A História em tempos lacradores é solenemente ignorada

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Volta e meia nos deparamos nas redes sociais com textos sobre figuras representantes das minorias colocadas da seguinte forma: “conheça a história da figura x, solenemente ignorada pelos livros de história”.

Ai a gente, historiador mala, vai no Scielo e no Google Scholar e pesquisa pelo nome da figura x ou y e tem lá umas oitocentas pesquisas feitas a respeito da figura.

Tem livros também, na maior parte das vezes, ou teses e dissertações que poderiam estar publicadas e são públicas, mas que são (rá) solenemente ignoradas pelas pessoas, em geral jornalistas e formados em outras graduações, que, com acesso à pesquisa, optam pelo caminho mais fácil de demonizar a História em vez de divulgar o trabalho sobre minorias existente, e que cresce a olhos vistos a cada ano e época, na academia.

Mas pra não ficar pedante a gente busca também no Google puro e, batata, tá lá também oitocentos textos a respeito das figuras. O que demonstra o óbvio: Nenhum dos textos lacradores postos sobre figuras “solenemente ignoradas” brotou do ar nas mãos de Clio ou de uma árvore do conhecimento plantada na casa dos autores lacradores de redes sociais.

O conhecimento, pasmem, nasceu de pesquisa de outras pessoas.

Por que então em vez de meter um “solenemente ignoradas” não se divulgam as fontes acadêmicas ou não a respeito das figuras?

A resposta eu não sei. Nem acho legal deduzir, mas há elementos para serem debatidos.

Dizer que as figuras históricas indígenas, negras, mulheres e LGBTQ+ estão alijadas dos livros didáticos do ensino médio e fundamental é extremamente importante, mas ignorar sua presença na produção da história dizendo que são “solenemente ignorados” pela história é obliterar a produção historiográfica existente a respeito, é inclusive desestimular os estudos feitos por negros e negras, indígenas, mulheres de todas as etnias, trans e LGBTQ+ na academia.

Há uma ânsia clara pela glória da revelação, e isso tem muito de um sentido que junta uma urgência de mostrar pessoas ignoradas pelos governos e editoras na produção de livros didáticos com a busca pelos quinze minutos de fama que fazem da cultura da lacração um terreno fértil para ações discutíveis, quanto não são intencionalmente organizadas para produzirem nós de notoriedade e de controle de uma linha de produção de informação.

Os livros didáticos também ignoram os clubes carnavalescos negros de Pelotas e o Jornal A Alvorada, jornal negro abolicionista fundado no século XIX, entre outras manifestações de uma organização de homens e mulheres negras que é raríssima em outra parte do país, mas sua história existe e é contada, não foi ignorada pela História nem pelos livros de história.

Laudelina Campos de Melo tampouco foi “solenemente ignorada pelos livros de história”, o livro “ETNICIDADE, GÊNERO E EDUCAÇÃO: Trajetória de vida de Laudelina de Campos Mello” foi lançado em 2016, e tem, pasmem, inclusive um site anunciando esse lançamento e ele é de uma organização centrada na figura dela, que tem uma produção de informações a respeito.

Por que não anunciar isso e deixar claro que Laudelina tá longe de ser esquecida, inclusive pela academia?

Há inclusive produção acadêmica a respeito da luta em incluir biografias como as de Laudelina nos livros didáticos.

O que é mais útil, declamar, erroneamente, que ela é ignorada pelos livros de história ou ladear pela luta da inclusão de sue nome nos livros didáticos?

A autora Fernanda Crespo, tem artigos, como citado acima, e sua dissertação falando exatamente do uso da biografia de Laudelina, e não só, nos livros didáticos. Ela ignora Laudelina em sua escrita, que poderia, e deveria, virar livro?

O texto “O Brasil de Laudelina: usos do biográfico no ensino de história” é uma luta, é o retrato embasado de uma luta, como chamar isso de “solenemente ignorar Laudelina nos livros de história”?

E ainda há toda uma produção não acadêmica a respeito de Laudelina, biografias publicadas em sites, porque isso não é citado dando a fonte em vez de ignorar isso também como história e também como divulgação, quem ganha com esse discurso que coloca os “livros de história” como vilões, num ataque velado à academia?

Aliás, é preciso deixar bem claro que é mais fácil o discurso contra hegemônico na academia do que fora dela.

A academia com toda a sua estrutura rançosa e conservadora ainda é um espaço mais permeável à luta negra, indígena, feminista, LGBTQ+ que fora, especialmente nas ciências humanas.

Em livros não acadêmicos é difícil perceber como se percebe em livros como o da Anita Prestes sobre A Coluna Prestes, uma ressalva a respeito da dificuldade de encontrar registros de homens e mulheres negras participantes dela.

Ou na biografia de Prestes de Daniel Aarão Reis que faz uma menção direta a discursos racistas de Lourenço Moreira livro no clássico “A Coluna Prestes Marchas e Combates”, discurso esse combatido pelo próprio Prestes.

Procurem na produção não acadêmica se há esses elementos ou se há o debate sobre a composição étnica de movimentos políticos ou de gênero.

Há, mas em muito menor quantidade.

A história das mulheres, por exemplo, foi uma demanda do movimento com amplo eco no interior da academia, não brotou da cabeça da Michelle Perrot, mas foi amplamente assumido por ela e por outras mulheres.

O GT Nacional Emancipações e Pós-Abolição da ANPUH não existe pra jogar bingo.

Idem os GT Estudos de Gênero, Estudos Étnicos, Negros: história, cultura e sociedade, História Ambiental, Indígenas na História, História da África que não estão organizados na ANPUH pra brincar.

E isso na história, que é menos aberta, a meu ver, que outras áreas das ciências humanas como a Antropologia e Sociologia.

Então, jura que as figuras dos movimentos negro, indígena, de mulheres e LGBTQ+ são “solenemente ignoradas” pela História?

