maioria valores competitivos em voga no seio geral da sociedade.

Enquanto a elite e a classe média mergulhavam na autoajuda e na espiritualidade “libertária”, que se lida com cuidado também é um eco da hegemonia cultural neoliberal, no discurso da sustentabilidade ambiental reduzida a soluções individuais, a maior parte da população que se desligava das religiões tradicionais buscava a aceitação social e a melhoria da qualidade de vida na teologia da prosperidade e nas igrejas neopentecostais.

A teologia da prosperidade portanto não pode ser lida apenas como um discurso malandro de gênios da lucratividade estelionatária, ele tem também o eco e a expansão baseada em um ethos coletivo e um ethos coletivo que tinha íntima ligação com o ethos social em voga. A legitimidade dela está no fato de ser um discurso teológico construído a partir de uma leitura organizada do real, da conjuntura local e de se manter dentro de uma organizada expansão social que vai além do golpe fácil e do planejamento amplo de enriquecimento de um grupo reduzido, ela é um caso claro de consolidação de uma resposta religiosa a uma conjuntura cultural socialmente estabelecida.

A teologia da prosperidade não difere da lógica competitiva do mercado, não é um alienígena dentro da lógica capitalista e nem filha ilegítima da Ética protestante e do espírito do capitalismo. Ela é na verdade irmã dileta via religião da produção de uma ideologia de cidade, cotidiano, cultura, sexo, laços familiares e comunitários que permeia toda a ação do capitalismo nos anos 1990/2000.

A teologia da prosperidade é irmã da construção das cidades-mercadoria ou do desenvolvimentismo consumista. Não à toa as forças políticas organizadas em torno destas manifestações da hegemonia ideológico neoliberal são também aliadas políticas em suas organizações partidárias.

Enquanto isso se estabelecia a esquerda conduzia-se em um paulatino abandono de suas bandeiras originais e fragmentações, com tudo isso escondido na expansão do PT rumo à ordem e à opção preferencial pelo eleitoral, trazendo também a cooptação dos movimentos sociais independentes que se viram reféns desta lógica e ainda se mantém.

O que hoje se estabelece de convergência entre a esquerdas petista (e parte do PSOL e REDE) e o conservadorismo no âmbito visível do eleitoral é também fruto de uma ampla convergência social e de um quadro onde a lógica conservadora se estabelece como regra, consolida-se como hegemônica no mais cruel quadro de hegemonia ideológica e da derrota da esquerda pós-1989, como se fosse o rubicão das forças libertárias.

Feliciano e Malafaia são o exemplo acabado deste processo, são a ponta do iceberg de um processo histórico mais amplo que suas denominações religiosas e são também exemplos máximos de um conservadorismo que se não fosse religioso seria sindical, partidário. São figuras que se consolidam como liderança não por serem diferentes, mas por serem iguais. Se consolidam como lideranças não por serem pastores, mas por refletirem o conservadorismo de sua base. E não cabe a eles transformarem esta base, cabe a nós.

Para dialogar com esta base precisamos entendê-la e também entender que diálogo não significa concessão.

Para combater uma hegemonia ideológica o pior caminho é reforçar sua resistência via reprodução com sinal trocado de preconceitos. Transformar a fé em uma manifestação de estupidez para combater o conservadorismo dos atores é ignorar o alvo, o conservadorismo, pelo preconceito que se tem contra a fé.

A construção da reação à hegemonia conservadora precisa deixar de ser teoricamente conservadora e limitada à arabescos produzidos em cima de dados mal lidos e de senso comum remasterizado. Só assim vamos além do ódio, e agiremos taticamente para retomar uma hegemonia perdida nos anos 1960.

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