Apropriação cultural, racismo à brasileira e piração branca mancham ideologias e formações acadêmicas.

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À minha maneira eu sempre fiz parte da luta antirracista, sempre, desde sempre, foi sempre um elemento fundamental inclusive para meus estudos de história e sociologia da cultura, quando cursei ciências sociais.

Estudei bastante escravidão, muito, tentei ler o máximo sobre racismo, só parei quando as circunstâncias acadêmicas me guiaram por outros caminhos, envolvidos em outro pedaço da história que sempre estudei, que foi a Coluna Prestes.

Li textos políticos da quarta Internacional ao anarquismo, passando por textos maravilhosos do SWP inglês tratando da íntima relação entre capitalismo e racismo.

Participei de movimentos sociais de luta antirracista, mesmo sendo branco e com uma certa sensação de estar no lugar errado por fazer parte da etnia que oprime negros desde sempre, mas fui aceito e por isso participei, e sempre tangenciei e fiquei de olho no debate, porque é fundamental e necessário.

Visões da Liberdade”, “Cidade Febril”, “Trabalho lar e Botequim” de Sidney Chalhoub; “Revoltas escravas no Brasil” de Joaquim José Reis e “Negociação e conflito” dele e do Eduardo Silva; “As Camélias do Leblon” de Eduardo Silva, tudo isso me ajudou a ter um bom cenário sobre o processo de formação da sociedade brasileira a partir da escravidão como base formadora de uma estrutura cultural racista.

O debate sobre apropriação cultural eu leio pelo menos desde 2007.

Inclusive percebi a relação com a mesma categoria a partir do conceito de Representação do Chartier e entendi que esse debate permeia o que Joyce Appleby, Lynn Hunt e Margareth Jacob escrevem na introdução de “A Telling the Truth about History”:

A maior parte dos norte-americanos aceitou uma única narrativa da história nacional como parte de sua herança e esta narrativa é tratada como objetividade e essa objetividade reclamada foi usada para excluir grupos inteiros de participação plena na vida pública do país.”

Serve pro Brasil e serve pro debate em torno da apropriação cultural e em especial sobre como brancos, inclusive, pasmem, intelectuais brancos, estão reagindo a este debate.

E não, não vou nem falar da questão da jovem branca que relatou uma suposta agressão feita a ela por uma negra porque ela usava turbante.

Isso foi parte de um processo de extrema tristeza com o teor dos textos, subtextos, falas, colocações e reclamações de pessoas brancas, muitas como formação universitária de porte, doutores inclusive, que me parece que o episódio que sequer se sabe se foi real, foi apenas um catalisador de um urro de parte da população letrada branca brasileira contra o que eles consideram um absurdo: A negativa pelo menos textual de que são senhores absolutos de toda a cultura.

Como assim apropriação cultural se a cultura circula e influencia a todos? Perguntam alguns.

Se apropriação cultural não pode porque usam calças se calças são invenções europeias? Vomitam outros.

O que tem em comum as duas perguntas e a maioria dos absurdos que lemos vindos de gente branca supostamente intelectualizada, informada, militante, libertária,etc? Ignorância, e uma ignorância por opção em um mundo de fácil pesquisa e apreensão de saber.

A maioria dos intelectuais e militantes brancos ou não pesquisou ou se contentou com o básico a respeito do debate sobre apropriação cultural.

Pior, bastam exemplos escolhidos a dedos da estupidez militante de alguns elementos dos movimentos negros e indígenas que partem pro ataque individual pra combater um processo, e um debate, que discutem o sistema, para que os intelectuais e militantes brancos se sintam satisfeitos em jogar todo o debate pro lixo, toda a militância pela janela.

Senso crítico transformado em senso comum? Tá tendo.

E por que?

Poderia dar inúmeras explicações, mas racismo organiza todas.

Por que racismo explica todas essas manifestações?

Porque gente com capacidade cognitiva pra ser professor universitário, e militância de esquerda ou liberal de fôlego e muita leitura e ferramental analítico complexo tá ignorando todos os intelectuais negros, todas as manifestações teóricas negras, brancas, indígenas e europeias a respeito de apropriação cultural ou tudo o que é similar a ela e perambula na academia para sustentar que aquela utilização plena das culturas a seu bel prazer branco é direito inalienável, foda-se se o debate feito pelos movimentos negros tá cagando pro uso individual e apontando um fenômeno sistêmico de opressão.

De Djamila Ribeiro falando em apropriação cultural a orientalismos do Edward Said; de Chartier a Joyce Appleby; de Ginzburg a Benedict Anderson passando por todos os historiadores brasileiros que falam em cultura, tudo isso é lixo diante da necessidade atávica de exemplos ruins que vão de Beatles a calça comprida, além de ressuscitarem “aculturação” como palavra válida (Deus meu!) para sustentar que “apropriação cultural é bobagem!”.