Pode se discutir o déficit de sua representatividade no amplo decorrer da historiografia, mas não no pós-descolonização, especialmente depois dos anos 1950 e 1960.

O reflexo imediato do pós segunda-guerra e da descolonização no mundo e do pós-ditadura no Brasil foi o avanço da inclusão na História de todo o debate étnico racial, pró-LGBTQ+, feminista,etc.

Olhem ao redor! Vocês acham que os ataques cotidianos às ciências humanas por parte do conservadorismo nasce em árvore?

Em momentos onde o Escola sem partido e outros movimentos de direita vivem para desqualificar o trabalho de profissionais sérios em suas áreas o discurso de desqualificação do trabalho acadêmico por quem se entende de esquerda é um desserviço e contém um germe de transformar em uma ligação falsa a ideia de construção do conhecimento acadêmico com o elitismo de parte da composição da academia.

E isso em um momento onde precisamos sim debater o pensamento colonizado dentro da academia, sem, no entanto, transformar toda a academia em afiliada a ele.

Ignorar a produção descolonizada da academia em nome de uma palavra de ordem limitada e limitante é um tremendo desserviço.

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Das cores e sabores da política

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A política cotidiana é feita por razão, emoção, laços de camaradagem, compartilhamento de símbolos, ideias, amores, louvores, rituais e representações.

Sem esses elementos, a política é o ímpeto racional mitológico, alheio aos cotidianos e práticas tão fundamentais pra construção e transformações de mundos.

Quando Lênin disse “A prática é o critério da verdade” ele talvez não tivesse ligado o significado ao que posteriormente veio a ser o entendimento Thompsoniano de experiência, ou com a ideia mais completa de práxis conforme a tradição marxista originada no entendimento de Marx de práxis como a relação entre homem e natureza produzindo uma compreensão prática e crítica da realidade.

Mas a frase, a partir das contribuições todas produzidas da origem do marxismo até as modernas leituras, pode ser compreendida como: a prática, com a experiência em toda a plenitude dela, é o critério da verdade.

A prática assim seria o conjunto de experiências em ação que produzissem uma concretude e uma linha analítica possível a partir do resultado delas, entre estas experiências estão as relações comuns colocadas em prática por uma classe, grupo social, etc.

Estas experiências contém os elementos não racionais ou produzidos a partir das relações de afeto, de compartilhamento empático de percepções do mundo e de produção de símbolos, significados e marcas rituais, de manifestação de heranças materiais e imateriais, em resumo a prática contém os programas, as táticas, as estratégias e as relações de afeto, empatia e produção de uma gama de símbolos e tradições que fazem do cotidiano militante também a renovação de trajetórias e tradições seculares.

A práxis é mais que o cotidiano de produção de programas, panfletos, discursos, alianças e contrariedades do mundo político, mas a junção disto com os amores, afetos, rituais e louvores do dia a dia político.

Nestes dias pré-eleitorais, assim como nas vésperas de congresso e convenções, os sentimentos aflorados pela emergência das transformações propostas ao mundo se juntam aos medos do futuro, aos dramas familiares, as emoções das bandeiras dançando em atos públicos, aos sentimentos à flor da pele depois de discursos acalorados, esperanças vãs, motivações torpes, desejo de futuros melhores e desse conjunto de elementos surge o político no que ele tem mais de humano: os sentimentos que envolvem as táticas e estratégias das opções ideológicas.

A prática é o critério de uma verdade embebida na cultura e na tradição tanto quanto nas razões filosóficas e científicas.

Definir campanhas, programas, estruturas e discurso apenas pelo frio caminho da razão, ignorando os cotidianos das ruas, dos atores, dos militantes, os sentimentos que envolvem as propostas, os discursos e os campos é parte dos problemas de análise.

Esquecer o medo que envolve o discurso dos apoiadores de Bolsonaro, o ódio que envolve os discurso “liberais”, a esperança que envolve o discurso socialista, o amor que envolve o discurso do lulismo, é esquecer o processo político para além da lógica tecnocrata que constitui o princípio filosófico da separação entre corações e mentes e surge, mofado, das boas letras de um século XIX que recusa a morrer mesmo que tenha posto o prefixo “neo” à frente de suas tradições.

As pesquisas de opinião dizem muita coisa, mas não preveem o futuro ou estabelecem parâmetros confiáveis de análises de processos complexos de atuação política.

Elas falam de tendências curtas, focadas nos meses seguidos à frente de sua produção, não de anos.

Fosse assim o fenômeno Bolsonaro seria compreendido em 2003 quando Olavo de Carvalho e Rodrigo Constantino iniciaram a trajetória de defesa de seu anticomunismo escatológico e foram tratados como ridículos exatamente pelos campos que hoje se assustam com o avanço de suas hostes.

As pesquisas estatísticas não apontaram o fenômeno porque não poderiam fazê-lo, as qualitativas apontaram, mas foram ignoradas.

E o cotidiano da política hoje envolve disputas de símbolos e tradições que ocultam resultados menos típicos do que gostariam de analisar os analistas do cotidiano e seus modelos redutores.

Os votos de Bolsonaro contemplam fatores transformáveis, sua consolidação se dá num momento onde a disputa ainda se dá na ilha de edição do cotidiano, as emoções cristalizadas não enfrentam o espelho do outro.

E os votos não crescem como poderiam num cenário de obliteração das oposições ao ideário liberal.

Ao ponto em que mesmo com seu principal adversário preso ele não conquista uma liderança folgada em relação aos demais e perderia no segundo turno pra Marina, uma candidata via de regra anódina e reconhecida pela hesitação.

Há um tremendo vácuo entre as análises que não contemplam os votos que não ampliam as margens dos líderes e que permanecem ou indecisos, quarenta pro cento, ou presos a Lula.

E por que não contemplam?

