Pegar fogo nunca foi atração de circo, mas de qualquer maneira pode ser um caloroso espetáculo

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Escrevi no Twitter e compartilho aqui: Vargas não criou o Ministério do Trabalho por amor à causa ou bondade divina, mas porque o movimento operário e sindical estava talvez no momento mais forte da história nos anos que forma de 1917 a 1960, só comparável aos anos 1980 e 1990.

O PCB crescia absurdamente desde que Prestes se tornou dirigente, mesmo preso pós intentona Comunista, se enraizava nos anos 1930, o movimento operário e sindical tinha tido um extremo sucesso na primeira grande greve geral no país, a de 1917 e vinha em crescimento acelerado desde o fim do Império, mas ganhou fôlego extra nos anos 1920, especialmente sob influência da Revolução russa nos movimentos anarquista e comunista (nascente naqueles anos).

Os anos 1920 tinham junto com o movimento operário uma ebulição política que atingia a classe média recém-nascida e rachas nos pactos das oligarquias brasileiras, oque levava a um estado de ruptura plausível e que a Revolução de 1930 não conseguiu estancar de todo, levando à resistência armada inclusive, como a Revolução Paulista de 1932.

Diante de um quadro como esse era inevitável alguma tentativa de organização de instrumentos de controle e mediação com relação aos movimentos de trabalhadores, e a polícia como arma contra as mobilizações sociais já havia fracassado na primeira república. E Vargas a partir daí, e com inspiração no fascismo italiano, criou mecanismos de controle, tutela e mediação com relação aos trabalhadores a partir das leis trabalhistas e principalmente do Ministério do Trabalho.

As leis trabalhistas atenderam diversas demandas históricas dos trabalhadores, e não tem, nenhuma inspiração fascista, e arrefeceu a dinâmica de reivindicações do movimento operário, tirando certa força e protagonismo do movimento operário radical, já os instrumentos de fiscalização e controle pelo estado da vida sindical atacaram o coração do movimento laboral radical, tutelando-o economicamente a partir do imposto sindical, que facilitou a vida das burocracias, e reduzindo o grau de liberdade de organização, tornando ilegal oque não fosse tutelado pelo estado.

Vargas usou com maestria a arte aprendida com inspiração no castilhismo e no borgismo rio-grandense: movimentos de pêndulo onde o diálogo com as forças sociais dependiam da possibilidade delas atingirem o coração dos governos. De trabalhadores à elite os movimentos de repressão e cessão tornavam a vida das oposições um inferno, impedindo-as de agir em confronto sempre e permitindo que os apoios aos governos fossem duradouros e tivessem menos divisionismos, pois os governos mediavam e confrontavam em igual peso e força dependendo da correlação de forças.

Assim como Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros forma às armas e às negociações com elite, movimento operário e sindical e classes médias e, diferentes momentos, Vargas repetiu as ações, mas criou mecanismos de estado onde atendia reivindicações históricas por um lado, atacava a autonomia sindical por outro e por um terceiro campo reprimida duramente o movimento que se tentava organizar à parte da tutela estatal inclusive abrindo mão do imposto sindical e da vinculação com o estado.

Assim, o Ministério do Trabalho virou um enigma e um impasse, ao mesmo tempo que por diversas questões e atribuições também se tornava uma ferramenta de fiscalização do cumprimento das regulações do mundo do trabalho que vinham a ser reivindicações históricas dos movimentos operário e sindical. Ao mesmo tempo o organismo feito para tutelar e policiar o movimento também era instrumento de garantia das demandas históricas de suas hostes. O que fez com que os trabalhadores historicamente passassem a defender aquele que também era o instrumento de seu controle pelo estado.

A arte de Vargas não é pouca cosia, ela garantiu que haveria por parte do estado um perfil moderador entre trabalhador e patrão e isso foi mantido até mesmo pelos governos da ditadura civil-militar de 1964 e seu profundo anticomunismo.

O mesmo caminho tomou o Serviço de Proteção ao índio/FUNAI. Criado em 1910 e implementado em 1918 como parte dos mecanismos de afastamento da igreja católica de funções que tinham a necessidade de participação do estado, e fazendo ainda parte da separação entre estado e religião pós proclamação da república, o SPI se tornou FUNAI e parte do cotidiano da política indigenista do Brasil. Primeiro com um perfil de integrar o indígena de forma tutelar à sociedade nacional, depois para produzir meios para que os indígenas se desenvolvessem de forma autônoma, com respeito à sua cultura e valores como comunidades que ocupavam territórios da união e tinham na FUNAI meios de mediação com relação à sociedade nacional.

De forma parecida com o Ministério do Trabalho, o SPI/FUNAI foi de ferramenta de controle e tutela a garantidor de direitos, mesmo contendo elementos de retirada de autonomia da organização autóctone de povos indígenas. Os ministérios e secretarias relacionados à reforma agrária que desde 1985 se estabeleceram como formas mais ou menos mediadores das relações dos movimentos pela
terra com as políticas agrícolas do Estado Brasileiro, criando, em correlação com os Ministérios da Agricultura, mecanismos de algum tipo de mediação de conflitos entre agronegócio e sem-terra.

Mesmo quando foram capitaneados por opositores às políticas tidas como avançadas de ação em cada frente de batalha destes nas políticas de estado, representavam características do Estado Brasileiro que se enraizaram para o mal e para o bem, tornando-se parte intrínseca do bom funcionamento de qualquer governo.

Só que com Bolsonaro os setores mais radicalizados da elite entenderam que era hora de implodir o que consideram “travas ao funcionamento de quem trabalha”: vincularam a FUNAI ao ministério da agricultura, francamente anti-indígena, puseram um ruralista na reforma agrária e acabaram com o Ministério do Trabalho o colocando sob o Ministro – Juiz – Super Herói Moro.. O bonito disso é que todos eles eram mecanismos de proteção sim, mas não ao trabalhador.

Vargas, os positivistas e os governos pós-ditadura entenderam o óbvio: sem uma mediação do Estado e uma política DE ESTADO de gestão de conflitos, algo que via de regra é presente desde o Império, o bicho pega, bebê chora e mãe não vê.

E ninguém entendeu isso por amor à causa ou generosidade, mas porque pouca coisa é mais presente no Brasil que o barril de pólvora eterno das relações étnico-raciais, de classes, de gênero e trabalhistas.

Foi com base nisso que os positivistas da primeira república criaram meios de lidar com indígenas, depois de tomarem na cabeça com oitocentas revoltas como Canudos, Contestado, Revolta da Armada, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, e tentar organizar, primeiro nos estados e depois nacionalmente, meios de lidar com trabalhadores. Vargas chegou a isso nos idos de 1935 e Sarney em 1985 com a organização de meios de lidar com a reforma agrária.

E essa política de Estado de mediação e tutela está sendo com Bolsonaro atingida no coração.

Claro, há outras considerações para nos preocuparmos, mas outros escreverão estes textos, minha abordagem é apontar pra bobagem em curso.

Porque o movimento menos organizado que está sendo atacado por Bolsonaro é o sindical, que possui pelo menos cinco centrais sindicais e sindicatos em todo território nacional com variados graus de força e enorme poder de mobilização, mesmo enfraquecidos.

No lado dos defensores da Reforma agrária e fundiária o MST e MTST são extremamente organizados, sendo que o MST hoje é também uma força econômica na área de agroecológicos.

Indígenas estão on fire desde o primeiro governo Dilma e são fácil a vanguarda da resistência ao capitalismo agroexportador e predatório hoje em dia.

Juntem a isso o esvaziamento ou ataque direto ao movimento de mulheres aos movimentos LGBT+ com uma ministra misógina e homofóbica na secretaria de Direitos humanos, sob a qual estará a secretaria de mulheres e, se for mantida, a de políticas LGBT+.

E o que temos com isso tudo? O circo pegando fogo.

Acrescentem a nítida ameaça de punições ao Brasil por atos que atacam o acordo de Paris, reforçado no G20 e com impactos inerentes no dia a dia da OMC, e também problemas com a educação e o mercado da educação pelo patrocínio ao Escola sem Partido vindo do governo eleito (UNDIME e Fundação Lemann assinaram manifesto contra o ESP indicando que secretários municipais de educação e organizações empresariais não estão brincando na oposição ao projeto), além de reações dos mercados árabes à sugestão de transferência da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém e temos um caldo cultural da zona.