Tudo está servindo para que manifeste e resguarde o privilégio branco de a tudo utilizar, inclusive simbolicamente, mesmo quando este uso não está sendo atacado, apenas está sendo informado que a sociedade branco normativa e seu capitalismo se apropria de elementos culturais de outras culturas não hegemônica para seu usufruto e lucro, ressignificando estes elementos, colocados anteriormente como pejorativos até que o uso branco os resgatasse do domínio das classes “inferiores” ( talvez também “perigosas” a partir do que se lê em Chalhoub) e estabelecesse um uso validado pela cultura dominante.

Parece difícil de entender?

A mim não.

Perceber a apropriação cultural impede branco de usar turbante e índio de usar calças? Não me parece.

Brancos são perseguidos por usarem turbantes? Se no caso de UMA PESSOA BRANCA supostamente perseguida se criou tanta polêmica eu acredito que se fosse um fenômeno realmente concreto, que possuísse mais que UM caso físico e no máximo centenas de casos em redes sociais onde os debates caem pra essa lama, como se todos os debates em internet e em redes sociais não fossem de baixíssimo nível, acho que o Jornal Nacional teria especial de trinta minutos, não?

O fato é que as exceções ao debate viraram o debate em si na ótica das pessoas brancas e essa lente faz um enorme sentido: Ela é um alarme de que quando privilégios são atingidos tudo ganha outras cores.

O que dói é que essa gente sequer se toca que reproduz opressão com seus chiliques lacradores e desinformados, ofendem, reduzem mais ainda a suposta civilização que dizem defender.

E ignoram trabalhos sérios feitos por críticos e acadêmicos a respeito da apropriação cultural do samba por parte da classe média branca carioca, que deu em Bossa nova inclusive, ou do funk que seguiu o mesmo caminho, de marginal a herói e símbolo da cultura brasileira.

É só perceber o samba, analisar o samba e sua absorção pela classe média e elite branca pra sacar o que é apropriação cultural, não dói, não mata.

Quer outra música? “Vá cuidar de sua vida” de Geraldo Filme, gravada também por Itamar Assumpção em Pretobrás I, ela é um desenho musical da apropriação cultural do samba, da capoeira e da religiosidade afro-brasileira, a partir dali fica facílimo entender.

Duvida?

Lê ai:

Vá cuidar da sua vida
Diz o dito popular
Quem cuida da vida alheia
Da sua não pode cuidar
Crioulo cantando samba
Era coisa feia
Esse é negro é vagabundo
Joga ele na cadeia
Hoje o branco tá no samba
Quero ver como é que fica
Todo mundo bate palma
Quando ele toca cuíca
Vá cuidar…
Negro jogando pernada
Negro jogando rasteira
Todo mundo condenava
Uma simples brincadeira
E o negro deixou de tudo
Acreditou na besteira
Hoje só tem gente branca
Na escola de capoeira
Vá cuidar…
Negro falava de umbanda
Branco ficava cabreiro
Fica longe desse negro
Esse negro é feiticeiro
Hoje o preto vai à missa
E chega sempre primeiro
O branco vai pra macumba
Já é Babá de terreiro.

Portanto quando vocês demonstram esse grau de ignorância coletiva pra justificar que se mantenha a apropriação cultural e silenciam o debate como um todo, escrotizando inclusive grandes intelectuais negros, e muitos brancos também, vocês apenas reproduzem um racismo silencioso e encubado no meio da alma branca da sociedade brasileira que t[á tão enrustido que não é enxergado.

Vocês escrotizam o que negros gritam há décadas, cantam e dançam, produzem na universidade, discutem na música, nas artes plásticas, na poesia, nos debates, na militância e tudo porque o privilégio de a tudo absorver por parte de uma elite branca é absoluto na cabeça de todos.

Quando vocês ridicularizam um debate sério vocês silenciam toda uma militância, toda uma luta étnica.

Talvez porque a maioria de vocês jamais viveu algo que era desprezado por ser do subúrbio virar chique porque foi pra zona sul do Rio. E tudo o que você viveu vendo ser chamado de tosco e brega virou chique porque outros passaram a fazer iguala você em endereços mais próximos do centro da cidade.

E isso ocorre sempre no Rio, por exemplo.

