Polifonia pra todo mundo poder brilhar num cântico

Amanda-Moraes-Pingo-Negro

Eu não preciso me filiar ao PCdoB pra defender a Manoela de ataque de Bolsominions, nem achar o PT o último biscoito do pacote pra defender Lula de um processo obviamente viciado, não preciso sequer achar que Lula é honesto.
Também não preciso ignorar todas as críticas que fiz ao PSOL, ao Boulos, ao MTST, à Luciana Genro ou à US porque estou voltando ao PSOL e também para apoiar a chapa Boulos/Sônia Guajajara.
É possível militar politicamente sem se posicionar de forma acrítica, tampouco com uma criticidade que ignora defesa de valores mínimos e do óbvio: Estamos mais próximos entre nós do que entre nós e Alckmin, Doria, Temer e Bolsonaro.
 
Thompson e Perry Anderson se porravam, tem livro inclusive com uma pancadaria do Thomopson no Anderson, e não eram sectários entre si.
David Graber é um puta anarquista e defendeu Corbyn dos ataques feitos pela direita do Labour Party ao líder de esquerda do Labour que afinal tornou-se líder do partido.
Leio e respeito pra caralho a posição da FAG, leio a revista do MES sempre que posso, discordo pra cacete do morenismo como um todo, mas respeito os companheiros morenistas.
Não sou puro, nem líder, nem acima da média, apenas estou dizendo que nossas discordâncias PRECISAM ser dirigidas para a construção do todo e não pra destruição da parte.
Que nossa polifonia se transforme num acorde perfeito maior com todo mundo podendo brilhar num cântico e não que seja a fragmentação que analistas enxergam, em vez da diversidade.
Nunca acreditei na fragmentação da esquerda por entendê-la diversa, não me façam passar a acreditar.
Nossos valores se reuniram, se remontaram,a empatia que o arbítrio forçou pode ser a forja de uma unidade sem uniformidade que nos fará retornar coletivamente ao protagonismo no cenário político brasileiro.
A construção de nossos núcleos e grupamentos não precisa devorar a construção do outro, disputar não precisa ser destruir.
A execução de Marielle a prisão do Lula ensinaram a todos nós uma valiosa lição, vamos aprender?
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Aquela não tinha a menor vaidade, aquela é que era esquerda de verdade: Da política enquanto mágoa de caboclo

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Estou hiper à vontade no papel que executo hoje em apoio a Lula e sua luta contra a prisão absurda.
Faço oposição a Lula e o PT desde 2003, são quinze anos de oposição ininterrupta, apoiei o governo por um ano e considerando que estava na oposição aos governos anteriores eu tenho cerca de trinta anos de oposição ininterrupta.
Sou o oposto da coerência enquanto alinhamento ideológico, exceto por ter estado na esquerda todo o tempo de minha vida.
Confesso que filosoficamente oscilo entre a anarquia e o marxismo de linha trotkista, mas nunca me senti mais à vontade do que em organização de linha trotkista embora por imaturidade não tenha dado continuidade e permanecido em grupo quando deveria, fui egoísta e anárquico quando era hora de esperar.
Minha maturidade política não ocorreu no devido tempo e talvez só esteja ocorrendo agora, se é que está ocorrendo.
Errei mais do que acertei com toda certeza, mas nunca tive muitas dúvidas sobre meu lugar enquanto política, estava certo a meu ver na oposição a Lula, estou certo em permanecer oposição ao PT e neste momento apoiar Lula contra sua prisão, da mesma forma que petistas apoiaram o PSOL quando perdemos Marielle.
Voltei ao PSOL há menos de um mês, tomado por duas certezas: Cansei de sectarismo, inclusive o meu, e há um chamamento histórico, ao menos pra mim, para que se exerça o que considero um caminho de construção não sectária de organização política.
A execução de Marielle influenciou nisto.
A percepção de Boulos e Sônia como um marco simbólico e que desenha uma reorganização da esquerda também, e hoje tudo o que envolveu a prisão de Lula fortalece esta percepção.
Eu posso mudar amanhã? Posso, mas gosto dos meus feelings.
Sou um militante indisciplinado, mas um bom observador de conjuntura, por isso só amadureci politicamente quando amadureci enquanto historiador.
Este enorme nariz de cera foi produzido por demarcação com o que vejo ocorrer por parte de Marina Silva e Cristovam Buarque que trocam a biografia pela mágoa de caboclo com relação ao PT.
Já tive muitas mágoas na vida em relação à política, o PT me magoou muito. Já tive mágoas no PSOL, muitas dores e muita desilusão.
Minha saída do PSOL se deu por um choque de valores que eu só percebi que deveriam ter me mantido ali para defendê-los, mas o contexto me levava a entender que ali não era um caminho.
E minha saída me ajudou a encontrar outros caminhos e me melhorar enquanto pessoa. Precisava daquele tempo e aprender que política é feita sim de sonhos, mas de sonhos e prática, organizados enquanto projetos e não dos que se transformam em ilusionismo, uma estagnação delirante que aguarda que o desejo se realize, como se a ideologia fosse um gênio de Aladim.
Assim como na vida adulta, na política somos obrigados a encarar uma vida com pessoas, projetos e derrotas que nos deixam mal.
Por outro lado há uma dimensão de solidariedade e empatia que unem e estabelecem laços organizativos entre indivíduos e coletivos, além da percepção que somos diferentes, mas convivemos em busca de superarmos obstáculos em comum.
Nossa unidade mora aqui, nesse entendimento.
As mágoas não apagaram esta percepção, mas há pessoas que tratam a mágoa como mote.
Cristovam e Marina destroem todas as pontes possíveis com o mundo real ao atacar toda e qualquer medida produzida pelo PT nos governos como lixo.
Do PROUNI ao ensino médio, das federais ao Bolsa Família, nada é bom, nada, nada é visto como produtor de mudanças.
E com isso ofendem milhares, milhões de pessoas que sim mudaram de vida com essas medidas, porque com todos os seus equívocos foram sim boas.
Podem e poderão ser transformadas em algo melhor, mas ignorar o papel transformador de medidas do PT no governo é miopia.
Ah, mas teve corrupção! Opa se teve, inclusive nos ministérios comandados pelos senador e ex-senadora, inclusive enquanto ambos foram governo. Idem quando Cristovam foi governador de Brasília.
O problema foi que Cristovam não conseguiu produzir nada de impacto enquanto ministro e governador na área de educação? Porque o resultado pífio tem um papel importante nessa história.
E Marina? O grande ícone do ambientalismo no PT produziu um resultado digno de nota enquanto ministra? Há controvérsias.
Foi omissa na maior parte da sua permanência nos governos.
Pior, não enfrentou a lógica produtivista, anti-índio e daninha do governo, submeteu-se anos a fio ao papel de vítima do trator Dilma e na hora em que adotou um papel mais ativo optou por alinhar-se a Aécio e a uma proposta ambiental francamente capitalista e adepta do green wash by Natura do que produzir um seguimento da projeção e sonho ambientalista que levou Chico Mendes à morte.
Irônico quem se diz traída a ponto de produzir um discurso e uma práxis inteiramente voltada pro anti-petismo mágoa de caboclo trair sua matriz ideológica ambiental, não?
Mas a política enquanto mágoa de caboclo não fica  por ai, boa parte da esquerda também prefere ser mais grilo falante e esperar uma volta à idade de ouro da esquerda Amélia, aquela que não tinha a menor vaidade e que era esquerda de verdade, do que organizar um projeto concreto de transformação cotidiana bairro a bairro, rua a rua.
No fundo há em áreas da esquerda e da ex-esquerda magoadinha um projeto, muitas vezes hipócrita, de transformar a esquerda em comunidade alternativa ou coletivo de monges mendicantes.
E sim, estamos falando também de áreas da esquerda marxista, mas também da esquerda chá das cinco, da esquerda educada em Harvard, da esquerda que aplaude pôr do sol ou de anarquista que vive num anarquismo estilo de vida que não organiza um maldito núcleo, mas se sente superior porque não perde a soberania do voto enquanto vive que nem hippie com seu salário mensal bonito de artesão especializado.
Desculpem se aqui eu destilo minha própria mágoa de caboclo, mas é porque eu tenho pouca paciência com quem nada faz e vive num mundo nefelibata arrogante todo trabalhado numa postura sacerdotal da cagação de regra e nem um núcleo funda.
Discordo de uma pancada de gente que respeito, discordo de autonomistas do MPL, acho o MEPR um poço de equívocos, a maior parte dos grupamentos anarquistas acho sectários pra caramba, acho complicadíssima a forma como a FAG e  FARJ se organizam, tenho severas críticas à maior parte da concepção filosófica da política das correntes do PSOL (Com exceção da Comuna, da qual faço parte,  e do Subverta), mas preciso respeitar todos porque mal ou bem fazem algo.
Até a DS, o Mensagem ao partido, do PT a gente tem de perceber coisas interessantes. eu tinha um tremendo receio do Vamos, e tenho ainda, mas é inegável que seu programa tem boas propostas e precisa melhorar.
Tive e tenho problemas com a forma como o MTST com Boulos lidaram e lidam com Black Blocs.
Mas não posso negar suas contribuições e menos ainda desrespeitar suas produções, preciso, e vou, criticar a todos quando achar necessário, mas com o respeito que merecem.
Minhas mágoas e preferências ideológicas não podem obliterar meu bom senso e também não posso deixar que o processo de percepção do mundo que eu tenho seja algo que se torne uma compreensão de que minha visão é algo que deve ser universalizado, isso é em si um atropelo do bom senso democrático.
É preciso maturidade pra dizer não ao coro de contentes e também pra dizer sim à abraços e solidariedades quando necessário, a satanização do outro é a destruição da dimensão de unidade necessária à esquerda,uma unidade pelo respeito e pela defesa, dura ou não, das bandeiras caras a cada grupo respeitando o outro.
Não, a unidade não é a uniformidade acrítica que o neo-stalinismo petista desenha em todo de si e que acredita que se não abraçamos a messianização de Lula estamos errados, mesmo que o defendamos de um processo supostamente judicial comandado por um oportunista arrogante de direita e que atropela os devidos procedimentos legais, amparado por um supremo covarde, para transformar Lula em símbolo de um anti-comunismo patológico.
Não é porque eu ache a martirização fake de Lula um desserviço que eu vá ignorar o processo de exceção que o vitimiza, até porque via de regra vitimizará todos nós, porque o objetivo ideológico não é prender apenas Lula, mas devastar o “comunismo”.
E não é porque eu tenha severas críticas ao PROUNI que eu vou como o Senador Cristovam atacar quem o utilizou para graduar-se.
Ou que por acreditar que parte da esquerda está equivocadíssima que eu vá tratá-la como debiloide.
A ideia da esquerda de verdade se junta com a mágoa de caboclo pra produzir o criticismo acrítico, que ignora a análise e parte pra ofensa, pro ad hominem e pro desrespeito ao outro em nome de uma suposta discordância ideológica que no fundo é um dogmatismo estúpido ou um problema de ordem psicológica relativo ao mau uso da catarse e do superar problemas.
Ambos transformam em inimigo quem e adversário e nem mesmo é adversário a todo momento.
Via de regra ambos abraçam discursos que aceitam desvios éticos punitivistas como naturais se voltados ao alvo de seu ódio ou sensação de traição ou de violação dos princípios dogmáticos abraçados.
Ambos acabam abraçando a moral da burguesia porque o que chamam de inimigo é menos o capital e mais o desviante ou o autor de mágoas produzidas em seu horizonte político.
E ai é que tá: Não há uma esquerda de verdade! E não, teu ódio não será minha herança, abro mão, viu?
Se nossos valores e biografia são menos importantes que nossas mágoas a coisa desandou.
Se nossos valores e biografia ou nossa matriz intelectual são inimigas da mudança e da revisão de seus princípios a partir de novos contextos, recomendo seriamente um psiquiatra.
A gente precisa sentir o momento e entender nosso papel nele.
Prefiro mil vezes cometer erros por enxergar necessidade de mudanças e de revisões do que viver eternamente num processo de estupidificação do outro, de transformação do outro num copo até aqui de mágoa.
Temos tanta coisa pra fazer, não?

Não verás país nenhum*

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Eu não consigo achar que acontecerá algo diferente conosco do que aconteceu com a Sininho,etc.
Sim, é isso mesmo que estou dizendo, o golpe começou ali.
Vamos ter oposição consentida, muita tortura e porrada em quem já é torturado, apanha e morre e algumas vítimas da esquerda sendo mortas, mas sendo branco o risco é menor, e não tem ironia aqui.
O que vamos viver, todos, é o que já vivem trocentos e o regime que vigora em favela e área de milícia.
A luta vai ter que ser mais no sapato que na fanfarra, mas vai permanecer existindo.
Vamos engolir sapos, correr riscos e cantar aos nossos netos, porque os filhos éramos nós e falhamos miseravelmente.
E vamos seguir, porque precisamos, e vamos sofrer, porque já sofremos, e vamos lutar, porque já lutamos.
Não, não é um poema, nem um desabafo, é uma constatação prática diante do desafio de sermos nós.
Eles venceram em 1994, voltamos a parecer que os derrotávamos em 2002, mas ali começamos nossa derrota quando o nosso governo, sim porque o governo era nosso, nos foi furtado por um pragmatismo sem práxis, que virou um oportunismo burocrata fundador de um acrítico louva pés de lideranças carismática com caráter duvidoso.
Nossa primeira derrota foi em 2005, com o mensalão, a segunda em 2013, com o governo outrora do povo arrastando sob suas asas a ampliação do estado policial, com seus governadores perseguindo ativistas em suas casas.
A quarta derrota foi em 2014, quando o ápice do modelo de “democracia autoritária” foi gerado pelo lulismo sob Dilma, liberando, como com um manual, a repressão dura a todos os que ousassem fazer oposição, até que os autores do manual forma depostos pelos seus outrora aliados e os colocou na mesma oposição em que já estávamos, e permanecemos, e nos expôs o pior do estado autoritário sob a falsa democracia de um capitalismo que necessita de mais lucro com a implosão de nossas vidas.
A prisão de Lula não é uma derrota, é um enterro, não dele ou do lulismo, mas de um tipo de vivência de esquerda que singrou mares que deveria serem cruzados com ousadia mas que optou por deixar de ser pirata pra ser corsário de um rei enfraquecido que aguardava estar no melhor de sua forma para degredar seu outrora contratado.
A prisão de Lula, decretada, mas ainda não efetivada, é um enterro, mas nossos mortos renascem, viram flores. Ex-líderes podem se tornar mártires ou catalisadores do caos para um caminho que quem apostava no caos não terá controle.
Esse enterro foi precedido pela semeadura que a execução de Marielle gerou, os dois casos produzem mudanças e que podem ser positivas, dependendo de nós e nossos legados.
Ruy Polly me ensinou a frase de Gramsci: Nem o otimismo da vontade, nem o pessimismo da razão.
E eu me apego à ela quase sempre, de quando meu time perde até quando brigo com minha companheira ou meu micro pifa.
Em caso de derrota a única solução é levantar pra cair de novo.
Nosso legado histórico não nos dá o direito da desistência, Nosso legado histórico tem de honrar tantas lutas inglórias que a história evita contar muitas vezes.
Nosso legado histórico nos obriga a louvar e a dar glórias a tantas lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais.
Outros antes de nós perderam e  foram derrotados capital e pelo estado: Prestes, Marighela, Durruti, Grabois, Che, Frei Tito, Chico Mendes, Dorothy Stang, Herzog, Marielle, Lula, Brizola.
Muitos desviaram, erraram feio, e foram e são símbolos, e serão, muitos morreram, assassinados pela canalhice do capital, e viraram lendas.
Nós todos morreremos, uns depois dos outros, ou de doença, ou de dor ou de tiro ou de tortura ou de medo.
Na verdade o aquecimento global tende a matar nossa civilização em oitenta anos.
Gosto de por as dores em perspectiva, porque neste exato momento a dor que temos é combustível.
Combustível pra nossas vidas, mudanças, lutas, rodas de conversa, panfletagens, tuitagens, textos, poemas, músicas, dissertações e teses.
Combustível pra um legado construído por mais de um século de lutas e gritos e vidas e ancestrais e primos e parentes e amores e, principalmente,empatias.
“Aqui nesta casa
Ninguém quer a sua boa educação
Nos dias que tem comida
Comemos comida com a mão
E quando a polícia, doença,
distância ou alguma discussão
Nos separam de um irmão
Sentimos que nunca acaba
De caber mais dor no coração
Mas não choramos à toa
Não choramos à toa”
O fascismo nunca passou, nem passará.
Parafraseando Nelson Rodrigues, se os fatos desmentem, pior pros fatos.
E não veremos país nenhum, mas precisamos de países?
*título de um livro que eu não li, mas desejo ler desde criança, de autoria de Ignácio de Loyola Brandão e que tem um dos títulos mais espetaculares que eu já vi.

O mito da pureza ideológica

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Ideologia é coisa séria.

Há quem pereça pelo mundo defendendo de forma tola que ideologia é aquilo contra o qual quem é consciente se rebela. Ou seja, o que o discurso diz é que ele, enquanto discurso, não é ideológico, apenas o outro o é.

Há quem dispute a ideologia que percebe melhor o real e dele dispõe para transformar ou conservar.

Há quem debata a ideologia como algo universal, que há em tudo e em todos.

Há quem defina ideologia como um falseamento da realidade que se faz presente na construção da hegemonia cultural de uma classe sobre outra a partir da naturalização de valores de uma classe opressora como se fossem universais ao todo. Essa é a definição marxista.

Eu particularmente entendo a ideologia como um apanhado de percepções do real e que pertence ao debate que ocorre na construção da consciência de classe.

Ideologia é uma forma de perceber o mundo.

Se buscarmos no Google a definição de ideologia é:

ideologia
substantivo feminino
1.
fil ciência proposta pelo filósofo francês Destutt de Tracy 1754-1836, que atribui a origem das ideias humanas às percepções sensoriais do mundo externo.
2.
p.ext. fil no marxismo, totalidade das formas de consciência social, o que abrange o sistema de ideias que legitima o poder econômico da classe dominante (ideologia burguesa) e o que expressa os interesses revolucionários da classe dominada (ideologia proletária ou socialista).
3.
p.ext. soc sistema de ideias sustentadas por um grupo social, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos ou econômicos.
“i. conservadora, cristã, nacionalista”
4.
p.ext. conjunto de convicções filosóficas, sociais, políticas etc. de um indivíduo ou grupo de indivíduos.
“sua i. identifica-se com a dos republicanos”

Aqui de onde eu vejo a ideia da ideologia ser apenas um falseamento do real que serve à produção de hegemonia me parece ao mesmo tempo lógico e limitado.

Lógico porque sim, há esse elemento da produção de ideologia que serve a uma hegemonia de classe, e limitado porque no decorrer do tempo a percepção de Marx deu conta de apenas um aspecto do mundo cultural e das relações de força entre movimentos culturais relativos às classes.

Em resumo: Ideologias são produções de sentido sobre o real a partir de um viés político. Todas as classes o possuem e é isso que as dá em algum momento consciência de classe a partir da percepção ideológica, com matrizes diferenciadas, da realidade.

Todas as classes possuem suas ideologias e a relação entre elas produzem choques, entre eles os compreendidos por Marx como uma prática da ideologia em si, a partir da produção de uma dominação de percepções da cultura de cima pra baixo, no sentido da hegemonia cultural burguesa.

Só que Marx não enxergou o todo do movimento.

Dos Marxistas, foi Gramsci que talvez tenha inicialmente desenhado melhor  o restante do quadro.

Gramsci iniciou o entendimento que implicava perceber que há em todas as classes movimentos de percepção do real e de construção de sentido, inclusive político, para ele, e que inclusive a hegemonia cultural burguesa, ou de qualquer classe “superior”, era relida e reescrita através das apreensões populares, e que o processo de construção dessa percepção ideológica produzia circularidades de valores e ideias que inclusive influenciavam e transformavam a cultura das elites.

E essa percepção não é anti-marxista, pelo contrário, ela segue o desenvolvido por Marx e amplia o sentido do debate cultural por ele, dando outros sentidos por Gramsci, Bakhtin, Thompson,etc.

E por que recupero esse debate?

Porque há uma simplificação da percepção da ideologia por parte da militância que ignora o processo dela como parte do construto do real pela população e disputa uma percepção do real mais pura que a outra.

O cotidiano de lutas é menos entender ideologia como um fator de apreensão do real, com a busca de superação de suas opacidades e não de absorção de um falseamento da realidade, e mais uma tentativa de impor ao outro uma ideia do real que encaixe enquanto falseamento da consciência.

Inadvertidamente o cotidiano de embates ideológicos é briga de pombo sobre qual o grunhido que vence no processo de imposição de percepções. E isso é exatamente a definição de Marx para a ideologia.

O real em seu inteiro teor é imperceptível, percebemos individualmente frações dele no cotidiano, em conjunto temos fragmentos do real que compõem um mosaico verossímil do real, mas o conjunto da experiências individuais que se organizam em grupos sociais, partidos, coletivos ou classes, ainda é uma percepção compartilhada de um real opaco, deduzido, incapaz de ser apreendido.

A consciência de classe nasce quando esse conjunto de apreensões de um real opaco se organize em uníssono, estabelece pontes empáticas entre indivíduos que se percebem mais unidos em experiências e sentimentos do que afastados.

Essa compreensão não se dá num uníssono ideológico, pois cada fragmento do real é lido com configurações diferentes das ferramentas de leitura dele.

Essa compreensão, essa consciência, se dá numa polifonia ideológica, numa polifonia de percepções do cotidiano, de visões de ângulos diferentes de processos reais.

A convicção de uma percepção não estabelece tábula rasa de todas as demais.

E é por isso que a pureza ideológica é um mito.

A anarquia explica e discute um determinado aspecto da relação entre coletivos e indivíduos e o estado e a sociedade, o socialismo, o ecossocialismo, o comunismo, o liberalismo, o stalinismo e o  fascismo outros aspectos.

Inadvertidamente todas as formas de percepções do real compreendem e apreendem valores factíveis da opacidade do real, traduzem uma percepção válida da realidade enquanto elemento observável.

O caminho que seguimos e que optamos seguir para as transformações deste real é que nos diferem ideologicamente e politicamente.

Nosso problema com o fascismo não é que ele não enxerga o real, é que ele enxerga uma faceta do real que desejamos transformar e evitar que se produza enquanto cotidiano.

Idem com o Stalinismo.

A diferença da percepção anarquista da realidade e da ecossocialista é com relação à opção de participação no estado e em relação às organizações hierárquicas.

As leituras de cada grupamento não são um falseamento da realidade que algum tipo de treinamento pode suplantar ou “curar’.

A própria concepção de que há uma forma de enxergar o real que supera todas as outras é extremamente autoritária.

A ideia de que há um tipo de realidade que se acredita e que se busca construir ao contrário, permite um diálogo entre percepções que aprofunda a ideia da consciência de classe enquanto elemento de construção empática de caminhos comuns para a transformação do real.

Aliás, esse é um dos principais eixos que nos diferem dos fascistas: A nossa consciência de classe é empática, se busca unidade não de uma percepção do real, mas de reconhecimento entre nós de vidas, sentimentos e situações de vida em comum.

Nossa percepção inclui o outro, a deles exclui o outro.

É na alteridade que defendemos que está a unidade necessária para as transformações.

Ser anarquista, comunista, socialista ou ecossocialista nos diferencia em muita coisa,mas bem menos do que o conjunto de valores que defendemos e construímos como valores de percepção empática e de consciência do real enquanto uma unidade de percepções que incluem a alteridade.

Sem empatia somos nada, sem empatia o fascismo é tudo.

E por isso a ideia de uma ideologia pura, de uma percepção do real que a tudo explica e que a todos abrange e quem não a segue é tolo ou inimigo é, fatalmente, um combustível pra alimentar o caudal de ódio que o fascismo adora.

A própria ideia de que o pensar do outro é uma traição é o contrário da produção de consciência coletiva pela empatia.

Claro que há traições, que há opções pelo empoderamento de inimigos na luta pelo chão, mas esse processo mesquinho do cotidiano é apenas uma faceta do cotidiano de lutas e de valores que compartilhamos.

Anarquistas, liberais, comunistas, socialistas e ecossocialistas foram solidários entre si com a morte da Marielle e com o atentado a Lula, com todas as críticas que permanecemos tendo entre nós, e que não impede o processo empático de unidade na luta.

E é nesse compartilhamento de valores que precisamos fortalecer a apreensão do real e apercepção da distância entre opção ideológica para a luta política e sectarismo que infere que o diferente é cego ou tolo.

É preciso honestidade intelectual pra falar de segurança

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Li uma chamada pra um texto que atacava o PSOL por ser contra a intervenção militar e um ex-oficial da PM, filiado ao PSOL e membro dos policias anti-fascistas não o ser.
 
Não, não gostei do texto, li, achei ruim, mas achei pior ainda a forma como foi usado para atacar o partido uma semana depois da execução da Marielle por causa das palavras do policial.
 
Eu discordo dele, mas ele ser tratado automaticamente como um Daciolo por ser ex-PM e apontada a ‘contradição” entre o discurso dele e o do PSOL na mesma semana praticamente que a Marielle morreu, além de mau gosto é procurar pelo em ovo (coisa típica da esquerda e que eu já fiz muito e hoje acho horrível).
 
Discordo do coronel Ibis Pereira, não acho nada de bom na intervenção, mas ele tem DIREITO de discordar de mim e eu dele.
O PSOL não é um partido centralista democrático e o coronel não é a favor da Intervenção pelo pior dela, mas para já que ela está aí usá-la de forma utilitária pra rediscutir o papel das polícias.
Discordo dele, sou contra a intervenção, mas ele não tem motivos reacionários para apoiar a intervenção e não podemos esquecer a linha de pensamento que ele teve durante toda a sua vida, ninguém migra pra partido socialista e muda da água pro vinho a partir da filiação.
 
O Coronel Ibis Pereira não é apenas o que ele diz e o recorte dado pelo site e grupamento de esquerda Esquerda Diário, ele é militante dos policiais anti-fascistas desde seu início, o coronel foi indiciado pro criticar a política de segurança assassina do Rio (A mesma política de segurança que o site indica como colada ao coronel) que vitima pretos e pobres civis ou militares, o coronel também é mestre em História e está no doutorado em história da UFRJ, tem graduação em filosofia e há anos atua junto com Freixo em debate sobre segurança, foi onde conheceu Marielle e atuava com ela na ponte entre a CDH da ALERJ e as famílias de policiais mortos, mas nada disso significa porra nenhuma pra que seja feito um ataque rasteiro e oportunista ao partido pelo coronel discordar do partido em ser contra a intervenção como um todo.
 
A entrevista de onde foi “tirada a declaração” (Um fragmento extremamente curto) sequer foi linkada.
 
E sim, isso pra mim é desonestidade intelectual, da grossa.
 
E é o simplismo clássico de um tipo de suposto radical que de radical não tem nada, que flutua no universo perfeito da ausência de erros do purismo.
 
A declaração toda caberia na boca de qualquer socialista moderado, a declaração que faz parte da entrevista (que linkarei ao final)
 
“Eu sempre tive muito interesse no mandato do deputado Marcelo Freixo. As bandeiras do Marcelo, a preocupação com a vida e a sorte dos mais pobres, o respeito e a defesa e a promoção dos direitos humanos sempre foram temas que me impulsionaram. Isso tem a ver com o modo como entendo o papel da polícia no Estado Democrático de Direito. Para mim, o policial deve ser, acima de tudo, um agente promotor e garantidor da dignidade humana. Quando não consegue entender esse papel, se torna uma ameaça e não um instrumento a serviço da civilização. Por acompanhar sempre de perto seu mandato, passei a conviver com a Mari. Quando estive no comando da PM já era amigo dela. Tive a oportunidade de fazer com ela uma espécie de ponte entre a Comissão de Direitos Humanos da ALERJ e as famílias de policiais mortos ou feridos em serviço ou fora dele. A comissão realiza uma belíssimo trabalho de amparo às vítimas da violência no Estado. Infelizmente algumas pessoas não conhecem essa atuação ou preferem ignorá-la. Em março de 2016, foi a Mari que me convidou para entrar para o PSOL.
 
Fico extremamente perplexo e indignado quando ouço essas vozes a criticarem os direitos humanos como se isso fosse, como dizem, algo destinado à proteção de bandidos. Pura estupidez, maldade e burrice. Esse discurso, na verdade, traduz uma mentalidade secular entre nós. Uma mentalidade de ódio contra qualquer avanço do país no sentido da redução de suas desigualdades históricas e injustificáveis. Penso que essas pessoas que defendem a ideia de que bandido bom é bandido morto reproduzem as ideias da Casa Grande, dessa gente que odeia pobre, que odeia negros, que desejariam que o Brasil ainda tivesse escravos, porque querem que a obra secular de desigualdade e injustiça prossiga matando preto, pobre e morador de favela. Infelizmente muito policiais pensam assim. A polícia muitas vezes reproduz essa mentalidade, porque sendo um aparelho de Estado reproduz as ideias dos donos do poder. Uma lástima. Por outro lado, o campo progressista precisa encontrar um discurso que fale ao policial. Há uma disputa de narrativa que nós estamos perdendo”.
 
Eu não consigo achar nesta declaração um erro.
Se a esquerda acha me aponte, mas eu não consigo e acho o fim que toda a entrevista, que começa com esse belíssimo trecho, tenha sido reduzida ao pó de nitrato de pó pra ser usada de forma oportunista como ataque sectário.
 
O policial também diz:
 
“Se de fato optamos pelo Estado Democrático de Direito, estamos dizendo o seguinte: “Olha, estado policial, não”. Ele não prende e encarcera da maneira como estamos fazendo.”
 
Sim, um policial com tintas anti-punitivistas, mas em vez de ressaltar o lado bacana da entrevista se pega um trecho, um trecho onde o ex-policial sequer faz uma declaração extremamente reacionária, nem reacionária é, ele pensa de forma até lógica, embora eu discorde dele.
 
A declaração toda sobre a intervenção é o uso dela de forma utilitária pra de discutir a polícia, mas isso foi lido pelo autor da “matéria” que ataca o PSOL? Nope.
Eu discordo dele, acho que é utopia pensar na intervenção de forma utilitária, mas mesmo nessa declaração ele aponta questões interessantes como a necessidade de discutir com os policiais nossa defesa da desmilitarização das polícias e da política, negar o diálogo é burrice e nisso ele está certo:
 
“”A intervenção é uma tragédia, mas discordo daqueles que dizem que temos que fazer oposição a ela. Ela é fato, já está aí. Não adianta dizer que o Rio não é o Estado mais violento. Isso não é argumento.Primeiro porque você está comparando o horroroso com o insuportável. Além disso, a dinâmica criminal que temos aqui não é vista em outros Estados. Diante disso, o que a gente vai fazer? Vamos cuidar da intervenção, vamos acompanhar para que nenhum abuso seja cometido e vamos verificar que tipo de legado pode surgir. Vamos transformar esse limão em uma limonada. Esse é o momento pra fazer as mudanças que precisam ser feitas. A gente tem eleição esse ano, os Governos que assumirem no ano que vem tem que ter clareza com os desafios a serem enfrentados. Precisa pensar na política de armas, reformar as instituições policiais, complementar a Constituição, repensar o sistema de Justiça criminal, viabilizar a polícia como instrumento de administrar conflitos e não instrumento de guerra. Vamos transformar essa tragédia numa ocasião pra repensar a segurança pública. Mas não pode ser dessa forma atabalhoada, a gente não pode discutir o novo modelo sem ouvir as polícias. Não podemos empurrar isso goela abaixo dos policiais. Isso tem que ser feito respeitando os policiais. O campo progressista está muito vinculado ao pensamento marxista de que a polícia é um instrumento de dominação de classe. Mas o policial é um trabalhador, dentro da polícia há gente querendo mudar. Esse policial está morrendo. Precisamos entender o drama humano e encontrar a maneira de envolver esses agentes na mudança. A gente precisa compreender da população pobre que está morando dentro da favela, vítima de opressão da milícia, do policial e do traficante. E precisamos criar uma polícia efetivamente comprometida com a libertação dessas pessoas, e isso passa pelo empoderamento dessas comunidades. Isso é um trabalho da democracia que em 30 anos não conseguimos fazer. Podemos aproveitar a intervenção pra trazer essas questões à tona. Mas se ficarmos chorando pelos cantos, a galera que não está chorando e está se movimentando vai ganhar na disputa de narrativa”.”
 
A entrevista é muito grande e muito boa, leiam. E sim ele e um ativo interessante pro partido, é de esquerda, tem uma ideia boa de como o estado funciona no âmbito da segurança., defende a ampliação de uma visão cidadã de polícia e de ampliação do respeito aos DH, tá longe de ser um Daciolo, então qual o objetivo da matéria do Esquerda Diário? Demarcar ideologicamente como mais puro num debate onde se esquiva do respeito ao outro e do uso oportunista de contradições que todos os partidos tem, uso ainda de micro contradições nem tão graves assim? que tipo de debate se quer? A negativa a priori de discutir com a polícia porque as polícias serão em tese abolidas no canetaço?
 
Não dá,né?

Discutindo programa de ação socialista

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Recentemente parei pra ler o programa formulado pela plataforma Vamos e li um texto interessante critico à metodologia de produção deste programa, e suas limitações a partir disso,  feito pelo João Machado no site da Comuna e o Caderno “O Comum como princípio político: estratégia socialista para o século XXI“, obtido também na página da corrente.

A busca dessa leitura se deu porque não adianta apoiar Boulos ou quem quer que seja sem entender o que o move a se pôr como candidato e quais propostas tem, que programa abraça.

E não só, como estou retornando ao partido gostaria de entender as dinâmicas atuais a título de debate programático.

E o que li e entendi parece que estamos com problemas, embora este tipo de problema tenha solução e se possa produzi-la a partir do debate.

Primeiro gostaria de dizer que sim, o programa do Vamos é limitado, mas é hoje uma carta de intenções melhor que a média, aponta saídas interessantes sob diversos pontos de vista, mesmo não sendo críticas aos governos petistas, inclusive porque parte de seus produtores, do programa, sejam apoiadores destes.

Mas é um ponto interessante ler questões sobre quilombolas e indígenas, sobre o meio ambiente que não sejam uma bobagem completa, embora se entende que são princípios e tópicos.

Isso não inviabiliza as críticas do João Machado, mas me remete ao caderno publicado pela Comuna, pois a crítica contida no caderno ao movimento Catalúnya Comun parece reverberar na crítica ao programa do Vamos e ambas possuem a mesma lógica de análise do processo de programa notando as pequenas falhas que ambos possuem para seu resultado final ficar aquém do que se pode.

Recupero  um trecho do artigo que gostei muito como norte de debate:

um programa radical não é um mero catálogo de medidas mais ou menos coerentes, mas é uma tentativa de elaborar uma orientação geral, através de propostas concretas, e delinear uma rota aproximada para chegar ao governo e dar os primeiros passos uma vez conquistada a posição de governo.

E também que

Longe de ser estático, um programa deve ser dinâmico, não só porque ele se transforma e evolui, mas porque deve ser concebido como uma sequência, nem sempre bem ordenada, de passos em direção a uma determinada nalidade. Programa, prática e estratégia devem andar de mãos dadas, mesmo que sua interposição nem sempre seja direta.

Estes trechos são muito importantes para observarmos que o programa não pode nem ser um apanhado vago de intenções e nem ser uma camisa de força da ação, tendo que ser abandonado se necessário diante das necessidades da prática.

E é por isso que declarar titulação de terras quilombolas e indígenas e mudança de matriz energética são pontos de partida, não uma afirmação programática.

Sim, temos que titular todas as terras, mas também incluí-las em todo o debate ambiental, de geração de emprego e renda, de mudança de matriz energética, de caráter decisório das questões relativas à geração de energia, gestão de meio ambiente e de agricultura (E via de regra de tudo o que envolve estado e sociedade), descentralização produtiva e de consumo.

Entender aqui o programa como um ponto de partida que aponta caminhos é também produzir programa que vá além de afirmações genéricas e proponha o caminho.

Em um mundo onde o aquecimento global atinge principalmente as mais pobres, negros e índios, é fundamental trabalhar com este eixo como central pra todo o debate, de economia à processo decisório do estado.

Não adianta falar de nada a respeito de reforma agrária, titulação de terras indígenas e quilombolas sem perpassar pelo eixo da soberania alimentar, de mudança de matriz energética com foco em energia solar e eólica, entre outras formas de energia limpa e programa de transição para que o processo decisório sobre energia, soberania alimentar, meio ambiente,etc sejam cada vez mais feitos em processos conferenciais que envolvam a população como um todo.

E sim, é preciso falar em reforço à cooperativas de consumo, busca do consumo localizado, de descentralização da produção, redução dos parques industriais para reduzir consumo de energia e queima de carbono até zerar este processo.

É preciso falsar em um programa de transição que vá além de matriz energética se se coloque como programa de transição de um tipo de estado que é hiper especializado, cada vez menos democrático, cada vez mais distanciador da democracia e do papel do cidadão em sua gestão, menos inchado oque acusam os neoliberais, mas menos próximo da sociedade do que deveria.

O Estado hoje é similar às mega corporações em tamanho, complexidade e opacidade de decisões e de execução de funções.

Haja lei de acesso à informação!

O Estado participa na vida do cidadão como se o cidadão fosse cliente e consumidor desde energia até direitos.

E o programa precisa perpassar pelo enfrentamento da necessidade de transição deste estado para um estado democrático, explicitando que concepção de democracia temos.

E explicitando os problemas desta hipercentralização do Estado e do processo decisório, que são espelhos da hiper centralização da produção de alimentos, de energia, de segurança, de educação e de saúde.

A metáfora perfeita é a priorização da construção de usinas hidrelétricas em vez de utilização do potencial brasileiro pela energia solar, que poderia ser feito de forma a capilarizar a produção de energia, reduzindo o impacto ambiental dos mega empreendimentos.

O Estado capitalista moderno no universo das mega corporações é como se uma vila defendesse a manutenção da Televisão única na praça passando a programação em vez da capilarização do acesso à informação e ao entretenimento disponível via smartphones.

E não, isso não é defesa da redução do Estado, mas da descentralização democrática dos processos decisórios do Estado com o aumento de participação deste na vida da sociedade.

Este tipo de concepção de ação permite uma abordagem revolucionária ou reformista, e não acredito que o cerne do debate seja o de determinar o que é a complexa rede de procedimentos políticos a ser adotada, mas que tipo de ação pretendemos possuir como norte para nossa prática.

Um programa que parte da soberania alimentar e plano de transição a respeito da matriz energética tem seu valor, mas o que parte da reestruturação da centralização decisória do estado e perpassa todo o debate sobre energia, alimentação, consumo, moradia,etc, ganha por si só um plus em matéria de peso representativo para o conjunto de ideias que defende.

E essa descentralização parte do debate a respeito do processo de conferências sim, mas antes de uma práxis que ocupe os conselhos municipais que existem e são aparelhados muitas vezes pelo executivo, esvaziando seu peso e suas funções, inclusive deliberativas.

É preciso organizar uma ocupação do estado para além das eleições e impor processos de transição dos mais diversos aspectos da vida cotidiana de uma matriz hiper centralizada para uma matriz plural.

Este é o primeiro de uma série de posts que pretendem passar por um debate a respeito de programa socialista.

 

Do meu retorno ao PSOL

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Não fazem duas semanas que afirmei com certa veemência que não voltaria a um partido que me aceitasse como membro.

A mesma veemência que tive , que sempre tive, quando saí do partido em 2014.

E não retornaria, mesmo modificando minha percepção do voto adquirida por alguns anos pelejando nas hostes anarquistas e transformando minha própria percepção sobre a política, acreditando piamente que determinados eixos tradicionais ideológicos (anarquismo, trotkismo, bakuninismo, anarco-comunismo, comunismo) não se sustentam enquanto bloco indivisível da percepção do dia a dia, da própria gestão do estado ou de organização de massas.

Não retornaria, mas já tinha decidido votar em Boulos, mesmo ainda mantendo dúvidas sobre votar em parlamentares do PSOL no Rio Grande do Sul, porque não tinha sobre mim nem a disciplina partidária que me levaria a isso (afinal não estava sequer cogitando voltar pro partido), menos ainda confiava nos nomes dispostos pelo partido aqui.

O que nortearia meu voto pro parlamento seria, até o momento em que decidi voltar, a percepção das propostas, do histórico dos parlamentares , propostas, engajamento político,etc, como sempre fiz afinal, embora antes com um vínculo mais forte com o PSOL por eu ser, desde 2005, membro do partido.

Só que Marielle foi executada e ali senti o chamamento da luta, da necessidade de retorno, de repensar muitas cosias, inclusive auto-crítica minha a respeito do meu próprio comportamento sobre o partido e suas figuras públicas.

Não que eu acredite que várias das críticas que fiz, e faço, a Freixo, Chico Alencar, etc perdem o peso e a necessidade de serem feitas, mas porque entendo que como militante não deveria, quando fui militante, expor estas críticas pra fora do partido sem o filtro necessário.

Tampouco ignoro ou esqueci que a ação de vários membros do partido no silenciamento das críticas ultrapassaram o bom senso da filtragem da crítica pro campo externo para uma ação direta de silenciamento, pressão e ameaça.

Como a relação do PSOL com anarquistas, autonomistas, black blocs foi extremamente infeliz, pra ser ameno, juntou para a minha saída a sensação do partido ser parte do clima que gerou a prisão de gente inocente apenas por ser ativista com a reação a algo que jamais abrirei mão: Meu direito à livre expressão.

Quatro anos depois eu mudei muito, o partido também, embora contenha os mesmos velhos problemas de relação democrática interna.

A corrente da qual eu fazia parte virou várias correntes, com lutadores que eu respeito estando presente em todas as partes do espectro interno do partido,etc.

E não sei até que ponto é tão ruim assim esse conjunto de mudanças.

Sei que mesmo com as divergências que possuo com muitos companheiros e parlamentares como Freixo, Jean, Chico eu preciso ser mais fraternal na relação com esses lutadores, assim como permanecer fraternal com lutadores de outros campos.

Porque a gente morre, sabe? A gente que luta, que rala, acaba morrendo.

Todos sofremos com as violências, violências mesmo, tiros, bombas, prisão.

E precisamos ser mais fraternos, solidários uns com os outros.

Há divergências entre nós, mas elas são muito tênues, o cerne de muitas de nossas políticas permite um certo número de alianças e diálogos, inclusive entre partidos e anarquistas e autonomistas.

Não peço aqui e nem defendo o país lindo e cheiroso sem discussões ásperas, mas defendo o respeito existentes e possíveis nelas.

Pessoas morrem, precisamos de todos vivos.

Eu não estou voltando ao PSOL com o rabo entre as pernas, pedindo afagos e abraços, talvez o PSOL nem me queira de volta.

Talvez a corrente com a qual mantenho minhas aproximações e reconheço como força e lugar com as pessoas com quem eu quero militar junto não me aceite.

Talvez outras me aceitem e eu não aceite-as.

Talvez pela primeira vez em dez anos eu seja independente em um partido (Não é minha vontade, mas não controlo tudo).

Não fui o mais disciplinado e respeitoso companheiro de antigos e disciplinados trotkistas. Não tenho origem na luta da DS, embora também tenha sido parte do PT.

Mas sou ecossocialista com um pezinho no anarquismo verde, leio e entendo que a solução passa pelo que Tanuro, Lowy, Esther vivas, Murray Boockhin escreveram e viveram em suas vidas. Acho que o ecossocialismo rima com o que o Curdistão livre está fazendo no oriente médio.

Acho que vale uma olhada em Ocalan, sabe compas?

Cometi muitos erros, muitos, como o de não perceber a necessária paciência para determinados processos, como dar peso demais à discussões em redes sociais e exposição do partido do que parar e continuar com as construções de núcleo, organização e setorial que eu fazia muito bem, obrigado.

Aprendi muito nessa vida e não só por ter voltado pra academia, estudado, mas porque a vida colocou desafios no caminho que exigiram mais do que eu tinha como norte à época da minha saída.

Sei que vou entrar no mesmo vespeiro de onde saí em 2014.

Sei também que vou encontrar gente que preferia não encontrar, mas vou reencontrar gente que eu não deveria ter afastado da minha vida e da minha militância, mesmo gente que possivelmente estará em correntes diferentes da que eu quero participar.

Precisamos aproveitar Boulos e Sônia, e mesmo a dor por Marielle, a dor de Freixo,pra avançar com o sentido de urgência que a solidariedade e a empatia nops permitir.

Precisamos da luta urbana e da floresta como remédio para a nossa dor.

Precisamos dar continuidade à luta que Marielle e todos nós travávamos.

Espero poder ajudar nessa caminhada.

PS: As críticas ao PSOL são muitas e variadas. Estão todas disponíveis neste blog e permanecerão lá.

 

A moral deles e a nossa

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Se você é meu amigo, parente, seguidor, passou por ai e resolveu comentar lembre-se: Eu lido com meu perfil como o Jandir lidava com atacante adversário quando jogava na cabeça de área do Fluminense, não tenho o menor pudor de dar voadora.
 
Não, não tolero fake news e ataque à reputação da Marielle.
Se você viu, leu, ouviu falar da notícia sobre ela e CV e não leu que é boato e quem tá compartilhando está sendo denunciado e será processado, o Google tá disponível.
 
E se eu ver eu vou denunciar.
Somos todos adultos afinal e caráter é uma parada que eu tenho um puta apreço, de berço.
 
Sou filho de policial civil, que de tão honesto passou perrengue de grana até praticamente morrer.
 
Sou filho de um homem que me deu seu nome, e eu respeito esse nome pra caralho.
 
Não, não sigo uma linha reta e uma régua que me faz tangenciar necessidades financeiras que beiram passar fome pra permitir que outros sejam desonestos intelectuais, políticos, morais ou éticos.
 
Eu consigo ser honesto até na merda, não é tão difícil.
 
Sou anarquista-Comunista-Socialista, Groucho-marxista, de esquerda enfim, sou fragmentado, mas do lado de cá da luta de classes.
 
Não tolero o conservadorismo calhorda que mata reputações por discordar do outro, não tolero e combato até sair sangue, ou o meu ou o seu, mesmo que seja o mesmo sangue.
 
E não, isso não significa que busco a secessão ou o sectarismo, busco o papo reto, o papo correto e honesto. Quem busca a secessão e o sectarismo é quem perfila com Bolsonaros e afins e trata o diferente ideológico como “esquerdopata”, tratando como doente ou como bandido, defensor de bandido, canalha e ladrão, mesmo que quem utilize os desvios éticos da desqualificação do outro,uso de calúnia e autoritarismo, defende assassinos e corruptos não seja o comunista, o socialista ou o anarquista.
 
Eu tolero até os modernos e seus segundos cadernos. Eu respeito tiranias. Mas eu não gosto do bom gosto, do bom senso, dos bons modos que ocultam canalhas atávicos.
 
Há um limes entre a disputa e a canalhice.
 
E o limes é o ethos, o ético e o respeito ao outro, à alteridade, até meus inimigos precisam ter um código concreto e real e respeitá-lo.
 
A coragem é o limes do ente, e ter coragem não é ser idiota de enfrentar hunos com palitos de dente, é saber-se ter uma linha de comportamento que te faça digno de receber o título de gente.
 
Quem usa fake news e assassinato de reputação não é “reacionário de estimação”, é canalha.
 
A moral deles não é a nossa.

Marielle, grandeza e o Lulismo

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Escrevi um texto com diversas observações a respeito da execução de  Marielle Franco e recebi muitos comentários animadores sobre o que ele contém.

Menos um, um comentário em que o autor diz: “Parei de ler no: “vivendo sob uma martirização fake de um ex-presidente cúmplice de oligarquias bandoleiras”.” e termina dizendo “Faça me o favor companheiro. E ainda se diz historiador…”.

Porque não basta ignorar o que se escreve, menos ainda esquecer a possibilidade de expedir um debate, é preciso desqualificar o autor e dizer que não será mais leitor.

E tudo porque o leitor deduz no texto que o autor é favorável à condenação de Lula.

Em que pedaço do texto isso é indicado? Em nenhuma linha. Inclusive Lula e o PT são pouco criticados no texto, menos do que deveriam ser, e o texto pouco os menciona, trabalhando muito mais com questões que circundam toda a esquerda, inclusive a ligação entre esta e o lulismo, o PT,etc.

Pouco falou-se no texto sobre golpe, e mesmo a menção é tangencial. O texto se prende mais em bater em “Trump, Le Pen, Piñera, May, Bolsonaro, Temer, Dória, Kataguiri” e quem os defende.

Menções ao PT? As há sim, claro, mas analisando a conjuntura em que o partido esteve envolvido  a respeito da ampliação do estado policial e repressor e sua participação como condutor da primeira fase de agravamento deste estado que agora vitima seu maior líder em especial sua participação pós-crise de 2008  e ainda define que o PT agiu assim  “como bom leitor de conjuntura e seguidor delas fez sua parte nessa construção e deve ser cobrado por isso”.

A outra menção tangencial se dá do meio pro fim do texto, depois de uma longa contextualização e reflexão sobre a conjuntura e ai chega no trecho que ofendeu duramente o leitor e o fez abdicar de ler o resto:

“A esquerda estava isolada, nas cordas, quase nocauteada, vivendo da busca por um salvador da pátria, vivendo sob uma martirização fake de um ex-presidente cúmplice de oligarquias bandoleiras. Agora não está mais.”

A teoria do leitor é que aqui eu desprezei a condenação do lula, quando eu escrevo sobre a martirização fake dele. Em resumo na cabeça do jovem se eu não entendo Lula como mártir eu automaticamente apoio sua condenação.

Já opinei várias vezes sobre o caso Lula, inclusive neste blog, qualquer leitor minimamente atendo e real seguidor do blog vai achar algumas linhas sobre o PT e Lula, há marcadores a respeito,mas dificilmente vão me ver falando da lava-Jato e quetais.

Por que? Porque eu não quero, não acho que o tema seja relevante sob a minha perspectiva política e porque não consigo sentir empatia mais forte com um ex-presidente lotado de bons advogados que acusa militantes que forma às ruas em 2013 de fazerem parte de uma trama da CIA e se omite em questionar os militantes presos e perseguidos desde 2013, como Sininho, Camila Jourdan os anarquistas de Porto Alegre, e gente que nem era militante e foi preso com Pinho Sol, como Rafael Braga.

Eu teria a grandeza de ser solidário a Lula se seu partido, seus militantes e seus fãs tivessem a grandeza de serem solidários com todos os demais que forma vitimados por suas políticas e por sua ação direta e clara como na criminalização de ativistas pós-2013.

Então me desculpem, mas Lula tá mal colocado na fila do martírio.

Até Moro e a mídia resolverem condená-lo por nada um negro preso como vândalo por portar Pinho Sol havia sido o grande preso sem provas do país no seculo XXI e Sininho e os 23 presos da Copa o segundo grupo de presos políticos, que tiveram as vidas destruídas com um processo em que são acusados sem prova nenhuma de conspirarem para atos terroristas.

E isso ocorreu sob o governo Dilma, do PT, eleita sob a égide do lulismo.

Não houve grandeza do PT em observar sua participação no recrudescimento do Estado Policial e de um tipo de  justiça cuja necessidade de condenação oblitera a necessidade de obtenção de provas.

Até Lula ser condenado o PT não ligava pra isso.

Até os crimes de responsabilidade inventados serem imputados à Dilma, o PT não ligava por ABIN e policias federal e civil do país inteiro perseguindo Bakunin e “terroristas’ cujo único terror era se manifestar contra seus aliados nos Estados.

E HOJE, depois de uma vereadora, lutadora de esquerda, pelos Direitos Humanos e contra este estado policial ter sido E-XE-CU-TA-DA os militontos do Lulismo desvairado obliteram a alfabetização e o bom senso porque houve texto que em um debate sobre tema bem mais relevante que a narrativa de que Lula é uma vítima como tantos outros de uma circunstância que afinal foi gerada a partir de suas escolhas políticas cobram solidariedade contra a condenação de seu líder dizendo-lhe mártir?

Passa amanhã.

O texto eu abordo com uma tentativa de contextualização historiográfica pra sustentar que a execução de Marielle pode simbolizar uma guinada dentro da sociedade sob o ponto de vista da narrativa sobre segurança e sobre a própria esquerda e tudo o mais, o texto é bem claro neste sentido, ele inclusive se presta a tentar demonstrar que a tese de uma nova ditadura militar não se sustenta.

O texto não se preta ao tipo de abordagem política rasa, minúscula, pobre, podre, desumana e covarde que usa o binarismo pra criar inimigos que organizem a malta em torno do debate fácil e do lucro imediato pra dramaturgias eleitorais que fingem que Lula não foi cúmplice de oligarquias bandoleira,s as mesmas que o traíram, como as de Sarney e Renan.

O texto pretende ser  um analista fiel do cotidiano, com análise respeitosa da conjuntura e apontamento de saídas. A mim não interessam o anti-petismo ou a bizarrice calhorda dos reacionários, contra quem esse tipo de lulista não se furta a perder sue preciso tempo combatendo.

Meu texto tenta apontar caminhos que superem esse tipo de narrativa que busca menos compreensão e mais catarse pra adquirir desavisados para seu périplo messiânico.

Meu texto propõe que tenhamos grandeza, a mesma grandeza que teve Lula de apontar que seus problemas são pequenos comparados à atrocidade com Marielle.

E aponta saídas, saídas pro debate, saídas para a proposta de país que desejamos, muitos dos lulistas incluídos.

Propõe um debate que envolva uma política de segurança pro país que garanta a justiça, que promova a preparação da polícia, a melhora das condições de trabalho, a redução de mortandade de lado a lado, a ampliação da inteligência, do apoio a policiais, a melhora na saúde e na educação que reduzam a miséria que muitas vezes é combustível utilizado pela criminalidade fardada ou não para impor opressões a pretos e pobres que vivem em comunidades.

O texto propõe que avancemos, e entendo que isso assuste a quem não consegue viver sem uma âncora fácil da política enquanto entretenimento ou adesão fútil a uma marca e a um fandom.

Ser binário e  buscar o binarismo é sempre mais cômodo do que enfrentar os demônios da luta cotidiana, inclusive os verdadeiros.

O texto busca analisar o “estrondo na narrativa de segurança pública como um terreno de armas e guerra, que abrange basicamente toda a direita, de Alckmin a Bolsonaro”.

Mas o leitor se prendeu num trecho em que menciono a martirização fake de Lula.

Este leitor quer combater Alckmin e Bolsonaro? O Lulismo quer?

Não parece.

Mas falávamos da grandeza, e da grandeza de promover algo além da mesquinha estupidez cotidiana.

E pra ter grandeza temos que possuir antes de mais nada a coragem de assumir o dever histórico de confrontar o que atravanca o bom senso, de todos os lados.