O Governo Bolsonaro atirou para todos os lados e acertou, reforçado inclusive pela opção preferencial em bater de frente com partidos ao nomear nomes pertencentes a eles ignorando suas direções, como se fosse uma dinastia que chegou ao poder por direito divino.

Só que em vez de dinastia o que me parece é que teremos um circo, e pegando fogo, algo que nunca foi atração de circo.

Ao gerar prejuízos para a elite e revolta em setores organizados da população, pouca coisa é mais palpável que, pelo menos, um retorno ao clima pré-revolução de 1930, e sem a base de apoio das oligarquias de São Paulo e parte do país, como visto nas declarações de próceres de DEM e MDB, apenas o apoio fugas de uma população que quer, pra ontem de tarde, emprego e renda.

Dificilmente um conjunto de ataques aos trabalhadores, movimentos sociais, indígenas e sem teto e sem-terra ficarão sem resposta.

Dificilmente haverá apoio da comunidade política organizada na defesa de um governo que promete muitas guerras, mas não conta exatamente com um exército e nem garante entregar o carro-chefe desejado pela elite econômica: a reforma da previdência.

Parece que teremos um caloroso espetáculo.

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Se organize, rapaz!

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No rescaldo da derrota na eleição de 2018 para a extrema-direita muitas receitas foram dadas para como superar o profundo pântano dos dias e anos seguintes, muitas análises estruturando uma tentativa de percepção do que causou o caos e como e porque resistir.

Da mesma forma muitas análises forma feitas indicando o horror que está por vir e o quanto será difícil atravessá-lo, como eles são terríveis, como querem nos eliminar, como são burros, etc.

Não fui exatamente na contramão dessas análises e nem pretendo criar uma receita que fará um bolo melhor, mas proponho uma alternativa às posturas olímpicas, que eu mesmo tive, e ao choro e ranger de dentes.

Minha proposta aqui se resume ao título, embora descreva uma série de questões e posturas que muitas vezes afastam as pessoas da proposta contida nele: se organizem para lutar.

E por que se organizar é importante? Porque a dura maturidade nos ensina que por mais que a gente seja iconoclasta, difícil, duro, mimado, etc a gente atua melhor estando entre companheiros do que sozinhos. Atuar organizado nos permite uma série de redes de amparo, apoio, acolhimento e suporte que são transversais às questões políticas, teóricas, psicológicas e emocionais e nos ajudam a viver e a lutar por um mundo melhor e contra sistemas e condições que aviltam a nós mesmos, a nossos companheiros e aos seres humanos como um todo.

Você nunca encontrou um partido ou uma organização que seja perfeita para você? Uma dica, rapaz: provavelmente é porque nada disso existe.

Somos únicos, isso significa que cada um de nós tem características que nos diferem uns dos outros de maneira a tornar uma perfeição para que nos adequemos a uma organização uma espécie de clonagem de nossos egos, o que é impossível e sequer desejável. Até mesmo as convergências políticas são adaptações de percepções individuais à questões mais amplas de acordo com as tradições, bases teóricas, aspectos organizativos, critérios e regras, e ocorrem por uma série de mecanismos que envolvem cessão de princípios individuais em nome de percepções coletivas, que são negociações individuais agregadas, e afetos, alinhamentos emocionais, pertencimento e identificação.

Em resumo: a organização perfeita para você é uma organização com a qual você concordou em negociar sua adaptação de percepções individuais às tradições, regras, ideias coletivas que fundamentam cada uma destas entidades ou grupos. E sim, existe uma organização pertinho de vocês que é perfeita pra ti.

O principal critério para evitar que uma organização te atropele ou te faça desistir de se organizar porque elas rompem com sua ideia de existência é conhecê-las para além das superficialidades. Não basta assinar ficha de filiação em partido ou ir em todas as reuniões do grupo anarquista já se entendendo como tal, ou frequentando a feira de economia solidária comprando e se assumindo cooperativista solidário. É preciso travar o diálogo amplo com os aspectos “técnicos” da organização e os afetivos, emocionais, buscar os autores base da organização, se eles existirem, lê-los com cuidado, decifrá-los, frequentar reuniões, analisar a complexidade de todas as organizações, perceber-se na organização, sua confiança pessoal, teórica e emocional nela. Tudo isso cabe de partido e correntes internas a associações de economia solidária ou de moradores.

Claro, algumas organizações não possuem uma base teórica nítida ou um conjunto de regras identificáveis, mas as redes de sociabilidade podem ser parte da tradição teórico-política dela e são detectáveis pelo grau de identificação e solidariedade existente nelas.

Existem organizações onde o perfil mais hierárquico e competitivo é mais perfeito e outras onde a supremacia de doses cavalares de afeto são mais presentes.

O principal é que é preciso construir com cada organização o processo que nos fez permitir a existência ao nosso redor de nossas redes de amigos. O processo de compreensão e aceitação das diferenças, a percepção da linha de identificação entre indivíduos que existe em cada roda de socialização, os comportamentos e afinidades, as diferenças e alinhar a isso as concepções filosóficas que os unem, e as que os separam.

Organizações são mais complexas do que rodas de relação, mas a percepção que faz com que os grupos sociais se assemelhem é a de que todos eles produzem redes de sociabilidade perceptíveis.

Mesmo os jogos de poder, as lutas internas em torno de cargos e posições decisórias, ocorrem em todos os grupos sociais. A questão é que em organizações por vezes quem não é exatamente seu maior objeto de afeto pode ser um aliado em nome de uma concepção ideológica ou percepção do real que os une em um espaço comum de compreensão da ação política.

E o principal em momentos como o de hoje é que isolados, como continuamente estamos neste contexto de percepção da atividade política como parte de uma rede de exposições de posturas e opiniões em redes sociais, somos alvo fácil não só da ira política de inimigos e adversários, mas de depressões, medos, desequilíbrios advindos da falta de apoio e especialmente das ações práticas de adversários contra nós.

A postura de isolamento inclusive fomenta as percepções de voto que passam ao largo de qualquer ideia de análise do real de largo espectro e que são presas fáceis de facilismos e impressionismos como as que eleições após eleições fazem com que se pressione por votos úteis já no primeiro turno sacrificando concepções de política e até sobre eleições, criminalizando votos nulos (anarquista ou não) ou votos por programa ou foco ideológico, como nos partidos menores, chamados de forma pejorativa como “não competitivos”, como se eleição fosse corrida de cavalo.

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Isolados somo presas fáceis das pressões e do impressionismo movido a medo, temos menso relações diretas com o debate político de fôlego, análise de conjuntura compartilhada ou mesmo a ideia de um dever para com nossos projetos políticos que nos fazem ter posições que estejam alinhadas de forma coerente com nossos projetos de sociedade e de mundo.

Juntos, em debate, analisando conjunturas para termos posições coerentes entre nós, trocamos ideias, assumimos posições que são coerentes com o resultado de nosso debate ou com as resoluções de nossas organizações, dependendo das características de cada grupo social. Isolados só temos a nós e nossas emoções como base, então o medo pode virar o principal conselheiro, enquanto em grupos sociais o medo pode ter, pelo menos, competidores ou um compartilhamento de sensações que amplia a segurança da decisão.

E partidos, correntes, coletivos, grupos de debate ou Conjunto de posições políticas neobudista Frida Kahlo, não importa a coloração ideológica ou a-ideológica, organizações, grupos sociais, nos permitem ter suporte, apoio e concentração de percepções políticas que nos auxiliam nos combates diuturnos.

O fundamental aqui é que para enfrentar oque temos pela frente não podemos continuar isolados xingando muito no twitter, é preciso procurar amparo, ajuda e base de ação nos partidos, sindicatos, organizações, coletivos, correntes, grupos de debate, grupos de meditação, movimentos, para que nossa ação construa uma sólida barreira ao avanço dos que nos querem destruir.

Então, se organize, rapaz!

Bolsonaro, anti-intelectualismo, estupidez e brechas para a ação.