O trem do samba era basicamente algo que amantes do samba, suburbanos em sua maioria, curtiam, hoje é um evento que gentrificou-se e afasta as pessoas pobres que antes iam até o evento, a cada dia um evento que exclui os próprios moradores de Oswaldo Cruz que antes iam em peso e hoje não conseguem pagar a cerveja que vende ali, na maioria pelo contrário, trabalham vendendo a cerveja, servem os zona sul quando antes se divertiam.

Mas as pessoas tão intelectualizadas, brancas e lindas não percebem, porque vivem isso de longe, apenas leem a respeito e quando leem algo que invade sua zona de conforto… ai amigo, te segura porque o chilique é alto.

As esquerda e o Teatro dos Vampiros

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Entre as certezas e as pseudo-problematizações (que não problematizam porra nenhuma porque ignoram uma caralhada de detalhes do que pretendem analisar) o que mais me impressiona é a percepção que a esquerda tá atônita e imóvel.

A conjuntura tá mais confusa que roteiro do David Linch, aponta pra uma puta merda em torno da consolidação de um ethos autoritário e tal e coisa e carambola, com esgarçamento de pactos sócio-comunitários de solidariedade e tal, mas há brechas visíveis de enfrentamento a isso tudo, inclusive a Temer e sua gangue. Janot faz movimentos, Carmen Lúcia idem, mas esses movimentos isolados não levam a nada sem pressão popular.

Há, claro, gente nas ruas, especialmente no Rio, há o quadro do ES onde a esquerda não interfere no âmbito do discurso, não disputa discurso, mas pouco mais que isso.

No RS e RJ por mais que o funcionalismo fosse à rua e apanhasse da PM foram extintas autarquias e secretarias chave e vão ser privatizadas em nome do ajuste fiscal a CEDAE e a CORSAN, que acho que são o carro chefe da onda nova de privataria, a água,.

Faltou o resto do povo, faltou mais gente, faltou ir na direção, e não contra, o povo que foi às ruas e não era exatamente o povo mais reaça.

Mas a esquerda optou pela relação de consciente imobilidade, acreditando em uma salvação via eleição em 2018, como parou tudo acreditando em uma vitória em 2016, que não veio.

As análises de conjuntura não contemplam a conjuntura, as realidades, não analisam pesquisas, nada.

Temos uma séries de sinais, signos, representações e discursos em confronto e em curso, confrontos esses que por vezes dão vitórias à esquerda.

Familiares de PMs ocupam a frente de quartéis e parte da esquerda preocupa-se mais em “denunciar” as contradições existentes entre a repressão às ocupações de estudantes e a tolerância com a de familiares de PMs do que a de colocar de forma séria como a direita usa as táticas da esquerda em nome de suas necessidades e o quanto esse debate deve ser feito para que essa direita não criminalize os atos da esquerda.

Ou mesmo dialogando com esses familiares e seus amigos e parentes sobre o quanto o PM ali, que é representado pela família, é tão humano e tem necessidades quanto o estudante e que não, o estudante não é vagabundo, apenas está lutando por suas necessidades assim como eles pelas suas.

Precisamos apoiar os PMs e suas manifestações? Não sei, hoje eu não apoiaria, mas mostrar a seus parentes o quanto eles são injustos com quem luta do outro lado é um caminho de pelo menos criar grilos nas cucas.

As denúncias a fascistas e racistas, misóginos e homofóbicos às empresas, a própria denúncia de empresas por misoginia, racismo,etc tem criado marketing negativo e demissões de preconceituosos, cria um ambiente onde se vê que a punição pode ser pecuniária e de imagem, onde quem sofre as punições tem a oportunidade de refletir, e empresas idem.

Essa tática é uma tática que vem dando pequenas vitórias às lutas anti opressões, mas o que faz parte da esquerda com elas? Reclamam que elas por vezes dão visibilidade aos reaças.

A mesma preocupação não aparece quando se fala em Bolsonaro ou Bolsominions.

Blocos de carnaval por debate entre os foliões de fé, aqueles que vão sempre, abolem cantos racistas e homofóbicos e misóginos de seu repertório e em vez de reconhecermos isso como avanço, que poderia se espalhar para outros blocos a partir do momento em que foliões se incomodam e discutem isso com seus pares, parte da esquerda acha muito ruim um tal de pós-modernismo que só existe no discurso dela.

As análises de conjuntura passam pelo capitalismo, mas não falam da economia e suas mudanças com Trump; Passam pelo Superbowl,mas não fala da cultura pop cada vez mais combativa em relação a direitos humanos,etc; tratam da economia e auditoria da dívida, mas não trabalham com a capilarização do debate sobre economia, ecologia e necessária descentralização do poder como um todo.

Perde-se mais tempo ensinando padre a rezar missa sobre a Globo que perceber que um determinado debate feito a partir da globo penetra em camadas de discurso e cultura popular que nunca tivemos como fazer antes (Além de deixar claro que existem realizadores até na Globo que confrontam determinado discurso conservador).

