Assim como na educação, a crise na segurança pública também é um projeto

Darcy-Ribeiro-educação-e-segurança-pública.jpg

Segurança pública no Brasil, como na educação, sempre foi um tema onde se fala muito um jogo de jargões pavoneados e pouco se estabelece um tipo de projeto concreto de organização de alguma coisa dignamente chamável de organização.

Nem pela direita, nem pela esquerda quaisquer projeto de segurança são manifestados de forma inteligente, organizada, nada.

A direita brande o “Bandido bom é bandido morto”, a esquerda o “Fim às prisões e legalização das drogas” e no meio de ambos o Rio do Caos segue tranquilo, in tocável, rumo ao destroçamento da ideia de estado democrático de direito.

Claro que existem pesquisadores e proponentes de projetos de Estado de segurança em todos os espectros ideológicos, mas nada, nenhum sobrevive ao cotidiano da ausência de projetos de Estado por partidos e organizações do teatro político brasileiro.

Nem quando a esquerda aponta corretamente pro fim da PM e reorganização do sistema de segurança pública sob a ótica da autoridade civil se tem projeto concretamente, salvo um Rolim aqui e ali.

Partido nenhum discute nem com a sociedade, nem com a academia, quaisquer projetos de segurança pública aceitável.

Não temos política de ronda, não temos política de inteligência, de ciência forense, de ocupação das ruas, de relação com as comunidades, de produção de mecanismos de investigação decentes, de estabelecimento de um ethos aceitável de cuidado com o lado criminal do estado democrático de direito, nada.

A direita propõe execução sumária com hiper potencialização do policial, a esquerda reage a isso e nem um nem o outro lado apontam qualquer mísero sinal de um projeto nem de genocídio nem de organização do estado policial com o fim da guerra às drogas.

Vejam bem: até o “Bandido bom é bandido morto” é um projeto de genocídio sem projeto, é um genocídio arte, moleque, que não respeita tática e vai na vibe da intuição do genocida.

Assim como na educação se perde um minuto pra dizer “Precisamos valorizar o professor” como se isso fosse mais do que a obrigação e se tornasse um projeto de educação, a esquerda aponta pro “precisamos valorizar o policial” como se  isso bastasse.

Da mesma forma o fim do penalismo, uma baita ideia, se perde numa discussão bizantina sobre ausência completa de penalidade aos crimes sem sequer projeto de transição entre o modelo atual e o que se defende.

Porque pra administrar o estado precisa sim ter pragmatismo, só que isso é confundido com negociata pra conquistar base parlamentar e não como ferramenta de estabelecimento de medidas práticas para a execução de iniciativas baseadas em ideias.

Eu também quero o fim da PM, mas se isso não é dito que é o fim da instituição  Polícia Militar com a absorção dos policiais em um modelo civil com transição, treinamento e superação de problemas, como queremos que os PMs entendam e aceitem?

Porque eu tenho plena certeza que chega próximo a zero o número de policiais que defende a permanência da Polícia Militar defende isso porque acha que o modelo militar é melhor, mas deve chegar perto de uns 90% o número destes mesmos policiais que acreditam que a defesa do fim da PM é a defesa de todos na rua e ausência completa de polícia, para a alegria dos boateiros reacionários e amantes das milícias e políticos ultra-reaças.

Da mesma forma que quem ouve “Legalização das drogas” acha que legalizar as drogas e é por pra vender cocaína em loja de doce.

E como superar isso? Primeiro assumindo o debate sobre segurança e indo além desse papo reducionista. Segundo é tirar os dois bodes da sala.

A unificação das polícias é provavelmente menso importante que o estabelecimento de um sistema de segurança concreto, com controle social, cadeia de comando, inteligência e ciência forense.

A legalização das drogas é um problema de segurança porque a guerra às drogas é a única política de segurança hoje, uma política sem plano. sem projeto, muito ruim e que não pode pautar o debate que vai além da segurança e tem a ver com liberdades e direitos civis de uso de substâncias por parte de indivíduos adultos, saúde para os que abusam e organização tributária para absorver a produção relativa à demanda.