Por várias vezes nos deparamos com questionamentos à estupidez dos eleitores de Bolsonaro, com referência a eles como “bolsominions”e à própria estupidez de Bolsonaro e comitiva.

Bem, se é fato que são todo estúpidos temos um problema, porque perdemos a eleição, do centro à extrema-esquerda, para idiotas convictos. E quando se perde para idiotas o problema é contigo.

Mas é inevitável pra quem tem bom senso evitar o desprezo à inteligência alheia, portanto, e nosso dever tentar compreender as razões que levaram à derrota de nossas defesas políticas e da própria democracia, e também tentar pensar para além da caixa sobre o que está por vir.

Quem melhor olhou pra frente foi o Marcos Nobre em seu texto no El País, falta olharmos pra trás,mesmo no imediato passado, quase presente cotidiano, para entendermos melhor o que aconteceu e como fazemos para agir.

Primeiro é fundamental esquecer os dedos que apontamos uns para os outros e entendermos que Bolsonaro não tem programa pra governar, nunca teve,usou um misto de indignação aleatória com o sistema com máquina de propaganda financiada por caixa dois e esquemas projetados mundialmente por Bannon e cia, muito boato, muita desinformação,muito chute na canela e um arremedo de programa que não causa desgosto à elite financeira, que tem pressa.

O PT cometeu erros na campanha? Muitos, PSOL e cia idem, todos erraram em algum momento para atingir a população, mas se não errassem provavelmente perderiam. Ninguém previu a facada, a máquina de fake news via whatszap, a ausência de debate por omissão do próprio Bolsonaro, a demora na correção de rumos de toda a esquerda e centro para evitar oque acontecia, perdidos muitas vezes na busca do lugar ao sol, ou do clássico “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

A questão é que com tudo isso ninguém previu uma conjunção de indignação com a corrupção, medo de perda de uma mínima estrutura de segurança comportamental, cansaço da chantagem pelo medo para que votassem no PT, o mesmo PT que tem muitas conta as ajustar com seus casos de corrupção e alianças espúrias, mas principalmente ninguém mediu o anti-intelectualismo que não só foi fundamental para o crescimento da extrema-direita, o ataque aos professores e a eleição de Bolsonaro como permanece sendo o grande canal pelo qual ele organiza seu sistema de cortina de fumaça para a ausência de mínimo entendimento sobre o que fazer no governo.

Bolsonaro catalisou principalmente uma reação populacional a uma casta intelectual, ou a uma postura intelectual que adora louvar Paulo Freire, mas pouco é Paulo Freire.

E não só nas universidades, mas nas escolas, esquinas, bares, uma postura de tutela com relação ao povo e às favelas, bairros, comunidades que pouco dialoga e muito leciona.

Dos saberes populares à dinâmica de compreensão de democracia do povo, nunca se enfrentou a distância entre a intenção do discurso e o gesto do posicionamento de boa parte da esquerda na posição de iluminados transportadores da consciência de classe aos acéfalos invertebrados das subclasses.

Isso se via do discurso do próprio Lula ao militante do PCB com ojeriza ao funk carioca.

A insistência num valor cultural que hierarquiza Chico Buarque em relação ao Odair José ou ao Molejo, e não só, a própria ideia de uma política onde o seu Zé que negocia voto por telha é transformado no câncer do país, e não o deputado que negocia ou o governo que não chega na periferia para ser o fornecedor da telha sem negociar voto a não ser pela construção do valor organizado pela ação política em si.

Pior é a parte da esquerda que em vez de organizar a questão fundiária optou por trocar de lugar com o deputado da telha, sem trocar o método.

Quando o PT trocou Olívio Dutra no ministério das cidades e sue projeto de regulação fundiária das cidades por um membro do PP acabou com qualquer chance de mudança de paradigma na condução de reformas inclusivas concretas.

A questão é que a mesma esquerda que desprezava como corrupção o negócio do voto por telha, ou praça ou pista de skate tinha como líderes políticos gente indiciada na lava jato.

E quem não estava indiciado na lava-jato? Se negava a discutir sobre corrupção sem ser moralista, a discutir segurança sem ser transformador do medo em ridículo e se negava a discutir a questão LGBT, de negros e negras e questão de gênero sem que automaticamente a conversa se transformasse num tribunal de condenação do outro que por mil motivos, o principal é que todos os preconceitos e opressões são estruturais.

E ninguém me contou que isso aconteceu, eu participei de vários tribunais desses, muitos deles como condenador.

Tudo isso fez com que o caldo cultural se movimentasse na direção de Bolsonaro, que como um tubarão oportunista soube aproveitar.

E nada disso significa que precisamos fingir que não lemos ou que não entendemos ou que a luta negra, LGBT, de gênero, etc, tenha que mudar na direção de onde quer chegar e o que quer defender, mas acredito que sim, é fundamental ampliar o arco de comunicação a respeito para que seus valores não sejam levados pra lama do simplismo.

Porque muitos dos eleitores de Bolsonaro por vezes votaram nele por não entenderem como a filha “se tornou lésbica” ou o filho pintou o cabelo de azul, embora não necessariamente seja gay ea mulher deixou de trepar com ele quando ele queria, o que não significa que mesmo votando ele passasse a bater nos filhos e na mulher ou estuprar pessoas na rua.

Só que nossas abordagens sobre a realidade para esses senhores precisa passar de tuteladora e lecionadora para dialogante. Como fazer isso?Excelente pergunta, eu não sei, mas o principal é engajar essas pessoas num contato cotidiano mais forte do que a distância seguradas relações pontuais. Sim, trabalho de base, e trabalho de formiguinha.

Precisamos barrar a fala intelectualista que se posiciona, para alunos e pessoas em geral, como um lugar de fala, um portador de uma linguagem de violência.

Precisamos ser mediadores, formuladores, dialogantes.

É difícil demais, especialmente em rede social, onde a distância entre o calhorda de escritório profissional de social media e o cidadão comum é mínima.

E é exatamente por isso que a troca precisa ser do virtual pro físico.

O Fulano que mora na esquina por vezes é mais palatável que o@gjrmamute que me ataca numa rede qualquer.

Ah,mas e o zap? O zap não governa e não controla todas as esferas de percepção do real.

E é impossível lidar com todas as crises apenas via whatzap, o próprio episódio da saída dos médicos cubanos do Mais médicos é sintomático, a boataria que ataca cuna,PT, etc não resolve o problema de prefeitos e cidadãos que vão ter uma saúda colapsada.

A culpa pode ser até do papai Noel, mas se Bolsonaro e seu discurso não resolver o problema o problema passa a ser ele.

Dizer que os prefeitos são culpados da ausência de médicos não o ajuda nem um pouco.

E ensinar ao povo como funcionava o Mais médicos é irrelevante se não apontarmos o problema. E parte do problema pode se resumir a uma pergunta: não era mais fácil dialogar e tentar corrigir distorções que causar um caos na saúde de milhares de municípios?

Como alguém disse: não se governa por zap.

E isso , a própria fala,é uma obviedade e um problema: precisamos ir além de reproduzir uma defesa inconteste do sistema de governo.

É óbvio que o método Bolsonaro de agir e governar, atacando sistema, prefeitos, câmara, senado, oligarquias, grupos econômicos, corporações, tudo isso tende ao caos e à imobilidade do governo no médio prazo, leiam o texto do Marcos Nobre, mas esse discurso e essas falas não são, com o sinal trocado, as falas da esquerda revolucionária?

Não defendemos e defendíamos o enfrentamento que Bolsonaro está fazendo, embora com outro método?

Sim, defendíamos e temos que continuar defendendo, por outros motivos.

Porque Bolsonaro desagrada a muitos para passar a agenda ultra-neoliberal que o mantém vivo para assumir o governo e o tornará irrelevante no minuto seguinte em que ele passar as reformas que animam o mercado financeiro, e nosso enfrentamento ao sistema se organizava exatamente no combate às reformas e à ideia de que qualquer programa ultraliberal era um caminho.

O confronto de Bolsonaro com a oligarquia é para substituí-la no comando da mesma agenda para assumir o posto de liderança e deportador do lucro, o nosso é para demolir o sistema com ela dentro e substitui-lo por um sistema democrático com horizontalidade e democracia real, o nosso antissistema é literalmente antissistema, o dele é troca de guarda, e pra pior.