Porque não filtram ou medem o medo, o amor, as tradições, as luas e cores, os sabores da política.

Não é candidato lacrando no twitter que aponta desespero de uma campanha que se entende iniciada no mundo quando a campanha começar em si, é o desespero de ocasionar um significado específico ao mundo que retire da frente dos olhos as incertezas que vê no charuto algo além do que é: apenas um charuto.

O que as pesquisas dizem agora é que há um tremendo espaço pra crescimento de diálogos e de mentes e corações, pra qualquer lado, em especial pro lado que vincular sua dinâmica de construção de discursos com a tradição que vê em Lula alguém confiável, mesmo preso.

Há margem pra avançar com debates e programas que envolvam as pessoas, que envolvam o cotidiano da sociedade, seja pra essa eleição, seja pro futuro.

Pra essa eleição, aquele que ouvir a voz dos que se enxergam em Lula e saiba responder no mesmo tom vencerá.

E é por esse caminho que passa a vitória ou a derrota de Bolsonaro.

Bolsonaro só vence se todas as chances de uma voz que ecoe as tradições e símbolos, os sabores e cores dos afetos e empatias forem emudecidas.

Há muito foco num suposto elemento de consolidação de Bolsonaro, quando ele nunca ultrapassa em muito a margem de erro do teto histórico da extrema-direita, de algo em torno de 15%, e pouco foco no fato que ele poderia estar com um percentual maior de votos, mas não está.

O que aparenta ser uma hegemonia conservadora radical nunca se reflete em suas intenções de voto.

Ele ter enorme votação espontânea dá conta de uma militância aguerrida e numerosa, não de uma hegemonia social.

Para a esquerda é preciso entender nossas bandeiras, tradições, afetos e símbolos, fomos e somos maiores sendo ubuntu do que sendo cabeça de planilha.

Precisamos de nossos afetos, construir a práxis enquanto critério de uma verdade onde a experiência de classe também tem as festas, os risos, as músicas e a ode à vida.

Afinal, já faz tempo que os marxistas comprovaram que a prática é o critério de uma verdade empática.

O dia do meio ambiente e a sociedade fóssil

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A recente greve dos caminhoneiros gerou um forte debate sobre o preço dos combustíveis, a dependência do transporte rodoviário e dos riscos de desabastecimento.

O preço dos alimentos, do gás de cozinha, o impacto na vida dos brasileiros da política de preços da Petrobrás como elemento de amplificação da crise econômica foram expostos de forma ampla, geral e irrestrita para conhecimento de quem ainda possuía dúvidas sobre o desastre eu o governo golpista causou no país.

Todo debate foi, no entanto, restrito aos pontos óbvios do problema, às questões imediatas das necessidades coletivas do país, em especial a dependência do transporte rodoviário para escoamento da produção no Brasil, o peso dos combustíveis fósseis foi na maior parte das vezes ignorado.

Salvo raríssimas exceções, como notas do Setorial Nacional Ecossocialista Paulo Piramba do PSOL, as abordagens da pré-campanha presidencial do PSOL com Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, especialmente na fala desta, e posicionamentos de militantes ecossocialistas do partido, pouco se viu de aprofundamento sobre a relação entre a dependência de combustíveis fósseis como um efeito tão daninho quanto a correlata dependência do transporte rodoviário.

Pra se ter uma ideia, em 2015 matéria do Governo Federal publicada no site do Ministério das Minas e Energia dava conta, de forma esfuziante, que as matrizes renováveis de energia no Brasil eram 42, 5% do total, e comemoravam o crescimento de 30% na participação, omitindo que à época 57,5% era a participação da energia de origem fóssil.

Em 2016, a Revista Veja publicava em seu site uma matéria onde indicava o crescimento da geração de energia via termelétricas e mesmo ressaltando que o Brasil tinha a maior percentagem de participação de energias renováveis entre os países industrializados, embora a participação da energia hidrelétrica tivesse caído “de 72,5% para 64,4%, mesmo com a construção de 311 novas usinas”.

A CNT publica em seu site o que a greve dos caminhoneiros já deixou claro: o diesel é o principal insumo do setor de transportes.

A mesma CNT em pesquisa em 2014 indicava que a participação do transporte rodoviário de cargas, majoritariamente dependente de diesel, era de 61%, o ferroviário e aquaviário, também majoritariamente dependentes de diesel, de 20% e 13% respectivamente.

Ou seja, cerca de 93% do transporte de carga era, em 2014, movido a combustíveis fósseis.

Nada indica que houve mudança na concentração de matriz energética brasileira em torno do diesel e da gasolina, pelo contrário. E sequer inserimos os dados referentes ao transporte de passageiros e ao transporte individual, cuja concentração de veículos movidos à energia elétrica é irrisória.

O quadro atual da sociedade brasileira é uma sociedade movida a combustíveis fósseis com uma participação tímida de energias renováveis se juntarmos a geração de energia pras cidades e pro campo e o peso dos combustíveis nas matrizes relacionadas ao transporte de carga e passageiros.

Ou seja, vivemos em uma sociedade fóssil, fossilizada em opções discutíveis com relação à forma como nos movemos e geramos energia.

Para termos mais uma ideia do problema, a greve dos caminhoneiros reduziu pela metade a poluição do ar em São Paulo, e as emissões de carbono relacionadas.

E hoje, em plena conjuntura onde o mundo migra para uma transição de matrizes energéticas, mesmo que devagar e tardiamente, o Brasil ao contrário, anda na contramão da tendência mundial, desprotegendo reservas florestais e reduzindo a absorção de carbono e ampliando a participação de fontes fósseis na produção de energia.

E mesmo com a alardeada tendência mundial de mudança de matriz energética as emissões de carbono cresceram nos últimos três anos, ampliando o risco de eventos extremos climáticos, secas, problemas mais graves de desabastecimento do que os experimentados nos últimos dias e mais ainda, ampliação de vítimas, refugiados, de lutas por recursos hídricos, entre outros problemas para a humanidade.