A legalização das drogas é tirar as drogas do mundo da segurança pública.

Então, pra crise da segurança pública, e da educação, deixarem de ser projeto é preciso um outro projeto, ou outros projetos para a sociedade, é preciso iniciativa política pra isso, de partidos, universidades,etc, senão fica nesse papo brabo e nada se resolve.

Tem partido gritando contra a intervenção militar? Parabéns!, então mexe a bunda e propõe um projeto de sistema de segurança pública ou inicia um plano de debate que envolva as instituições e proponha um plano minimamente consensual de gestão.

Idem pra educação. Tem que discutir que educação queremos, que tipo de teoria a embasa, que cadeia de comando precisamos produzir e que tipo de estudante queremos que saia do sistema.

Sem isso o que temos é chilique.

 

 

 

 

 

Anúncios

O sabor especial da realidade: O semi-presidencialismo e a política cotidiana

DFhomW5WsAAZW-w
Um ícone do semi-presidencialismo: O Super Sarney

Todo dia a política brasileira sussurra golpes e mais golpes que vão muito além do mau uso do termo pelas hostes petistas, que inclusive fingem que não notam as permanências de suas alianças com o mesmo PMDB golpista ou fingem não notar.

Mas o golpe permanece, e é em nós que permanece e dura o golpe.

Agora PSDB e Temer falam em “semi-presidencialismo”. E esse termo soluça nas línguas dos jornalistas da Globonews, percorre as papilas gustativas como a ambrosia dos Deuses do Olimpo deviam perambular.

Mas tá tudo bem, a oposição aguarda 2018 acreditando piamente na solução mágica do sebastianismo da vez.

O lado bom disso tudo é que Dória e Bolsonaro parecem entrar em rota de colisão e o PT já pressente a prisão do Lula e Haddad jã se pôs à disposição.

Por que isso é bom?

Porque a direita dividida e o PT demonstrar o motivo de alguns de seus movimentos recentes, como partir de Haddad a criação da narrativa onde 2013 é culpado de todos os males, jamais nomear Levy e por Temer de vice, é sempre interessante.

Além disso tudo, os movimentos deixam claro que Marina sumir é movimento pensado, e faz sentido, e parece que pode dar em um resultado bem interessante pra quem curte observar o mundo.

Se eu gosto de Marina? Nope! gosto de olhar o mundo e enxergá-lo.

Meu voto permanece nulo, mas indícios, sinais, são minha praia.

A realidade tem um sabor especial,mesmo sendo devorada aos pedaços, pequenos, que são os próprios indícios.

Charlotesville está doendo em Trump a queda deTrump atinge Dória e Bolsonaro,e a própria narrativa über racista e fascista.

E as fichas estão caindo.

O que isso indica pra 2018? Não sei, estou preocupado como que tudo isso indica pra 2017 e o “semi-presidencialismo” é um jabuti colocado na árvore. A chance de dar certo é pequena diante da necessidade de passar uma PEC que indique um plebiscito pra revogar o presidencialismo.

Lembram do plebiscito de 1993? Pois é, ele estabeleceu que o sistema de governo é presidencialismo,pra mudar tem que ter outro. E não sou eu quem diz, isso já foi discutido no STF em 2016.

Há autores que indicam que mudar para semi-presidencialismo ou parlamentarismo no modelo português, é  inconstitucional.

Ainda em 206 alguns autores indicam que o STF poderia indicar a mudança de sistema de governo por emenda, desde que passasse por plebiscito.

Do ano passado pra cá Barroso, Gilmar Mendes e Fux já declararam que seria interessante mudar o sistema de governo.

Isso seria indício? Ô se seria, chega a ser.

A questão toda é que no mínimo tem de passar uma PEC, e seria questionada no próprio supremo, onde não se tem acordo se pode ou não passar por PEC sem referendo.

Aliás, o desacordo é tão grande que o STF tá sentado em cima da ADIN que questiona mudança de sistema de governo desde o ano passado.

Então o que Temer, Serra, Gilmar Mendes, Barroso e Fux estão fazendo com suas declarações? Balão de ensaio.