E é aí que entra nossa defesa da democracia e apontamento que não, Bolsonaro não é antissistema, nem o PT é a saída pro sistema,nunca foi, faz tempo que foi parte do problema e não da solução, nossa aproximação com ele no segundo turno de 2018 se deu porque a agenda que Bolsonaro significa é uma agenda que não resolve os problemas do PT e amplia os problemas a partir dela em si.

Antissistema é a agenda que defende uma outra lógica de democracia, estado,saúde, direitos e que aponta pros limites do capitalismo sem chamar de comunistas os governos que foram exatamente como Bolsonaro vai ser, mas que não achavam que governariam por whatzap.

E como lidar com o anti-intelectualismo e reconstruir a ideia que ser antissistema é ir conta o sistema e as oligarquias sem querer substituí-las pelo mesmo campo e absorvê-las como base? Bem, o principal caminho é conseguir dialogar com quem se quer convencer,estabelecer laços e estabelecer caminhos de pensar coletivamente as soluções pros problemas, de baixo pra cima à esquerda de quem entra.

Não há soluções mágicas, mas só lembrando que o professor não é inimigo, que o comunista é teu vizinho, que teu amigo de pelada é LGBT ou pai de um e que sua amiga de infância é a feminista que teu presidente diz que fede é que a gente começa a resolver, e isso passa por não atacarmos o mensageiro da estupidez como produtor dela e agirmos como se nosso conhecimento nos tornasse superiores, não torna, e perdemos por isso.

As brechas para a ação estão ai, desde a possibilidade de explicar sobre mais valia a partir da fala de Bolsonaro sobre escravidão e médicos cubanos até a pergunta sobre como se resolve o problema que ele criou com a ação contra a presença dos cubanos, lembrando que em vários locais as pessoas lidavam com esses cubanos.

A própria menção à escravidão podem nos ajudar a lembrar que o mesmo Bolsonaro culpou no Roda Viva os negros pela escravidão, e isso é uma brecha para discutirmos a própria ideia de escravidão e como ela é ruim e prejudica quem sofre com ela, e seus descendentes.

Tudo isso é brecha pro diálogo, e o diálogo é a melhor arma contra o anti-intelectualismo, assim como para construir trabalho de base.

As idas e vindas de Bolsonaro e as questões da esquerda

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Bolsonaro tem como tática anunciar medidas, testar com isso a opinião pública, e recuar caso a medida causa tremores em sua popularidade.

Pode ser chamada de Guerra híbrida, tática de propaganda de guerra, mas também de tática “Bode na sala”, que não é nem moderna, nem de guerra, mas funciona. Ou a teoria do sofá, onde um homem que flagra sua esposa com um amante no sofá da sala, troca o sofá.

Em qualquer dos casos é importante entender, e prioritário para a esquerda, onde tá o nosso papel no debate a respeito das ações e como nos organizarmos em relação a elas. Porque é uma perda de energia abrupta a reação imediata a ações que podem ser desmentidas posteriormente, e nos coloca como alvos de propagação, junto com a mídia, de “fake news” nas correntes de informação das redes bolsonáricas. A mídia não tem como evitar, nós sim.

Também é fundamental discutir o quanto as reações às idas e vindas contribuem para a perda do foco na organização da resistência e o quanto nós erramos em não produzir nossas narrativas e informações a partir de análises nossas, combatendo a desinformação bolsonária sem sequer precisar do uso da mídia tradicional.

Porque as narrativas são feitas por Bolsonaro ignorando qualquer possibilidade de conterem verdades, o apelo a jargões e à desinformação é uma tática concreta, apelar para a busca pelos seus seguidores, e por boa parte de seus eleitores, da verdade ou algo semelhante é bobagem, tudo se torna uma narrativa onde o Capitão não quis dizer o que disse, e é fake news ou canalhice da esquerda apresentar o que ele concretamente disse ou fez.

Mas não é pra convencer os convictos que precisamos de nossos canais, mas pra fornecer versões para quem não é convicto ou para que sirvam no futuro de aviso sobre os caminhos que a irresponsabilidade coletiva, inclusive de parte da esquerda, nos colocou e impôs.

Outro elemento é que Bolsonaro et caterva já deram mais do que provas que além de daninhos são extremamente incompetentes e irresponsáveis, como parte do eleitorado brasileiro que o colocou lá.

Da transferência da embaixada brasileira para Jerusalém à nomeação de um chanceler com zero experiência em missões no exterior como chefe diplomático, discurso anti-islâmico e alinhado a Trump, passando por ameaça de fusão do ministério do Meio Ambiente com o da agricultura, tudo isso gera prejuízos diretos ao agronegócio e ao país, porque o Brasil lidera a venda de carne para muçulmanos e países muçulmanos já apontam rompimento com o mercado brasileiro pela aproximação de Bolsonaro com Israel e porque as ações com a liberação dos agrotóxicos e ataques ao ministério do Meio ambiente podem reduzir nossas vendas relacionadas à produtos certificados como produzidos de forma sustentável. Mas a trapalhada arrogante com o Mais Médicos, Bolsonaro faz tudo isso chegar a um outro nível, e isso vindo de um presidente eleito que cometeu tantas ações tresloucadas dando prejuízo a tantas pessoas e grupos sociais que será um milagre se, nesse ritmo, ele chegar a agosto com o apoio popular e do mercado angariado.

Isso se alia ao desconhecimento do mínimo traquejo na liada com congresso, mercado, estrutura do serviço público e mínimo funcionamento da máquina do estado.

Ignorar que o orçamento do ano futuro é votado este ano é gravíssimo para um superministro da economia, não?

E mesmo controlando a narrativa agora, enquanto presidente eleito, ele não controla toda ela e no caso dos Médicos Cubanos não controla praticamente nada dela.

Ele tem toda uma alegação que Cuba escraviza os médicos que aqui estão e que daria asilo a eles e que os está libertando, mas essa narrativa não resolve o problema da população interagir com eles e não só tê-los como únicos médicos disponíveis, mas tê-los como médicos com técnicas de abordagem e lida com os pacientes que os tornam importantíssimos dado o cuidado, a atenção, etc.

Toda a questão alegada por ele que foi Cuba quem se retirou e não que foi a causa do discurso dele cobrando revalidação de diplomas dos cubanos e contratos individuais com cada médico, o que foge do contrato estabelecido com a estatal cubana que recebe o valor destinado aos médicos como valor total do contrato e repassa parte a eles, sendo parte dirigida às suas famílias e parte financiando o programa de envio de médicos ao exterior, é falsa e independente se cola ou não, não resolve o problema, porque o problema permanece e é ele quem precisa resolver, inclusive tendo no colo a bomba do uso de cubanos e outros estrangeiros apenas nos casos onde médicos brasileiros não quiseram assumir.

Ah, a culpa é de Cuba? Claro, isso cola na narrativa anticomunista, mas agora ele precisa resolver o problema, afinal são milhares de médicos a menos no programa, atingindo toda a saúda de enorme contingente de municípios onde o programa era a úncia garantia de permanência dos médicos no local, porque apenas os cubanos que vinham pelo convênio firmado entre o estado Brasileiro e o Estado Cubano eram os médicos disponibilizados par ao local e que aceitaram ser destinados até lá.

Ele fala em asilo aos cubanos, mas por que apenas um caso pediu asilo aqui? E as demais missões de Cuba nos demais países no exterior, porque nenhum o país, nem mesmo os EUA, pedem revalidação do diploma? E por que em vez de impor a revalidação como condição, não negociou a implementação do processo de forma negociada para pôr em prática uma demanda da ala conservadora dos conselhos regionais de medicina, apresentando um calendário de revalidação que não impedisse a permanência do programa e nem afrontasse um estado parceiro com base em estupidez ideológica?

Até porque Cuba é a segunda nação estrangeira que mais aprova e tem a sétima maior taxa de aprovação no Revalida, superior inclusive à de médicos Brasileiros formados no exterior, que é exatamente o que cobra Bolsonaro como alegação espantalho (além da suposta escravização dos médicos cubanos), sua medicina e seus médicos são elogiados pela ONU e todo o seu sistema de saúde e de ensino de medicina são exemplos mundiais, gostem os anticomunistas de galinheiro ou não.