Estamos cada vez mais perto da elevação da temperatura mundial em 1,5% e o resultado disso não tende a ser bonito.

Nesta sociedade fóssil o dia do meio ambiente n]ao pode ser entendido como um dia a se comemorar, para que pintemos o rosto com pinturas festivas e nos abracemos louvando a mãe terra, mas um dia de conscientização sobre o quanto nossa sociedade e nossos hábitos de consumo, nossa própria compreensão de nossa participação no meio ambiente contribui para a destruição dos biomas, para a implosão do gênero humano e dos animais no planeta.

Os caminhoneiros pararam por necessidades reais relacionadas a seu trabalhar, a seu modo de fazer a vida, mas dependência deles e nossa dos combustíveis fósseis ameaçam a vida como um todo e de forma mais grave que a falta de gêneros alimentícios nos supermercados.

E se evidenciam outras questões que também se relacionam com a queima de carbono, mas que são fruto de uma sociedade nada ecológica, hipercentralizada, megacontrolada por poucos, nada democrática: A distância entre a produção e o consumo, a ausência de soberania alimentar e decisória sobre o cotidiano da alimentação, da saúde, da educação, do ir e vir.

Nossa forma de viver e consumir nos obriga a um deslocamento cotidiano brutal e violento, além de daninho aos biomas nos quais influenciamos.

O alto grau de queima de carbono diário é fruto de cidades e sociedades extremamente dependentes de processos decisórios e de produção que ficam distantes da maioria das pessoas, obrigando muitas vezes a concentrações humanas que pouco oferecem em qualidade de vida, em saúde física e mental.

Alimentos e pessoas ficam horas presos em congestionamentos nas grandes cidades porque a fábrica que processa o alimento e a produção agrícola está a centenas de quilômetros do ponto de consumo, da mesma forma que os trabalhadores estão a dezenas ou centenas de quilômetros de seus trabalhos.

Enquanto isso produtores locais, pequenos produtores, artesãos e vendedores sofrem para ter uma vida digna a partir de seu trabalho.

O grande supermercado, comprador da grande indústria de alimentos processados fornece mais alimentos que os pequenos comerciantes, compradores das produções locais, e estes alimentos presentes nas grandes redes são cada vez menos saudáveis e com qualidade piorada, como já vimos no caso das carnes.

Além do mais, as grandes redes, cujas sedes centralizadas em capitais são parte do problema, controlam a maior parte da venda e produção de alimentos processados, cada vez mais participantes da alimentação diária do trabalhador.

E o trabalhador mofa em cidades cada vez maiores, cuja concentração de pessoas dialoga com a centralização da produção e do consumo, com sistemas de transporte centrados no eixo rodoviário, pouco limpo, muito emissor de carbono e cuja qualidade é precária, inclusive por causar poluição do ar, prejudicando a qualidade de vida.

A produção, o consumo, o ir e vir, tudo exige uma reflexão sobre nossas sociedades e o que elas causam no cotidiano ao meio ambiente.

E é central a reflexão sobre a centralização decisória e produtiva, seja da produção de alimentos, processamento deles, seja na produção de energia, assim como a centralidade de modais de transporte que agravam a péssima qualidade de vida nas cidades como um todo e ampliam os danos ao meio ambiente.

A reflexão no dia mundial do meio ambiente é que precisamos de uma sociedade ecológica, cuja transformação só pode ser feita a partir de uma transformação ecológica, Ecossocialista, na política, ampliando a descentralização produtiva, de consumo e decisória, ampliando a voz da sociedade como parte do bioma e não como alheio a ele e visitante ocasional do tema quando necessário.

No dia mundial do meio ambiente é fundamental que entendamos que a origem das crises seguidas que atingem o povo e a vida é um sistema movido à concentração de terras, renda, poder decisório e produção na mão de poucos e que o resto (pessoas, animais, florestas, rios e mares) são recursos a serem explorados, sugados, extintos.

E este sistema para permanecer existindo até nos matar a todos não hesitará em recorrer à barbárie cada vez mais presente e cotidiana.

Uma abordagem ecossocialista é a única forma de sairmos da encruzilhada a nós imposta, é isso ou a barbárie.

A armadilha do Pré-Sal para a educação e o engano da transição energética ampliando seu uso

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Quando entrei no setorial nacional ecossocialista Paulo Piramba do PSOL o próprio Paulo Piramba já havia falecido, mas havia deixado um legado através de duas consignas: “Ecossocialismo ou Barbárie!” e “Petróleo e Carvão é pra ficar no chão!”.

E ele já não estava sozinho nos idos de 2011 e 2012 quando empunhava estas bandeiras e menos ainda quando viu na Carta de Curitiba e na Carta do Rio, lá no éter ecossocialista da circularidade da matéria e da energia, aprovadas por consenso no setorial, estas demandas e propostas de transição energética que informavam do problema do petróleo ser usado como financiador de educação, saúde, etc, no Brasil ou onde quer que seja.

Em uma contribuição ao sexto congresso do PSOL, ocorrido ano passado, o coletivo Amanhecer, do qual eu não faço parte, deixa de forma bastante nítida um recado sobre o uso do Petróleo:

Estamos no limite urgentíssimo da necessidade de barrar a sanha expansionista do sistema capitalista: que mata nossos povos originários, ribeirinhos, quilombolas e indígenas, destrói a fauna e a flora, seca os mananciais de água, altera os ciclos naturais do fósforo e nitrogênio, acidifica os oceanos, e é responsável pelo aquecimento global antrópico, que promove catástrofes climáticas que prejudica, sobretudo, as populações mais carentes em torno do globo.
Neste contexto, é fundamental afirmarmos a necessidade da esquerda brasileira do século XXI construir um programa de transição ecossocialista, que não tenha dúvidas em afirmar a necessidade de frearmos já a matriz energética brasileira e não colocarmos mais pressão ainda sobre o “orçamento de carbono” global. Por isso acreditamos que “Petróleo e Carvão, é pra deixar no chão”, sim, juntamente com o Pré-Sal e toda e qualquer iniciativa adicional de elevar a produção e consumo de combustíveis fósseis.