Pode colar ou não dependendo do eco. Vamos ver o eco nos jornalões e nas ruas.

Mas e a esquerda, vai assistir ou vai discutir e lutar?

 

 

Retrato de um historiador enquanto esquerda: Ou o desabafo do homem comum supostamente intelectualizado.

coyote-gospel

Escrever sobre política hoje em dia me cansa bastante.

Especialmente porque hoje não sei exatamente como me localizar dentro do espectro político a não ser pela ideia de ser de esquerda e ser anarquista.

Mas mesmo sendo de esquerda e anarquista, ou me enxergando desta forma, não consigo entender nenhum encaixe claro no que vejo a maior parte das pessoas defender como “ser de esquerda”, da mesma forma que me incomoda demais a ideia das pessoas de entenderem o que é ser inteligente ou “pensar” e sim os dois assuntos tem profunda relação.

E a relação entre o encaixe num modelo de ser de esquerda, seja um modelo da direita ou da esquerda, e o incômodo com a ideia das pessoas sobre sua própria inteligência, bondade e seu “pensar” se entrelaçam exatamente porque ambos tangenciam a ausência de certezas absolutas e a percepção que na maior parte das vezes o que constrói hoje os grupos mais “sólidos” das ideologias é de um arrogância que só encontra paralelo na própria estupidez.

Além disso, a maior parte dos processo ideológicos e seus grupos se encastelou na desumanização de si mesmo e do outro, na destruição de laços de solidariedades e também na politica enquanto performance.

Da xenofobia, racismo, homofobia, machismo e misoginia como armas para atingir o outro até a aceitação de tortura, assassinatos, inclusive os de reputação, defesa de tutela de um povo conscientemente tido como estúpido e até sacrificável diante dos grandes objetivos, tudo obedece a um mesmo caminho de transformação das grandes narrativas ideológicas em defesas de credo dogmático, de cariz autoritário.

E o objetivo final, de em tese mudança da sociedade para melhor para que o tal povo, essa entidade metafísica,seja liberto ou tenha sua vida melhorada? Ah,que se dane! O povo, o tal povo, se perde no meio das grandes narrativas e é atropelado como por um caminhão chamado de “Fins”, que por acaso justificam os meios.

E os meios acabam sendo apenas o domínio do outro, muitas vezes mimetizado em aparato ou estado ou país,mas no fundo é o domínio sobre o outro.

E nessa toada o que não vira “mimimi”, vira secundário dependendo do espectro ideológico do qual se ouve o discurso.

Por que se ouve o discurso? Porque a maior parte dos entes dos espectros ideológicos em curso não debatem ou dialogam, discursam.

E isso não ocorre apenas os portadores de discursos plenos de sublimação de traumas e ódios anteriores, de mediocridades mal alimentadas e patologias.

Isso ocorre com comunistas, anarquistas, sociais democratas e até com liberais, que um dia foram até bons parceiros em diversas lutas e hoje parece terem se colocado como ovelhas disponíveis para oportunistas elitistas dançarem seu mambo sobre nossas sociedades.

Envolvam tudo isso numa arrogância de almanaque e temos o debate político cotidiano.

E não, isso não reflete nenhuma sociedade radicalizada,mas uma sociedade conservadora e apenas aparentemente polarizada.

Essa aparência de polarização se dá no ajustamento dos grupos em nichos firmes de defesa de interesses da classe dominantes envoltos em discursos mais ou menos liberais ou mais ou menos “comunistas”. No final das contas nenhum dos discursos busca nenhuma transformação ou se organiza em qualquer espectro claro para fora da institucionalidade e que tenha algum tipo de cara de participar do lado proletário da luta de classes.

O proletário nesse suposto embate aparece como eleitor ou vítima. E o mesmo vale para negros, mulheres, índios, LGBTs, etc.

Quando vota a favor o proletário é consciente. Quando vota contra ou é mortadela, ou pobre de direita.

E tome silenciamento.