Além de tudo isso o STF autorizou a dispensa de revalidação do diploma para os Cubanos, ou seja, as colocações de Bolsonaro forma feitas e produzidas para causar o rompimento, inclusive porque ele afirmou em campanha que prenderia os médicos. Ele estava realmente preocupado com as condições dos cubanos aqui presentes como alega via twitter?

Correntes de watsap, uso de twitter acusando um estado soberano de escravizar cidadãos ou qualquer outra balela inventada por Bolsonaro, que agravam o problema, não vão resolver a perda destes profissionais reconhecidos mundialmente e que desfalcarão o atendimento de 29 milhões de brasileiros, com a perda de 8.332 cubanos dos 18.240 dos médicos do programa, quase metade dos mais de 63 milhões de pessoas que eram assistidas pelo Mais Médicos.

Esse problema se agrava quando a Frente Nacional de Prefeitos pede publicamente a revisão da ação e cobra Bolsonaro, e não Cuba, para que resolva isso.

A questão, como diria Lênin: que fazer?

Primeiro precisamos parar de correr atrás das linguiças jogadas como iscas para cachorro por Bolsonaro e sua militância e apontar pro óbvio: eles são incompetentes.

E nem precisa iniciar o governo, é pra ontem, as ações deles já nos imputam prejuízos concretos, já nos detonam, não precisa nem torcer contra, a arrogância de terem vencido a eleição os põe como imperadores que nunca foram ou serão e os tornam vulneráveis e já os desgastam antes de assumir.

Pra que correr da sala para a cozinha sobre nomeações? Precisamos correr para bater no diplomata posto como chanceler e que exporá o país a sanções internacionais, oficiais ou não e que nos trará prejuízos, além de criar ruídos no Itamaraty, cujos membros não gostaram nada de verem um neófito nomeado chanceler à frente de quadros representativos e de longa experiência. É como se Jair tivesse nomeado um capitão pra chefiar o exército.

É preciso reagir à ministra da agricultura ser uma líder pela liberação total dos agrotóxicos, é preciso reagir ao avanço do Escola sem partido e agora à irresponsabilidade que fez municípios perderam atendimento médico por causa de xenofobia anticomunista lastreada por corporativismo médico brasileiro que não coloca médicos à disposição nem em periferias de grandes cidades.

Cuba decidiu sair dos Mais Médicos por pura irresponsabilidade xenofóbica, anticomunista e até com tintas racistas de Bolsonaro sustentando uma demanda de uma corporação pouco afeita ao juramento de Hipócrates, e cuja participação em sua campanha teve até recém eleitos ao CREMERJ.

Aliás, a posse da nova direção do CREMERJ não só teve a presença de Flávio Bolsonaro, como parte da diretoria fazendo gestos de arma na mão as seu lado deixa muito claro o que pensa parte importante dos membros da medicina brasileira. E a postura em relação aos cubanos e o Mais Médicos não só não é recente, como é um reflexo dessa unidade entre uma corporação médica brutalmente mercantilista e conservadora, com extremo desapego à qualquer perfil de medicina social e de serviço público.

A fala em 2013 do presidente do CREMERJ de que os médicos cubanos “não eram médicos no Brasil, mas intercambistas”, as manifestações contra os médicos nos aeroportos, com o ápice de médicos brancos vaiando a chegada de profissionais cubanos, negros em sua maioria (e isso é sintomático) em Fortaleza só deixam claríssimo o perfil, reforçado pelo corporativismo do CFM em nota contra críticas do ministro da saúde aos médicos brasileiros no Mais Médicos e seu silêncio quando uma atitude estúpida destrói a saúde em milhares de municípios, de um setor da população, de uma corporação pouco afeita à compreensão de qualquer ideia de benefício e serviço público, pouco engajamento na melhoria real de salários e estrutura de trabalho para sua classe e muito fã de manter privilégios.

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Flávio Bolsonaro em festa de posse da atual diretoria da CREMERJ

Bem, o corporativismo médico foi atendido e pago por seu apoio a Bolsonaro, e a população nessa?

É aí que a gente entra.

Precisamos hoje estar do lado da população em cada detalhe, da construção de uma agenda anti escola sem partido, em defesa do SUS e da previdência ao trabalho cotidiano em cada base de estruturar a resistência e deixar claro que p anticomunismo via watsap é quem produz tragédias e não a esquerda.

São muitas as ações que exigem desde formação de núcleos e comitês até aulas públicas para expor as questões, indo às ruas, olho no olho, lembrando que a esquerda é feita de gente.

Bolsonaro é incompetente, bateu de frente com muita gente e muitos grupos, precisamos sair dessa rede de defesa do estado, de defesa da política macro que acaba virando uma defesa de governos anteriores e pouco age na ideia de construção coletiva pela esquerda, na reação a Bolsonaro estamos ficando do lado de adversários e não do jeito certo.

O governo ultraconservador nos está cooptando para um centro ideológico por nossa posição reativa, precisamos ser ativos e contrapor isso com uma postura de formação e informação e de ação pró-ativa contra hegemônica.

Precisamos ir além de reproduzir o discurso sobre o quanto o país perde em exportação de carne e apontar que o Brasil do agronegócio é duplamente perigoso, tanto por ampliar os ataques ao meio ambiente como por atacar a agroecologia real dos pequenos agricultores que é quem produz alimento de verdade no Brasil. Precisamos atacar a falsidade de que o agronegócio agrotóxico é sustentável e mesmo é eficiente, apontando a realidade da produção agroecológica, saudável e real, contra o desperdício e envenenamento feito a partir do agronegócio agroexportador e tóxico.

Precisamos atuar para lutar contra a desinformação que faz com que a população pense que a escola pública é pior que a privada e que a universidade pública nada faz ou produz, quando é o contrário.

O ensino privado é, na escola e universidade, pior que o público salvo raríssimas exceções, mesmo o setor público sofrendo com contínuas sabotagens com relação a recursos e tendo via de regra um público que tem diversos níveis de impeditivos para um melhor desempenho em testes como PISA, de falta de estrutura urbana a atendimento de saúde, passando por falta de acesos a bibliotecas , museus,etc . O resultado médio dos alunos de escolas públicas é comparativamente melhor do que os da escola privada.

No caso da universidade, a universidade pública produz quase 100% de nossa ciência atualmente, iniciando na ciência milhares de jovens brasileiros, ampliando a capacidade de atuação de milhões de pessoas, avançando na produção científica do país. E entre as mil melhores universidades do mundo, em ranking de 2014 , o Brasil tem dezoito, nenhuma universidade privada, todas públicas.

Em ranking mais recente o Brasil tem trinta e seis universidades, mas as públicas estão lá e das privadas apenas a PUC (com unidades do Rj, RS e Campinas) e a UNISINOS, estão presentes. Então que ineficiência é essa do setor público?

Para desconstruir a desinformação são fundamentais exposições públicas de ações educativas e atos, abertura de redes de apoio mútuo, especialmente de afeto e psicológico, de compartilhamento de experiências e produção de iniciativas de resistência.

A narrativa escapou do controle de Bolsonaro, ele não tem competência pra recuperá-la.

O debacle das grandes narrativas

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Não é nada novidadeiro o debate a respeito do fim das grandes narrativas a respeito da história, política, etc. Pelo contrário, há análises que fazem uma profunda reflexão a respeito das grandes explicações sobre os processos históricos e sociais desde o fim do século XIX e início do século XX.

Nietzsche já fazia reflexões que questionavam a história e seus fios explicativos como “excesso de memória”. Walter Benjamin entendia as grandes explicações estruturalistas, embora ele não usasse essa terminologia, como um viés explicativo parelho ao das mitologias e religiões, a própria ideia do progresso como um desejo transformado em pensamento, quase um pensamento positivo, que antecipava a história e buscava um final dos tempos parecido com o fim de narrativas ficcionais. Aqui a história para ele era narrada como uma espécie de ficção que se assemelhava às novelas e folhetins.