Enfim, estamos em um momento de imobilidade estéril, broxa, de uma esquerda que se pretende super intelectualizada, mas no máximo é bibliófila e papagaio de autor, que pouco se encoraja pra um debate teórico de fôlego, que inclua ortodoxia e heterodoxia, que vá a fundo na análise do real e na busca de organização.

A esquerda é espectadora de uma luta política onde caminhamos pra uma instrumentalização do autoritarismo a partir da louvação da influência do exército como polícia cotidiana e lastro moral da sociedade.

Em uma perspectiva que analisa Hobbes como pai do fenômeno de entrelaçamento dos conservadores com a violência, autoritarismo e repressão em nome da manutenção da ordem: A esquerda até sabe que o homem é o lobo do homem, mas esquece que ele também pode ser o bom selvagem, e ai compra o discurso do Leviatã, largando o pacto social na mão.

A esquerda comprou o discurso hobbesiano, mas como ele entra em confronto com uma série de elementos de seu próprio ethos ela entra em tela azul.

E nesse quadro é tolice esperar vitórias eleitorais e temeridade não se preparar pro pior.

E em uma realidade onde reforma do ensino médio empala a disciplina de história, chega a ser irresponsável esperar 2018 para resistir.

Há tempo de tentar diminuir o prejuízo que pode levar a sociedade a um quadro de perda de décadas de conquistas e de avanço no discurso anti-conservador, mas para isso esse tempo precisa ser usado.

Esse é o nosso mundo, já dizia Renato Russo, o que é demais nunca é o bastante e a primeira vez é sempre a última chance.

Cárcere, economia, SPC e outras histórias

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População carcerária vivendo em masmorras é um problema para além da condição de vida dela, que já é um problema gravíssimo e o mais grave de tudo.

A população carcerária vivendo em masmorra TAMBÉM é um problema econômico. E ninguém, nem a esquerda nem a direita, nem o centro e nem os raruchos, discute programas de transformação das prisões e uso da massa carcerária em medidas de retomada da economia, que aqueceria como um todo com programas sustentáveis, ampliando a absorção também da massa desempregada livre nestes programas.

Um exemplo? Programas de educação pra presos que incluíssem do ensino fundamental ao ensino universitário, absorvendo o exército de reserva de mão de obra da área da educação, que é enorme, dando chance para egressos da graduação e mestrandos ou mestres, dando rodagem a futuros doutores e professores universitários. Isso permitiria que ao sair da cadeia o egresso do meio prisional pudesse alterar sua vida, conseguindo empregos com maior qualificação, deixando de ser economicamente inútil pra ser economicamente ativo.

Mais um exemplo?

A população carcerária poderia fazer parte de programas de transição da produção de alimentos, da transição energética com produção subsidiada de painéis solares para serem instalados em órgãos governamentais, escolas e hospitais e posteriormente vendidos a preços também subsidiados à população.

A população carcerária também poderia ser qualificada para a construção ecologicamente sustentável, com aprendizado e execução de construção baseadas na permacultura e outras técnicas de produção que poderiam ser usadas para, por exemplo, mudar a cara das periferias, melhorando a qualidade de vida da população pobre e reduzindo também o grau de impacto ambiental das construções “tradicionais”, além de produzir casas melhores, mais seguras para quem pouco tem.

Estamos falando de economia ou de direitos humanos? De ambos.

A barbárie é irracional e busca um processo de satisfação da crueldade humana em forma de supostas resoluções que nada resolve, não à toa os defensores da barbárie são também defensores de um estado mínimo em grande parte de sua estrutura, exceto a que pune e espanca, mata, a estrutura policial do estado.

Fã de Hobbes, sem nem saber, essa massa defensora da barbárie usa o medo, porque o sente, como base estrutural de seu ethos.

Isso não nasceu em árvore, é fruto de uma retomada Hobbesiana da direita estadunidense pós-Clinton, e para vencer Clinton, usando o medo do outro como plataforma para reconquistar Washington. Não foi muito difícil com um caudal de ódio racial naquele país, especialmente na parte sul.

O interregno Obama pareceu reduzir o peso desse ethos, mas não, apenas o ampliou sustentando-se em parte da mídia e no fenômeno Trump, mesmo que agora essa retomada Hobbesiana a partir de Trump perca o controle de sua criatura para o Leviatã desperto na população.

Nada mais sintomático que após a eleição do primeiro negro à Casa Branca seja eleito um branco rico, racista e misógino.

Esse ethos se espalhou América afora, não à toa, e com intervenção das mídias internacionais e nacionais como a Fox e a Globo, que não ficam nesse ethos apenas por interesse econômico e por seus proprietários,mas também por uma rigorosa seleção de trabalhadores alinhados com essa percepção.

O resultado é o aumento da defesa da barbárie, mas isso sequer é assustador em si, assustador é a ala liberal e a esquerda nada fazerem de concreto para derrubarem isso além de discursos abstratos sobre direitos humanos.

Porque não basta defender os direitos humanos ou reagir às suas violações, é necessário transformar o quadro do sistema que produze a barbárie.

E pra isso é preciso mexer na economia, no sistema prisional, na educação e na saúde par além de pautas genéricas e grandes citações de Lênin ou Bakunin.

Sim, é preciso ir pra prática.

Fala-se da auditoria da dívida, mas nãos e fala da recuperação de crédito para a população através da resolução de um enorme problema que é um terço da população estar no SPC.

Sim, é questão de direitos humanos recuperar o crédito para a população pobre. É fundamental um programa econômico que permita uma retomada controlada da capacidade de compra pelos mais pobres. É possível que o governo assuma as dívidas e promova um pagamento a juros subsidiados por parte da população, nem que exija contrapartidas como uma quarentena para a retomada de crédito e/ou serviços comunitários por período pré-determinado.

Sim, sabemos que se a população fosse banco esse projeto já teria saído do papel, mas a ideia não existe à toa, e faz parte do micro crédito desenvolvido na Índia e que jamais saiu do papel aqui. Com uma boa margem de negociação até os bancos gostariam da ideia, pois recuperariam crédito, grana, merréis e terceirizariam o serviço da dívida ao governo.

Não é nada revolucionário, mas por que nem a esquerda propõe isso a vera pra população?

E a população que não tá no SPC? Organiza um sistema de valorização de sua adimplência com ferramentas de crédito a juros subsidiados via BNDES para empreendedorismo individual, ajuda na construção de plano de negócios e meios de permitir que estas pessoas tenham meios de ampliarem sua capacidade de produção e evolução econômica. Difícil? Não, muito mais simples e fácil que fingir que financia a economia com empréstimos de pai pra filho pro Eike Batista.

Lembra do que falei sobre a massa carcerária? Pois é, esse sistema de valorização da adimplência pode ser utilizado também como ferramenta para movimentos de transição energética e/ou produção de alimentos com descentralização de comida que é parte boa do impacto da produção no aquecimento global e na ausência de soberania alimentar.

Por que não usar o sistema de valorização da adimplência pra ampliar a rede de instalação de painéis solares ou de comércio de produção agrícola orgânica de de produtores locais, tudo a preço subsidiado? Por que não ampliar a rede de fornecimento de educação profissionalizante ou de cultura?

Em dois planos falei de medidas que permitiriam alguma recuperação econômica e fariam impacto na vida da população como um todo e que governos podem fazer e cuja realização mexeria com a economia de cabo a rabo, porque a esquerda com toda sua intelectualidade não defende coisas assim nos programas de governo, na Tv, nos debates e apenas reage aos Bolsonaros e Crivellas como se estes fossem monstros do Scooby Doo?

Combater o medo com arrogância dá em Trump, que tal combater o medo com propostas?

A Esquerda, Foucault, o espantalho “pós-moderno” e a preguiça intelectual

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A esquerda em geral é tão conservadora, mesmo sendo a favor de casamento gay, aborto e o escambau, que ignora que NÃO E-XIS-TE pós-modernismo e que grande maioria dela sequer consegue conceber quem é Foucault.

Pós modernidade não é uma escola de pensamento e não, a esquerda não entendeu merda nenhuma de Foucault e ouviram o galo cantar e não sabem onde.

Mas a esquerda sequer lê qualquer porra que problematize essa lógica de espantalho em torno do “posmod” porque bloqueia.

Mesmo se eu for considerar o Foucault um autor sistemático, e há controvérsias, eu não tenho material a partir disso pra dizer que há um pós-modernismo a partir dele, no mínimo que há vários pós-modernismos.

Aliás, bora combinar que só a base da existência de modernismos e pós-modernismos parte de pressupostos estanques, ou seja, na divisão arbitrária e construída em torno de uma percepção da História como fruto de momentos e rompimentos, quando há, no mínimo, controvérsias a respeito e há, pelo menos, uns cem anos se entende que a História é múltipla, forma-se por superposição de elementos que duram tempos diferentes, e não só a partir de Braudel.

Ou seja, a gente discute um modernismo ou uma modernidade e um pós-modernismo ou uma pós-modernidade, como se o paradigma que as constituiu fosse algo que tem um tempo definido e delimitado, organizado em ondas que vão e que vem construindo um tempo novo a partir de rupturas.