Mas podemos avançar nesse debate se analisarmos o crescimento do fascismo no Brasil e o avanço idêntico do discurso de “vai estudar” ou “A má educação é o que fez do Brasil o que é hoje” e defesas de nova moral ou da família ou da pátria,sempre falando em educação e de educação e civilidade como elementos que andam de braços dados e de elogios a outros países,etc..

Esse discurso do “vai estudar” e a “síndrome de vira latas” são primos de um desprezo mórbido pelo povo brasileiro, que tem muito ou quase tudo de racismo (Mas isso é outro assunto).

O Brasil não dá certo porque a educação ruim, dizem,e por isso o reacionário ou o mortadela precisam estudar para se encaixarem numa ideia de sociedade que caiba nos discursos.

E o que eles sabem da educação? Do que é educação? Do que é História? Nada.

É a educação o problema? E se é como resolvê-la? Porque se for repetir essa educação que acham que ensinar história é decorar data em história e fórmulas em Física, a gente vai permanecer com problemas.

E na real educação para a maioria dos discursos serve para hierarquizar a sociedade e criar meios para que o ente que “sabe” domine o outro “que não sabe”.

E eis que ai reaparece a figura do ”povo”,seja no discurso fascista, seja no discurso comunista e até no cínico discurso dos novos liberais you tubbers que “lacram”.

Porque este discurso, esta narrativa ignora qualquer tipo de diálogo construtor de cidadania no sentido mais amplo: Um pensamento critico que entenda a polifonia das sociedades e construam em comum entre professores e educandos o caminho para cada disciplina em cada aula e cada turma ou escola.

E é aqui que entra o desabafo de um historiador de esquerda que se entende anarquista,mas tem dificuldades enormes tanto com os grupos que compõe a esquerda quanto com o dogmatismo anti libertário que virou a anarquia em geral.

Porque não me transformei em historiador para repetir a produção de uma historiografia que ignora o coletivos de vozes presentes nas sociedades, que silencia as vozes menos audíveis, as de cor mais preta e índia, as vozes femininas, que secundariza lutas ou que elenca o que deve ser a grande narrativa das transformações.

Me transformei em historiador para procurar dar voz aos silenciados e pra entender o outro como parte integrante das transformações coletivas, jamais pra tentar encaixar os diferentes em caixotes de papéis preestabelecidos e estanques.

Não me transformei em historiador pra brincar com a direita a chamando de idiota, mas pra desconstruir através do diálogo o que a direita diz e que é violentador para os coletivos ou para fomentar um combate ininterrupto aos discursos de ódio com o respeito que todo inimigo merece e deve ter, sem menosprezar inteligências, da mesma forma que não menosprezando o grau de solidariedade inerente às comunidades.

Não me tornei historiador para silenciar a miríade de evangélicos atribuindo a todos o papel pusilânime de parte dos fieis e da maioria das lideranças evangélicas. Nem pra transformar uma escolha de fé em estupidez.

Me tornei historiador para dar voz aos silenciados e não para ampliar o silenciamento em nome de uma narrativa que se pretende superior ao homem, ao nós, ao coletivo, à pessoa.

Me tornei historiador não pra dizer “Vai estudar”, mas pra dizer “Discordo de ti e tenho fontes que ajudam a ti a entender melhor”.

Sou historiador para tentar contar a história vista de baixo e não pra tentar contar melhor a historia dos de cima em nome de uma idolatria maluca que não vale nem o pão quentinho da padaria da esquina.

E pra fazer política com o conhecimento, não pra encaixar o conhecimento na política martelando-o numa forma que o distorce.

Porque é preciso politica no conhecimento, sem que isso signifique um desprezo ético pela busca da verdade, ela existindo ou não, ela sendo apenas uma representação do real, um reflexo de um espelho distorcido ou não.

Porque também é preciso muito humanismo e amor no conhecimento, sem que isso signifique dançar ciranda enquanto se omite sobre a prisão do Rafael Braga.

Pode dançar ciranda, mas sem lembrar do Rafael Braga e lutar por ele é vandalismo.

E é preciso fundamentalmente respeitar o povo, sua cultura, fé, seu lugar, seu falar, sua festa, sua cor.