Dos anos 1950 do século XX em diante a crítica às grandes narrativas a ao estruturalismo, às definições gerais, universais, que faziam tabula rasa das experiências complexas da humanidade, tornando-as mensuráveis, praticamente definindo leis gerais das ciências sociais e da história, como se fosse possível para uma gama complexa de sociedades diversas ter seus movimentos exprimíveis como o são os fenômenos físicos ou químicos a partir de suas leis naturais (sendo que estas desde os anos 1920 também eram questionadas como universais por suas ciências ditas “naturais”).

De lá pra cá a ideia de nacionalidade, raça, gênero, orientação sexual, identidade de gênero, sexualidade, entre outras questões, foram flexibilizadas pela ampliação do arco analítico em torno dos fenômenos humanos e sociais.

Não houve um processo ideológico, no sentido político, que especificamente deu andamento à produção de diversificação explicativa sobre cultura, sexualidade, gênero, identidade étnica, não foi um processo ordenado e planejado para tal, mas a explosão de diversos movimentos e reivindicações das mais diversas áreas e identidades, do feminismo à luta antirracista passando pela luta LGBT e pelas reivindicações de autonomia de países colonizados pelos Europeus, especialmente na África e Ásia.

Esses processos levaram à ampliação da percepção da própria ideia de indivíduo à reavaliação dos processos analíticos herdados do século XIX, pois se havia, e há, princípios fundamentais para as bases do pensamento científico, também havia reducionismos como os que não incluam percepções filosóficas de civilizações profundamente marcadas pela oralidade, como grandes grupos indígenas das Américas e austrália e as nações africanas, cuja história pré colonização europeia era passada através de gerações pela cultura oral.

Escrevo esse preâmbulo porque parte dos ruídos ocorridos nas eleições recentes no Brasil, e no mundo, se dá nos marcos de ações e reações em torno dos embates que se estruturam pela retomada das ideias naturalizadas historicamente em torno de elementos como nacionalidade e sexualidade e quem repudia as amarras supostamente civilizacionais impostas a negros, indígenas, mulheres, LGBT e transgêneros.

Não raro abraçados pela extrema-direita, os valores explicativos de razões que ultrapassam as ditas identidades são estabelecidos na estrutura de explicações universais sobre a história, as nações e características ditas como “natas” a respeito do que são homens, mulheres, negros, indígenas, etc.

Ou seja, tudo o que foge de explicações rígidas embasadas e envelopadas pelo mofo do século XIX como “homem e mulher são o que Deus inventou” ou “negro e índio são indolentes” é transformado e uma degeneração de uma ideia de purismo nacional e da própria ideia de indivíduo, e transformados em ações externas, propostas de fora pra dentro do “coração da nação”, por “comunistas” e outros inimigos naturais do bom senso branco hétero.

Esse embate simplificado aqui é fácil de perceber e identificar no discurso reacionário contra as lutas chamadas “identitárias”, pois o embate político organizado em torno dos valores explicitados é de comum percepção, mas ele também se encontra na contrariedade de parte da esquerda contra o movimento #Elenão, no Brasil, culpado por 9 entre 10 militantes pelo crescimento de Bolsonaro no fim do primeiro turno.

O equívoco inicial na avaliação da culpabilidade de um movimento suprapartidário de cariz feminista contra a extrema-direita só foi enrustido, e um pouco reduzido, quando matéria da Folha de São paulo deu conta de um milionário esquema de divulgação de notícias falsas organizado em torno da mesma extrema-direita e que explica com muito mais facilidade o crescimento do candidato alvo dos movimentos do que a ranzinzice reacionária da esquerda com os mesmos.

No mesmo período também ocorreram declarações desastrosas por parte de José Dirceu e Gleisi Hoffman dando conta de uma vitória do PT muito antes do fim do primeiro turno, mas a esquerda menso atenta preferiu culpar o movimento de mulheres por um crescimento de Bolsonaro alegando que a culpa era que “o movimento não tinha pauta clara e deveria focar no econômico”, como se o movimento suprapartidário e poli ideológico tivesse que construir consensos que não conseguiram os partidos e movimentos não relacionados especificamente com mulheres, indígenas, negros e l!!br0ken!!

Pior era a velha e carcomida busca de produzir a superioridade do econômico sobre todas as coisas, ensaiando um marxismo caquético e pouco oxigenado, mesmo depois de mais de 50 anos de embates e debates por marxistas, ingleses, franceses, etc.

Sabe tudo oque se produziu em história, sociologia, antropologia e ciência política? Ignorados porque o formulismo em caso de não compreensão da enorme transformação nas percepções do real sempre culpará o “identitário” ou o “pós-moderno” pelos males não percebidos nos encaixes forçados das velhas fórmulas.

Pior é imporem uma ideia de marxismo que ignora os aspectos culturais e o processo de formação das consciências de classes e que diverge do próprio Marx, que se explicava que sim, a cultura tem elementos do econômico em sua organização, e do político, também definia o processo ideológico como uma produção que impunha uma percepção ilusória do real pela burguesia ao proletariado, através dos aparelhos de reprodução ideológica (igrejas, jornais, escolas, etc).

A questão é que com uma maior percepção das variantes que compõe a individualidade, os papéis executados pelas pessoas, que são mais que homens ou mulheres, mais que proletários em oposição a burgueses, mais processos de percepção do domínio e opressão burguês sobre o proletariado foram perceptíveis, assim como mais e mais percepções sobre como parte do proletariado não atua para romper as amarradas que o impõe a classe dominante.

E essa percepção foi e é fundamental para uma identificação do processo que se relaciona com a construção da consciência de classe, seu caráter por vezes diáfano, as dinâmicas que se interpõe entre esta consciência e o todo da classe operária e as cunhas das opressões transversais que atuam também no interior da classe operária onde também persiste a misoginia, o machismo, a LGBT fobia, o racismo, a xenofobia, e porque isso interfere na conquista da consciência de classe e como as classes dominantes utilizam os preconceitos que sustentam as opressões como ferramentas de domínio de classe.

Por isso é fundamental perceber que as tais lutas “identitárias” não são outra cosia além da própria luta de classes, porque lutar contra todas as opressões é fundamental para lutar contra o que divide a classe trabalhadora e com isso ampliar os meios pelos quais a experiência e identificação de laços que nos unem maiores que nossas diferenças é fundamental para que conquistemos a consciência de classe.

As grandes narrativas abolindo a diferença e as chances dos processos que ocorrem no interior das classes ganhem aluz e sejam entendidos como parte dos grandes processos, e fundamentais interventores nestes grandes processos, silencia as diferenças e faz eco não com a supressão das opressões que nos dividem, mas com a manutenção delas.

E também concorrem para o silenciamento das complexas formas e processos que formam as experiências únicas das classes operárias nos mais diversos contextos e conjunturas, inclusive territoriais.

A classe operária britânica não foi formada como a brasileira, não teve a mesma experiência da escravidão criando uma complexidade de processos que incluíam um contingente imenso de trabalhadores colocados abaixo inclusive da classe trabalhadora, sendo desumanizados neste processo: os negros escravizados. Também não viveram a mesma experiência a classe trabalhadora estadunidense, que tem uma outra complexidade que forma as dinâmicas diferentes das relações étnico-raciais e a própria diversidade de formas de escravidão e de legislatura a respeito da escravidão nos mais diversos estados.

Ao contrário de ingleses e franceses, brasileiros e estadunidenses viveram parte da história com a ideia de serem humanos enquanto negros e índios não eram, eram animais ou assemelhados, não possuíam a identidade que faziam com que brancos e negros não fossem parte de uma mesma classe, sequer fazendo parte da mesma espécie.

Essa construção cultural durou séculos e perdura dificultando a identidade entre brancos e negros como partes de uma mesma classe. O racismo aqui serve para dificultar a construção e conquista da consciência de classe.

A própria relação entre gêneros e a busca de direitos entre homens e mulheres, a relação com a presença da homossexualidade, tudo isso varia de acordo com as experiências históricas nos diferentes contextos históricos, geográficos, políticos e sociais.

A experiência LGBT e das mulheres sob o islã atravessa a própria dinâmica da construção de um debate a respeito de classes.

As grandes narrativas produziam ferramentas teóricas fundamentais para a compreensão do mundo, mas também a partir delas foram produzidas outras contribuições que dão conta da maior complexidade da percepção do real. Inclusive a própria ideia do real.