Ou seja, em 2017 não morreu a colocação em debate do uso do pré-sal para financiar educação e saúde, e mais, se ameaça ainda a cada debate sobre programa, a cada construção coletiva que aponta uma saída das armadilhas dos combustíveis fósseis com a desqualificação do alerta como “pós-moderno”, “avesso ao diálogo” e “descolado das necessidades prementes da classe trabalhadora”, como se sobreviver no dia a dia sem ser soterrado, ilhado, inundado ou se tornar refugiado de secas fosse hierarquicamente inferior ao cotidiano de sobrevivência dura sob o capitalismo.

Um ano antes, em abril de 2016, o coletivo 350, junto com o Ceará no clima, gritaram estas palavras de ordem no Ceará, e não à toa, porque o mercado do carbono avança com subsídios que sugam receita e destroem mananciais, usam além de tudo água para manter termelétricas subsidiadas e manter vivo o mercado fóssil.

Ou seja manter o uso de fósseis, qualquer que seja, é manter vivo um mercado mundial que destrói o meio ambiente, ancorar sua exploração e uso às receitas de necessidades da população enfraquece qualquer bom senso de reduzir e até interromper o uso de combustíveis fósseis e reduzir o aquecimento global em um cenário em que em 2015 foi detectado por pesquisa publicada na Nature que

De acordo com as projeções válidas até 2050, mais de 80% do carvão, 50% do gás e 30% das reservas de petróleo não podem ser extraídos do solo. Caso contrário, a temperatura do planeta aumentará mais de 2 graus Celsius, em relação aos níveis pré-industriais.

O mercado de combustíveis fósseis é subsidiado de muitas formas, inclusive a exploração do pré-sal conta com subsídios às petroleiras estrangeiras para sua exploração, perda estimada em um bilhão de reais, a própria Petrobrás recebe recursos para a exploração de petróleo para além dos recursos obtidos com a comercialização. Há renúncia fiscal e perda de recursos para ampliar a exploração comercial e uso dos combustíveis fósseis em um cenário de ampliação do aquecimento global e dos prejuízos que ele causa.

Em 2014 os países do G20 deram mais de US$ 440 bilhões em subsídios à exploração dos combustíveis fósseis. O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) produziu um estudo recém-publicado em que afirma que os subsídios à exploração dos combustíveis fósseis chegam à casa de R$ 68 bilhões no Brasil, cerca de dois programas bolsa-família, com todo o impacto do uso no cotidiano da população, que vive cada vez mais problemas relacionados a eventos extremos climáticos, como a seca em São Paulo e na Amazônia em 2015.

Os prejuízos são tantos que recebem relatório específico publicado pelo mercado de seguros.Segundo um estudo da UFSC publicado em março de 2017

, que estimou em R$ 182 bilhões o prejuízo para o país causado pelos eventos e fenômenos meteorológicos extremos como secas, estiagens, inundações e enxurradas ocorridos nas últimas duas décadas, contribuiu para tornar mais tangível esta realidade. A pesquisa revela um dado ainda mais preocupante: a ocorrência cada vez mais frequente destes eventos. Na última década ocorreram 76% dos registros contabilizados e foram gastos 82% do custo total estimado. Os desastres e fenômenos meteorológicos extremos podem ser inequivocamente atribuídos às mudanças no clima provocadas pela ação do homem, sobretudo em decorrência do aumento significativo das emissões de carbono. Esta semana, o Peru enfrenta um dos piores desastres naturais das últimas décadas, com chuvas, enchentes e inundações provocadas pelo aquecimento das águas do Pacífico e um forte temporal causou morte e estragos no Rio Grande do Sul. Por isso, tão importante quanto questionar o termo “desastre natural” é reconhecer e identificar os esforços necessários à mitigação dos fatores de mudança climática, incluindo o abandono dos combustíveis fósseis e investimentos que garantam 100% de energia limpa. Sem esquecer a importância de se investir em adaptação, a fim de aumentar a resiliência às mudanças climáticas e aos impactos dos eventos extremos.

E vivemos um cenário onde governos mentem seguidamente sobre o caráter de baixo carbono da economia do Brasil, desmentido por vários relatórios, como o do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) que afirma que

Do ponto de vista climático, sob a alegação de que “a matriz energética brasileira contém hoje 40% de energias renováveis (75% de renováveis na oferta de energia elétrica), o que representa três vezes a participação média mundial – e mais de quatro vezes a dos países da OCDE”, o documento oficial brasileiro, apresentado na Convenção do Clima (sua Contribuição Nacionalmente Determinada – INDC), defende que o Brasil já é “uma economia de baixo carbono”. Por outra parte, os dados oficiais de emissões mostram que, em 2010, 47% das emissões líquidas de CO2 foram oriundas do setor de energia. Dentro desse setor, as emissões por queima de combustíveis fósseis representaram quase 96%, sendo em sua maior parte (48,9%) oriundas do setor de transporte. Já as chamadas emissões fugitivas, as quais incluem a queima de gás nas tochas de plataformas e refinarias e a combustão espontânea de carvão em depósitos e pilhas de rejeito, tiveram uma participação de 4% nas emissões do setor, sendo que – destas – 3,8% foram oriundas de emissões associadas à extração e ao transporte de petróleo e gás natural. Esses números evidenciam o desafio de questionar, no Brasil, os subsídios à extração e ao transporte de petróleo e gás natural pela vertente das emissões, sendo necessário considerar, contudo, as emissões oriundas do setor industrial (em especial, as emissões no segmento dos petroquímicos).

A Petrobrás anunciou em janeiro deste ano que a exploração do pré-sal já supera a do petróleo convencional, isso com poços ainda a serem abertos, ampliando o uso de fósseis e seu impacto no cotidiano. E isso em um cenário onde o físico Alexandre Araújo Costa afirma que

Nós não podemos passar de 450 partes por milhão de CO2 na atmosfera. Nós já estamos no limite, do limite, do limite. Para chegar a esses 450, basta que a gente queime 10% das reservas fósseis. Então, 90% do petróleo, do carvão e do gás tem que ficar onde está, no chão. Isso implica o petróleo do pré-sal; as areias betuminosas do Athabasca; o topo de montanha da China, que tem carvão dentro e está sendo explodido para extrair; o gás de fracking, o gás de xisto que está sendo extraído da forma mais violenta e poluente através do fraturamento hidráulico. Isso tudo tem que permanecer intacto e, aí, essa panaceia em torno do pré-sal, essa visão de fóssil de dinossauro, que a esquerda brasileira repete, essa prostração em relação ao petróleo é ridícula. Esquerda é aquela que defende dinheiro para educação, mas vindo de onde? Tem que auditar dívida, tem que cobrar imposto sobre fortunas, imposto sobre lucro, que é uma vergonha nesse país, imposto sobre carbono, taxar o carbono. E você poderia taxar o carbono e parte deste recurso ir para a educação. Então, ao invés de você tirar carbono do subsolo, jogá-lo para a atmosfera e ferrar com o futuro das crianças e jovens, acenando com a educação; não, meu amigo, nós vamos garantir educação e garantir futuro, e garantir água e garantir comida. Esse debate já precisaria ter sido superado. O PSOL, o conjunto da esquerda combativa, precisava sair desse buraco fóssil. Carvão, petróleo e gás são para ficar no chão, essa é a nossa palavra de ordem.

Há um farto material comprobatório do enorme prejuízo financeiro, social, ecológico e moral na exploração do Petróleo, o que falta para que a esquerda perceba o quanto é fundamental combater o uso do petróleo, não abrir novos poços e mais, buscar fechar os já abertos?

Há material produzido por diversas correntes ideológicas e na esquerda, na academia e no mercado, é inteligente negar a realidade se esquivando do debate sobre a relação custo-benefício entre o tal “dinheiro do pré-sal para a educação” e os prejuízos gerados pelo uso de combustíveis fósseis no dia a dia e em especial às populações mais pobres, principalmente quando é público e notório que mulheres e pobres são aos principais atingidos pelos eventos extremos climáticos?

E são quase todos pretos, ou quase pretos de tão pobres.

Portanto há mais que uma “fanfarronice” ou “bravata” no resistir ao jargão viciado de correntes de esquerda que enxergam o facilismo dos recursos do pré-sal para financiamento de políticas sociais ignorando a necessária luta e enfrentamento a outros meios de financiamento a estas mesmas políticas, tais como, pasmem, os subsídios à exploração do petróleo.

Há um debate amplo, geral e irrestrito na academia, na política cotidiana, no ativismo político sério que entende a relação nefasta entre a análise rasa de um nacionalismo míope sobre o petróleo e os impactos reais na economia e na vida dos mais pobres, no sistema terra e na própria continuidade da vida humana no longo prazo.

E neste longo prazo há a relação direta entre o declínio do sistema climático e o aumento da barbárie, barbárie esta que já vive às nossas portas e que precisamos enfrentar coletiva e ecologicamente, ecossocialisticamente, para que tenha um fim.

Sobre golpes, coelhas e outras histórias

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A cada novos eventos limítrofes na conjuntura reaparecem os solicitadores de “Intervenção militar constitucional” e com eles a reação das esquerdas e dos democratas em geral de supremo horror com isto, com o fenômeno, colocando-o como de apoiadores da ditadura, estúpidos deseducados, etc.

Reaparece também o medo de que os militares reassumamo poder, as declarações de voto útil “antifascista” e outros fenômenos típicos de nossa era.

Nada isso é surpresa e nem se quer aqui chamar ninguém de idiota ou de alarmista, inclusive porque gente muito boa sente medo e gente muito inteligente se preocupa com os golpes enquanto coelhas.

Mas a reflexão que proponho aqui é de ordem política e de análise de conjuntura e prima menos pelo descaso com o medo e mais pela consideração da conjuntura com uma tentativa de precisão analítica que nos ajude a enxergar através do filtro opaco sob o qual a realidade se mostra para nós.

O primeiro ato dessa tentativa de análise é discutir as afirmações de que a conjuntura está confusa, porque toda conjuntura é confusa.

O facilismo analítico via de regra é primo dileto do equívoco. Nenhum formato metodológico de observação do real prima pela exatidão exatamente pela opacidade do real.

Modelos correm o risco de engessar a percepção do real ou distorcê-lo para que se encaixa nas formas fornecidas pelo modelo.

A experiência envolvida na percepção coletiva do real e na própria concepção de análises a partir de observações que misturam experiência com arcabouço teórico são apenas fragmentos possíveis de apropriação do real para sua explicação.

A ideia de analisar conjuntura é buscar dissipar a confusão com a aproximação máxima com a realidade possível.

Não adianta comparação histórica crua para entender a realidade de hoje.

Não, não é a mesma conjuntura da deposição de Dilma, nem do golpe de 1964 e menos ainda do golpe de 1973, a conjuntura do hoje é a do pós-golpe de 2016 e tem que ser tratada a partir disso.

Também não é nem a mesma conjuntura de 2013, nem temos mesmos atores e as mesmas relações de força envolvidas como protagonistas.

O fim da Nova República necessita de novas análises, de novos processos e da conjugação de elementos mais fortemente ancorados no hoje que no passado.

A conjuntura de hoje, da greve dos caminhoneiros, da ameaça de greve dos petroleiros, fortemente combatida pelo governo e pela justiça, nos obriga a uma nova observação a respeito do processo de golpe em curso e seu avanço na direção da não eleição e da solicitação por parte da população de uma “intervenção militar constitucional”.

E este é o segundo ato desta tentativa de análise: a compreensão das possibilidades de golpe militar ou não como segundo ato do golpe de 2016.

Não, não acredito ser provável um golpe militar em 2018 ou o cancelamento das eleições e elenco para tal uma série de argumentos que vão da possibilidade de sanções comerciais graves ao país atingindo especialmente o agronegócio, até o recuo dos principais elementos defensores ou que lucrariam com um golpe militar na sua defesa.

As sanções são previstas pelo conselho de segurança da ONU, Comunidade de Estados Americanos e Caribenhos (Celac), no Mercosul e na União Europeia, sem falar na ação nos EUA e dos EUA a respeito, já em curso contra a Venezuela e que poderiam ganhar fôlego contra o Brasil.

Não estamos falando de forma inocente sobre apelo aos direitos humanos e a democracia, mas sobre meios de manter uma ação que atue na concorrência internacional relativa ao comércio exterior.

O Brasil já patina no comércio exterior sem uma instabilidade política maior, com um golpe esse cenário ficaria pior.

O país já tem forte concorrência dos EUA na exportação de soja. É o maior exportador de carne bovina do mundo, mas sofre concorrência da Índia e Austrália, além dos EUA.

Sanções econômicas surtiriam efeito daninho no mercado brasileiro. Pra piorar, as empresas JBS, Minerva e Marfrig concentram 60% das exportações e a primeira foi alvo da operação Carne Fraca e as demais sofreram com isso, o que repercutiu negativamente na União Europeia e China e impactou o mercado.

Qualquer outra marola causaria enormes problemas pra economia brasileira, mais do que a economia já tem.

Outro dado que implicam a necessária reflexão é o papel de ícones do golpismo como o General Mourão, Bolsonaro e General Etchegoyen não só na condenação da ideia de golpe militar, mas na qualificação dos que os defendem, nas palavras do Deputado, de que são “um grupo pequeno” e diz mais, diz que “No desespero, cara, você pede qualquer coisa. Na minha opinião, dos meus amigos generais, se tiver de voltar um dia, que volte pelo voto. Aí chega com legitimidade, não dá essa bandeira para o PT dizer “Abaixo a ditadura” ou “Foi golpe”, porque aí foi golpe mesmo.”, e ainda reforça que o que se deduz das palavras do exército é verdade, dizendo: “O sentimento que eu tenho da tropa é de que ninguém quer ir para o confronto”.

Bolsonaro ecoa o que generais da ativa já davam a entender a partir da reflexão que a própria execução da GLO para manter a ordem pós greve dos caminhoneiros teria problema e permite que entendamos que as recentes declarações do General Villas Boas tem mais de jogar pra plateia equilibrando as tensões da arma que para recuo no que já disse anteriormente sobre a impossibilidade de golpe.

Tudo o que o conjunto de fatores a respeito das declarações destes atores aponta é que todo o jargão utilizado na construção do mote “intervenção militar” era parte de uma estratégia de aglutinação de poder político que levasse ao voto em ex-militares candidatos, plano inclusive apontado pelo General Mourão em entrevista à Revista Piauí.

Em determinado momento esse plano ultrapassou o desejado pelas lideranças com a greve dos caminhoneiros, e a ação de grupos externos aos caminhoneiros e o despertar e de simpatia da tropa às solicitações existentes nos movimentos na greve trouxe preocupação às lideranças.

Tudo isso levou a um recuo de lideranças vinculadas à solicitação, porque entendem estarem perto de chegar ao poder de forma legítima.

Mas se estão tão perto e tem apoio para um golpe por que disputar a eleição?

Porque talvez o apoio a um golpe não se organize de forma tão firme a ponto de sustentá-los no poder.

A questão é que depois de um golpe parlamentar, a ameaça de golpe militar, o apoio de grupos inteiros da sociedade a um golpe e a própria psiquê afetada por um aumento da defesa do indefensável na sociedade amplia nosso medo de perceber o concreto e de promover a luta antifascista com clareza.

A ideia do golpe militar que de desejo vira concretude pra quem o repudia se torna uma ameaça bruta, cotidiana.

A improbabilidade momentânea do golpe, a própria ausência de elementos concretos de instabilidade que o motivem diante de um aumento da presença política das bandeiras conservadoras no cotidiano e da possibilidade de eleição de amantes da ditadura a cargos importantes são elementos fundamentais para que o medo do golpe seja transformado em ação antifascista para combater exatamente o processo de conquista de cargos políticos importantes por idólatras da reação.

A quem interessa o medo do golpe? Essa é a pergunta.

Interessa a quem não quer o debate profundo sobre o estado, o país, as mudanças necessárias nele para que todo o processo de desconstrução dos direitos e de desmonte do início de um estado de bem-estar social seja interrompido e voltemos a ter um país para chamar de nosso.

Interessa a quem quer voto útil em junho.

Interessa a quem não quer que se debata tanta casa sem gente e tanta gente sem casa, uma economia que não serve à sociedade e um país que precisa de transformações brutais na matriz energética, na gestão centralizada da energia, na centralização da produção e do consumo, profundo combate à destruição ambiental e à sociedade fóssil dependente em que vivemos.

O golpe parlamentar não produziu o caudal necessário para um golpe militar e nem a corporação o quer, pois não tem nem a estrutura para aplicá-lo tampouco o ethos intervencionista do corpo no passado. Tampouco seus herdeiros e defensores.

A crise, no entanto, produz janelas de oportunidade para que nossa ação permita um ganho de espaço parlamentar e de debate pela e para a esquerda.

A não ser que o medo nos domine.

Duas coisas (ou mais) sobre os recentes focos de ataque de Bolsonaros a Boulos

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  1. Tem coelho nesse arbusto.

  2. Bolsonaros atacam um candidato que segundo o Datafolha com 1% de intenções de voto e 12% de rejeição, por quê?
    Primeiro que a rejeição de Boulos rima com o teto clássico da extrema-direita, ou seja, quem rejeita Boulos rejeita a maior parte da esquerda, significa que há uma enorme possibilidade de crescimento.
    Segundo que Bolsonaro oscila entre 15% e 17% (Oscilando de 3 a 7% acima do texto clássico da extrema-direita, muito pouco ainda) e tem uma rejeição de 31%, e nem começou a propaganda de TV, ultrapassando o limite do razoável, há cenários, conforme a pesquisa CNT/MDA de março, em que Bolsonaro aparece com quase 51% de rejeição.
    Terceiro que ainda segundo o Datafolha, 66% dos eleitores de Lula admitem votar em alguém indicado por ele, e isso deve ir pro PT e pros candidatos indicados e expostos em vídeo por Lula quando do dia de sua prisão: Boulos e Manuela.
    Ainda há um tremendo caminho a ser andado, mas a baixa rejeição de Boulos, o apoio indireto de Lula
    tende a abrir caminhos pro crescimento de ambos, especialmente o de Boulos, que tem menos máquina, mas parece estar com uma campanha mais consolidada.

  3. O súbito interesse dos Bolsonaro por Boulos amplia o alcance orgânico das postagens de Boulos nas redes, para o bem e para o mal.
    Alcance orgânico é “
    como suas publicações são veiculadas ou quem vê e se envolve com elas (por meio de curtidas, comentários e compartilhamentos)”, ou seja, cada comentário de eleitores do Bolsonaro amplia o alcance orgânico das postagens de Boulos e o súbito interesse ampliou o alcance orgânico em coisa de milhares (pelas curtidas, mesmo negativas, e comentários), isso faz com que os posts furem as bolhas da internet e incluem a presença em bolhas Bolsonaristas. E como ninguém controla a recepção das mensagens…

  4. A frase “há mais casa sem gente do que gente sem casa” tem um profundo peso no imaginário da população e sim, tende a ser um case de sucesso relacionado ao alcance da mensagem.
    Lembremos que várias vezes nos deparamos com artistas e jogadores de futebol de origem humilde lembrando da ausência de casa pros seus e de que “
    Pressão é um pai de família sair de casa às 7 da manhã e não saber se vai voltar com alimento pro filho, as mensagens que quando conquistam sucesso pensam diretamente na casa pra família e o velho e repetido “sonho da casa própria”.
    A frase continuamente repetida por Boulos de que a família muitas vezes tem que escolher entre pagar o aluguel ou comer tem profundo peso para quem vive em situação difícil pagando aluguel e tendo risco constante de perder a casa e ver sua família despejada. Como auxilio luxuoso dos adversários se apropriando de forma abjeta da tragédia no largo do Paysandu esse debate se amplia e ganha mais e mais prioridade no debate político para as eleições.

  5. O lado extremamente negativo é que precisaram duas tragédias para que debates caros ao PSOL e à esquerda conquistassem espaço no debate político cotidiano. Marielle e as vítimas do incêndio na ocupação não sofreram por nada, é nossa tarefa levar esse debate a fundo, pois há espaço para disputarmos os signos representados a aqui junto à sociedade.

  6. O ataque dos Bolsonaros tem sentido, resta apreendermos qual e avançarmos a partir dele.

Polifonia pra todo mundo poder brilhar num cântico

Amanda-Moraes-Pingo-Negro

Eu não preciso me filiar ao PCdoB pra defender a Manoela de ataque de Bolsominions, nem achar o PT o último biscoito do pacote pra defender Lula de um processo obviamente viciado, não preciso sequer achar que Lula é honesto.
Também não preciso ignorar todas as críticas que fiz ao PSOL, ao Boulos, ao MTST, à Luciana Genro ou à US porque estou voltando ao PSOL e também para apoiar a chapa Boulos/Sônia Guajajara.
É possível militar politicamente sem se posicionar de forma acrítica, tampouco com uma criticidade que ignora defesa de valores mínimos e do óbvio: Estamos mais próximos entre nós do que entre nós e Alckmin, Doria, Temer e Bolsonaro.
 
Thompson e Perry Anderson se porravam, tem livro inclusive com uma pancadaria do Thomopson no Anderson, e não eram sectários entre si.
David Graber é um puta anarquista e defendeu Corbyn dos ataques feitos pela direita do Labour Party ao líder de esquerda do Labour que afinal tornou-se líder do partido.
Leio e respeito pra caralho a posição da FAG, leio a revista do MES sempre que posso, discordo pra cacete do morenismo como um todo, mas respeito os companheiros morenistas.
Não sou puro, nem líder, nem acima da média, apenas estou dizendo que nossas discordâncias PRECISAM ser dirigidas para a construção do todo e não pra destruição da parte.
Que nossa polifonia se transforme num acorde perfeito maior com todo mundo podendo brilhar num cântico e não que seja a fragmentação que analistas enxergam, em vez da diversidade.
Nunca acreditei na fragmentação da esquerda por entendê-la diversa, não me façam passar a acreditar.
Nossos valores se reuniram, se remontaram,a empatia que o arbítrio forçou pode ser a forja de uma unidade sem uniformidade que nos fará retornar coletivamente ao protagonismo no cenário político brasileiro.
A construção de nossos núcleos e grupamentos não precisa devorar a construção do outro, disputar não precisa ser destruir.
A execução de Marielle a prisão do Lula ensinaram a todos nós uma valiosa lição, vamos aprender?