Respeito não significa transformar a pessoa em bibelô tropicalista, mas inclusive discutir e brigar com ele se preciso, lembrando quem mais morre na luta de classes e na lógica de defesa das grandes figuras.

Precisamos repolitizar a política!

E relembrando aos navegantes que humildade não é fingir não ter conhecimento e ter conhecimento não é super poder, nem aumenta a dimensão humana de quem quer que seja.

A ignorância do outro é um elemento que nos ajuda a entender a nossa própria capacidade cognitiva. Se a ignorância do outro pra ti é motivo pra transformá-lo em inferior a ti, você realmente não entendeu nada,

 

Apropriação cultural, racismo à brasileira e piração branca mancham ideologias e formações acadêmicas.

695bb018cd9a561746c4b6e1c851391f.1000x994x1.jpg

À minha maneira eu sempre fiz parte da luta antirracista, sempre, desde sempre, foi sempre um elemento fundamental inclusive para meus estudos de história e sociologia da cultura, quando cursei ciências sociais.

Estudei bastante escravidão, muito, tentei ler o máximo sobre racismo, só parei quando as circunstâncias acadêmicas me guiaram por outros caminhos, envolvidos em outro pedaço da história que sempre estudei, que foi a Coluna Prestes.

Li textos políticos da quarta Internacional ao anarquismo, passando por textos maravilhosos do SWP inglês tratando da íntima relação entre capitalismo e racismo.

Participei de movimentos sociais de luta antirracista, mesmo sendo branco e com uma certa sensação de estar no lugar errado por fazer parte da etnia que oprime negros desde sempre, mas fui aceito e por isso participei, e sempre tangenciei e fiquei de olho no debate, porque é fundamental e necessário.

Visões da Liberdade”, “Cidade Febril”, “Trabalho lar e Botequim” de Sidney Chalhoub; “Revoltas escravas no Brasil” de Joaquim José Reis e “Negociação e conflito” dele e do Eduardo Silva; “As Camélias do Leblon” de Eduardo Silva, tudo isso me ajudou a ter um bom cenário sobre o processo de formação da sociedade brasileira a partir da escravidão como base formadora de uma estrutura cultural racista.

O debate sobre apropriação cultural eu leio pelo menos desde 2007.

Inclusive percebi a relação com a mesma categoria a partir do conceito de Representação do Chartier e entendi que esse debate permeia o que Joyce Appleby, Lynn Hunt e Margareth Jacob escrevem na introdução de “A Telling the Truth about History”:

A maior parte dos norte-americanos aceitou uma única narrativa da história nacional como parte de sua herança e esta narrativa é tratada como objetividade e essa objetividade reclamada foi usada para excluir grupos inteiros de participação plena na vida pública do país.”

Serve pro Brasil e serve pro debate em torno da apropriação cultural e em especial sobre como brancos, inclusive, pasmem, intelectuais brancos, estão reagindo a este debate.

E não, não vou nem falar da questão da jovem branca que relatou uma suposta agressão feita a ela por uma negra porque ela usava turbante.

Isso foi parte de um processo de extrema tristeza com o teor dos textos, subtextos, falas, colocações e reclamações de pessoas brancas, muitas como formação universitária de porte, doutores inclusive, que me parece que o episódio que sequer se sabe se foi real, foi apenas um catalisador de um urro de parte da população letrada branca brasileira contra o que eles consideram um absurdo: A negativa pelo menos textual de que são senhores absolutos de toda a cultura.

Como assim apropriação cultural se a cultura circula e influencia a todos? Perguntam alguns.

Se apropriação cultural não pode porque usam calças se calças são invenções europeias? Vomitam outros.

O que tem em comum as duas perguntas e a maioria dos absurdos que lemos vindos de gente branca supostamente intelectualizada, informada, militante, libertária,etc? Ignorância, e uma ignorância por opção em um mundo de fácil pesquisa e apreensão de saber.

A maioria dos intelectuais e militantes brancos ou não pesquisou ou se contentou com o básico a respeito do debate sobre apropriação cultural.