As novas sociedades, mais e mais complexas, ainda funcionam em uma percepção macro, de acordo com as grandes narrativas, mas elas possuem limites que não alcançam fenômenos como o bolsonarismo e a resistência a ele.

Apesar das semelhanças entre bolsonarismo e fascismo clássico dos anos 1930, ou mesmo com Trump ou Erdogan, as diferenças explicam o fenômeno de forma mais explícita, diz mais sobre nossa sociedade e alimenta mais nossas táticas de resistência.

Isso não significa que Bolsonaro, Trump ou Erdogan não sejam neofascistas, mas exatamente por isso precisam ser diferenciados do fascismo clássico e suas estruturas.

O caldo cultural que Trump construiu em sue fascismo de novo tipo uniu inimigos “naturais” como Ku Klux Klan, neonazistas e supremacistas brancos.

Bolsonaro uniu em torno de si estatistas amantes da ditadura, neoliberais sem escrúpulos, neonazistas e amantes da milícia, o que os une é apenas o ódio a quem resiste à opressão e à democracia.

Esse fascismo de novo tipo se relaciona com a maior complexidade de identificação do próprio indivíduo enquanto uno, ou seja, o indivíduo que se pretende organizado em uma ideia simples de ser humano, e confronta as dinâmicas de negros, índios, mulheres, LGBT e trans, se enxerga não como um portador de uma identidade brasileira una, mas como um contrário às bandeiras que fragmentam, sob sua ótica, a nação, a ideia de homem e mulher, a ideia de Deus, etc. Com isso ele se une aos que resistem às mesmas coisas que ele, não por uma identidade em comum, mas por uma contrariedade em comum.

O indivíduo do fascismo de novo tipo é tão fragmentado quanto o indivíduo que luta contra o racismo, a homofobia e a misoginia. Ele também é um branco, pobre, muitas vezes LGBT e morador da mesma periferia do negro, pobre, também LGBT e antimachista, mas sua contrariedade ao que rompe com a grande narrativa da “normalidade” o faz optar por uma união com quem tem pensamentos radicais contra sua ideia de nação, mas que comunga com ele contra a ideia de desfazimento desta normalidade.

A “normalidade” é seu valor e ele a defenderá se aliando a todos os que querem combater os” vermelhos”, categoria inventada para dar a entender que há um simplismo que faz o combate entre diferenças enormes ser um simples “nós contra eles”.

Essa percepção da fragmentação do indivíduo, tudo o que isso envolve não vem de uma “pós-modernidade’ que é o espantalho teórico de parte da esquerda, mas de investigações da esquerda britânica, alemã, estadunidense e francesa e tem uma profunda raiz no marxismo, assim como é de Marx que parte a ideia de experiência como fundamental para a consciência de classe e das diferentes formações da classe operária, debate que faz parte da ideia das opressões serem elemento fundamental para dividir a classe.

As grandes narrativas não tiveram seu debacle apenas a partir de espantalhos teóricos, elas forma percebidas como portadores de incorreções quando expostas a realidades complexas e às novas conjunturas de avanço do capital e da ampliação absurda da complexidade das organizações sociais sob o eternamente transformado capital.

Novas famílias geraram novas homofobias e misoginias, ascensão de classe para negros originaram novos racismos.

A própria ideia de uma divisão de classes binária ou dividida em ricos, remediados e pobres tem problemas de se manter em pé a partir das diferenças entre os ricos, as classes médias e as diferentes classes operárias.

O operário especializado da Volkswagen não é a mesma coisa do operador de telemarketing.

São muitas as questões a serem postas e tornariam este texto longo demais, mas a ideia de que precisamos debater nossas bases teóricas as respeito das grandes narrativas precisa ser encaminhada e organizada.

Porque é parte deste debate a construção de ferramentas de combates aos ataques que as classes trabalhadores sofrem das elites e de seus aliados no interior de cada classe.

O ensino superior sob Bolsonaro.

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Bolsonaro e seu filho Eduardo já deram diversas declarações que falam diretamente do ensino superior e da ciência e tecnologia e que precisam preocupar não só os diretamente envolvidos, mas todo o país.

Bolsonaro defende ensino a distância desde o fundamental e ainda alega que os cursos de humanas, por seu suposto baixo custo, não precisam ser presenciais e sendo a distância podem servir para “combater o marxismo” (Como se um suposto professor doutrinador marxista não pudesse “doutrinar” via EAD).

Ao mesmo tempo que diz que destinará 10 bilhões de reais para a pesquisa, mas diz que a tecnologia e seus “resultados práticos” tem que chegar à população.

Critérios “práticos” são obviamente subjetivos, qual o resultado prático mensurável de uma pesquisa histórica sobre como os religiosos do Contestado se organizavam socialmente? Claro que é importante a pesquisa, identifica um elemento importante para a ampliação da pesquisa sobre um fato histórico fundamental para o país e Santa Catarina, mas como medir seu impacto “prático”? Ou pesquisas sobre como os jornais historicamente produzem seu estilo de texto jornalístico ou sua forma de lidar com as parcialidades de suas linhas editoriais e como agem com os adversários dos donos da voz das editoriais? Como mensurar o resultado “prático” destas pesquisas?

E há outros tantos exemplos claramente identificáveis que nos faria ficar horas a fio aqui.

Circula vídeo de seu filho Eduardo Bolsonaro dizendo que a educação superior pública brasileira é de baixa qualidade, mesmo ele tendo se formado na UFRJ e passado no concurso da Polícia Federal com esse ensino “ruim”.

Obviamente ele não ignora que o ensino público superior brasileiro é de ponta, tendo vinte universidades entre as mil melhores do mundo segundo o Center for World University Rankings (CWUR), superando muitas vezes universidades de economias mais fortes e com mais investimento direto na produção científica e na infraestrutura do que os governos aqui fazem.

Também não ignora que 99% da produção científica do país é feita pelas universidades públicas, ou seja, universidades públicas produzem quase todo o conhecimento científico do país.

E mesmo assim ele acena com uma ideia que embute em sua proposta que envolve cobrança de mensalidade “pros que podem pagar” a quebra da autonomia universitária e a quebra da universalidade do ensino público, ou seja, ele diz que a cobrança é “pros que podem pagar’, mas quebrando a universalidade aponta para a privatização do ensino público.

Privatização que manda pras mãos do mercado quem produz ciência no Brasil, ou seja, sai quem produz e vai pra mão de quem não produz e tem uma percepção utilitária do ensino.

Isso aliado à visão utilitária da ciência como apena soque tem resultado “prático” é praticamente o fim da produção científica brasileira.

A questão é que na visão do presidenciável e seu stafe o ensino público é um ativo a ser entregue, o teor do serviço público e seu impacto pra população é irrelevante. A ideia da privatização presente no programa é que os recursos públicos não sejam financiadores da ciência, dedicando praticamente esse financiamento para o setor privado, que obviamente só fará investimento no que considera lucrativo.

Exceto por áreas que considera prioritárias e “estratégicas” o restante seria de financiamento exclusivo privado. CAPES? CNPQ? Esquece. Humanas who? Afinal pra que interessa a essa visão liberalizante pesquisas sobre Serviço Social, História, Filosofia? Nada disso pode gerar lucro pros financiadores, correto?

E a quem atinge? Bem, fora toda a perda de pesquisas diretas sobre medicamentos, saúde, etc que podem impactar diretamente a população há a perda de acesso dos mais pobres às universidades.

Como? Os mais pobres, amigos, são a maioria exatamente nos cursos que Bolsonaro considera irrelevantes. Duvida? Levantamento da USP, mas que pode ser visto em outras universidades, deixa claro que “Na Escola Politécnica, que reúne cursos de engenharias, a maioria dos calouros deste ano é da classe A (59%); na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), apenas um terço dos estudantes é dessa classe.”.

Ah, as Classes C e D são a maioria nas universidades federais, ou seja, o papo de cobrança de mensalidade aos que “podem pagar” não se sustenta porque são minoria, a ideia é cobrar de todos.

Sabe o combate dele às cotas? Bem, tem a ver com a retirada de acesso dos mais pobres aos cursos mais concorridos, cursados pela elite, e direcioná-los aos cursos que ele pretende que sejam em EAD.

