Agora falando sério…

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Eu queria poder construir a meu redor o sonho mais belo de todos e explicar que a Terra é um bom planeta e que tudo passará, mas não posso.

Queria poder cantar a cantiga bonita que se acredita que o mal espanta, queria poder deixar passar as derrotas antecipadas, a inexistência de bom senso que analisa processos em vez do insensato impressionismo superficial, queria superar o ranço que tenho do anticomunismo da esquerda liberal, que veste fraque no anticomunismo dos fascistas e os faz fazer trottoir mal escondendo o amor guardado pelo primeiro Dória que aparecer como única alternativa ao Bolsonarismo. 

Mas não posso.

Não posso porque hoje, mais que nunca, é preciso ter raiva. 

Porque a raiva dá para parar, para interromper, a fome não dá para interromper e a fome tem que ter raiva pra interromper.

Não é hora de ter a calma e a fleuma dos que se esquecem na teoria  o que abdicou do dia a dia e do concreto.

Se o movimento da vida não deixa que a vida seja sempre igual, o movimento das coisas não permite que as torres de marfim ainda insistam na suspensão da exigência de práxis para embasar ataques mal dissimulados.

É difícil discutir com cadáveres, mas é mais ainda discutir com doutos argumentadores que insistem que nada consegue derrotar a extrema-direita, principalmente a esquerda e que estamos todos na esquerda jogando truco no fim do mundo.

Também é difícil dialogar com quem nega movimentos visíveis dentro e fora da institucionalidade, o preço do Centrão, a contagem de corpos, os números de pesquisas e a popularidade de governo e presidente, que agora deixa de fazer sentido para quem há anos entendia que fazia sentido antes.

Porém o mais importante nem é exatamente essa tolice organizada, travestida de equilíbrio, mal amparada na face visível do ódio à uma esquerda que não abraçou programas liberais pouco progressistas no todo e que se mantinham numa busca de frágil sustentabilidade, vendendo terrenos na lua onde era necessário um programa de enfrentamento tanto ao neo-desenvolvimentismo anti ecológico quanto o fascismo galopante, mas se preferiu passear na sombra da voz das trevas mais abjetas por puro e cru antipetismo.

O mais importante hoje é uma ação prática, concreta, de enfrentamento ao necroliberalismo neo fascista, combater o imobilismo e a escrota ação de movimentos “progressistas” no patrocínio do imobilismo cravando derrotas antecipadas, ignorando processos internos, visíveis ou subterrâneos, de reconstrução e de avanço progressivo de formas de enfrentamento ao monstro que nos devora.

O automático enfrentamento ao necroliberalismo neo fascista é óbvio, mas infelizmente precisamos também enfrentar o não jogador “progressista” e nem é preciso ser um Narrador Onipresente usando o Benjamin para criticar o próprio uso do progresso como bandeira para entender o motivo: estamos morrendo.

O impeachment não é um processo dado, nada é, é uma necessidade e se é preciso explicar que ele não só é parte fundamental da luta e que tanto é pauta que obrigou Bolsonaro a comprar o Centrão, fodeu de vez. 

Também é fundamental entender o papel da citação a Marielle para além da preguiça conceitual de que Jair usa Marielle para reorganizar sua base. 

Dizer que Marielle só é citada por isso e não por ser de esquerda chega a ser um dupla ofensa, até tripla, ao bom senso, à inteligência alheia e à própria raiz do que sustenta Jair e sua base: o mesmo anticomunismo que veste fraque quando sai da boca de uma suposta “esquerda progressista”, liberal no talo, e que faz o diabo para ficar distante do resto da esquerda e atacá-la sempre que possível.

Em meio a uma batalha, porque política é luta, e ao enfrentamento que precisa ser feito ao fascismo de Jair Bolsonaro, dane-se com quem ele se junta para se salvar, quem se junta às hordas necro-fascistas para atacar a esquerda é inimigo igual.

Não dá mesmo para contar corpos, inclusive amigos, tempo, esforço e perder também tempo ouvindo babaquice de gente douta que se faz de idiota e despreza a inteligência alheia para ganhar seu troco de morador das nuvens ou de muros fétidos, ocupados por pássaros tropicais que resolveram acompanhar morcego.

Há provas convincentes de que tem gente que pensa e não vota no Boulos e sabe o lado que precisa ocupar para estar na batalha que precisa ser levada a cabo.

Preferir o lado que critica a esquerda não pelo que ela erra e faz, mas pelo que ela não tem como fazer, em nome de sei lá o que que agrada pastos e planícies de gente ou lerda ou babaca ou inútil ou tudo isso que tá confortável no seu lugar de fala que nada organiza é lamentável e nos dias de hoje não dá para proteger ou oferecer a face a quem quer que seja.

E sim, isso tudo ofende moral e politicamente, porque enquanto a esquerda tá lutando para juntar Lula, Ciro e FHC numa live, para dialogar com o campo democrático, mesmo com pregador no nariz, em propor saídas,  essa gente entojada com títulos que parecem não merecer age com uma capacidade de análise substituída pelo impressionismo mas vil para demarcar politicamente conosco, falseando o quanto nós, que estamos errando e acertando na luta cotidiana.

Somos a Geni desta porra.

Tem uma caralhada de coisa que a esquerda marxista, socialista, o caralho, erra, da formação de organicidade com gente avessa aos formatos dados em partidos ao diálogo com as forças progressistas, passando pela própria defasagem teórica de amplos setores com relação à luta indígena, ambiental,antirracista,etc, mas não, estar parada e não construir resistência e lutar pela condução de pautas não é um erro da esquerda.

Dói e cansa gente que lê lé com cré preferir o campo de nuvens do Dragon Ball Z para bater na esquerda, fingindo burrice em algumas horas,  e comparar uma produção de pautas com máquinas governamentais e parlamentares, parte da mídia, por omissão ou ação, e vasto contingente de financiamento de divulgação ilegal com a produção orgânica de comunicação que conta com mais mandatos de cerca de vinte parlamentares e uma vasta militância humana, pouco acesso à mídia e muito esforço, e que mesmo assim pauta o governo no congresso e fora dele, se insere nos discursos presidenciais,etc, para dizer que a Esquerda nada pauta, nada interfere e nada faz, no fim das contas. 

Porque isso é lorota, e não é crítica, é ataque. 

E é ataque porque faz esforço em ignorar desde as ações parlamentares aos movimentos de MTST e MST agindo diretamente em comunidades no país inteiro doando equipamentos de proteção individual, alimentos,etc, da APIB agindo para proteger os indígenas e resistir ao Bolsonarismo e os movimentos de comunidades e favela,s organizados de forma apartidária pro gente de esquerda, que se protegem e se politizam na mais profunda construção de consciência e atinge mídia,etc por um esforço sobre humano de ação orgânica.

Nem vou citar relatórios de inteligência de dados demonstrando que em todos os terrenos possíveis das redes sociais o Bolsonarismo perde para oposição, sem falar no combate múltiplo que obriga a construção de contra narrativas diárias pelo governo enquanto gente morre.

E citei as mortes em um dado final porque é o que mais irrita, e constrange, ter esse tipo de debates em redes sociais e fora delas: a nossa luta também é para informar a população, e com tudo o’que enfrentamos, estamos agindo e fazendo acontecer.

Tem gente morrendo, podemos chegar a milhões de mortos, e essa sub intelligentsia de zero práxis, coçadora de costas, babaca e arrogante prefere o ataque vil à esquerda, insinuando falta de luta e ação, incompetência quando apesar deles e suas Tábatas e Marinas conseguimos duramente por o arrombado do presidente da República na defensiva e tendo que negociar com o Centrão.

E sim, fomos nós,porque a agenda bolsonarista era o mar pros peixes da Câmara e isso mudou.

Tanto mudou que o que era de graça agora tem preço.

Agora falando sério… eu queria não falar nada que distraísse o sono difícil como acalanto, mas é preciso dar um chute no lirismo, um bico no cachorro , um tiro no sabiá porque não dá mais para ver a banda passar enquanto se espera que fadas sensatas nos salvem dos ogros e elas dançam a dança dos Reis da Ogrolândia.

E também por isso não farei o silêncio tão doente de vizinhos reclamar, porque enquanto houver espaço corpo tempo e algum modo de dizer não eu canto.

Bolsonaro e o limite do sub humano

Discutir qualquer coisa que reflita sobre o que ocorre hoje a partir da pandemia do Coronavírus é um exercício não só de percepção, mas também de estômago.

Não apenas para lidar com os aspectos mais dramáticos de uma pandemia que acomete o planeta, o transforma de forma definitiva e atua fortemente para termos milhòes de mortos, mas principalmente para lidar com a liderança tóxica de Jair Bolsonaro e a capacidade de suplantar os limites do mais baixo nível de humanismo, caráter e respeito ao outro.

Porque o que vimos hoje em dia não é mais apenas a manifestação de uma ideologia autoritária, mas a manifestação de uma ideologia genocida e que nos obriga a pensar não apenas no líder tóxico Jair Bolsonaro, ams na sustentação política que ele exibe a partir de seus eleitores.

Bolsonaro sempre foi tóxico, e mesmo assim foi eleito com 57 milhões de votos em um segundo turno onde quem alega que havia uma escolha difícil trata  uma dúvida entre um candidato de um partido contestado e tido como corrupto por parte da população e um potencial ditador autoritário, necro-liberal e potencialmente genocida constituísse em dúvida razoável.

Não, não dava para em 2018 fingir ignorância sobre o que era Bolsonaro. Salvo o percentual de pessoas com baixo grau de captação de informação e acesso, a grande maioria dos eleitores com alta informação, nível intelectual e de educação formal sabia exatamente o que via pela frente.

Então quem votou ou anulou no segundo turno de 2018 e não é anarquista ou foi autor ou cúmplice do cadafalso que vivemos hoje, com um potencial nas mãos de milhòes de mortos pela ação consciente do governo Federal em apostar com a vida das pessoas em nome de uma imunidade de manada, em que obviamente Jair e seus asseclas acreditam ser bom morrer frágeis, idosos, pretos e pretas.

Quem anulou ou votou no segundo turno e se arrepende não merece abraço, merece ser tolerado como o cúmplice que foi, por mais que o PT não merecesse crédito, porque dar poder a um celerado amante de Brilhante Ustra e louvador da ditadura militar é irresponsável por qualquer ângulo que se enxergue. 

E aqui também se incluem os que demoraram a apoiar Haddad no segundo turno ou que forma para Paris e seus seguidores que anularam no segundo turno por qualquer motivo que seja a não recusa peremptória de participar do processo desde o início, como fazem os anarquistas.

A questão é que ainda existe algo pior, uma malta de canalhas que apoiou e apoia Bolsonaro com louvor, fome e a raiva de qualquer alteridade mesmo em meio e que não se intimida com qualquer derretimento de popularidade ou desmoralização das teses de que uma pandemia que nos tirará milhões era uma “gripezinha”e seria curada pela “cloroquina”.

Essa gente amplia o grau de exposição à luz do dia do mais baixo nível do humano, gente que agride profissional de saúde para que não escreva em certidão de óbito que um ente querido foi vítima do COVID-19, faz carreata para romper o isolamento social e ou não se importa ou em meio a uma ilusão autoritária e exterminista pouco se importa se há contradição entre sua prática e a salvação de milhares e até milhòes.

Bolsonaro e seus filhos utilizam o máximo de armas que o desespero de um derretimento acelerado lhes permite para nublar a percepção de cerca de um terço da população que ainda o apoia, da constante desqualificação da imprensa ao uso de robôs e insistência na truculência e no uso da máquina para cometer crime contra a saúde pública, a questão é que quem o segue não está apenas acreditando me uma figura pública, está via de regra sendo co-autor de crime contra a humanidade.

Porque estamos agora diretamente responsáveis uns pelos outros de forma definitiva. Sempre fomos na verdade, há um grau de comprometimento da existência em sociedade com o outro queiramos ou não, mas agora definitivamente a vida de nossa coletividade está em nossas mãos e setores da população literalmente ligou o foda-se para isso e ataca a saúde coletiva em nome da manutenção de uma guerra ideológica contra a esquerda.

E essa guerra ideológica contra a esquerda também é contra a ciência, sempre foi, como se vê diariamente na desqualificação de todo e qualquer contraponto científico que demande a destruição da narrativa genocida de Bolsonaro, Trump e outros canalhas, mas que era óbvia antes com Weintraub e Salles sendo porta-vozes de um negacionismo que se fartou de atacar o meio ambiente e a educação e produção científica pública.

Uma guerra contra a ciência e a esquerda que hoje vira uma guerra contra a humanidade, sendo classificados todos os que resistem aos delírios autoritários e genocidas do descomandante em chefe das forças desalmadas. 

Mas desta vez os corpos não serão ocultos pela escolha muito difícil de setores da imprensa hegemônica que tratavam a ausência de planejamento e programa de governo organizada em torno de uma plataforma de saque aos cofres públicos e desmonte do estado, com venda barata de ativos e subsídio aos grandes empresários e bancos e zero de esforço para melhora de saúde, educação e emprego. Desta vez os quase vinte mil infectados e os mais de mil mortos logo ganharão a companhia de mais que milhares, de colapso do sistema público de saúde, e não só do público, e com a inexorável presença do que a ciência exibe quando lê bem o concreto: a matemática da expansão de contágio de um vírus como o COVID-19 não se abate com discursos estúpidos.

O que fazer, então com os convictos genocidas do Bolsonarismo, começando por Jair e filhos? Bem, primeiro removê-los do poder, depois juntar a todos e punir pelo crime contra a humanidade que praticam.

 E me perdem os anti punitivistas, mas sim, é preciso punir. Com cadeia, porque tem gente morrendo que nem mosca e morrerão mais, e não dá para esperar que nada aconteça com um pito público. Ustra mostra que desmoralizar não basta. 

O limite do sub humano de Bolsonaro e quem o segue, no entanto, merecerá mais que um processo de crime contra a humanidade, é preciso o escracho diário, a exposição da canalhice que sustenta parte de nossa sociedade, o opróbrio, o ostracismo, o isolamento negativo, a apropriação de bens, o que puder ser feito para tornar quem tornou essa desgraça possível alvo do que fez com a sociedade.

O sub humano por vontade própria, coletiva, auto orgulhosa, negacionista, misógina, LGBTfóbica e racista, não tem o direito de ficar impune.

Trocando em miúdos

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Pensar em política como figura independente tem suas particularidades e limites. Daí a importância de saber se é hora ou não de deixar a medida do Bonfim, de exigir o disco do Pixinguinha e de que resto devemos ou não deixar quando buscamos nossos caminhos.

Na verdade é que trocando em miúdos deveremos ter mais em mente do que dizer a quem quer que seja que guarde as sobras do que chamamos de lar, até porque nosso lar pode ter sempre sido onde estão nossos sapatos.

Correntes são parte fundamental da organização das esquerdas socialistas e comunistas, tem uma imensa tradição por trás, que é como um legado, um DNA, tradições, mas não são o único caminho de militância em partidos ou fora deles. Inclusive porque o DNA, os legados e tradições não são produzidos em copyright pelas e para as correntes, eles se reproduzem inclusive entre independentes que saíram das matrizes ao redor de quem as correntes se organizam.

E é nesta linha que entendemos que precisamos recolher o Bensaid que nos legaram, e que muitos não leram, bater o portão sem fazer alarde levando a carteira de identidade e buscando rumo em um mar com muitos faróis.

Em momentos em que a luta antifascista sobe o tom e as exigências de nossas práticas, é fundamental lembrarmos que estamos na mesma fronteira e aqui [e fundamental sabermos quem somos, talvez mais importante do que a própria guerra.

O mar da História é agitado, as ameaças e as guerras se amontoam, havemos de atravessá-las, e precisamos neste mar saber que navegar é preciso, viver não.

E navegar exige sabermos que ao mar não podem ir quem de alguma forma conosco viveu, mesmo nos querendo a morte,enquanto lutamos contra monstros marinhos que desejam pôr a pique a nau da democracia.

Nesta nau, as obsessões por pequenos poderes, demarcações, limites táticos e estratégicos, podem querer ser Capitães, mas são menos que grumetes.

O chamado às ruas exigem remodelações de nós mesmos, de nossas organizações e de nossas responsabilidades. Purismos e limitações cuja teoria não é tão aberta assim, não podem nos impedir de agir e atuar com força.

Em um momento em que o país, e o PSOL, se transformam radicalmente, devemos enfaticamente defender o legado de nossas tradições, e a própria democracia, como quem defende nossa própria pele. 

Porque ao fim e ao cabo é disso que se trata.

Apesar da leve impressão de que já vou tarde, é uma impressão que corre nas veias como sentido de  enxergar uma trilha cara pro país, apesar da dor e que precisamos hoje do movimento preciso para avançarmos, coletivamente, como quem sabe o tempo certo de ser e viver.

E é por isso que precisamos saber que tudo é nosso, sempre esteve em nós e outros outubros virão.

E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo

Quarta Internacional

 

Tenho o mal hábito da vaidade e o pior ainda da memória, além de provavelmente ser o sujeito que entendeu que seguir o coração, mandamento vindo de Oxumaré, é mais que perscrutar os subterrâneos do subconsciente e mais o sentir a dor no peito como métrica do caminhar.

Gostaria de ser mais calculistas e ter a métrica quantitativa das quantas vezes estive certo e apontei caminhos e fui ignorado. ou quantas vezes escrevi e produzi observações e contribuições que se provaram logo à frente interessantes para a percepção do caminhar, até que ficou tarde e virou um grito de Cassandra atropelada pelas conjunturas.

Esse blog tá lotado de profecias, e de equívocos em igual proporção. Também dá lá suas cacetadas na avaliação de conjuntura, embora tenha cometido o imensurável erro de não acreditar que uma elite econômica que nadava de braçada no lucro daria impeachment na Dilma apenas por ódio de classe e para ampliar o lucro ao custo de vidas, negócios, economia e grande parte da base econômica do país.

Se você não é banco, mineradora ou agronegócio,  você provavelmente está tendo prejuízo, se não estiver investindo no mercado financeiro e deixando sua empresa falir, fodendo trabalhadores.

Mas me perco em digressões enquanto o assunto aqui são as mudanças e o movimento.

Há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade, há tempos são os jovens que adoecem e há tempos o encanto está ausente e há ferrugem nos sorrisos e só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção, já disse Renato russo, e uso estes versos como mantra do que sinto em relação à conjuntura, à política, ao PSOL e a meus caminhos trotskistas.

E se disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza e ter bondade é ter coragem, os rumos da vida que vivo me impõe a percepção da necessidade de ser coerente com a única coisa do universo que sempre esteve a meu lado independente de onde eu ia, e que sempre me cobrou mais do que qualquer crítico: meu coração.

Jamais fui pessimista, sou um incorrigível caminhante do mundo do bom combate e das lidas com os percalços como se fossem obstáculos temporários para a fundamental e necessária vitória. E é por isso que preciso sempre, algo que supere os rame rames do cotidiano medíocre e mediocrizante das políticas tatas que permeiam o mundo.

Mas estava sofrendo as pancadas da minha sufocante vida com outras tantas porradas tantas da vida política e sofrendo porque por mais que eu corrigisse meus passos haviam pedras e obstáculos que independem de mim e necessitavam de quem preferia mais pedras e mais obstáculos do que a limpeza conjunta do caminho para uma lida mais confortável com as tragédias das sombras que vivemos.

Me descobri trotskista aos 45 anos, e me identifiquei de vez com a IV Internacional e os escritos de Bensaid e Lowy há poucos anos a mais do que isso. Mas se antes respeitava os autores, hoje os entendo como elementos que fundamentalmente compõem minha visão de mundo, junto com Ginzburg, Thompson, Natalie Davis. Roger Chartier, Eduardo Silva, João José Reis, Sidney Chalhoub e Giovanni Levi, meus historiadores preferidos.

Gramsci, Rosa, Trotski permeiam hoje meu horizonte intelectual e até moral. E diante disso tudo entendo meus limites e busco a construção coletiva dentro do que eu posso e consigo fazer, mas aparentemente nas ruas da política partidária, construir o partido é menor que estar em um sindicato, que meu desemprego impede, ou em um DCE, que minha idade impede. 

Além disso, aparentemente o debate político ainda é situado em limites teóricos que fazem com que censuras prévias e silenciamentos, há pouca atenção para a  necessidade coletiva de análise de conjuntura compartilhando a conjuntura com contextos técnicos e políticos que hoje permitem que de Quixeramobim se enxergue a realidade pelotense e mais, que se junte com outras realidades e se construam percepções mais grandiosas do que muitas vezes quem tá do teu lado consegue enxergar.

E isso cansa, e limita, e o não aproveitamento coletivo de nossos talentos e compreensões, de nossa diversidade, de nosso tempo, de nossas habilidades e percepções se juntam a vetos conscientes e inconscientes que por divergências, por maiores que seja, se jogue fora a solidariedade.

Quando a extrema-direita ataca um adversário interno ela está nos atacando tanto quanto a ele, e por mais que a gente tenha uma enorme contrariedade com este adversário interno é fundamental lembrarmos aqui quem é o inimigo.

Divergir e criticar duramente não podem, jamais, ser impeditivos do  apoiar quem necessita de apoio e em momentos de guerra virtual fazendo parte do cotidiano a miopia é prima dileta da burrice quando nos omitimos de um combate porque divergimos de companheiros.

Por essa que entendo que hoje, no PSOL, meu caminho aponta para horizontes onde o trânsito pelos diferentes é mais salvo conduto para calma e tranquilidade no olhar de quem convive com abordagens teóricas e vontades práticas diferentes e não mais para a reivindicação das tradições que não se comportam mais na prática como a tradição exige que se comporte. 

Há tradições que se fazem órfãs de coerência no interior do partido. Há uma tolerância mais coletiva e ardente com o velho companheirismo acrítico que com a necessidade de espontânea e forte coerência teórica em perpétua renovação.

Ao mesmo tempo há tijolos com nomes que parecem ser até o de inimigos diretos e não de adversários internos que compõem uma história do PSOL que tem tantos equívocos graves quanto grandes ações que nos orgulham e nos fazem até hoje admirar sua força militante.

E se meu coração não se cansa de ter esperança, de um dia ser tudo o que quer, o movimento da vida não deixa que a vida seja sempre igual. E nada se repete, nem o sol.

Para mim é fundamental saber o gosto do lamber das línguas, o gozo e o sabor da festa, sem medo de sentir a dor de se fazer, que e tão prazer que nos amplia o renascimento da nossa força, nossa luz e fé.

E é nesse caminho que me distancio de onde estou e caminho independente no interior do PSOL. Entendendo as alianças necessárias para a luta antifascista, buscando sem preconceito ouvir velhos anarquistas, jovens comunistas, velhos/novos anarco fofos, índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes….

Tudo é nosso, sempre esteve em nós, já diria Gonzaguinha, e preciso ir, porque tudo principia na própria pessoa.

Mas se me der um beijo, eu gosto, se me der um tapa, eu brigo.

“E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo

E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo”

Lula: reforço na oposição a Bolsonaro, o neostalinismo e o desnecessário alinhamento automático ao PT.

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A libertação de Lula trouxe novos e velhos desafios à esquerda brasileira, mas em especial à esquerda que se construiu sendo oposição aos governos do PT pela esquerda.

O principal desafio é não cair no alinhamento automático confundindo unidade com uniformidade e construção de combate a Bolsonaro com aliancismo acrítico.

Lula é um óbvio reforço à oposição a Bolsonaro, mas alianças com o PT podem inclusive enfraquecer qualquer construção coletiva de resistência se não for acompanhada com a devida reflexão do ganho político imediato para a transformação de qualquer peso eleitoral, quando essa aproximação trouxer, em saldo organizativo pra uma oposição antifascista brasileira.

Lula é uma voz potente de oposição, mas ao iniciar colocando um respeito supostamente republicano à eleição de Bolsonaro com suas enormes tintas de fraude e disposição para ampliar a desestabilização política do país se fosse derrotado, disposição que permanece, é um tiro no pé.

Primeiro que Bolsonaro foi eleito com base em uma óbvia e documentada manobra de ampliação do golpe de 2016 e que organizou a depredação de reputações, o aprisionamento do primeiro colocado à eleição de 2018 com base em um inquérito no mínimo distorcido, pra não dizer falseado e fraudado. Segundo que nada na elite política e na mídia se dá no respeito à República e às instituições, pelo contrário, a escolha muito difícil de Estadão e companhia permanece em curso e patrocina até debates sobre destroçamento de cláusula pétrea para garantir a prisão de Lula novamente. Terceiro que o país em pleno destroçamento institucional, ambiental, moral, ético e político sob o governo Bolsonaro não tem garantia alguma de aguentar mais um ano que seja sob um governo criminoso e com digitais em vários crimes, não só de responsabilidade, incluindo entre eles suspeitas de participação no feminicídio político de Marielle.

Poderíamos escrever uma tese sobre os problemas da escolha de Lula, inciando pela tolice de achar que ele não partindo pra defesa da remoção de Bolsonaro seria tratado como algo palatável por quem quer que seja na mídia e elite, tanto que não foi, ma só principal é enxergar o motivo da fala, que nunca foi o cuidado dom a imagem, mas o apelo à conciliação, de novo.

Em um vinte de novembro que foi precedido por um deputado do PSL quebrando uma placa com um cartum que denunciada o genocídio do povo preto e outro do mesmo partido dizendo que negros são mais assassinados pela polícia porque tem mais criminosos entre eles, ambos contando com a proverbial covardia de Rodrigo Maia e das instituições, é sintomático deixar claro que a opção de Lula e do PT, que desde o início do ano explicitaram que tem como objetivo ver Bolsonaro sangrar, é um erro, como tantos outros.

Então o reforço na oposição o fogo cerrado nas políticas de paulo Guedes é um acerto, nos impõe a necessária crítica sobre até que ponto esse reforço se constitui de “um camisa dez em campo” como infantilmente declarou o presidente do PSOL em entrevista ao UOL.

A não ser que Juliano Medeiros esteja falando de um camisa dez estilo Ganso em um time do Guardiola, estamos cometendo um equívoco que se fosse pessoal estaria de boa, mas me parece ser coletivo, vide o anúncio de Freixo de que seria o candidato à prefeitura do RJ com o apoio do PT, sem consultar suas bases.

Freixo e Juliano tem todo direito de explicitar suas preferências, mas com o cuidado de se lembrarem que ainda fazem parte de um partido que não decidiu ainda publicamente se os vai acompanhar ou não, especialmente porque a não ser que eles entendam sua militância como meros entregadores de panfleto, ainda se precisam fazer congresso e conferências para decidir o que eles querem impor como fato consumado.

A questão mor é que temos problemas a resolver com o PT que perpassam por mais do que a autocrítica sobre a corrupção que jornalões exigem do partido. Isos lá é problema deles, PT e jornais.

Nosso problema é sobre as autocríticas necessárias às omissões e ações do partido com relação às questões ambientais, sobre direitos indígenas quilombolas, sobre a questão de gênero, sobre os direitos LGBT e de transgêneros; sobre o empoderamento de Bolsonaro, Feliciano e o PSC na CDHM; sobre o uso de uma militância digital pra assassinar reputações (inclusive as de Freixo e Jean) indo da homofobia ao racismo que até o surgimento das milícias bolsonaristas eram as mais rápidas do mercado.

E mais precisamente hoje, sobre o alinhamento de Camilo e Rui Costa no Ceará ena Bahia com o discurso da necropolítica. Somos oposição ao PT e parte importante do país, fazemos como?

E no RJ, o PT que foi base fundadora e mantenedora de Cabral e cia até os 49 do segundo tempo, com Quaquá e Benedita sustentando essa graciosidade, vai ser solenemente empoderado com o esforço coletivo do PSOL carioca em ir na contramão dos amores do PT com Cabral e Paes, sendo escorraçado, chamado de nazifascista por blogueiros a soldo do petismo?

Não é mágoa de caboclo não, é entender como a gente explica na ponta o atropelo da cúpula.

Em Porto Alegre vamos explicar pra nossa própria militância e base que adoraremos receber o apoio do PT de Tarso Genro que persegui companheiros nossos com a brigada militar até suas casas em 2013?

Vamos achar bonito em Pelotas sairmos abraçados com o PT que com Marcola é sidekick, quase um Robin desnutrido, de um PSDB abraçado ao Bolsonarismo? Vamos achar que Marroni patrocinador de Marcola, é a última bolacha do pacote?

Poderia listar aqui onde começam os problemas e terminam as soluções por horas a fio, mas ficou entendido como é um problema a aliança acrítica. E aqui entra a motivação do debate sobre neostalinismo neste texto.

A ideia de uma causa soberana que atropela todas as outras, essa centralização decisória censória e silenciadora, de cima pra baixo à direita de quem está na esquerda, é a fuça do stalinismo redivivo pela conjuntura, mas vivente desde que Dirceu e cia resolveram perder na política interna para eleger o presidente da república.

Porque é a cara do stalinismo de galinheiro o revisionismo histórico pra vender uma narrativa, vai de quem trata a Coreia do Norte coof arol do socialismo e nega a existência do Massacre da Praça da Paz celestial como quem trata Lula como esquerda radical e revolucionária e produtor de um Estado de bem-estar social que ele nem implementou e nem avançou para além do mínimo, a ponto de permitir que TODAS as suas medidas positivas fossem revertidas em menos de dez anos.

Sim, o governo Lula foi o melhor da história do país, especialmente por ter sido um democrata em uma democracia, mas esteve aquém, mas muito aquém de bom sob o ponto de vista da esquerda.

Ah, mas não se governa sem ceder ao status quo? Esse é o agá revisionista mais escroto de todos os tempos, porque era possível discutir e dialogar com MDB e outras forças democratas sem cooptar e absorver a direita no interior do PT e empoderá-la nos estados e municípios. Vide a queda de participação do PT na câmara a cada eleição, e perda também de governos de estado e municípios também a cada eleição.

E não, não é coincidência, quando você opta por fortalecer menos sua base orgânica que caciques de oligarquias antigas do país pra assegurar uma base artificial que na primeira crise te passará a perna é exatamente o que acontece.

E foi o que aconteceu em 2016, porque o limite da conciliação, avisado pelo menos desde 2006 pelo PSOL e demais membros da esquerda, ia chegar, chegou e era disso que nosso pedido de autocrítica deveria falar aqui.

Corrupção? Efeito colateral.

O neostalinismo se reforça em um ambiente onde a louvação sebastianista ao ídolo supera a necessária análise da forte figura pública e a teoria perde espaço pra hagiografia (estudo da história de santos sob o ponto de vista da fé).

Lula é um ser controverso, mas é o nosso ser controverso, com isso ele é de suma utilidade como força de oposição ao fascismo e um ambiente em que a unidade NA LUTA ANTIFASCISTA se faz necessária, mas isso não pode ser transformado de forma acrítica em um processo de alianças eleitorais, especialmente em um quadro de diversidade orgânica e organizacional.

Nós temos problemas sérios de divergências programáticas com o PCdoB e o PT e não são na perfumaria.

O PCdoB votou a favor do acordo EUA-Brasil de uso da base de alcântara, atacando direitos de quilombolas e indígenas, nós somos frontalmente contra e nos alinhamos com a luta dos povos originários.

O PT tem em seus governos de estado um alinhamento com o discurso da necropolítica na segurança pública, vide Rui Costa e policiais assassinos tratados como “artilheiros em frente ao gol” depois de uma chacina de gente preta.

Em 2018 o PT-RJ não apenas lançou Márcia Tiburi à governadora do estado, como além de a abandonar aos ventos fortes da canalhice ainda o fez por quadros seus apoiarem na surdina Eduardo Paes, do DEM. Quaquá ainda fez a gracinha de dizer que apoiaria o PSOL se o candidato fosse Freixo, como se ele na posição de destruidor do partido dos trabalhadores no RJ tivesse em posição de exigir qualquer cosia do partido de esquerda que mais cresceu no estado. O PT ainda usou de um artifício de confundir Chico Alencar com Lindbergh Farias como se fosse uma chapa que ajudou a eleger Flávio Bolsonaro e Arolde oliveira. E agente nem precisa falar aqui da participação do PT no empoderamento de milicianos com a filiação dos Irmãos Babu a partir da militância ligada à Benedita da Silva.

Ter em mente que onde for possível é interessante a unidade das lutas também se ruma unidade eleitoral tem um oceano de distância de tratar Lula como camisa dez de um tine que joga com uma organização ofensiva que parte da ponta esquerda e não do centro.

Lula pode ser um Gérson, jogando no meio cadenciando o jogo, mas o PSOL joga como Canhoteiro, avançando acelerado pela esquerda e driblando até chegar no gol, nosso jogo é rápido, de transição ofensiva, e não um jogo que devagar tenta envolver o adversário até a bola entrar na rede, esse necessário envolvendo a direita.

Precisamos de menos recursos pirotécnicos pra inventar uma unidade que não foi construída de baixo pra cima, sob pena de em caso de vitória ela ser de Pirro, e mais de um debate aberto, com menos culto à personalidade e mais programa, com menos revisionismo histórico e mais análise, com menos preocupação com a perfumaria da mitologia e mais com a compreensão histórica da conjuntura.

Um debate aberto sobre a unidade da esquerda é fundamental, mas enquanto não envolver o conjunto da militância construindo a resistência para além do voto e estabelecendo pontos de ação na prática cotidiana para além das campanhas eleitorais, o que estamos vendo é a redução da esquerda a um fã clube de figuras públicas. E isso não dura.

A conjuntura de hoje exige que enfrentemos duras batalhas, mas elas precisam partir da rua pro voto.

Não temos garantia alguma de que as eleições serão limpas, também precisamos enfrentar demandas atuais e concretas de resistência que são impostas pela conjuntura, desde o genocídio do povo preto à devastação ambiental, e precisamos fazer dessa luta uma produtora de saldo organizativo.

Agora, neste momento, estamos atrasados e Lula não vai ajudar nessa construção, pois não somos do PT.

O apoio a Freixo é o movimento óbvio, mas apoios à Sâmia ou a Fernanda Melchiona não são tão óbvios e podem não vir a ocorrer, mesmo nem PT nem o PCdoB terem em SP candidato competitivo e a Manuela ser competitiva, mas tendo uma base orgânica de construção menor que a do PSOL em PoA.

No RJ é mole ter “unidade” em torno de Freixo, só os oportunistas que buscavam cargos no suposto governo Paes ignoraram isso em 2018, menos interessados em construir resistência que poupança, mas que unidade é essa? Que custo terá?

Em Pelotas a presença do Marroni no palanque de Lula quando ele siau da prisão nos envolve em um debate se queremos estar do lado de quem foi franco patrocinador de uma política covarde de oposição ao PSDB na cidade.

Em uma cidade onde o único nome competitivo é o PSOL, o partido, vamos fazer policial washing no Partido dos Trabalhadores que desde o começo diz que tirar Bolsonaro é ruim porque nos daria Mourão de presidente?

O PSOL precisa discutir claramente e de baixo pra cima suas práticas e táticas relacionadas à sua ideia de unidade. Porque senão vamos de camisa dez das antigas em um time que precisa jogar em velocidade e pela esquerda.

A oposição não precisa de messias. Lula pode aglutinar mobilização, mas Messias é da extrema direita.

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Há nas redes sociais um sério problema de avaliação da conjuntura e uma extrapolação de determinados campos de análise que mereciam aspas.

De youtubbers academicamente equivocados dispostos a carteiradas sem base real a jornalistas profundamente descolados do bom senso, há um extrapolação do papel de Lula aliado a uma subestimação do efeito Luiz Ignácio para a ampliação do papel da oposição a Jair Messias Bolsonaro, passando por uma percepção desrespeitosa que avalia que por ter um impacto menos efetivo, inclusive por seu tamanho, a oposição a Bolsonaro feita por PSB, PCdoB e PSOL tava jogando biriba até agora.

Não, Lula não vai fazer revolução, a oposição não começa agora, embora tenha ganho um fôlego enorme, e Lula não é messias algum, Messias é o Jair, mas é a maior liderança popular brasileira desde o fim do século XX e felizmente tá do nosso lado, o da democracia.

Embora parte da imprensa, sendo profundamente desonesta nesse sentido, insista em comparar Jair Bolsonaro, o Ustra Boy suspeito de estar envolvido no assassinato de Marielle Franco e que ameaça anunciantes da Folha, com Lula, crítico da imprensa por sua óbvia escolha difícil em favor de Jair e que trata o ex-operário como um criminoso, embora o processo que o condenou seja mais viciado que o Keith Richards dos anos 1970, não existe comparação possível entre Lula e Jair.

Criticar a imprensa, por mais que doa a ela, faz parte do jogo, mas Luiz Ignácio jamais tentou fechar jornal ou ameaçou TVs de não renovação de concessões, embora a Globo, por exemplo, tenha um histórico de apoio à ditadura e de evidente manipulação contra Lula, uma delas reconhecida, como foi feito no debate entre Lula e Collor em 1989.

Da mesma forma compreender que Lula é um enorme reforço à oposição não o faz Deus criador de uma.

A oposição que tem uma atuação corajosa desde primeiro de janeiro, sofrendo ameaças de morte por isso (como sofrem Talíria Petrone, Manoela D’ávila e David Miranda, pelo menos, e Jean Wyllis), conseguiu inclusive com diálogo com o centro impor derrotas a Jair Bolsonaro e vem expondo cotidianamente seu governo e seus ministros em convocações, audiências públicas, atua na CPMI das Fake News e conseguiu construir com Rodrigo Maia uma frente de defesa da ciência, tecnologia e educação que assinou uma carta com todos os líderes do congresso.

Ignorar tudo isso é, no mínimo, uma sacanagem. Pode ser um equívoco, pode ser uma canalhice, pode ser o uso oportunista do óbvio acréscimo que Lula traz pra oposição pra ganhar mais popularidade em redes sociais, pode ser burrice, pode ser tudo isso, mas, com certeza, é uma puta sacanagem.

Outra questão é que Lula e sua capacidade de mobilização são notórios, em dois dias ele já ferveu o kissuco da conjuntura e levou milhares às ruas de São Bernardo.

Vão ter que condená-lo rápido em terceira instância pra impedi-lo de mover fortemente as águas pro moinho da esquerda e sua diversidade.

A liberdade de Lula pode ampliar a mobilização para descobrirmos os mandantes do assassinato de Marielle, e isso é pressão sobre os Bolsonaro, que podem estar concretamente implicados, pelo menos, em tentar impedir a descoberta de quem é o mandante, tendo parte fundamental em indícios de agirem na adulteração de provas e até obstrução da justiça.

Acaba agora a ausência de uma maior visibilidade do discurso que expõe os ataques do governo Jair Bolsonaro sobre a população.

Porque a mesma imprensa que se diz isenta optou por apoiar Guedes e silenciar a oposição em suas críticas.

Também agiu criando um eco de desqualificação do dissenso em relação à plataforma econômica do governo e sendo no mínimo omissa diante dos cotidianos ataques de Bolsonaro à democracia. Insistindo em falsas simetrias tentando igualar Bolsonaro a um Lula que jamais fez um décimo do que fez Jair com relação à oposição e a imprensa.

Um jornalista alinhado ao Bolsonarismo ataca Glenn Greenwald a tapas e socos e a visibilidade se resumiu às redes sociais, sem repúdio de toda a imprensa em editoriais de jornais e ainda houve editor que optou pela manchete calhorda “jornalistas trocam socos”.

Essa imprensa jura que é isenta? Pois é. Não é, nunca foi, nenhuma é.

As linhas editoriais são tão isentas quanto eu torcendo pro Fluminense.

Se há jornalistas com apuração plural e matérias sérias em todos os jornais, há uma linha editorial e jornalistas que tem ecos de um discurso que não tem isenção nenhuma, tem lado e nenhuma vergonha de fazer uma escolha muito difícil de desqualificar o PT e até apoiar em silêncio o autocrata Jair Bolsonaro para derrotar o ex-socialista Partido dos Trabalhadores.

Enquanto Jair ataca a democracia e Guedes os direitos sociais, propondo um AI-5 na economia, travestido de “Pacto Federativo”, jornais acham que destroçar qualquer colchão de proteção social a título de “reforma de Estado” é um caminho certo, mesmo que isso resulte na ampliação da desigualdade, da fome e do sofrimento da população, desde que gere lucro pra camada social à qual pertencem seus donos.

Em nome desse lucro não me parece que as cúpulas do jornalismo (donos, editores, colunistas e jornalistas alinhados à linha editorial) estejam, muito preocupados com a democracia.

E aqui é fundamental o papel de Lula para romper a bolha de silenciamento da oposição, e anabolizar seu impacto.

Lula é tão importante e causa tanto pânico que cada linha dos seus discursos recentes serviram para realinhar jornalistas que rompiam com o Bolsonarismo em nome da falsa simetria de fazer de ambos elementos iguais (E Lula sabia disso quando fez os discursos e atacou a Globo).

A coisa mais certa que Lula fez foi levar o peso de sua retórica para a reacomodação do cenário político, com os preços das contradições do campo da extrema-direita recaindo sobre quem foi com sede demais ao pote das escolas muito difíceis.

Quem agora tentar voltar ao campo da situação pode ter surpresas, quem achar que Lula ajuda Bolsonaro idem.

Cabe à esquerda mais crítica a Lula se adequar no sentido de entender seu peso, ampliar a pressão pela radicalização programática em nome da retomada de ações de esquerda nos governos e parlamentos, entender determinado grau de diálogo e conciliação do PT e de Lula (são seus limites) e constituir sua plataforma nos espaços que tem garantidos e ampliá-los.

Lula não vai vir à esquerda do PSOL, e nem o PSOL precisa ir à direita de si mesmo pra abraçar o Lulismo, mas é possível dialogar e compor uma oposição que produz nas ruas o efeito que se constrói na institucionalidade.

Uma força da natureza em oposição a Bolsonaro é um alento, não um problema.

Isso não faz da esquerda uma linha de transmissão do Lulismo se ela não quiser, nem nos faz acríticos ao PT e suas contradições, mas amplia fortemente o peso e o significado de nossas figuras públicas e programas.

Também não faz de todas as divergências na construção de unidade eleitoral um campo aberto e resolvido.

O importante é ampliar a unidade na luta, construir as unidades possíveis na institucionalidade, abrir diálogos para ampliação do campo democrático e minar o campo de radicalidade neoliberal e amante da ditadura e sim, por medo nos canalhas, estejam eles nos gabinetes ou nas redações.

Cada falsa simetria hoje é um alimento de nossa crítica e uma desqualificação de quem nunca foi isento, honesto ou moderado, apenas adorava o peso da retórica pra anabolizar o neoliberalismo pinochetiano que nos esfola.

Entre o otimismo da vontade e o pessimismo da razão

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O Governo Jair Bolsonaro expõe as tripas da direita e da elite em praça pública, mas também expõe o imobilismo e a incerteza de uma esquerda que ao mesmo tempo que se organiza no âmbito institucional se fragiliza no espaço público, na rua.

E isso ocorre porque esta mesma esquerda nos mais variados graus prefere se esconder em ambientes controlados do que arriscar a disputa pelas consciências na rua.

Esse fenômeno já ocorreu a partir de 2013, quando parte da esquerda, inclusive a dita esquerda radical (De PSOL a PCO), preferiu criminalizar arroubos de ação direta destrutiva a discutir e disputar essa galera que quebrava vidraça.

Se preferiu, do alto de uma razão irracional e negacionista dos movimentos históricos, por água no moinho da criminalização, de processos, despolitização e violência policial contra os mais radicais (Parte dos socialistas, anarquistas e autonomistas) apostando numa manutenção no poder por inércia de uma ex-querda cada vez mais social-democrata (pra ser gentil) que fazia acordos pornográficos com a extrema-direita entregando anéis e dedos achando que o lulismo sozinho sustentaria dinastias de democratas com pendores sociais no Planalto.

À criminalização pelos discurso se seguiu a criminalização pela justiça, pela polícia, especialmente depois da mal explicada morte do cinegrafista Santiago, com uma nova geração de esquerda vendo novas lideranças não alinhadas à esquerda partidária ser presa, processada, ver a vida ruir e seguir sendo transformada em pária por tentar mudar o mundo.

De Gilberto Maringoni (PSOL-SP) e parte das correntes do PSOL atacando autonomistas e anarquistas (FIP, etc) como “Vândalos protofascistas” até Tarso Genro e Agnello Queiroz (governadores do RS e DF, respectivamente, eleitos pelo PT) enviando suas polícias atrás de ativistas (entre eles ativistas do PSOL), a folha-corrida que mancha a trajetória das esquerdas, com as digitais no esvaziamento da rua pela esquerda com sua ocupação pela extrema-direita, é algo continuadamente omitido pelos mais simplórios e rasos emissores de “análise” sobre as conjunturas, e que hoje acham lindo eximir Dilma de culpa pelo seu ocaso.

Não à toa há um coro de animação histérica sobre revoltas mundo afora e que adora Cânticos dos cânticos da euforia alucinada que repete “Não passarão” para o fascismo, enquanto eles não só passam como dão ré. O problema é que esse coro não rima com o movimento.

O grau de organização e organicidade dos discursos de redes sociais é perto de zero, e mesmo com o crescimento de organização e organicidade de uma revolta palpável nos partidos de esquerda(difícil medir em organizações autonomistas e anarquistas, mas apostaria que também está alta a procura de organização), isso não tem se refletido numa mobilidade de ação que mantenha essa galera entusiasmada.

E parte do problema é que se vende sonho, não se vende o trabalho e a organização necessária para agir e transformar.

Não é um fato incomum para a esquerda o discurso que alimenta “primaveras” não ir além do conversê pra organizar essas primaveras.

Porque transformar exige tocar em vespeiros (homofobia, racismo, machismo estruturais, por exemplo), e ninguém quer tocar em vespeiro e arriscar perder voto, ou poucos topam o risco.

Mais seguro gravar com o Quebrando o Tabu.

As manifestações pela educação foram maiores do que as contra a Reforma da Previdência e pouco se tentou aprender com isso. Pior, pouco se tentou avançar no debate sobre educação em si, pouco fomos além do debate que discute o quanto a universidade precista ir mais pra rua e divulgar sua serventia.

A questão é que a educação atinge todos e especialmente atinge uma galera em formação que mesmo tendo sido pega pela perna pelo Novismo liberal, percebe que a vida não é filme, você não entendeu, e foi pra rua discutir e disputar a necessidade de universidades públicas, porque sentiu na pele e isso lhes deu experiência, experiência que é a base da formação de consciência.

Já a Previdência é um campo onde a disputa está com quem já está às vésperas de se aposentar ou é adulto e tem convicções menos flexíveis com relação a seu dia a dia e seu futuro, convicções que por vezes lhe são deletérias.

A aposentadoria é, pros mais jovens, uma utopia, um futuro, que hoje quase não mais existe.

E o bombardeio sobre o quanto a Deforma da Previdência era necessária, é algo que beira os vinte anos e buscando exatamente sua destruição. Qualquer opinião que revelasse ser uma manobra de opinião pública tinha oitocentas dizendo que a esquerda era negacionista.

Destruir o ensino público ninguém vai dizer às claras como disse que era preciso destruir a previdência. E mesmo assim não conseguiram passar a capitalização.

A questão é que o fôlego da resistência via educação parou, e por quê? Porque parte dos atores que estavam envolvidos na não construção concreta da resistência à Deforma da previdência percebeu que perderia o controle da indignação se continuasse a apoiar os movimentos contra o desmonte da educação, pior, ainda comemora como vitória a manobra do Desgovenro Bolsonaro de, a dois meses do fim do prazo para sua utilização sem que isso impactasse no exercício de 2020, liberar recursos cortados em março.

Mas parou o fôlego? Não exatamente, apenas se reduziu e agora precisa de mais esforço para reavivar a chama, especialmente quando é visível que o neoliberalismo está nas cordas por conta dos movimentos de resistência no Equador e Chile.

Mas como lidar com isso se a esquerda via de regra prefere agir como coro de contente em rede social do que segurar o rojão de organizar, filiar, agir para concretizar seu aumento nos espaços possíveis.

Há interessantes campanhas de filiação, ao PSOL por exemplo, mas isso basta?

Não, porque é preciso existir ações públicas cotidianas que façam as pessoas se sentirem úteis, é preciso também curso de formação abertos e didáticos, com o cuidado de jamais se tornarem cursos de doutrinação (não dá pra confundir formação com proselitismo de dogma), e são muito precisos meios de ação de convencimento para além de divulgação de atos e ações.

Isso tudo é uma ideia de construção de organização partidária, há outros caminhos possíveis, e é didático pra evitar que militância se confunda com a enojante mistura de culto à personalidade com discurso esfuziante de uma alegria militante que nada faz além de divulgar um “Não passarão!” sem práxis que impeça o fascismo de passar.

Porque é disso que faz parte da militância, que confunde a necessária ação contra o desânimo, focada na nossa memória e nos nossos fetos, com uma falsa felicidade estagnada que não constrói porra nenhuma e ainda fica saudosa de péssimas experiências porque hoje estamos literalmente fudidos na mão de um presidente com banca de miliciano.

Não, amigos, não estamos vencendo. Estamos perdendo de um time ruim por 7×1, o gol que fizemos foi de honra e o fato de outros times estarem virando o jogo, ou perto de iniciarem a virada, não faz da esquerda do Brasil mais do que observadora enquanto a extrema-direita vem de novo ameaçar nosso gol.

A mobilização do Chile está vencendo a extrema-direita, mas é lá, não é aqui e não estamos fazendo muito para trazer aquela indignação pra cá, além de comemorar e chorar vendo a foto dos outros, enquanto mugimos “saudades do meu ex” e achamos Maia democrata.

Com o Desgovenro Bolsonaro em derretimento acelerado e sendo questionado por elite e direita, sentamos em cima do gol de honra marcado em março com nossas mobilizações pela educação e achamos que tá bom porque dá pra esperar de um a três anos (dá?) pra demover Bolsonaro de sua cadeira que mancha de óleo nosso litoral e a vida de pescadores e povos originários, amplia o número de feminicídios e crimes de ódio, queima a Amazônia e avança sobre terras indígenas.

Não adianta pedir a queda de Salles e Weintraub se o chefe deles poderá nomear outros dois canalhas.

Não adianta ter medo de Mourão ignorando que a bola da queda de Jair tá quicando na nossa frente e a gente tá deixando Maia e Toffoli o manterem no poder enquanto as digitais do assassinato de Marielle, rachadinhas e aparelhamento criminoso do poder avançam sem suar.

O otimismo da vontade do nosso discurso é delusional e tenta calar o pessimismo da razão que explicita nossa imobilidade.

Sim, a imprensa liberal erra ao dizer que a esquerda está parada na institucionalidade, porque nessa ela não está, mas acerta, sem mirar lá, pra dizer que ela tá omissa na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapé,

Com exceção dos indígenas, povos originários, Sem teto e Sem terra, o restante da esquerda tá olhando pra ontem, e em vez de ser pra revolução Russa tá olhando pros governo Lula como se fossem o Reino Encantado de Aruanda.

A gente precisa do pessimismo da razão, porque estamos perdendo e o fato do time de lá ser ruim e o juiz ter cansado de roubar não transforma o resultado uma vitória.

Mas também precisamos de um otimismo da vontade real, que faça com que, mesmo com todas as tretas, a gente levante no dia seguinte e faça acontecer as organizações, os atos, as produções de conhecimento e programa, as ações necessárias.

O otimismo da vontade não é um alento pro pessimismo da razão, mas o combustível pra, de forma realista, transformar a realidade que faz a razão ver tanto pessimismo.

É fundamental sairmos do transe que sonha com a volta de Lula como nosso Dom Sebastião de Garanhuns e pormos em prática movimentos de organização e organicidade que permitam que a conjuntura mude e que ele possa ser o Dom Sebastião de Garanhuns pra quem precisa de um homem pra chamar de seu.

Temos que pôr em prática movimentos que permitam que saibamos quem mandou matar Marielle e porque Jair, Flávio e Queiroz estão desde sempre produzindo canalhice e fake news sobre ela.

Pra sairmos do transe é preciso construir meios de irmos pra rua, é preciso fazer banquinha com material, discutir no cotidiano, filiar gente, chamar passeata, cobrar as lideranças porque não estamos agora gritando “Fora Bolsonaro!” e estamos tentando derrubar ministro.

Há um latifúndio para nosso otimismo da vontade ocupar e há uma conjuntura violenta que o pessimismo da razão precisa ver.

E pra vencermos é fundamental agirmos com o primeiro, enxergando com o segundo.

A queima da Amazônia não é uma crise, é um projeto de um Agro nada pop.

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Bolsonaro é a voz do capitalismo Brasileiro ecocida personificado no agronegócio. E quando abre a boca na maioria das vezes explicita um tipo de pensamento que está nas formas culturais que abraçam o agronegócio como base econômica.

Mesmo sustentando e sendo fundamental na eleição de Jair Bolsonaro, o Agro também é afetado pela crise econômica que insiste em acusar os governos petistas de terem produzido e ampliado, embora depois de três anos de Temer entrelaçado nas tramas do agro, e que se amplia sobre o governo Bolsonaro.

De janeiro até agora o setor acumula uma perda de 0,39% com relação ao PIB específico de seu setor. E mesmo assim insiste em medidas que expõe as fragilidades da percepção conjuntural e contextual do empresariado agro negociador brasileiro.

Ao empoderar Bolsonaro e insistir em uma dupla sócia atleta da percepção do setor sobre economia, cultura e ecologia, como Teresa Cristina e Ricardo Salles na Agricultura e Meio ambiente, etc, o agronegócio se torna sócio do próprio cadafalso que seus negócios passam a ocupar quando a Amazônia queima.

O Agro se torna pop na TV, e nas músicas e paradas de sucesso onde só toca top, porque sustenta parte fundamental da economia capitalista brasileira, representando cerca de 20% da economia brasileira, percentual nada desprezível, e com o seu peso no capital conseguiu traduzir sua forma de pensar o país em um compartilhamento de valores que perpassam a política, a economia, o amor e a sociabilidade.

Esse pop, que valsa nas canções do Sertanejo, traduz a percepção de família, romantismo, capital, vida. Há modelos de canção complicadas sob o ponto de vista da exposição de uma misoginia, de uma defesa da violência contra a mulher como saia para rompimentos, da exposição da mulher como fadada a ser sofrida por amar sem ser amada. Há um combo de transformações sociais explicitadas nas letras e que prega uma ideia de sociedade que rima com o Bolsonarismo, que é gordofóbica a ponto de pressionar Marília Mendonça a efetuar cirurgia bariátrica, e é fundamentalista evangélica a ponto de efetivamente Simone e Simaria se recusarem a mencionar o nome “Yemanjá” presente em canção do Natiruts que cantariam em um show no programa Música boa ao vivo do Multishow.

Esse peso econômico, essa força cultural se juntam a outros tantos fatores que se pretendem em um salto ornamental suprimir uma sociedade que se pretende diversa, classificada como “de esquerdas”, em nome de uma sociedade heteronormativa, com uma ideia de economia que exclui o meio ambiente e de política que exclui a democracia se esta ameaçar oque eles chamam de “valores da família”.

Essa matriz cultural entende que espaço com mata nativa é “sujo” e que é preciso ampliar sem eira nem beira o espaço de pasto para sua produção de carne e que contou com Bolsonaro pra sustentar essa medida a partir do desmonte feito nos organismos de fiscalização ambiental.

Essa matriz cultural entende que economia é algo que precisa de pouca regulação, que sem terras, quilombolas e indígenas são vagabundos e que mulher é uma posse, que LGBT são doentes e que meio ambiente é coisa de vegano.

Da lógica à prática precisou-se de oito meses para que o próprio Agro em sua confusa organização interna se visse diante da contradição entre sua percepção de estado e cultura e os custos disso para seus negócios.

O meio ambiente passou a importar quando a ala mais radical de sua percepção de país resolveu ampliar as queimadas e o desmatamento e que a desregulamentação ambiental que produziram permitiu que madeireiros e outros setores alinhados à mesma lógica pudessem fogo na Amazônia, expondo sua economia, seu PIB às perdas ainda maiores do que a já acumulada desde janeiro depois da União Europeia indicar que fará com que ocorram sanções econômicas ao país, afetando diretamente o agronegócio.

Até quando o mundo se espantava com as queimadas amazônicas, o Agro tentava no congresso ampliar o ataque aos povos indígenas com a tentativa de aprovação no CCJ PEC 343/2017 que interferia na autonomia dessas populações sobre os territórios demarcados para sua vivência, permitindo arrendamento via FUNAI para o agronegócio e mineração.

O eixo de sua base cultural, de seu pensamento econômico e político, organizou-se no Bolsonarismo e se pôs em marcha para implementar na marra, e com a maior truculência possível, um projeto de país cantado em verso e prosa por duplas e conjuntos de um sertanejo que exclui o caipira e mesmo no discurso mais “libertador” da mulher a coloca como quem sonha com um homem perfeito ou espera horas a fio por homens em motéis sem “precisar ligar”. Um sertanejo que acha que não precisa se preocupar com a homofobia e que praticamente informa que naqueles espaços é proibido ser LGBT e não tem vergonha de fazer blackface ou de fazer como o músico César Menotti em pleno Altas Horas da Rede Globo e declarar que “samba é música de bandido”, em um racismo explícito dada as origens étnicas do samba. E um sertanejo que é Agro e não tem vergonha de chamar áreas com mata nativa de “campos sujos”.

A ideia dos “Campos Sujos”,o conservadorismo comportamental, a própria ideia de poder político como um poder de exclusão e não de produção de relação é um coquetel que faz do incêndio na Amazônia a síntese de um país que por força de uma aversão à democracia e ao meio ambiente, identificando neles tudo o que é contrário à “família” e “à produção”, queima seu futuro e seus ativos de forma irracional.

Assim como parte da burguesia financeira não se preocupa com oque Bolsonaro faz até lhe dar prejuízo, vendo em sua eleição um meio de erradicar oque a ela se opõe e maximizar sua taxa de lucros, o Agro não pensou nos riscos ou se preocupou com Bolsonaro até o desmonte desejado da fiscalização ambiental gerar a ela prejuízo direto com as possíveis sanções econômicas que o G7 discutirá a partir de um repúdio à política ambiental de Bolsonaro.

A “escolha difícil” do Estadão no segundo turno de 2018, não foi difícil para o Agronegócio até agora, quando o fogo na amazônia expõe animais carbonizados, escurece o céu de São Paulo e faz a crise econômica chegar no setor que já estava sob a mira do planeta com a liberação sem critério de agrotóxicos.

O projeto de país evangélico, homofóbico, racista, ecocida que junta o Agro pop à parte da mídia e no governo Bolsonaro é exposto quando este governo começa a dar prejuízo e se torna rum pária até em sue continente.

Diante desse acúmulo de elementos que expõe o Agro ao mundo, com os prejuízos necessários,é fundamental apoiarmos um debate amplo sobre o peso de um setor econômico e que se tornou um setor de aprofundamento do conservadorismo racista de uma eite agrária que só modernizou sua gestão dos próprios negócios e seu contraponto através da defesa da agroecologia, das populações tradicionais e da agenda de combate à emergência climática atuando para não apenas a derrota do projeto em seu aspecto mais visível, mas ecologicamente ampliar a percepção do conjunto de erros que o empoderou mais do que nunca como meio de derrubar não apenas Bolsonaro, mas a agenda cultural, econômica e política que o fez ocupante do Palácio do Planalto.

Claro, não podemos ser inocentes com relação aos interesses imperialistas na Amazônia e na ação que usa a situação ali de álibi para evitar um acordo UE-Mercosul que interfere nos negócios agrícolas da Europa ou na defesa pelo Canadá e até EUA de sanções que atingem um dos principais concorrentes de ambos em vários negócios: o Brasil.

Só que não sermos inocentes não deve nos impedir de entender nesta brecha um caminho para uma ação ecossocialista de derrubada das vacas sagradas do neoliberalismo ruralista personificado por Bolsonaro e que é trilha sonora do Agro.

É preciso ampliarmos pela esquerda e com a esquerda mundial a cunha que se abre à nossa frente para pormos como protagonistas as falas e lutas dos povos indígenas e quilombolas, o combate à mineração e ao agronegócio monocultor, rediscutir produção de consumo de alimentos rumo a uma soberania alimentar que sobrevive na luta agroecológica e na agricultura familiar.

Em um momento onde uma produção de carne que supera em muito o consumo per capita do Brasil corre o risco de ficar presa em portos europeus é fundamental discutirmos as pegadas de carbono de nossa indústria de alimentos de nossa produção de commodities, da mineração que se assanha para entrar em terras indígenas e põe fogo na maior floresta tropical do planeta para facilitar sua entrada.

O projeto do Agro queima a Amazônia porque o Agro é pop e já sabemos que o pop não poupa ninguém.

Por isso cada ação de hoje em diante precisa ser uma ação transformadora ecossocialista que atinja o coração de uma lógica de capital que abraça o fundamentalismo religioso e o conservadorismo comportamental para queimar nossas vidas em holocausto a um Deus de morte.

Como enfrentar o fascismo, Jair Bolsonaro e spoilers de IT – A coisa

Mobilização nacional antifascista contra a conferência neonazi

Há anos a cada postura de algum movimento, partido ou figura pública de esquerda chovem repúdios a esta ação, postura ou política. E com ele chovem também essencialismos, com se não fosse possível uma esquerda eleitoreira ser tão esquerda quanto uma esquerda antieleição.

Da mesma forma quando surgem notícias ou falas de policiais antifascistas, o mesmo movimento que elogia o surgimento em instituições tão violentas e avessas à democracia, fãs do fascismo mesmo, surgem críticas essencialistas que informam a todos nós, pobres idiotas, que é impossível um policial, que até outro dia era uma pessoa, ser antifascista, num suposto essencialismo que cola na pessoa que optou por ser policial um DNA fascista.

Freixo e Sâmia gravaram vídeo com Janaína Paschoal e Kim Kataguri? Traíram o movimento. O PSOL é mais institucionalidade que rua? Ex-querda.

Ok, é do jogo, faz parte do dissenso inclusive a estupidez. O que incomoda é a ausência, via de regra, de soluções que construam sob o ponto de vista de quem taca a pedra, o que eles colocam como alternativa.

Tacar a pedra é fundamental para que olhemos pra Freixo e Sâmia e coloquemos o quanto é limitada essa aproximação com setores liberais que propagam uma tolerância ao intolerante que eu, pessoalmente, não embarcaria para participar, mas jamais pra dizer para eles e quem quer que entenda ser possível esse tipo de ação, por índole, práxis ou desejo oportunista, que seja, que não façam porque é trair o movimento.

Trair o movimento, a esquerda, etc é votar a favor da Reforma da Previdência ou se omitir diante de um canalha que diz que discurso de ódio tá ok se o alvo for um comunista, isso é trair o movimento.

Qualquer movimento de diálogo, e diálogo não é conchavo, não é trair nada,é só um movimento, e um diálogo. E diálogo expõe a ambos os interlocutores ao escrutínio público e com isso expõe a este mesmo público a possibilidade de saber o que é cada um e que a prática é o critério da verdade.

Da mesma forma atacar como “eleitoreiro” quem historicamente tem um perfil de atuação mas institucional que de rua e de capilarização via núcleo, como o PSOL, por ser, pasmem, mega institucionalidade e com eixo político rolando em torno de suas figuras públicas, mesmo que sim tenha mais rua que a maioria de movimentos e partidos de esquerda é no máximo dizer o óbvio, mas e a construção de rua e do que se deseja ser o principal vetor de movimentos, é tarefa apenas de um partido? Se ele não é o que tu queres que ele seja o que se organiza como alternativa além do papo?

E sim, estou dizendo o óbvio: pouca coisa é mais impotente do que o sommelier de como outros partidos/movimentos são sem construí-los ou construir alternativas ou construir alternativas que não tem, lamento, capilaridade e peso institucional ou de rua compatível com a indignação sobre o outro.

Da mesma forma os ataques aos policiais antifascistas é lamentável, porque é uma recusa a organização de dentro de instituições de resistência a ethos que compõe a cultura delas. Essa lógica é prima irmã da que trata religiosos como idiotas irrecuperáveis ou que essencializam o ser de esquerda com alguém fora do mundo, angelical, portador da razão, guia genial dos povos.

Cada policial antifascista é menos um policial fascista, viu? E os caras sofrem retaliação, sem contar, em forças de segurança cada vez mais milicianas, estão sob risco REAL de morte.

O interessante de tudo isso é que todos tem uma receita de como reagir e resistir ao fascismo, como combater Bolsonaro, spoilers de IT – A coisa e a contratação de Oswaldo de Oliveira, mas ninguém, olha só, faz CONCRETAMENTE, porra nenhuma pra expor isso de forma real, diária, cotidiana e visível.

Sua organização ou você já puxou no teu bairro rua, padaria, cidade o Fora Bolsonaro ou se movimenta pra isso? Tentou se organizar em um movimento/partido/clube do Bolinha que construa algo assim, mesmo correndo o rico de ser minoritário? Porque é disso que a gente tá precisando, de mais gente, pros contrapontos estarem na rua, no chão se opondo inclusive aos discursos que norteiam partidos como o PSOL, do qual faço parte e não de grilos falantes impotentes, diletantes e estagnados que pouco fazem além de torrar o saco.

O Freixo tem boas relações com o Frota, que faz bullying gordofóbico com a Sâmia? Acho que ela e ele são adultos e tem capacidade concreta de construírem entre si,, sem a nossa tutela, a crítica e autocrítica necessária diante disso e que a Sâmia, olha só, seja adulta e capaz de defender a si mesma sem a tutela de um macho.

Os Policiais Antifascistas são membros de forças de segurança racistas e fascistas? Eles não só são como têm consciência disso e se arriscam a ir contra a maré.

O PSOL luta mais na institucionalidade que na rua e foca mais nas eleições que na organização diária? Meia verdade total, tem rua e tem eleição, tem mais institucionalidade que deveria, mas tem diariamente construção coletiva de resistência país afora em mobilização que se constrói para além de voto, mesmo visando o voto. Mas é sim um partido com forte teor eleitoral e institucionalista, só que, olha só tem outros partidos, viu? Tem movimentos autônomos, anarquistas, budisto-maoístas, fãs de Doctor Who e de Midhunter, cosplay de Naruto, etc. Organiza-te neles, constrói a alternativa!

A questão é reduzir a TUA solução de luta a uma solução que PRECISA SER universal. Não, não é, nunca será.

Mas não pode criticar, Gafanhoto? Pode, pode pra caralho, o que não pode é criticar a Tartaruga por ter casco e a Tartaruga que tira o casco por ter tirado.

A crítica a Freixo por conciliar, coisa que ele ASSUMIDAMENTE faz, declara, discursa, anos a fio, inclusive conciliação de classe, mesmo dizendo que quem governa pra todos tá mentindo pra alguém (No que ele acerta), é criticar a Tartaruga por ter casco.

Freixo, PSOL, Sâmia, Bakunin, Senhor Myiagi, todos tem seus limites e características que compõe o caminho deles e os deixa expostos a nosso julgamento.

Dá, ao saber que obviamente Freixo é um conciliador, que não é revolucionário, optar conscientemente por tratá-lo como o inimigo que ele não é?

Da mesma forma tratar policiais antifascistas como a mesma coisa que o policial que mata a Ágatha é de uma estupidez atroz. Qualquer cunha de resistência dentro de institucionalidades autoritárias, racistas e de forte ethos fascista é fundamental para tentar movê-las para outro caminho.

Ou alguém tem a ilusão que com uma exceção de conjuntura revolucionária real vamos acabar com a polícia?

A ideia de que há uma solução única pra combater o fascismo, Bolsonaro e spoilers de IT – A coisa é, ela em si, autoritária e interditadora de discursos. Não, não há. A realidade é complexa demais, há trocentas coisas para mudarmos, há oitocentas estruturas a serem derrubadas e erguidas outras ou não. Há coisa demais a ser feita que uma só percepção é, ela em si, censória.

Há uma necessidade atroz de forte oposição parlamentar, de forte oposição eleitoral, de forte ação de rua, de forte ação de capilarização de esquerda, de enorme contingente de esforços dentro e fora das institucionalidades de transformação da cultura como um todo.

O que não dá é confundir a necessidade de oposição em todos os aspectos com uma uniformidade acrítica, nem transformar a crítica em ação de destroçamento de uma oposição que tu discorda de como é feita.

Bolsonaro tem enorme impopularidade, por exemplo, e precisa de gente na rua convencendo quem votou nele que ele é um câncer, mas também precisamos de parlamentares pra dizer isso na Câmara e policiais pra dizerem isso na delegacia.

Você acha que o policial que vê a gente dizer que policias e moradores das periferias morrem em igual número e que o governador que chama ele de herói não vai dar aumento pra ele e tá pouco se fodendo com a várzea emocional que a guerra aos pobres causa nas forças policiais da mesma forma que vê quem diz que o policial tem que morrer mesmo?

Não, o policial não deve morrer, nem matar, e mesmo que eu, pessoalmente, tenha uma enorme dificuldade em me solidarizar com a morte de policiais, que em sua maioria nunca esconderam que são partícipes, cúmplices, da política genocida de governos. Essa dificuldade minha não torna em ela correta, longe de ser uma culpa cristã essa afirmação, nem a ideia de que o policial deixa de ser vítima do genocídio que pratica, os que praticam.

Policiais historicamente se isolam, pedem transferência, trabalham longe de casa e da família pra fugir de grandes concentrações de adeptos de esquemas, assassinos, esquadrões da morte,etc. Policiais são gente pra caraba, um enorme contingente, e convivem nele genocidas e pessoas honestas. Não sabemos a quantidade, podemos até dizer que a maioria é de canalha, mas é fundamentalmente importante defender quem resiste.

É fundamental que entendamos que situações complexas exigem soluções complexas, polifônicas, multifacetadas.

Menos apocalipticismo que paga de fodão ao dizer o óbvio, que, por exemplo, Jair Bolsonaro fez na ONU discurso pra alimentar o foro interno (Ignorando que ali ele também dialogou com Sauditas, Orban, Trump, Vox e outros fã de Bannon), e mais ação.

E ação significa também modular o discurso, produzir o combate ir menos na veia de quem tá do lado e mais na veia do fascismo.

Construir matrizes de padrão negativo nas métricas de redes sociais envolvendo fascistas é tão importante quanto construir núcleos na periferia, de preferência sem tratar a periferia de forma colonialista.

Da mesma forma é mais importante atacar democratas que se omitem em detrimento do ataque a democratas que resistem. Como é fundamental entender que qualquer brecha aberta no discurso e na imagem de gente autoritária que tá tentando reposicionamento de marca pra se descolar de Bolsonaro é muito bem-vinda.

Não há uma fórmula única de combate ao fascismo, a Bolsonaro e aos spoilers de IT – A coisa, inclusive porque no cotidiano, na realidade, no processo dialético do real, não há fórmula única nenhuma.

Estamos em crise climática, civilizacional, com a democracia internacionalmente sob ataque, em avanço do genocídio de pobres em nome da guerra às drogas, então sim, de Sanders a Freixo, passando por autonomistas, anarquistas, okupas e movimentos de combate à carreira musical do Sambô, todos os movimentos que põem as civilizações em combate à barbárie são bem-vindos.

A dialética não precisa realmente de síntese, a polofonia que reage à antítese é uma bem-vinda sonoridade que rima com a diversidade, e a biodiversidade, dos espectros políticos que agem em prol da vida.

Nesse momento a unidade que precisamos é menos a uniformidade acrítica e mais a compreensão que nessa trincheira é extremamente importante sabermos quem somos e nos respeitarmos por isso.

O destino manifesto do comunismo vulgar.

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O título desse texto podia ser a respeito do marxismo vulgar, mas até o marxismo vulgar possui uma vibração menos hegeliana e antidialética que o comunismo vulgar, exposto em lamentáveis linearidades, messianismos e crença não materialista e quase metafísica numa revolução que é menos processo e mais uma inevitável exposição de um destino manifesto.

A revolução que é de uma inevitabilidade que faz dela um ente: a Revolução, que é quase um evento escatológico. No princípio era o verbo, no fim A Revolução.

Essa linha produz consigo um revival do stalinismo com o que parecia quase impossível: seu louvor acrítico às dinastias soviéticas que se seguiram na defesa do socialismo em um só país, e menos teórico ainda que o produzido a partir das garras do georgiano bigodudo.

Se o stalinismo já trazia consigo uma deterioração do marxismo com seu socialismo em um só país, o etapismo, a guinada que levava consigo uma retomada do hegelianismo e da inevitabilidade do progresso e da razão na libertação da classe trabalhadora como se a realização histórica a partir do mundo ideal, o neo stalinismo engraçado faz do produto dos partidos comunistas do século XX um pastiche que piora ainda mais a teoria em torno do socialismo a partir dos olhos de Stálin, produz uma ideia de que o comunismo tem uma tribo em torno de si que tem o destino manifesto da libertação do homem.

A Revolução virá, sabe? Ao ler os escritos stalinistas atuais, e não só, ao ver seus vídeos a gente percebe uma ideia de esquerda, de luta, de produção revolucionária que traz consigo não a dialética marxista e tudo o que a envolve, a investigação sobre o cotidiano, o dia a dia da classe trabalhadora e da própria classe enquanto relações ou ente, mas seu inverso, sua categorização em espaços estanques.

E essa linha traz da obra e vida de Marx, Engels, Rosa, Lênin, não elementos teóricos que permitem uma ideia metodológica sobre o real e a produção de meios que permitam à esquerda atuar como indutora para que uma revolução ocorra, que dialogue com a classe a procurar sua realização e que enxergue o momento histórico de sua eclosão, para lidar com as questões da classe de forma a liderá-la, mas verbetes, versículos, ditos, apontamentos messiânicos sobre como lidar com o hoje a partir das palavras de poder do antigo sábio comunista que aponta nosso destino manifesto.

Isso sequer é novo. Benjamin apontava essa tendência nos anos 1930, e Hobsbawn fala disso explicitamente em sua obra “Sobre a História” (Capítulo 15, página 206).

A ideia de uma inevitabilidade histórica do comunismo/socialismo, a leitura estanque de uma relação torta entre superestrutura e infraestrutura colocando o econômico como uma base que produz a cultura, ignorando as circularidades das relações entre cultura e economia, e outros tantos fatores, assim como entre as classes e no interior delas, tudo isso é uma herança do revisionismo marxista ou marxiano dos primeiros anos do século XX e continua até hoje a partir de bases teóricas definidas ainda antes da Primeira Guerra Mundial.

E à revelia da superficial antítese entre os revisionistas da social-democracia alemã com o comunismo de Lênin que posteriormente foi tomado, relido e abraçado por Stálin defendendo-o como Marxismo-Leninismo, essa tendência teórica, por vias tortas, saiu do revisionismo pequeno burguês eleitoreiro para o discurso dos defensores do socialismo em um só país, combatentes contra a revolução permanente.

A própria crítica à transformação, por Kautsky por exemplo, das ideias de Marx em um rearranjo teórico que incluía evolucionismos e positivismo à revelia de releitura modernizante ou a ideia da data de validade de análises sobre a história, como a ideia de Bernestein da necessidade de atualização das ideias de Marx para novos contextos históricos, uma atualização que incorporou o idealismo hegeliano anterior à própria dialética marxista, ignorando que o processo dialético e a própria ideia de Marx das características de sua análise obrigar a uma rediscussão cotidiana das condições objetivas e subjetivas dos processos históricos, saiu de um discurso que confrontava a ideia de revolucionários como Rosa Luxemburgo e Lênin para o interior, para a alma da teoria marxista que virou o eixo do que os PCs produziram como teoria a respeito da revolução via normas do comitê central do PC da URSS.

A própria ideia do etapismo, que pensava as alianças com as burguesias nacionais como etapa para uma revolução burguesa e posteriormente produzindo uma revolução socialista tá ali na ideia de Bernstein, na releitura de Kautsky e depois na produção teórica dos PCs pós Stálin.

Isso renascer nos anos 2010 do século XXI é uma espécie de retorno como farsa, assim como a eleição de Bolsonaro.

Não há a necessidade de falsa simetria pra discutir as proximidades entre o Bonapartismo do neopresidente ex-capitão e o sonho molhado de um Comunismo hegeliano com amores autoritários e releitura torta do combate ao imperialismo e saudades de Gulags e Stálin, fingindo que é bacana pra caralho campos de concentração que mandavam pra morte gente que era tão comunista ou mais que o senhor Georgiano, mas ameaçava sua obsessão messiânica que faria existir um culto à personalidade que quase tinha a face de uma religiosidade marxista, por mais contraditória que seja (Leiam Benjamin a respeito).

Marx já sacava a batata quente da idolatria de sua teoria antes de morrer, Engels tretou com a edição de seus escritos pela social-democracia alemã com o intuito de dar a distorções do que ele escreveu um sentido de endosso histórico de um dos totens tabu humanos do comunismo.

A questão é que tem teoria a rodo pra deixarmos de trazer pro coração de uma luta/teoria em si internacionalista, que se rediscute e se refaz a cada novo tipo de transformações de processos históricos e que produz novas percepções à exaustão a partir de Marx em torno de todas as suas descobertas relativas às ciências humanas ou até mais que isso, da economia à história, passando pela ecologia.

Fica bastante incompreensível pra quem lê Marx preocupado com as transformações ambientais a partir do capitalismo provocando queras metabólicas ver que neo-stalinistas reproduzem um discurso anti-ambiental em prol de um desenvolvimento econômico que rima mais com a UDR do que com o velho Karl.

Mais ainda ver reprodutores de uma ideia de classe como algo dado que ignora todas as descobertas a partir da categoria formulada pro Marx da classe como fenômeno histórico, ou seja, fruto de contextos que são diferentes em lugares diferentes, e que é um processo de determinação relacional, ou seja, uma classe existe no tempo, espaço e em relação a outras classes e não como algo que brota a partir do advento do capitalismo.

Piora quando vemos os stalinistas autoproclamados marxistas ignorando que o que Marx entendia como uma aplicação do que ele produziu como teoria não eram as formas autoritárias que ele combatia a partir das visões platônicas e positivistas de parte do socialismo que ele chamava de utópico, mas a Comuna de Paris.

Outra coisa é a ideia de uma superação do Capital como algo que virá, impávido que nem Muhamad Ali, e não fruto de um desgastante, longo e tenaz combate diário das forças socialistas e comunistas para produzir uma base organizativa das classes trabalhadoras que produzam a revolução ou aproveitem as ondas de sua eclosão nos momentos em que os processos históricos a tornarem inevitável em sua diversidade de tempos, lugares e características específicas da classe trabalhadora em seus contextos.

O fato da história ser movida pela luta de classes, considerando que Marx quando criou o conceito não tinha ideia da possibilidade e classe ser um fenômeno histórico (O cara produziu uma cacetada de coisas, mas não era Deus), não faz com que essa luta tenha uma linearidade e um destino manifesto da classe operária na superação do que a oprime por inércia. Da mesma forma toda a teoria que permite à classe a posse de ferramentas de análise do real que a empoderem para o combate pela sua libertação não é um conjunto de normas dogmáticas sagradas que recitamos enquanto abatemos carneiros em holocausto ao Deus da Dialética.

A teoria é ferramenta, não dogma. O cara que chega com a teoria é alguém que atua COM a classe, não por ela, menos ainda como líder dela. É na classe que surgem as lideranças que com ela encaminham o processo de sua libertação, afinal.

Ter a ideia do socialismo/comunismo como destino manifesto; a distorção da própria ideia de nossa necessária internacionalização para um nacionalismo supostamente anti-imperialista, mas fã de se tornar um “imperialismo do bem”; a negação das necessárias percepções do real que nos expõe que a contradição entre Capital e Natureza superam até as contradições entre Capital e Trabalho, na prática, no encaminhamento de extinções em massa, inclusive a nossa, e no efeito que o ataque do Capital à natureza causa à classe trabalhadora, tudo isso tem uma característica em comum que torna o marxismo vulgar um hegelianismo que nega o que Marx produziu: a ideia e a ação que tornam seus defensores reprodutores de linhas genericamente modificadas da base teórica marxiana e repetidores das falas de grandes marxistas como mantra.

É fundamental que atuemos como protagonistas de discussões que exponha que não há uma revolução no horizonte pro haver horizonte, mas que para que a produzamos precisamos de organização e ação cotidiana, não colonizadora ou messiânica, mais produtora de uma práxis libertadora que dialogue com o real a partir de bases teóricas marxistas.

Ter uma mente onde exista um destino manifesto é um entrave, não uma necessidade de militante que busca em Marx um caminho teórico de melhor compreensão do real e ferramentas para o empoderamento próprio e coletivo na luta de classes.

A redução do marxismo a seu aspecto teológico e ao comunismo como uma reprodução como farsa de um stalinismo que já era um problema em 1956, se tornando um marxismo vulgar que remete a Hegel, só produz revoluções no estômago.