Pior, bastam exemplos escolhidos a dedos da estupidez militante de alguns elementos dos movimentos negros e indígenas que partem pro ataque individual pra combater um processo, e um debate, que discutem o sistema, para que os intelectuais e militantes brancos se sintam satisfeitos em jogar todo o debate pro lixo, toda a militância pela janela.

Senso crítico transformado em senso comum? Tá tendo.

E por que?

Poderia dar inúmeras explicações, mas racismo organiza todas.

Por que racismo explica todas essas manifestações?

Porque gente com capacidade cognitiva pra ser professor universitário, e militância de esquerda ou liberal de fôlego e muita leitura e ferramental analítico complexo tá ignorando todos os intelectuais negros, todas as manifestações teóricas negras, brancas, indígenas e europeias a respeito de apropriação cultural ou tudo o que é similar a ela e perambula na academia para sustentar que aquela utilização plena das culturas a seu bel prazer branco é direito inalienável, foda-se se o debate feito pelos movimentos negros tá cagando pro uso individual e apontando um fenômeno sistêmico de opressão.

De Djamila Ribeiro falando em apropriação cultural a orientalismos do Edward Said; de Chartier a Joyce Appleby; de Ginzburg a Benedict Anderson passando por todos os historiadores brasileiros que falam em cultura, tudo isso é lixo diante da necessidade atávica de exemplos ruins que vão de Beatles a calça comprida, além de ressuscitarem “aculturação” como palavra válida (Deus meu!) para sustentar que “apropriação cultural é bobagem!”.

Tudo está servindo para que manifeste e resguarde o privilégio branco de a tudo utilizar, inclusive simbolicamente, mesmo quando este uso não está sendo atacado, apenas está sendo informado que a sociedade branco normativa e seu capitalismo se apropria de elementos culturais de outras culturas não hegemônica para seu usufruto e lucro, ressignificando estes elementos, colocados anteriormente como pejorativos até que o uso branco os resgatasse do domínio das classes “inferiores” ( talvez também “perigosas” a partir do que se lê em Chalhoub) e estabelecesse um uso validado pela cultura dominante.

Parece difícil de entender?

A mim não.

Perceber a apropriação cultural impede branco de usar turbante e índio de usar calças? Não me parece.

Brancos são perseguidos por usarem turbantes? Se no caso de UMA PESSOA BRANCA supostamente perseguida se criou tanta polêmica eu acredito que se fosse um fenômeno realmente concreto, que possuísse mais que UM caso físico e no máximo centenas de casos em redes sociais onde os debates caem pra essa lama, como se todos os debates em internet e em redes sociais não fossem de baixíssimo nível, acho que o Jornal Nacional teria especial de trinta minutos, não?

O fato é que as exceções ao debate viraram o debate em si na ótica das pessoas brancas e essa lente faz um enorme sentido: Ela é um alarme de que quando privilégios são atingidos tudo ganha outras cores.

O que dói é que essa gente sequer se toca que reproduz opressão com seus chiliques lacradores e desinformados, ofendem, reduzem mais ainda a suposta civilização que dizem defender.

E ignoram trabalhos sérios feitos por críticos e acadêmicos a respeito da apropriação cultural do samba por parte da classe média branca carioca, que deu em Bossa nova inclusive, ou do funk que seguiu o mesmo caminho, de marginal a herói e símbolo da cultura brasileira.

É só perceber o samba, analisar o samba e sua absorção pela classe média e elite branca pra sacar o que é apropriação cultural, não dói, não mata.

Quer outra música? “Vá cuidar de sua vida” de Geraldo Filme, gravada também por Itamar Assumpção em Pretobrás I, ela é um desenho musical da apropriação cultural do samba, da capoeira e da religiosidade afro-brasileira, a partir dali fica facílimo entender.

Duvida?