O que isso resume? Que o acesso do pobre brasileiro à universidade, sua manutenção, sua possibilidade de exercício da pesquisa científica e a ideia de uma educação crítica estão sob muita ameaça.

Se você é pobre e vota em Bolsonaro e pretende frequentar um curso superior eu pensaria novamente.

O privilégio de sentir medo

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O título é um evidente exagero. Poucas coisas são mais democráticas que o medo. No entanto, a ideia do medo imobilizador que se torna álibi para a omissão diante de cenários grotescos e tensos para nosso cotidiano é sim um privilégio.

Escrevo isso com um misto de cansaço e aborrecimento, pra não dizer fúria, contra uma situação que se tornou comum desde que Bolsonaro venceu o primeiro turno das eleições de 2018: declarações de imobilidade, recusa ao confronto, informação de que não ouve mais colegas e familiares e se recusa a discutir com Bolsominions nas ruas, etc, além de declarações “morais” de voto nulo porque o adversário é o PT (Não confundam com o voto nulo político filosófico que acompanha a militância antifascista há mais tempo do que a esquerda partidária se lembra de fazer).

O cansaço/aborrecimento/fúria se dá porque quem coloca essas questões via de regras tem a escolha de futuramente fingir que nunca lutou contra, que não estava ai no dia da festa da democracia que elegeu o fascista ou pode ir embora até do país em caso de necessidade.

A galera que pode nada fazer e se imobilizar com medo tem um privilégio ancestral de executar essa “árdua” opção de se omitir diante do desastre.

Já para pobres em geral, especialmente os negros e índio, o medo é natural, mas a imobilidade não é uma opção.

Vivo, eu e minha família, em um quadro onde desde 2014 recebemos ajuda de muitos amigos e familiares para sobreviver. Isso mesmo que você leu., recebemos ajuda para SO-BRE-VI-VER. Revezamos quem tem emprego/Bolsa, aqui, quando um está trabalhando o outro não está. Nesse meio tempo quando conseguimos um bico que preencha os buracos do orçamento, ele acaba ou por vezes não nos pagam, mesmo depois de hiperexplorar nosso trabalho e salvo um trabalho de longo prazo de minha companheira e minha bolsa de mestrado, que recebo desde o fim do ano passado, vivemos via de regra à beira do precipício.

E quando passei a receber minha bolsa de mestrado ela parou de ter o emprego delongo prazo. Acrescente a isso um quadro onde o curso que eu faço é de História, ciências humanas, criticado pelo líder das pesquisas de intenção de votos como “antro de esquerdistas” e “curso barato, pode ser por EAD”, dane-se a pesquisa, dane-se o papel na construção da memória da sociedade brasileira, de resgate de históricas ocultas sob documentos oficiais, as revelações sobre nosso passado cada vez mais negligenciado, etc.

Ele não liga, e parte da sociedade também não. Afinal história, assistência social, geografia, filosofia, sociologia, ciência política não constroem pontes ou salvam candidatos de morrerem depois de uma facada fruto do acirramento do discurso de ódio proferido pelo mesmo aos quatro ventos, e que mesmo depois do atentado permanece mantendo em alta ebulição acirrando mais e mais os exaltados e violentos ânimos do fascismo à brasileira que segue seu nome, dando em homicídio, como o de Moa do Catendê.

Minha pesquisa, que tenta analisar a trajetória da produção de discursos por 8um jornal fundamental na história do Rio Grande do sul, e que pretende depois fazer a história desse próprio jornal, material que seria inédito, é inútil para essas pessoas, Ela está ameaçada de morte.

As perspectivas que já eram sombrias desde que Dilma declarou que o país precisava de mais cursos de engenharia do que de humanas, conseguiram piorar a ponto de perceber que nada melhor que a treva total virá com a possível e até provável vitória de Bolsonaro.

Só que o medo que eu tenho não me dá o privilégio de sentar e chorar na beira do asfalto, e não, não porque eu seja o mais corajoso e forte dos homens, é porque eu não tenho a maldita escolha de fingir que tá tudo bem ou que eu me refugiando no abismo do meu egoísmo vai ser possível passar em branco.

E nosso quadro aqui com nosso filho autista, nosso cães, a gata e nossos planos de futuro serem cada vez mais o de como sermos clandestinos em uma situação de repressão não é nada perto da realidade de campesinos, indígenas, negros, quilombolas, periféricos, etc que por acaso militem na esquerda. Pra essa gente, se imobilizar ou tentar se esconder de medo, ou mesmo tentar ser clandestino, é impossível.

Então cada vez que eu vejo arautos do apocalipse ou gente se omitindo na cara dura, se limitando a declarar voto ou mesmo nem isso, a mesma galera que ficou todo o primeiro turno mandando as pessoas abdicarem de sonhos e esperanças em nome de um pragmatismo de merda que era tão míope que ignorava que em situações como essas, a utopia, o sonho, é combustível para a sobrevivência, não me dá pena ou compreensão, mas raiva.

E muita raiva, porque não temos escolhas, temos tarefas.

Votei contra o PT desde 2006, me engajei em um partido de oposição de esquerda ao PT em 2004, e quando me afastei dele flertei com a anarquia antes de voltar pro PSOL, e me posicionei sempre ara criticar e combater os erros do PT e suas práticas que atingiam nossas vidas, nossa democracia, sua corrupção, o abandono de pautas. Este blog é testemunha escrita da minha trajetória política desde o início dos anos 2000.

E mesmo no pior de seu autoritarismo, na repressão que Dilma e governadores (muitos do PT) empreenderam contra a esquerda que foi às ruas em 2013, abrindo espaço para que estas fossem ocupadas pela direita que o derrubou do poder, o PT jamais foi nem de perto uma ditadura ou algo próximo disso.

E mais, foram em seus governos que a Polícia Federal e o MP tiveram liberdade para agir e punir corruptos, o que vitimou severamente especialmente o próprio PT, que nunca ensaiou intervir em investigações ou algo parecido.

Então não me cabe na cabeça a ideia de possibilidade de não engajamento no voto no PT para vencer uma candidatura francamente fascista, e engajamento consciente e atuante, porque sob o PT poderemos, mesmo que sob gás de pimenta, fazer oposição.

O PT não promete nossa eliminação como Bolsonaro e seus asseclas fazem, com deputado eleito dizendo que eliminará PT, PSOL e PCdoB da assembleia ou o próprio Jair declarando que fuzilará petistas e psolistas em evento no Acre ou que “acabará com todos os ativismos”, e não no sentido democrático da eliminação por derrota nas urnas.

Também são inúmeras as declarações de apoio à medidas de extermínio das periferias, como atirar na rocinha de helicóptero.

Então não me é permitido ceder ao medo e à imobilidade diante de um quadro desses, ou é combate, ferrenho, claro e vívido, ao fascismo ou eu estou sendo cúmplice do meu próprio extermínio e fome, além do extermínio de fome dos outros.

Não dá pra fingir que as pessoas não estão falando a meu redor, não dá pra eu declarar derrota antecipada, não dá pra evitar panfletar eme expor, não dá pra fingir que meu silêncio em uma repartição não é me omitir diante do combate, porque eu não tenho essa opção, e minha omissão seria expor meu amor, meu filho, meus cães, minha gata, meus amigos, meus companheiros, meus alunos e todas as periferias à vergonha de eu nada ter feito para impedir a violência que já está aí.

Se você se omite, além de covarde, você declara sua posição privilegiada, capaz de ir embora, mesmo que para dentro do sue mundo, quando o meu mundo vai pro caralho.

E quando você declara derrota antecipada, porque acha que o planisfério é teu mundinho , você amplia o sentimento de quem está abalado, e lutando, mas precisa de apoio para continuar.

Esse comportamento covarde é tóxico. Esse comportamento tóxico não pede uma postura de Rambo, mas uma postura de apoio mútuo que dê suporte para a continuidade da luta e não um bando de poia acomodada que por poder vai se refugiar na medíocre omissão.

Seu medo imobilista é um acinte!

É preciso coragem, e coragem é solidariedade, hoje, ontem e sempre.

Se você não tem coragem, fique pelo menos em silêncio.

Pra terminar ouçam Milton Nascimento: