Não é o sol de verão que vai curar este mau tempo

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O primeiro colocado nas pesquisas de opinião a respeito das eleições presidenciais está preso, o segundo colocado mantém há meses a mesma pontual percentual (Nem sobe, nem desce) e expõe fragilidades em público, se desdiz, ataca direitos das mulheres em um cenário onde elas cada vez mais serão quem faz a diferença e existem cerca de 40% de indecisos.

Há muitos aspectos a serem analisados que por vezes escorrem entre os dedos da imprensa em geral. Um deles é exatamente o que contém a primeira linha deste texto: Lula preso não apenas lidera como cresce nas pesquisas.

O fenômeno Lula ameaça as análises que incluem o debate a respeito de corrupção como mote para essa eleição, e explica muito do fracasso de Álvaro Dias em abordar-se hipocritamente como candidato da Lava-jato e “novo”. Dias tem uma longa carreira política indo e vindo de partidos, mas tendo participado do PSDB na maioria dela, tem sofrido denúncias no decorrer de sua vida pública, inclusive com participação declarada do doleiro Alberto Youssef no financiamento de suas campanhas em anos anteriores.

No fim dos anos 1990 ele foi denunciado por participação em um esquema de corrupção ligado à prefeitura de Maringá que desviou mais de 100 milhões, também omitiu dados a respeito de seu patrimônio há nove anos e foi citado em outra delação envolvendo Youssef na mesma época.

Inclusive há uma linha que liga o ídolo e candidato a ministro da justiça de um suposto governo Álvaro dias e Alberto Youssef: O escândalo Banestado.

Youssef foi julgado por Moro no processo relacionado ao escândalo, foi solto, voltou a ser preso em 2014 e foi novamente solto por Moro, mesmo tendo rompido o primeiro acordo de delação premiada feito em 20013 entre ele, MPF e o juiz. Em resumo, Moro soltou Youssef duas vezes, talvez pelo doleiro ter sido fundamental para condenar Dirceu e Palocci.

Dá pra entender o porque Dias, que se pretende novo com sua larga vida pública, ama o juiz, ele conseguiu, mesmo tendo delação que apontam suas campanhas, e mais que isso financiadas pelo doleiro, ficar livre.

Mas não desviemos do foco. A questão é que todo o discurso que envolve apontar a culpabilidade de Lula na mídia tem tido efeito contrário, o petista amplia seu crescimento eleitoral e mesmo não conseguindo transferir todos os votos que possui para o provável candidato do PT, Haddad, ainda consegue colocar Haddad como provável participante de um segundo turno.

Enquanto isso o candidato da homofobia, racismo, misoginia e da bancada da bala insiste em ir e vir em declarações estapafúrdias, se posicionar de forma grosseira contra Marina Silva, declarando que a única mulher candidata não sabe ser mulher, e tomando uma surra simbólica em rede nacional, sem crescer ou cair nas pesquisas.

A estagnação de Bolsonaro não ser notícia, com análises aprofundadas a respeito da relação entre isso, o crescimento de Lula e um pleito com boas chances de ser surpreendente a partir de seus 40% de indecisos a 45 dias de sua realização, é algo que chama bastante atenção.

A insistência em por Alckmin no segundo turno, a omissão em torno da estagnação de Bolsonaro e do fato da maioria dos indecisos ser mulher são dados quase tão importantes quanto as manifestações que empoderam o ex-Capitão.

Em primeiro lugar porque demonstram que há não uma facilidade, mas um problema para a direita (aka centro) e extrema direita estabelecerem uma garantia de participação no segundo turno. Em segundo lugar porque expõe que esse campo tem problemas sérios para consolidar uma hegemonia de significação de suas narrativas nos corações e mentes da população.

Aliás, se olharmos com calma, somando as intenções de voto do (mal) dito “campo progressista” (aka os não completamente reacionários) e compará-los com os neoliberais do ritmo fica feião pra direita e extrema-direita.

Bolsonaro, Alckmin, Dias, Amoedo, Meirelles, Eymael tem juntos 29% contra 49% de Lula, Marina, Ciro e Boulos.

Sem Lula, e sem a indicação nas pesquisas de Haddad como candidato do Lula (ele só aparece como candidato do PT), o negócio muda, mas, mesmo assim, com empate técnico na margem de erro: a direita venceria por 33% a 26%. E ainda tem 40% de indecisos.

Bolsonaro tem 37% de rejeição, Lula 30%, Alckmin 25%, Marina e Ciro são rejeitados apenas por 21%, segundo o Ibope. Fernando Haddad, tem 16% de rejeição na pesquisa. Henrique Meirelles 13%. Dias e Eymael, têm 11%. Ou seja, num provável segundo turno a eleição teria contra Bolsonaro um contingente expressivo que se negaria a votar nele.

Haddad ainda herda cerca de 17% dos votos de Lula, seguido por Marina e Ciro conforme a pesquisa CNT/MDA.

Ou seja, o quadro aterrador é a existência de cerca de 20% de eleitores dispostos a empoderar um discurso racista, xenófobo, misógino e homofóbico, mas nada aponta para a hegemonia deste pensamento, pelo contrário, os representantes de um discurso que se organiza em torno da proteção ao trabalhador, ao desenvolvimentismo (Muitas vezes dividido entre ecocida e sustentável), do respeito aos direitos humanos, das mulheres e LGBT são maioria entre os eleitores, ao menos de acordo coma s intenções de voto.

A hegemonia do discurso conservador é mais presente em sua representação midiática do que na construção de um bloco hegemônico.

Óbvio que com cerca de 20% do eleitorado isso pode mudar, mas hoje a resistência das ditas minorias explicam mais o crescimento de Bolsonaro como reação a uma derrota conjuntural do que como hegemonia.

O cenário inclusive reflete que um crepúsculo do macho ensaiado por um jovem Gabeira hoje tende a se tornar mais do que um fato, mas um evento onde vedetes desfilam na cara da sociedade desafiando o brucutu enraivecido.

A própria ideia da masculinidade frágil refletida nas reações da família Bolsonaro à resposta dada por Marina Silva ao pai no debate da Rede TV é um eloquente sintoma de que Jair não tem uma ideia muito clara do que é ser mulher e não é acostumado ao cotidiano, sendo a cada dia para as mulheres um exemplo a não ser seguido.

Não à toa é quem tem a rejeição crescendo a cada dia segundo a pesquisa XP/Ipespe.

Será que não é melhor já ir se acostumando?

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Candidaturas de construção e o tempo do açodamento.

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Não sei se Bolsonaro será eleito, se o segundo turno será entre PT e PSDB, se a direita organizada permanecerá unida em torno do projeto de Temer, o qual Bolsonaro compartilha, ou se Ciro Gomes e Marina permanecerão coadjuvantes incensados da peleja ou Boulos permanecerá na rabeira da disputa.

Não sei e não sabemos porque os fatos teimam em não se construir como tais à revelia de sua própria vontade dos atores e das relações de força no teatro de operações do cotidiano.

O que temos até agora é um cenário imobilizado sob controle das decisões de e sobre Lula, onde, apesar do histrionismo do próprio e de sua claque, Bolsonaro insiste em permanecer do mesmo tamanho oscilando dentro da margem de erro; Ciro e Marina tentam insistir em mais um pleito que são o novo ou a única saída para derrotar um candidato que não sobe nem sai de cima; Alckmin manobra para ser o grande ator da direita e Boulos atua à espera de herdar de Lula um pedaço do potencial transferível de votos do ex-sapo barbudo.

Este cenário impõe algumas conclusões mais ou menos profundas sobre a eleição que podemos apreender das pesquisas:

  • Dos primeiros colocados quem tem a menor rejeição é o primeiro colocado, que está preso, e todos tem rejeição de cinquenta por cento pra cima.

  • O primeiro colocado é o único que cresce na pesquisa, e está preso.

  • Alckmin oscilou pra cima dentro da margem de erro, Bolsonaro não sobe nem sai de cima.

  • Ciro e Marina, com todo o esforço de tentarem se pintar como boia salva-vidas contra Bolsonaro, patinam a olhos vistos. Mesmo apelando ambos por um voto útil ainda no primeiro turno, não conseguem descolar o pelotão de trás, nem ameaçar qualquer setor mais ou menos moderado de perder votos para eles e ainda derretem, enquanto começam a ser ameaçados por Álvaro Dias.