E o babado não é por ai, pelo menos como eu enxergo e boa parte da comunidade de História.

Há elementos da tal pós-modernidade já na Grécia helênica, ou em Atenas (Vou evitar usar os termos Antiguidade ou idade média e moderna, porque essa divisão de tempo histórico é em boa parte causa das confusões, e só serve enquanto ferramenta didática).

Buckhardt e Nietzsche já discutiam algo nesse sentido.

A Escola de Frankfurt faz um combate ferrenho à ideia de história teleológica, o paradigma do avanço do progresso e da razão.

Antes de todos eles o próprio Hobbes é um anti-iluminista, e dentro das lógicas que constroem a existência do pós-modernismo seria um homem anti-razão e supremacia dela, o que o tornaria par de um eixo da criação de uma resistência à modernidade nos pós-guerra.

Hobbes não colocava que o pacto social nascia da razão e da busca dela, mas do medo e da busca de proteção.

O que se constitui com Foucault em torno do que se naturalizou como “pós-modernismo”, não tem nada a ver com o que também se chama de pós-modernismo em Hayden White.

Isso pra começar a discutir seriamente essa coisa, essa ânsia em taxionomizar o pensamento pra ele caber em uma narrativa onde há uma esquerda que quer destruir a revolução.

Outro aspecto que me incomoda na classificação da esquerda que divide o plano ideológico entre a boa esquerda e os pós-modernos, e para isso inventam um pós-modernismo (e digo inventam porque reúnem cabrito com avestruz pra dizer que todos são seres vivos e portanto justifica serem tratados como iguais) para atacar um pós-modernismo que cola basicamente em qualquer coisa que se move.

E nesse meio tempo tem uma esquerda que usa isso para atacar feministas, movimento antirracista, movimento trans e LGBT porque esses movimentos, com uma enorme dose de razão, ganham força e fôlego com a presença de Foucault e sua produção que discute as opressões, desde a Microfísica do Poder até o debate em torno da loucura, que sustentou boa dose de gente que embasou teoricamente a luta antimanicomial, feminista, trans, LGBT, etc..

E sim, claro que nesse meio tempo e campo existem quem diga que o problema não é a luta de classes, mas também tem quem é colocado como pós-moderno e que não, não nega a luta de classes, inclusive a insere dentro das lutas dos oprimidos, lembrando que um negro pobre não é iguala um negro rico, e uma negra pobre menos ainda que uma mulher branca também pobre ou mesmo que um negro tão pobre quanto ela. Que a luta de classes também tem opressões transversais e tals e coisa.

E ai um monte de gente da esquerda ignora essa complexidade e chapa quem tala em cis gênero e transgênero como “pós-moderno” ou quem fala em ecologia como “pós-moderno”, quando não faz pior.

O que se lê de bobagem sobre pós-modernidade não tá no gibi.

Primeiro que é um puta espantalho da esquerda, que criou essa categoria guarda-chuva pra colocar tudo o que foge ao controle de alas A, B ou C do bonde.

Segundo que nego generaliza tudo em nome da classificação em “pós-modernidade”, porque não existe sequer a tal pós-modernidade, existem trocentas reações a uma crise do paradigma da modernidade que já se inicia no fim do século XIX com Nietzsche, e não só, e ganha um fôlego maior no pós-segunda guerra.

Mas já nos anos 1930 havia a crítica ao paradigma da modernidade com Benjamin e a Escola de Frankfurt.

Nos anos 1950 em diante trocentos pensadores fizeram contribuições que discutiam o papel de Marx e dos marxismos, e não só deles, na construção de uma tradição de pensamento que era estanque e tinha o progresso infinito como eixo, uma ideia que a humanidade e suas ideologias seguiriam o passo da razão infinitamente rumo a uma libertação “natural”.

Essa lógica, esse eixo, ficou em crise pós holocausto, ou melhor, ampliou sua crise que já se iniciara pós colonização da África no XIX e as crises econômicas de 1870 a 1930.

Daí surgiram trocentas tendências de pensamento, trocentas, inclusive muitas marxistas ou próximas à anarquia, que discutiam a mecanização do pensamento de Marx; a ideia de economia de recurso infinito; o machismo, misoginia e homofobia da esquerda; o produtivismo como arma da destruição ambiental, etc.

Isso tudo é colocado como pós-moderno.

Pior, jogam Foucalt nessa vulgarização do pós-moderno como se Foucault algum dia fosse concretamente contrário à ideia de luta de classes, quem diz isso inclusive ignora os debates dele com Chomsky, onde Chomsky acaba sendo meio Rousseauniano e ignora a luta de classes e é corrigido pelo francês.

Em todas as áreas de pensamento existe influência de Foucault e de forma absolutamente distinta entre elas, e não, não mesmo, Foucault não é hegemônico em nenhuma área, nem sociologia, nem antropologia (Essa tá mais próximo do debate com Deleuziano, que se reivindicava de esquerda), nem história ou filosofia.

Em Filosofia o peso de Spinosa é enorme pra ser ignorado e atribuída a hegemonia de Foucault.

Em História a virada linguística e a ala Foucaltiana existe, inclusive discutindo o status científico da disciplina, mas tá longe de ser hegemônica.

Pensadores enormemente importantes pra história como Chartier, Thompsom e Ginzburg são colocados como pós-modernos, sendo que dentro da disciplina são exatamente os que mais combatem quem define e defende que existe uma pós-modernidade.

Ai eu leio que existe uma pós-modernidade e ela toma TODA a sociologia, filosofia e ideologias políticas pós-Foucault.

Jura? Tem de avisar ao pessoal.

Não é pouca a galera que fala em Bookchin como negador da luta de classes e pós-moderno ou Thompsom, e um foi marxista e avança a partir dele de forma séria, sem negar a luta de classes, e o outro foi marxista até morrer.

E de novo, tudo isso em nome de uma crítica vulgar, organizada em torno de uma divisão arbitrária do tempo histórico.

E ai eu me lembro do que escreveu um amigo, o povão tá nem ai pra essa punheta, ele vive essa gama maluca de temporalidades cotidianamente, em sua própria formação enquanto classe e sua própria percepção cultural do mundo, vivendo elementos que remetem à antiguidade, idade média, idade moderna e ao contemporâneo, e vivendo, construindo, se construindo e lutando.

Nos movimentos e bairros, periferias, o povo tá se organizando enquanto proletário do XIX, cis gênero feminista ou transgênero feminista, LGBT antirracista e libertário, rapper comunista (E muitas vezes reprodutor de machismo e opressor pra caráleo) e tudo fluindo nas contradições próprias do cotidiano.

E pra mim funfa muito pouco ou nada essa luta fratricida sobre quem tem a razão e onde encaixar o pensamento.

Existe um profundo debate sobre relativismo, pós-modernismo e o limite político disso tudo, não é uma tese ou uma categoria guarda-chuva, uma ferramenta espantalho, que resolve.

Aliás, me permitam uma crítica: A gente escreve de próprio punho e via de regra é surpreendido com algo que é extremamente antipático, pra não dizer autoritário, que é o “militante” meter uma tese, um link, e dizer “leiam ai”, sem argumentar uma linha, apenas agindo pra tornar isso um argumento de autoridade.

Depois vem conclamar respeito e só piora, porque por calhamaço com link e dizer “leiam ai a luz” não é respeito, é condescendência.

Se for pra por nota de pé de página com autores e onde escreveram o que complica pra cacete o debate, porque nem todo mundo tem acesso a autores e tempo pra ler, etc.

O que eu escrevo aqui é de cabeça, dois livros me organizam bem nesse debate “Relações de Força” do Ginzburg e “O Desafio Historiográfico” de José Carlos Reis” e sim, estou citando porque fico profundamente incomodado com o lance da Tese como argumento de autoridade.

Pareceu-me sempre uma condescendência arrogante, parece que existe uma sugestão que estamos falando de orelhada, e não tem essa.

A crítica que eu faço não é à indicação de leitura, mas ao uso de uma tese como argumento, uma tese escrita por outrem, sem que a própria pessoa escreva seu argumento. Ai é argumento de autoridade, e não indicação de leitura.

Se for pra fazer isso eu listo uma bibliografia e ligo o foda-se, e tô aqui escrevendo e usando meu tempo pra isso (Jogar a tese como argumento de autoridade inclusive é desrespeito ao uso do tempo do outro para estabelecer um debate e um diálogo a partir da produção de argumentos), porque não quero substituir meu ponto de vista, por mais que indique suas fontes, por uma produção que não é minha.

Colocar uma tese como proxy do próprio argumento é ignorar a leitura do outro, não se expor com sua argumentação a partir das próprias leituras, e dos riscos da produção de opinião, se indicar que o outro não leu ou sua argumentação não tem base.

Ler é obrigatório, e por isso, e não por jactância intelectual, que eu citei os autores.

O que eu, pelo menos, argumentei é que não existe apenas um pós-modernismo, e que a própria divisão temporal entre modernismo e pós-modernismo é arbitrária, ou seja, reflete processos que atravessam essas divisões cronológicas e por isso eu não acredito que exista um pós-modernismo, inclusive acho que poucos se reivindicam pós-modernos para que exista algo assim.

Vou mais longe, não acho que exista nenhum pós-modernismo, existem várias lógicas e escolas de pensamento e tradições que refutam o paradigma da supremacia da razão, da neutralidade da ciência e da ideia de progresso teleológico.

Isso, essas várias vertentes, não produzem uma coisa chamada “pós-modernismo”, no máximo produzem vários “pós-modernismos”.

Ginzburg quando em “Mitos, emblemas e sinais” estabelece o paradigma indiciário como o campo de conhecimento do conhecimento historiográfico, rompe com a ideia de ciência como o campo galileano por natureza, se a gente pegar isso sob o tacão das análises que classificam a produção teórica que rompem om o paradigma da neutralidade da ciência e da crise da razão ou mesmo da ideia de progresso teleológico a gente porá o Ginzburg como “pós-moderno”, e Ginzburg não tem porra nenhuma a ver com Foucault, mais, Ginzburg é na historiografia o anti-Foucault por excelência, inclusive ele é o “inimigo principal das correntes” Foucaultianas” na história.

Se a gente for pra política complica mais ainda.

 

Sobre o aquecimento global e o que ele produz: Pra gente ser feliz de 2017 em diante

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Se você não é parte da solução é parte da poluição

Sobre o aquecimento global e o que ele produz? Como escassez hídrica, refugiados do clima, guerras por água, extinções em massa?

Não, não é o capitalismo, é mais do que o capitalismo, é o produtivismo.

O produtivismo atinge todos os sistemas adotados desde o século XIX, sem exceção, seja o capitalismo liberal, o capitalismo nazi-fascista ou o socialismo realmente existente.

A ideia de progresso e do planeta como fonte de recursos infinitos, foda-se os resíduos do avanço da produção humana no meio ambiente, é comum tanto aos EUA quanto à URSS em grande parte do século XX e pós 1989 a todo o planeta.

Foda-se se com governos ditatoriais de direita ou esquerda, foda-se se com governos “democráticos” de direita ou esquerda.

Nenhum sistema fez PORRA NENHUMA para construir concretamente uma busca de reversão do avanço da deteriorização do planeta e dos biomas, pelo contrário.

Todos, sem exceção, avançaram na detonação do planeta e na ampliação da lógica de consumo de recursos até acabar, com todo o impacto que isso provoca, que vão da poluição ao esgotamento de solo, recursos hídricos,etc.

A URSS era mais poluente enquanto durou que toda a produção industrial estadunidense, que era, e é, poluente para caralho.

Então não, não é o capitalismo, é muito mais que o capitalismo, é um ethos moderno de progresso, progressismo, avanço irracional e exploração da terra como recurso infinito, que não existe.

É uma lógica da própria ciência econômica que caga solenemente pra finitude de recursos.

Enquanto tudo isso não mudar, inclusive toda a constituição da própria produção científica, especialmente na área de humanas, fica complicadíssimo discutirmos avanços e correções, sociedades livres e equilibradas com o planeta.

Culpar só o capitalismo é um escapismo sub-intelectual, é ignorar os erros dos próprios passos da grande parte dos sistemas ideológicos e produzidos enquanto política do século XIX pra cá.

O buraco é mais embaixo.

“Sustentabilidade” é balela, não existe isso enquanto o paradigma da produção e do consumo não forem radicalmente transformados.

E pra gente começar a discutir como transformar radicalmente produção e consumo não podemos parar no lucro, temos de bater também na lógica de comércio global, na própria ideia de progresso tecnológico e de comunicação, que depende demais da mineração, que é um troço que tá acabando com o planeta, e por aí vai.

Sim, o planeta precisa da gente repensando até nossa vida cosmopolita e comodamente sentada no convés da revolução dos transportes e comunicações pós século XIX.

E sim, a gente talvez seja mais vivo e feliz como planeta e civilizações com uma vida mais parecida com a de nossos tataravós.

Sim, é preciso reduzir a distância entre produção e consumo, reduzir o impacto dos transportes, dos combustíveis, da mineração, dos agrotóxicos, do lucro.

Pra isso é preciso parar com a fetichização do crescimento econômico e buscar o equilíbrio ecológico.

Difícil,né? Muito, principalmente quando a maior parte da esquerda dita revolucionária mundial ainda vive em tempos pré cambrianos e comemora crescimento econômico, uso de petróleo pra financiar educação,etc.

Sim, é utópico o que escrevo, mas entre o utópico e a extinção, que calcula-se que pode vir entre cem e duzentos anos à frente, acho que a utopia é uma boa aposta.