  • Manuela ocupa um lugar de possível herdeira de Lula, mas também como potencial vice de uma chapa do PT, ampliando o papel do PCdoB numa aliança eterna com o lulopetismo e talvez auxiliando o partido e crescer em número de deputados. O problema é que ainda não emplacou, nem internamente, como candidata, é ainda uma candidata a vice, que fica cada vez mais próxima de ser a escudeira de Haddad ou de outro candidato que o PT emplaque como herdeiro da transferência de votos de lula, que o colocariam já à frente de Bolsonaro.

  • Boulos, o candidato da esquerda que mais se descola de Lula e do PT, embora apontado por Lula como seu herdeiro e abraçado por alas do PT, como a de Tarso e Luiziane Lins, como candidato em caso da cada vez mais provável ausência de Lula do pleito, permanece no mesmo patamar inicial histórico do PSOL. Embora esteja construindo um caminho próprio que talvez amplie a margem percentual histórica do partido, nem sempre em acordo com o que, pelo menos, metade do partido pensa e capitaneando uma aliança que aponta para um partido que seria como um PSOL mais amplo.

  • Os demais candidatos são demarcatórios que serão absorvidos pelos campos. Os demais candidatos da direita todos cabem na aba do chapéu de Alckmin ou Bolsonaro.

Quem fará o segundo turno? Hoje seriam Bolsonaro e Ciro, mas nada garante que seriam eles ao fim do primeiro turno. Bolsonaro ainda não foi testado (bancada de jornalista não é debate), não tem tempo de TV e nem rua o suficiente para alavancar uma vitória.

Ciro tem, Alckmin tem, até Boulos tem mais TV e braços e pernas que ele. A vida não é filme nem rede social, eles não entenderam.

Diante disso qualquer discurso de decisão de voto em agosto, se não for puramente tolo, é oportunista.

Há muita água a correr por baixo da ponte, já diria minha avó.

O que é fundamental observar é a conjunção entre força político-partidária, rejeição, potencial eleitoral, potencial de alinhamento político no médio prazo, etc.

Ao fim e ao cabo o que se aponta é que o status quo se organizará novamente no em torno de PT e PSDB.

E com eles as maiores máquinas político-partidárias se confrontarão em um cenário pouco afeito a equilíbrios e reorganizações da Nova República.

Em resumo: quem quer que se eleja, se elegerá em um quadro de profunda instabilidade, inclusive econômica, e não terá nada conjunturalmente a seu favor.

Uma vitória do PT manterá o clima pós-2014 em voga e uma perseguição jurídica e política fortíssimas.

Uma vitória do PSDB tirará o PT provavelmente da acomodação em torno de uma vitória de lula e fará uma luta constante nas ruas, idem se Bolsonaro por um milagre vencer.

Quaisquer acordos estarão sob escrutínio da mídia, da população, etc, ninguém terá paz e calma.

2018 indica que não terá fim, como 2014.

E ai fica a questão do motivo deste texto: que candidaturas apontam para um caminho perceptível de novidade concreta para os próximos anos?

O açodamento falará que apenas Bolsonaro aponta para isso, porque o açodamento adora intenção de voto, mas há mais.

Boulos e Bolsonaro são as duas candidaturas que estabelecem caminhos extra para a organização do sistema republicano brasileiro atual.

Ao contrário da previsão de cientistas políticos que buscavam formatar o país a seus modelos, ela não se revelou concreta e o Brasil não caminhou para um bipartidarismo, mas para quatro campos de organização político-social divididos entre direita e esquerda, apesar de Marina e da REDE acharem que sobrevoam ambas.

PT e PSDB são espectros moderados da esquerda e direita.

Bolsonaro e PSOL/Vamos são espectros mais radicalizados, embora ambos ainda não sejam os espectros mais radicalizados possíveis de seus campos ideológicos, e ambos apontam para novas formas de organização dentro de seus espectros ideológicos.

Bolsonaro tornou possível uma candidatura de extrema-direita competitiva e que une em torno de si a caserna mais reacionária, as forças policiais, e uma ideologia de violência e extermínio que sempre foi popular nas mais variadas camadas populacionais, mas nunca teve um marco simbólico para concentrar suas forças.

Boulos e o PSOL/Vamos tornam possível uma concentração de militância organizada pela esquerda que nunca foi possível em anos de PSOL e que aponta para uma superação do PT e do PSOL clássico, com a atração de partes do PSTU, PCB e organizações políticas de esquerda não organizadas institucionalmente ainda.

Elementos passíveis de serem analisados sobre ambas as candidaturas é o que se organiza em torno delas.

Bolsonaro organiza em torno de si os militares e os conservadores amantes da ditadura produzindo pela primeira vez um projeto tático para a conquista do planalto, assim como a ocupação do legislativo por defensores de suas políticas, que ainda são difusas.

Boulos e o PSOL/Vamos se constroem do lado inverso, são receptáculo de lutas de representação em torno de candidaturas negras, de mulheres, de pessoas trans, LGBTQ+, de socialistas, de defensores dos direitos humanos, de policias antifascistas, ecossocialistas e outras vertentes da esquerda e das lutas identitárias. São os representantes clássicos da luta pelo parlamento de campos diferentes.

Enquanto isso, PT e PSDB disputam o planalto se criando com opositores em tudo ambos se organizam no espaço da moderação e da conciliação, muitas vezes caminhando junto, inclusive no número de processos judicias contra seus dirigentes, embora apenas um deles seja realmente julgado e condenado pela justiça. Sua oposição se dá no campo simbólico das relações pertinentes do estado.

A diferença ideológica é pontual, a política um pouco menos e mais organizada enquanto percepção história da participação popular no governo e do atendimento a suas demandas, mas isso não fez do PT um garantidor formal dos direitos humanos e do povo de forma sustentada, tanto que bastaram dois anos de governo conservador governando com o projeto do PSDB que degringolaram todos os índices.

Já no caso do PSOL/Vamos e de Bolsonaro/PSL a divergência é presente e futura e se organizam entre a ação e a reação do processo de conquista para as lutas identitárias e de patamares de organização das lutas populares, feministas, LGBTQ+ e de negros e negras e a reação conservadora a cada ascenso de lutas destes campos.

Ambos inclusive se organizam para horror das tradicionais esquerda e direita representadas por PT e PSDB.

Várias questões levantadas por Bolsonaro são praticadas e defendidas por Alckmin, assim como Lula e Haddad concordam com vários pontos defendidos por Boulos/PSOL/Vamos, mas ambos fazem cara de nojo quando apesar de seus esforços são tratados como adversários pelos seus companheiros de campo político maior.

O PT não faz discursos contra as lutas identitárias à toa ou enxerga no PSOL um partido com “nojinho de meter a mão no que importa na política” e o PSDB não xinga Bolsonaro de troglodita, embora defenda praticamente as mesmas políticas do PSDB, à toa.

PSOL/Vamos e Bolsonaro/PSL são candidaturas que se formaram e se construíram, e ainda se constroem, para erodir os campos estabilizados da Nova República.

E não se constroem daqui para frente, ambos são construídos por anos a fio, desde o início dos anos 2000, pelo menos.

Bolsonaro é fiel herdeiro das ideias de Olavo de Carvalho e Rodrigo Constantino e sua luta contra o “Foro de São Paulo” que se fizeram presentes desde que lula assumiu o poder em 2003. Foi filmado e conquistou espaços cada vez maiores durante todo esse tempo por ser um clown sacaneável pela mídia liberal, mas enquanto isso estabelecia em torno de si uma unidade do campo conservador de extrema-direita que se fez pensar como algo mais orgânico assim que 2013 rompeu o dique do pacto pela paz da Nova República.

A diferença entre o PSL e Bolsonaro e o PSOL/Vamos/Boulos é que o estágio de organização e organicidade de ambos destoam.

Enquanto o PSOL/Vamos/Boulos se organizam desde 2004, sendo PSOL sozinho, mesmo contando com o apoio de parte do Vamos/Boulos durante a maior parte desse tempo, Bolsonaro/PSL se construíram somente nos últimos cinco anos como alternativa orgânica da extrema-direita.

O PSOL tentou durante sua história romper o dique do lulismo com Heloísa Helena, Plínio de Arruda Sampaio e Luciana Genro, e com Boulos acrescentou à busca uma aliança com movimentos sociais e movimentos políticos mais amplos que o PSOL, é o próximo passo na direção de um campo da esquerda para além do PT.

Enquanto conseguia crescer enquanto presença no parlamento e força organizada em algumas capitais como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, tinha dificuldades de ser uma alternativa viável para o Planalto.

As forças que se organizam em torno de Bolsonaro sempre existiram, mas pulverizadas em vários outros partidos maiores ou menores, hoje elas buscam se constituir, ainda divididas em outros partidos, mas numa força suprapartidária que contemple uma organização dos partidários das ideias ultraconservadoras no congresso.

Estão um passo atrás na organicidade do PSOL/Vamos e no que isso indica de caminho, mas um passo à frente no que significa a relação entre as forças ideológicas e sua convergência para um projeto.

O projeto do PSOL/Vamos não é unânime e não necessariamente se traduzirá em um partido apenas, embora tenda para isso.

Já Bolsonaro/PSL encaminha uma organicidade cada vez maior e possivelmente estruturada numa fusão partidária que crie um partido de extrema-direita no Brasil. Essa organicidade pode inclusive sacrificar Bolsonaro em nome do projeto diante da possibilidade de surgimento de um líder carismático mais competente para as eleições futuras.

Não é inteligente a comparação com Trump, que seria um Alckmin radicalizado, mas com Le Pen é possível (Inclusive é mais lógica diante da extrema força do legado francês na constituição de nossa institucionalidade).

Já o PSOL/Vamos tem mais elementos do exemplo francês da França Insubmissa, embora tenha inspiração no PODEMOS Espanhol e elementos da tomada do Labour Party pelos apoiadores de Jeremy Corbin, e no caso em específico brasileiro caminhe por uma estrada aberta pelas vacilações e quedas do PT na gestão de suas contradições.

Embora a força do PT ainda seja inegável, a manutenção de Lula preso aponta para um desmoronamento da unidade em torno dele e do partido, inclusive já presente na presença de apoios de parte do PT à candidatura Boulos, mesmo que estes apoios não sejam explícitos durante a campanha.

Esse apontamento não é um desejo, mas uma observação e um espaço que indica uma novidade no campo da esquerda, assim como Bolsonaro acaba sendo uma novidade no campo da direita.

O resultado disso é um possível realinhamento dos campos nas disputas políticas futuras em um quadro de instabilidade.

E essa instabilidade reforça as tendências à presença da radicalidade, ampliando dissenções para serem absorvidas pelos campos citados.

No médio prazo as candidaturas de Boulos e Bolsonaro são formações de campos que futuramente dividirão os embates com PT e PSDB e esse futuro é cada vez mais próximo.

Por isso o açodamento de explicitar quadros para o segundo turno como se fossem o fim do mundo, ou que a construção de uma frente fascista no país seja uma unidade nova do processo histórico, acaba sendo um equívoco analítico.

O voto é livre, mas dizer que um voto declarado hoje em um candidato é a única solução possível é “esquecer” tantas outras, e também é não enxergar muitas outras coisas.

E mesmo o resultado de outubro não garantem processos históricos determinados em uma instabilidade cada vez mais gritante e um movimento tectônico dos terrenos políticos que representam hoje talvez uma implosão só vista na proclamação da república.

É preciso sermos mais atentos, mesmo a história não sendo um bonde.

Porque hoje os campos que digladiam não são PT x PSDB.

Há muitos lados do nosso lado

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Desde 2013 pipocam análises de conjuntura com muitos aspectos e faces a cada minuto, reivindicações de atavismos ideológicos, portentosas frases, slogans, vontades.

O terremoto de 2013 foi qualificado como novar abertura revolucionária e/ou pro avanço da direita, resultado de um caos completo que precisa ser contido, organização da CIA pra dar o golpe no Brasil, queda da Nova República e até praga de mãe (Fica-se até agora tentando saber que mãe em específico e de quem).

A questão é que, como todo processo complexo, o que ocorreu em junho de 2013 tem efeitos até hoje sob muitas faces, que corrobora algumas questões, desmente outras e sabiamente se distancia das mais delirantes.

Sim, 2013 derrubou a Nova República, ampliou as faces da esquerda perceptíveis ao grande público, também teve este efeito para com a direita, enfraqueceu o PT, permitiu o crescimento da extrema-direita e também deu voz a movimentos contestatórios de esquerda, e liberais, que causaram uma nova pressão sobre o status quo, os movimentos identitários.

Se a Cia teve algo a ver comisso eu não sei, mas desconfio que se teve foi por acidente, inclusive dado aos trabalhos trapalhões da CIA desde o Irã Contras. A CIA inclusive só é os EUA que deram certo se a CBF for o Brasil que deu certo.

Mas voltemos ao enredo que alimenta o texto: 2013 não significou um evento escatológico que promoveu o fim do mundo conhecido, foi, como muitos dias no decorrer da história, um ano onde explodiram as tampas das panelas de pressão da sociedade brasileira. Já ocorreu antes, 1968 por exemplo.

E o resultado foi até bastante similar, embora nunca se saiba até quando estamos enxergando alguma repetição da história ou desejando que o que enxergamos de similaridades seja realmente algo além de nosso delírio.

2013, 1979, 1968 foram anos interessantes no mundo e no Brasil, mas forma anos onde ficaram claros processos em andamento no interior das sociedades, não são, os anos, os responsáveis pela eclosão das impaciências, menos ainda contém neles a explicação pros fenômenos. Também é pouco provável que a partir da observação dos processos se enxerguem formas de criar uma régua de análise, uma regra histórica, uma lei que explique porque as coisas acontecem.

É sempre mais sábio tentar entender cada fenômeno e contexto como único e inseparável de suas condições.

Esse enorme nariz de cera não é apenas um nariz de cera, mas um preâmbulo para entendermos que 2013 ainda vive em 2018, seja pelas eleições e pelos campos divididos e, ao mesmo tempo, unitários em disputa nelas; seja pela prisão dos 23 ativistas que protestavam contra a magia dos transportes e contra a sobras da copa e suas remoções; seja pela prisão de Lula, algoz e vítima do processo que prendeu os 23.

Porque estes elementos citados contém as divisões que escaparam da panela de pressão da sociedade em 2013, tem também os processos desencadeados por 2013, entre eles os processos legais, e também a percepção pelo status quo de um meio legal de trancafiar oposições com apoio da mídia e de parte da sociedade.

O quadro de 2013 expresso nas eleições está desde em Bolsonaro, representando a extrema-direita que viu no caos primordial das ruas uma chande de ter voz; PT, PDT, PSB, MDB e PSDB representando o status quo, assim como os aliados de todos; PSOL e PCB representando a esquerda institucional não automaticamente alinhada ao PT e que fez parte dos protestos de rua e da face oficial da esquerda que protestava, inclusive lucrando com isso eleitoralmente e politicamente com o acréscimo de filiados e de percepções naquele momento e até hoje, de serem partidos da esquerda rebelde e, finalmente, os votos nulos, que representam os elementos não identificáveis de rebelião, inclusive a esquerda radical não organizada em partidos e que foi a principal atingida pelo tsunami criminalizador de 2013 pra cá.

Os 23 presos pelo juiz Itabaiana são parte do último movimento e é sintomático que de todos os partidos citados apenas PSOL e PCB tenham tido algum movimento em solidariedade aos ativistas processados e condenados (Mesmo nem todo o PSOL se manifestando).

É sintomático também que, mesmo com a solidariedade, ainda exita uma distância entre esta e a análise que contempla as proximidades entre o processo dos 23 e a prisão de Lula por Sérgio Moro.

No quadro que enxergamos, a divisão da direita e esquerda, com um centro anódino quase perfeitamente representado pela não representatividade visível de uma Marina Silva, diz muito sobre a implosão da Nova República e as novas acomodações ideológicas sem que nenhum dos atores permaneça intacto.

PT e PSDB viram erodir seus papéis de representantes eleitorais da esquerda e da direita moderada. Lula se sobrepõe a esta erosão do PT, porque ele é maior que o partido, embora já tenha sido tão grande quanto, mas o que ocorreu com ambos é nítido, ambos precisam se esforçar para, enquanto partidos, serem mais do que siglas derretidas pela erosão de representatividade pós-2013.

MDB, PSB, PDT são apenas pálidos representantes de campos não muito firmes de cada espectro, fingindo que ainda são o que forma nos anos 1990. O MDB nem na fisiologia se mantém como exemplo mor.

Bolsonaro e o campo disperso em legendas que representa é um símbolo transitório do crescimento perigoso de uma extrema-direita que não tem vergonha de sua vil existência, de seu ódio abjeto, de seu humor tóxico e que tem ecos em estrelas do esporte, música e de uma política cada vez medida pela vontade da destruição do outro. Ele em si é um entrave para este campo, mas um entrave que com suas deficiências fez o teto ampliar, mesmo que caia posteriormente. Indica que com outra figura de proa vá mais longe.

Inclusive, Bolsonaro pode ser um elemento que indique que disperso em vários partidos e com um programa inepto e severamente organizado pelo otimismo da vontade, com uma estratégia titubeante, não há como sobreviver no mar da política brasileira.

Não deveríamos ficar surpresos se o conjunto de atores que envolve Bolsonaro e suas ideias se organizasse melhor para as próximas eleições, talvez se unindo em um partido, inclusive para sobreviver ao day after após as eleições, o que Crivella, por exemplo, está aprendendo amargamente que é preciso e necessário.

Inclusive há recuos forçados que Marchezan, Paula Mascarenhas, Crivella e MBL podem ensinar ao campo de Bolsonaro como meio da extrema-direita se organizar melhor para os próximos pleitos. A crise não transforma leões feridos em gatinhos. E acredito que em algum momento este campo perceberá que, para enfrentar uma estrutura velhusca e velhaca que se transforma lentamente é preciso mais que fanfarra.

O Brasil não é os EUA, assim como Trump não foi Bolsonaro, estando mais próximo de ser um Alckmin com carisma.

A esquerda aprisionada e esvaziada dos movimentos sociais autônomos, da FIP, do MPL, etc, sofreu o mais duro golpe. Lula não foi demolido, as eleições provam, mas os campos independentes, perseguidos pelo status quo e por frações dos partidos de esquerda organizados, sofrem para se manterem vivos, e livres.

Sua derrota levou a derrotas de toda a esquerda, inclusive mantendo-a afastada de seu terreno fértil, as ruas, coisa que nunca retomou por inteiro, se tornando prisioneira do medo da polícia, do gás, da bala de borracha e da repressão que foi de certa forma cúmplice por omissão a partir de 2013.

Por outro lado o que estes movimentos causaram foi também uma revisão por parte da esquerda partidária de seus processos e faces, fez novamente popular uma série de teorias e literaturas políticas que não erma populares antes.

Dos anarquistas Bakunin, Kropotikin, Malatesta, Bob Black e Bookchin aos teóricos ecossocialistas como Lowy, Tanuro e Foster, passando por uma ampliação da voz de Zizek (a quem particularmente só reconheço a habilidade de tornar pop um substalinismo furtado de Lukács), de debate sobre conceitos como bem viver, Pachamama, de teóricos ativistas como Ângela Davies e Frantz Fanon, Judith Butler, etc, todos tiveram seus nomes e textos ampliados.

Os movimentos de ocupação de escolas, de prédios públicos, a própria auto-organização de movimentos estudantis e sociais ganharam um fôlego que não teve um eco maior enquanto ocupação de ruas nos moldes de passeatas e outros atos que eram mais comuns à esquerda tradicional.

Esses efeitos são tão claros quanto os da extrema-direita, e talvez até sejam “causadores’ da reação da extrema-direita, mas são menos fanfarrões e tem menos eco, e reconhecimento, por parte da esquerda que produz mais eco em seus canais de compartilhamento de informações.

Há também os efeitos de 2013 na própria organização dos partidos da “extrema” esquerda, ou da oposição de esquerda dentro da ordem, e esse eco se organiza muito claramente em torno da chapa majoritária do PSOL para as eleições de 2018.

Seria inacreditável prever em 2012 que a chapa do PSOL em 2018 teria a primeira indígena que disputa uma campanha majoritária nacional como Sônia Guajajara como copresidenta junto de Guilherme Boulos, líder do movimento dos sem teto.

Menos ainda é previsível que cinco anos depois da Primavera Carioca o partido de Marcelo Freixo tivesse fazendo parte de uma organização de uma aliança entre o movimento Vamos, o MTST, o PCB e a APIB com a cabeça de chapa refletindo essa aliança, em vez de um nome puro-sangue, original do PSOL.

Isso não transforma a candidatura Boulos – Sônia em uma candidatura que não é do PSOL, mas indica processos mais amplos de redesenho da própria organicidade da esquerda partidária no pós-2018 e isso também reflete os processos desencadeados em 2013 e por 2013.

O PSOL hoje tem em sua chapa um movimento de redesenho claro: a esquerda não petista se reorganiza em uma unidade, tão proclamada anteriormente e nunca executada e que pode ou não representar um novo caminho para a esquerda partidária.

Que caminho é esse? É preciso caminhá-lo para saber, independente do resultado eleitoral em si da chapa.

As possibilidades da aliança ser um PSOL mais encorpado ou gerar um outro partido, ou gerar dois partidos, a manutenção do PSOL e um outro grupamento são todas elas movimentos de abalo, não necessariamente ruim, nas estruturas da esquerda partidária não o petista.

Os potenciais negativos e positivos das mudanças são muitos, mas desenham uma oxigenação, forçada ou natural, do quadro de produção ideológica e programática da esquerda partidária, ampliando dureza e flexibilidades na mesma forma e desenho.

Não entram aqui os desenhos, embates e debates apreendidos no interior do PSOL, mas a análise do processo enquanto elemento representado pela junção APIB – MTST – PCB – PSOL e suas potencialidades possíveis.

Esse movimento abre espaços tanto quanto bagunça a naturalidades dos comportamentos internos a cada elemento da aliança.

Há equívocos, óbvios inclusive, e acertos enormes em todo o movimento, inclusive os acertos não perceptíveis ou intencionais como a obrigação do repensar de cada elemento existente no interior de cada grupamento de suas posições com relação ao que fazer diante dos novos desafios.

E os desafios são enormes, mas contém o germe da mudança.

As mudanças são precisas e necessárias em todos os campos políticos.

Pela esquerda, anarquistas e autonomistas precisaram se repensar, a esquerda partidária tentou se repensar de forma conservadora, o movimento acima obriga, inclusive através dos atritos, a um repensar mais abrangente.

Novos conflitos exigem novas abordagens e novos avanços.

O próprio programa da chapa majoritária reflete as lutas internas e as contribuições polifônicas para a transformação do país, com todo o otimismo da vontade e o pessimismo da razão contido nas análises políticas é impossível não perceber, mesmo por quem perde no debate, algum avanço político perceptível no longo prazo.

Há novos muros se erguendo que nos assusta e impede uma percepção maior, mas em todo muro há brechas, e por estas brechas, com a escala de análise correta, pode-se perceber que há muitos lados de nosso lado.

E essa diversidade pode ser nossa salvação.

O rompimento civilizatório e o limbo das novas histórias.

Selectionshot_2018-06-26_21:02:14

D. Moor, “VOCÊ se alistou como voluntário?”, cartaz de recrutamento do Exército Vermelho, Rússia, 1920. (in Medo, reverência e terror, GINZBURG,Carlos,  2014, p.73)

Houve um momento na década de 1990 em que o PSDB, o PPS e o PSB eram civilizatórios, eram uma nova política que mudaria nossas organizações, estado e o planisfério, mesmo em oposição à esquerda e ao PT, sendo que o PPS era, àquela época, um partido à esquerda do local que o PT ocupa hoje.

A disputa ali era com algo reconhecível enquanto republicano.

Havia, no entanto, a disputa pelo poder do Estado e não escapava a ninguém que o PT chegou muito perto em 1989 de ocupar o planalto, sendo derrotado no último momento por um esforço hercúleo da direita, da mídia, do inferno trajando luto para que Lula não levasse a cabo a conquista do governo.

Collor foi o peão utilizado pelo sistema, um peão que achou que lá chegando, mesmo sem projeto de estado, alianças prévias firmes e estrutura partidária e organizacional pra fazer frente aos desafios de ser o representante da elite no governo central.

O peão se achou bispo, e esqueceu que era um representante de algo maior que ele, algo que ele sempre presenciou de esgueio, sem a profundidade inerente dos grandes atores no teatro político.

Se esqueceu e caiu.

E caiu deixando uma granada sem pino que foi o ascenso de lutas ser mantido mais tempo do que se esperava pós fim da ditadura, caiu com o povo na rua achando-se pleno de força para retirar todos os que dali pra frente viessem.

Foi necessário um novo arranjo que contemplasse os acordos previstos pela Nova República, que inclusive sentar em cima de qualquer tentativa de investigação dos crimes da ditadura, inclusive os de corrupção, e que estruturasse um Estado digno do nome, organizado em torno de uma democracia cada vez mais aprofundada, mais direta, mais “civilizada” no sentido do senso comum para o que veio a partir da eleição de Fernando Henrique Cardoso.

Fernando Henrique foi, a partir do momento em que o PSDB ocupou o lugar que seria do PT no governo Itamar Franco, o anti-Lula.

E como anti-Lula se organizou como poder que se pretendia hegemônico por “vinte anos”, nas palavras de Sérgio Motta, e essa organização passou por uma influência direta na própria organização da direita e centro-direita em torno dele, que estruturava uma direita “moderna” que renovava o PFL, hoje DEM, com Gustavo Krause e que forçaria a passagem de guarda de Antônio Carlos Magalhães pro filho Luiz Eduardo Magalhães, representantes de uma oligarquia “nova”, afeita a uma república “contemporânea” e “saudável”.

Tasso Jereissati era um exemplo dessa “modernização”, o empresário “consciente” que trazia consigo os ventos do “novo”.

Enquanto isso o próprio PT fazia seu caminho pra se tornar mais “republicano” e menos “socialista”, adotava alianças com partidos anteriores tomados por burgueses, isolava sua esquerda, ampliava seu arco programático excluindo pontos nevrálgicos do programa originário de uma esquerda combativa, se tornava palatável, isolando os “xiitas”.

Enquanto isso o PSB e o PPS ocupavam lugares entre os dois partidos cada vez mais gigantes e as disputa de ambos pelo e com o PMDB, que junto como PDS (hoje PP) e PTB representavam partidos “antigos’ que tinham entre seus membros o coronelismo eu atraso que restava aos dois lados da ditadura, o MDB e a ARENA.

PSB com o PT, e com o PCdoB, e o PPS cada vez mais longe do PT e alinhado com o PSDB, se organizavam como forças que compunham dois campos em disputa pela hegemonia da política brasileira.

O PSB depois, e até hoje, buscou luz própria a partir dos ganhos conquistados pela proximidade com o PT e ainda tem entre seus membros lutadores próximos à esquerda, ou um resquício de esquerda, mas foi posteriormente tomado pelas alianças com o PSDB quando se achou grande o suficiente para entrar no jogo como passível de ganhá-lo.

PMDB, PP, PTB e as legendas que brotam e somem e voltam a aparecer em torno destes forma se tornando um amálgama de aproximação da direita com o poder e elementos cruciais para que os governos e mantivessem vivos, já na constituição de 1988 eram o “centrão”, termo que retorna hoje para definir algo que é diferente, mas similar ao que era o arranjo destes grupos.

A nova direita, o novo centro e a nova esquerda se estruturavam em torno de PT e PSDB, polarizando daquela época até hoje a luta política brasileira, transformando partidos, grupos sociais, movimentos, etc.

A cooptação que o PT fez com partidos minoritários da esquerda movimentos, etc o PSDB fez com grupos empresariais, intelectuais e partidos da direita.

O PSDB, para se tornar palatável, e financiável, para o capital foi se movendo cada vez mais para uma consciência política de direita, de capitaneamento do estado para a produção de um espaço de lucratividade infinita pro empresariado e para o esvaziamento de sentido de seu programa original em todos os aspectos, que seria o de uma construção de um welfare state e de uma gestão liberal social do estado Brasileiro.

Os tucanos achavam que modernizariam o DEM, mas foi o DEM que envelheceu o PSDB.

O PT em movimento similar, mas por outro aspecto foi se tornando cada vez mais social liberal, cada vez menos socialista, cada vez menos rompedor e mais conciliador. Perdeu o PSB, que tem luz própria, e o PPS, que virou satélite do PPS, junto com PV e outros menos cotados, mas ganhou o Estado, e com ele o MDB.

Essa dança no balé da política produziu conjunturas que transformavam ambos os atores em figuras irreconhecíveis diante do que eram nos anos 1990. As próprias figuras de FHC e Lula hoje são reflexos pálidos do que foram antes. Já foram até mais habilidosos politicamente.

PT e PSDB se transformaram em pares do PMDB dos anos 1990 por longos anos em que governaram, foram a cabeça de ponte do pacto social da nova República e hoje naufragam junto dela e do MDB, que ironicamente hoje repete o papel que tinha em 1989 como representante do atraso fisiológico que contamina o estado.

É difícil hoje enxergar a fundo qualquer dinâmica garantista da democracia e da república nos dois partidos.

Ambos são parte do problema e não da solução.

As estruturas sociais não avançaram durante os anos de seus governos, tendo sido maquiadas para manterem um pacto de não agressão entre os diversos atores de um teatro trágico.

Os microavanços no âmbito dos direitos humanos, suporte social aos mais pobres, saúde, etc, garantidos pela constituição de 1988 não resistiram ao primeiro vento mais forte quando nenhum dos dois partidos esteve no poder.

A própria constituição, rasgada por ambos quando desejavam, se tornou um palco de disputa, um tanto quanto hipócrita, entre o PSDB, que quer destruí-la, e o PT, que diz defendê-la, mas ajudou a rasgá-la quando foi de seu interesse.

E o pacto quando ruiu revelou de novo a chaga de uma ditadura cujos crimes não foram confrontados em nome de uma paz de Versalhes, que indica que irromperia em guerra aberta assim que o pacto fosse minimamente abalado.

Bolsonaro não é Collor, está longe disso, pode até ser apoiado pela elite para derrotar seus adversários, mas não é Collor,é pior que isso e inclusive não é, hoje, a principal aposta da elite governante nestes dias em que há um limbo e uma incerteza sobre as apostas futuras sobre um novo governo.

Bolsonaro é uma fatia do continente esquecido de Pangeia da política nacional e sequer é a maior parte.

Os aplausos de parte da CNI em encontro recente ao ogro mor da extrema-direita são preocupantes mais a respeito do nível da estupidez do empresariado brasileiro, do que sobre eles apostarem nele.

Os aplausos disseram mais que Ciro não é uma opção do que outra coisa.

Marina não foi aplaudida, nem vaiada e eu observaria isso.

Bolsonaro é fraco entre as mulheres e no Nordeste, apenas esse dado deixa claro que ele tem severos problemas para convencer 50% do eleitorado, mas o mais importante é que Bolsonaro tem contra si o fato de que seu principal adversário está preso e ainda tem praticamente o dobro de sua intenção de voto, é enxergado pela população como o único capaz de recuperar a economia e, mesmo preso, é apontado pelo instituto IPSOS, como o menos rejeitado em pesquisa divulgada em Maio, tendo 52% de rejeição contra 60% de Bolsonaro.

Bolsonaro tem 19% em um quadro sem Lula, e tem apenas 40% do eleitorado pra tentar convencer e ser eleito.

Já Lula mesmo sem ser candidato transfere boa parte de seus votos para quem apoiar (Haddad passa de 2% para 12% nas pesquisas com o apoio de Lula, sem a mesma rejeição), e tem mais campo para avançar, especialmente contra Bolsonaro, dado que os 60% que rejeitam Bolsonaro provavelmente se dividirão, mas parte apoiará o candidato do PT contra seu principal adversário.

Mas o pacto que originou a partir da transformação de PT e PSDB em gladiadores de um circo romano que fez de ambos fantasmas feridos de um passado em decomposição não se altera nem se torna menos afeito aos dramas da infecção que assola um país em carne viva.

Bolsonaro é um sintoma, não é a doença.

A extrema-direita ter em Bolsonaro seu representante é apenas uma falha de projeto dela, ele ter crescido mesmo com suas amplas e visíveis falhas e deficiências é um golpe de sorte pra ele que não se mantém em pé por muito tempo quando confrontar o status quo e adversários que deixarão claro suas inabilidades.

Sua tática eleitoral é um desastre, sua pouca atenção ao jogo de poder e ao que revelarão sobre si e seus aliados é torpe, seu apoio à violência policial um erro estratégico, sua pouca inteligência ao lidar com as alianças que lhe daria mais tempo um desastre.

Isso tudo é óbvio inclusive pelo que os números revelam.

O problema pra extrema-direita não é Bolsonaro ter entre 15% e 19%, sem Lula, é ele só ter isso mesmo com todo ao avanço do discurso de ódio em redes sociais, de projetos como o Escola sem Partido, com vereadores e deputados boquirrotos achando tudo lindo em apoiar Ustra.

Ele não cai, mas também não cresce. Avançou o teto histórico de votos da extrema-direita no Brasil, que oscilou em torno dos 7% com Enéas Carneiro e chega hoje a algo entre 15% e 19%, ameaçando a afirmação de Michel Lowy que “um partido brasileiro que tentasse fazer do racismo seu programa principal nunca teria 25% dos votos como na França”.

Mas é inegável que Bolsonaro avança o teto e indica um caminho para outros atores mais palatáveis de uma extrema-direita que perdeu a vergonha de ser racista, além do sistema não ter vergonha nenhuma de, ainda segundo Lowy, ser quem “produz e reproduz fenômenos como o fascismo, o racismo, os golpes de Estado e as ditaduras militares”.

E isso aliado ao fator da quebra do pacto conciliatório da nova república obriga a uma nova lógica de disputa da institucionalidade e da luta política fora dela.

PT e PSDB não cresceram em 1989 por serem socialistas, sociais-democratas ou “modernos”, mas por ocuparem um espaço político aberto pela crise do regime pós fim da ditadura militar.

Quem, e como, ocupará esse lugar hoje?

Tentar refazer os passos de ambos para construir uma disputa entre liberalismo social e social liberalismo como tentam fazer a REDE e parte do PSOL não aponta para a ocupação dos novos espaços.

Não aponta há tempos, aliás, tanto que ainda hoje a luta política aia orbita em torno dos autores originais desta ópera.

A ideia de uma superação dos limites da esquerda não é algo não debatido no interior dos partidos e movimentos como o PSOL e o Vamos, e a Frente Povo sem medo, a questão é que resposta se dará aos desafios.

Há latifúndios políticos a serem ocupados, uma fome e sede de transformação palpável pela esquerda, e um desejo de transformação econômica, sem necessariamente conservadorismo comportamental por parte da direita e dos liberais.

E como estas fomes e sedes serão ocupados e transformados?

Slogans e plataformas não resolvem por si só problemas que exigem um olhar mais amplo, e até afetuoso e fraterno, das diferenças na e da esquerda, na e da política, para que se ergam novas formas de fazer políticas na concretude.

Até agora a reprodução de táticas anteriores do PT pela esquerda, e do PSDB pela direita liberal, apontam para que a doença que fede a fascismo apresente sintomas novos.

A História em tempos lacradores é solenemente ignorada

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Volta e meia nos deparamos nas redes sociais com textos sobre figuras representantes das minorias colocadas da seguinte forma: “conheça a história da figura x, solenemente ignorada pelos livros de história”.

Ai a gente, historiador mala, vai no Scielo e no Google Scholar e pesquisa pelo nome da figura x ou y e tem lá umas oitocentas pesquisas feitas a respeito da figura.

Tem livros também, na maior parte das vezes, ou teses e dissertações que poderiam estar publicadas e são públicas, mas que são (rá) solenemente ignoradas pelas pessoas, em geral jornalistas e formados em outras graduações, que, com acesso à pesquisa, optam pelo caminho mais fácil de demonizar a História em vez de divulgar o trabalho sobre minorias existente, e que cresce a olhos vistos a cada ano e época, na academia.

Mas pra não ficar pedante a gente busca também no Google puro e, batata, tá lá também oitocentos textos a respeito das figuras. O que demonstra o óbvio: Nenhum dos textos lacradores postos sobre figuras “solenemente ignoradas” brotou do ar nas mãos de Clio ou de uma árvore do conhecimento plantada na casa dos autores lacradores de redes sociais.

O conhecimento, pasmem, nasceu de pesquisa de outras pessoas.

Por que então em vez de meter um “solenemente ignoradas” não se divulgam as fontes acadêmicas ou não a respeito das figuras?

A resposta eu não sei. Nem acho legal deduzir, mas há elementos para serem debatidos.

Dizer que as figuras históricas indígenas, negras, mulheres e LGBTQ+ estão alijadas dos livros didáticos do ensino médio e fundamental é extremamente importante, mas ignorar sua presença na produção da história dizendo que são “solenemente ignorados” pela história é obliterar a produção historiográfica existente a respeito, é inclusive desestimular os estudos feitos por negros e negras, indígenas, mulheres de todas as etnias, trans e LGBTQ+ na academia.

Há uma ânsia clara pela glória da revelação, e isso tem muito de um sentido que junta uma urgência de mostrar pessoas ignoradas pelos governos e editoras na produção de livros didáticos com a busca pelos quinze minutos de fama que fazem da cultura da lacração um terreno fértil para ações discutíveis, quanto não são intencionalmente organizadas para produzirem nós de notoriedade e de controle de uma linha de produção de informação.

Os livros didáticos também ignoram os clubes carnavalescos negros de Pelotas e o Jornal A Alvorada, jornal negro abolicionista fundado no século XIX, entre outras manifestações de uma organização de homens e mulheres negras que é raríssima em outra parte do país, mas sua história existe e é contada, não foi ignorada pela História nem pelos livros de história.

Laudelina Campos de Melo tampouco foi “solenemente ignorada pelos livros de história”, o livro “ETNICIDADE, GÊNERO E EDUCAÇÃO: Trajetória de vida de Laudelina de Campos Mello” foi lançado em 2016, e tem, pasmem, inclusive um site anunciando esse lançamento e ele é de uma organização centrada na figura dela, que tem uma produção de informações a respeito.

Por que não anunciar isso e deixar claro que Laudelina tá longe de ser esquecida, inclusive pela academia?

Há inclusive produção acadêmica a respeito da luta em incluir biografias como as de Laudelina nos livros didáticos.

O que é mais útil, declamar, erroneamente, que ela é ignorada pelos livros de história ou ladear pela luta da inclusão de sue nome nos livros didáticos?

A autora Fernanda Crespo, tem artigos, como citado acima, e sua dissertação falando exatamente do uso da biografia de Laudelina, e não só, nos livros didáticos. Ela ignora Laudelina em sua escrita, que poderia, e deveria, virar livro?

O texto “O Brasil de Laudelina: usos do biográfico no ensino de história” é uma luta, é o retrato embasado de uma luta, como chamar isso de “solenemente ignorar Laudelina nos livros de história”?

E ainda há toda uma produção não acadêmica a respeito de Laudelina, biografias publicadas em sites, porque isso não é citado dando a fonte em vez de ignorar isso também como história e também como divulgação, quem ganha com esse discurso que coloca os “livros de história” como vilões, num ataque velado à academia?

Aliás, é preciso deixar bem claro que é mais fácil o discurso contra hegemônico na academia do que fora dela.

A academia com toda a sua estrutura rançosa e conservadora ainda é um espaço mais permeável à luta negra, indígena, feminista, LGBTQ+ que fora, especialmente nas ciências humanas.

Em livros não acadêmicos é difícil perceber como se percebe em livros como o da Anita Prestes sobre A Coluna Prestes, uma ressalva a respeito da dificuldade de encontrar registros de homens e mulheres negras participantes dela.

Ou na biografia de Prestes de Daniel Aarão Reis que faz uma menção direta a discursos racistas de Lourenço Moreira livro no clássico “A Coluna Prestes Marchas e Combates”, discurso esse combatido pelo próprio Prestes.

Procurem na produção não acadêmica se há esses elementos ou se há o debate sobre a composição étnica de movimentos políticos ou de gênero.

Há, mas em muito menor quantidade.

A história das mulheres, por exemplo, foi uma demanda do movimento com amplo eco no interior da academia, não brotou da cabeça da Michelle Perrot, mas foi amplamente assumido por ela e por outras mulheres.

O GT Nacional Emancipações e Pós-Abolição da ANPUH não existe pra jogar bingo.

Idem os GT Estudos de Gênero, Estudos Étnicos, Negros: história, cultura e sociedade, História Ambiental, Indígenas na História, História da África que não estão organizados na ANPUH pra brincar.

E isso na história, que é menos aberta, a meu ver, que outras áreas das ciências humanas como a Antropologia e Sociologia.

Então, jura que as figuras dos movimentos negro, indígena, de mulheres e LGBTQ+ são “solenemente ignoradas” pela História?

Pode se discutir o déficit de sua representatividade no amplo decorrer da historiografia, mas não no pós-descolonização, especialmente depois dos anos 1950 e 1960.

O reflexo imediato do pós segunda-guerra e da descolonização no mundo e do pós-ditadura no Brasil foi o avanço da inclusão na História de todo o debate étnico racial, pró-LGBTQ+, feminista,etc.

Olhem ao redor! Vocês acham que os ataques cotidianos às ciências humanas por parte do conservadorismo nasce em árvore?

Em momentos onde o Escola sem partido e outros movimentos de direita vivem para desqualificar o trabalho de profissionais sérios em suas áreas o discurso de desqualificação do trabalho acadêmico por quem se entende de esquerda é um desserviço e contém um germe de transformar em uma ligação falsa a ideia de construção do conhecimento acadêmico com o elitismo de parte da composição da academia.

E isso em um momento onde precisamos sim debater o pensamento colonizado dentro da academia, sem, no entanto, transformar toda a academia em afiliada a ele.

Ignorar a produção descolonizada da academia em nome de uma palavra de ordem limitada e limitante é um tremendo desserviço.

Das cores e sabores da política

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A política cotidiana é feita por razão, emoção, laços de camaradagem, compartilhamento de símbolos, ideias, amores, louvores, rituais e representações.

Sem esses elementos, a política é o ímpeto racional mitológico, alheio aos cotidianos e práticas tão fundamentais pra construção e transformações de mundos.

Quando Lênin disse “A prática é o critério da verdade” ele talvez não tivesse ligado o significado ao que posteriormente veio a ser o entendimento Thompsoniano de experiência, ou com a ideia mais completa de práxis conforme a tradição marxista originada no entendimento de Marx de práxis como a relação entre homem e natureza produzindo uma compreensão prática e crítica da realidade.

Mas a frase, a partir das contribuições todas produzidas da origem do marxismo até as modernas leituras, pode ser compreendida como: a prática, com a experiência em toda a plenitude dela, é o critério da verdade.

A prática assim seria o conjunto de experiências em ação que produzissem uma concretude e uma linha analítica possível a partir do resultado delas, entre estas experiências estão as relações comuns colocadas em prática por uma classe, grupo social, etc.

Estas experiências contém os elementos não racionais ou produzidos a partir das relações de afeto, de compartilhamento empático de percepções do mundo e de produção de símbolos, significados e marcas rituais, de manifestação de heranças materiais e imateriais, em resumo a prática contém os programas, as táticas, as estratégias e as relações de afeto, empatia e produção de uma gama de símbolos e tradições que fazem do cotidiano militante também a renovação de trajetórias e tradições seculares.

A práxis é mais que o cotidiano de produção de programas, panfletos, discursos, alianças e contrariedades do mundo político, mas a junção disto com os amores, afetos, rituais e louvores do dia a dia político.

Nestes dias pré-eleitorais, assim como nas vésperas de congresso e convenções, os sentimentos aflorados pela emergência das transformações propostas ao mundo se juntam aos medos do futuro, aos dramas familiares, as emoções das bandeiras dançando em atos públicos, aos sentimentos à flor da pele depois de discursos acalorados, esperanças vãs, motivações torpes, desejo de futuros melhores e desse conjunto de elementos surge o político no que ele tem mais de humano: os sentimentos que envolvem as táticas e estratégias das opções ideológicas.

A prática é o critério de uma verdade embebida na cultura e na tradição tanto quanto nas razões filosóficas e científicas.

Definir campanhas, programas, estruturas e discurso apenas pelo frio caminho da razão, ignorando os cotidianos das ruas, dos atores, dos militantes, os sentimentos que envolvem as propostas, os discursos e os campos é parte dos problemas de análise.

Esquecer o medo que envolve o discurso dos apoiadores de Bolsonaro, o ódio que envolve os discurso “liberais”, a esperança que envolve o discurso socialista, o amor que envolve o discurso do lulismo, é esquecer o processo político para além da lógica tecnocrata que constitui o princípio filosófico da separação entre corações e mentes e surge, mofado, das boas letras de um século XIX que recusa a morrer mesmo que tenha posto o prefixo “neo” à frente de suas tradições.

As pesquisas de opinião dizem muita coisa, mas não preveem o futuro ou estabelecem parâmetros confiáveis de análises de processos complexos de atuação política.

Elas falam de tendências curtas, focadas nos meses seguidos à frente de sua produção, não de anos.

Fosse assim o fenômeno Bolsonaro seria compreendido em 2003 quando Olavo de Carvalho e Rodrigo Constantino iniciaram a trajetória de defesa de seu anticomunismo escatológico e foram tratados como ridículos exatamente pelos campos que hoje se assustam com o avanço de suas hostes.

As pesquisas estatísticas não apontaram o fenômeno porque não poderiam fazê-lo, as qualitativas apontaram, mas foram ignoradas.

E o cotidiano da política hoje envolve disputas de símbolos e tradições que ocultam resultados menos típicos do que gostariam de analisar os analistas do cotidiano e seus modelos redutores.

Os votos de Bolsonaro contemplam fatores transformáveis, sua consolidação se dá num momento onde a disputa ainda se dá na ilha de edição do cotidiano, as emoções cristalizadas não enfrentam o espelho do outro.

E os votos não crescem como poderiam num cenário de obliteração das oposições ao ideário liberal.

Ao ponto em que mesmo com seu principal adversário preso ele não conquista uma liderança folgada em relação aos demais e perderia no segundo turno pra Marina, uma candidata via de regra anódina e reconhecida pela hesitação.

Há um tremendo vácuo entre as análises que não contemplam os votos que não ampliam as margens dos líderes e que permanecem ou indecisos, quarenta pro cento, ou presos a Lula.

E por que não contemplam?

Porque não filtram ou medem o medo, o amor, as tradições, as luas e cores, os sabores da política.

Não é candidato lacrando no twitter que aponta desespero de uma campanha que se entende iniciada no mundo quando a campanha começar em si, é o desespero de ocasionar um significado específico ao mundo que retire da frente dos olhos as incertezas que vê no charuto algo além do que é: apenas um charuto.

O que as pesquisas dizem agora é que há um tremendo espaço pra crescimento de diálogos e de mentes e corações, pra qualquer lado, em especial pro lado que vincular sua dinâmica de construção de discursos com a tradição que vê em Lula alguém confiável, mesmo preso.

Há margem pra avançar com debates e programas que envolvam as pessoas, que envolvam o cotidiano da sociedade, seja pra essa eleição, seja pro futuro.

Pra essa eleição, aquele que ouvir a voz dos que se enxergam em Lula e saiba responder no mesmo tom vencerá.

E é por esse caminho que passa a vitória ou a derrota de Bolsonaro.

Bolsonaro só vence se todas as chances de uma voz que ecoe as tradições e símbolos, os sabores e cores dos afetos e empatias forem emudecidas.

Há muito foco num suposto elemento de consolidação de Bolsonaro, quando ele nunca ultrapassa em muito a margem de erro do teto histórico da extrema-direita, de algo em torno de 15%, e pouco foco no fato que ele poderia estar com um percentual maior de votos, mas não está.

O que aparenta ser uma hegemonia conservadora radical nunca se reflete em suas intenções de voto.

Ele ter enorme votação espontânea dá conta de uma militância aguerrida e numerosa, não de uma hegemonia social.

Para a esquerda é preciso entender nossas bandeiras, tradições, afetos e símbolos, fomos e somos maiores sendo ubuntu do que sendo cabeça de planilha.

Precisamos de nossos afetos, construir a práxis enquanto critério de uma verdade onde a experiência de classe também tem as festas, os risos, as músicas e a ode à vida.

Afinal, já faz tempo que os marxistas comprovaram que a prática é o critério de uma verdade empática.

O dia do meio ambiente e a sociedade fóssil

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A recente greve dos caminhoneiros gerou um forte debate sobre o preço dos combustíveis, a dependência do transporte rodoviário e dos riscos de desabastecimento.

O preço dos alimentos, do gás de cozinha, o impacto na vida dos brasileiros da política de preços da Petrobrás como elemento de amplificação da crise econômica foram expostos de forma ampla, geral e irrestrita para conhecimento de quem ainda possuía dúvidas sobre o desastre eu o governo golpista causou no país.

Todo debate foi, no entanto, restrito aos pontos óbvios do problema, às questões imediatas das necessidades coletivas do país, em especial a dependência do transporte rodoviário para escoamento da produção no Brasil, o peso dos combustíveis fósseis foi na maior parte das vezes ignorado.

Salvo raríssimas exceções, como notas do Setorial Nacional Ecossocialista Paulo Piramba do PSOL, as abordagens da pré-campanha presidencial do PSOL com Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, especialmente na fala desta, e posicionamentos de militantes ecossocialistas do partido, pouco se viu de aprofundamento sobre a relação entre a dependência de combustíveis fósseis como um efeito tão daninho quanto a correlata dependência do transporte rodoviário.

Pra se ter uma ideia, em 2015 matéria do Governo Federal publicada no site do Ministério das Minas e Energia dava conta, de forma esfuziante, que as matrizes renováveis de energia no Brasil eram 42, 5% do total, e comemoravam o crescimento de 30% na participação, omitindo que à época 57,5% era a participação da energia de origem fóssil.

Em 2016, a Revista Veja publicava em seu site uma matéria onde indicava o crescimento da geração de energia via termelétricas e mesmo ressaltando que o Brasil tinha a maior percentagem de participação de energias renováveis entre os países industrializados, embora a participação da energia hidrelétrica tivesse caído “de 72,5% para 64,4%, mesmo com a construção de 311 novas usinas”.

A CNT publica em seu site o que a greve dos caminhoneiros já deixou claro: o diesel é o principal insumo do setor de transportes.

A mesma CNT em pesquisa em 2014 indicava que a participação do transporte rodoviário de cargas, majoritariamente dependente de diesel, era de 61%, o ferroviário e aquaviário, também majoritariamente dependentes de diesel, de 20% e 13% respectivamente.

Ou seja, cerca de 93% do transporte de carga era, em 2014, movido a combustíveis fósseis.

Nada indica que houve mudança na concentração de matriz energética brasileira em torno do diesel e da gasolina, pelo contrário. E sequer inserimos os dados referentes ao transporte de passageiros e ao transporte individual, cuja concentração de veículos movidos à energia elétrica é irrisória.

O quadro atual da sociedade brasileira é uma sociedade movida a combustíveis fósseis com uma participação tímida de energias renováveis se juntarmos a geração de energia pras cidades e pro campo e o peso dos combustíveis nas matrizes relacionadas ao transporte de carga e passageiros.

Ou seja, vivemos em uma sociedade fóssil, fossilizada em opções discutíveis com relação à forma como nos movemos e geramos energia.

Para termos mais uma ideia do problema, a greve dos caminhoneiros reduziu pela metade a poluição do ar em São Paulo, e as emissões de carbono relacionadas.

E hoje, em plena conjuntura onde o mundo migra para uma transição de matrizes energéticas, mesmo que devagar e tardiamente, o Brasil ao contrário, anda na contramão da tendência mundial, desprotegendo reservas florestais e reduzindo a absorção de carbono e ampliando a participação de fontes fósseis na produção de energia.

E mesmo com a alardeada tendência mundial de mudança de matriz energética as emissões de carbono cresceram nos últimos três anos, ampliando o risco de eventos extremos climáticos, secas, problemas mais graves de desabastecimento do que os experimentados nos últimos dias e mais ainda, ampliação de vítimas, refugiados, de lutas por recursos hídricos, entre outros problemas para a humanidade.

Estamos cada vez mais perto da elevação da temperatura mundial em 1,5% e o resultado disso não tende a ser bonito.

Nesta sociedade fóssil o dia do meio ambiente n]ao pode ser entendido como um dia a se comemorar, para que pintemos o rosto com pinturas festivas e nos abracemos louvando a mãe terra, mas um dia de conscientização sobre o quanto nossa sociedade e nossos hábitos de consumo, nossa própria compreensão de nossa participação no meio ambiente contribui para a destruição dos biomas, para a implosão do gênero humano e dos animais no planeta.

Os caminhoneiros pararam por necessidades reais relacionadas a seu trabalhar, a seu modo de fazer a vida, mas dependência deles e nossa dos combustíveis fósseis ameaçam a vida como um todo e de forma mais grave que a falta de gêneros alimentícios nos supermercados.

E se evidenciam outras questões que também se relacionam com a queima de carbono, mas que são fruto de uma sociedade nada ecológica, hipercentralizada, megacontrolada por poucos, nada democrática: A distância entre a produção e o consumo, a ausência de soberania alimentar e decisória sobre o cotidiano da alimentação, da saúde, da educação, do ir e vir.

Nossa forma de viver e consumir nos obriga a um deslocamento cotidiano brutal e violento, além de daninho aos biomas nos quais influenciamos.

O alto grau de queima de carbono diário é fruto de cidades e sociedades extremamente dependentes de processos decisórios e de produção que ficam distantes da maioria das pessoas, obrigando muitas vezes a concentrações humanas que pouco oferecem em qualidade de vida, em saúde física e mental.

Alimentos e pessoas ficam horas presos em congestionamentos nas grandes cidades porque a fábrica que processa o alimento e a produção agrícola está a centenas de quilômetros do ponto de consumo, da mesma forma que os trabalhadores estão a dezenas ou centenas de quilômetros de seus trabalhos.

Enquanto isso produtores locais, pequenos produtores, artesãos e vendedores sofrem para ter uma vida digna a partir de seu trabalho.

O grande supermercado, comprador da grande indústria de alimentos processados fornece mais alimentos que os pequenos comerciantes, compradores das produções locais, e estes alimentos presentes nas grandes redes são cada vez menos saudáveis e com qualidade piorada, como já vimos no caso das carnes.

Além do mais, as grandes redes, cujas sedes centralizadas em capitais são parte do problema, controlam a maior parte da venda e produção de alimentos processados, cada vez mais participantes da alimentação diária do trabalhador.

E o trabalhador mofa em cidades cada vez maiores, cuja concentração de pessoas dialoga com a centralização da produção e do consumo, com sistemas de transporte centrados no eixo rodoviário, pouco limpo, muito emissor de carbono e cuja qualidade é precária, inclusive por causar poluição do ar, prejudicando a qualidade de vida.

A produção, o consumo, o ir e vir, tudo exige uma reflexão sobre nossas sociedades e o que elas causam no cotidiano ao meio ambiente.

E é central a reflexão sobre a centralização decisória e produtiva, seja da produção de alimentos, processamento deles, seja na produção de energia, assim como a centralidade de modais de transporte que agravam a péssima qualidade de vida nas cidades como um todo e ampliam os danos ao meio ambiente.

A reflexão no dia mundial do meio ambiente é que precisamos de uma sociedade ecológica, cuja transformação só pode ser feita a partir de uma transformação ecológica, Ecossocialista, na política, ampliando a descentralização produtiva, de consumo e decisória, ampliando a voz da sociedade como parte do bioma e não como alheio a ele e visitante ocasional do tema quando necessário.

No dia mundial do meio ambiente é fundamental que entendamos que a origem das crises seguidas que atingem o povo e a vida é um sistema movido à concentração de terras, renda, poder decisório e produção na mão de poucos e que o resto (pessoas, animais, florestas, rios e mares) são recursos a serem explorados, sugados, extintos.

E este sistema para permanecer existindo até nos matar a todos não hesitará em recorrer à barbárie cada vez mais presente e cotidiana.

Uma abordagem ecossocialista é a única forma de sairmos da encruzilhada a nós imposta, é isso ou a barbárie.