Lê ai:

Vá cuidar da sua vida
Diz o dito popular
Quem cuida da vida alheia
Da sua não pode cuidar
Crioulo cantando samba
Era coisa feia
Esse é negro é vagabundo
Joga ele na cadeia
Hoje o branco tá no samba
Quero ver como é que fica
Todo mundo bate palma
Quando ele toca cuíca
Vá cuidar…
Negro jogando pernada
Negro jogando rasteira
Todo mundo condenava
Uma simples brincadeira
E o negro deixou de tudo
Acreditou na besteira
Hoje só tem gente branca
Na escola de capoeira
Vá cuidar…
Negro falava de umbanda
Branco ficava cabreiro
Fica longe desse negro
Esse negro é feiticeiro
Hoje o preto vai à missa
E chega sempre primeiro
O branco vai pra macumba
Já é Babá de terreiro.

Portanto quando vocês demonstram esse grau de ignorância coletiva pra justificar que se mantenha a apropriação cultural e silenciam o debate como um todo, escrotizando inclusive grandes intelectuais negros, e muitos brancos também, vocês apenas reproduzem um racismo silencioso e encubado no meio da alma branca da sociedade brasileira que t[á tão enrustido que não é enxergado.

Vocês escrotizam o que negros gritam há décadas, cantam e dançam, produzem na universidade, discutem na música, nas artes plásticas, na poesia, nos debates, na militância e tudo porque o privilégio de a tudo absorver por parte de uma elite branca é absoluto na cabeça de todos.

Quando vocês ridicularizam um debate sério vocês silenciam toda uma militância, toda uma luta étnica.

Talvez porque a maioria de vocês jamais viveu algo que era desprezado por ser do subúrbio virar chique porque foi pra zona sul do Rio. E tudo o que você viveu vendo ser chamado de tosco e brega virou chique porque outros passaram a fazer iguala você em endereços mais próximos do centro da cidade.

E isso ocorre sempre no Rio, por exemplo.

O trem do samba era basicamente algo que amantes do samba, suburbanos em sua maioria, curtiam, hoje é um evento que gentrificou-se e afasta as pessoas pobres que antes iam até o evento, a cada dia um evento que exclui os próprios moradores de Oswaldo Cruz que antes iam em peso e hoje não conseguem pagar a cerveja que vende ali, na maioria pelo contrário, trabalham vendendo a cerveja, servem os zona sul quando antes se divertiam.

Mas as pessoas tão intelectualizadas, brancas e lindas não percebem, porque vivem isso de longe, apenas leem a respeito e quando leem algo que invade sua zona de conforto… ai amigo, te segura porque o chilique é alto.

As esquerda e o Teatro dos Vampiros

comediante-batman.jpg

Entre as certezas e as pseudo-problematizações (que não problematizam porra nenhuma porque ignoram uma caralhada de detalhes do que pretendem analisar) o que mais me impressiona é a percepção que a esquerda tá atônita e imóvel.

A conjuntura tá mais confusa que roteiro do David Linch, aponta pra uma puta merda em torno da consolidação de um ethos autoritário e tal e coisa e carambola, com esgarçamento de pactos sócio-comunitários de solidariedade e tal, mas há brechas visíveis de enfrentamento a isso tudo, inclusive a Temer e sua gangue. Janot faz movimentos, Carmen Lúcia idem, mas esses movimentos isolados não levam a nada sem pressão popular.

Há, claro, gente nas ruas, especialmente no Rio, há o quadro do ES onde a esquerda não interfere no âmbito do discurso, não disputa discurso, mas pouco mais que isso.

No RS e RJ por mais que o funcionalismo fosse à rua e apanhasse da PM foram extintas autarquias e secretarias chave e vão ser privatizadas em nome do ajuste fiscal a CEDAE e a CORSAN, que acho que são o carro chefe da onda nova de privataria, a água,.

Faltou o resto do povo, faltou mais gente, faltou ir na direção, e não contra, o povo que foi às ruas e não era exatamente o povo mais reaça.

Mas a esquerda optou pela relação de consciente imobilidade, acreditando em uma salvação via eleição em 2018, como parou tudo acreditando em uma vitória em 2016, que não veio.

As análises de conjuntura não contemplam a conjuntura, as realidades, não analisam pesquisas, nada.

Temos uma séries de sinais, signos, representações e discursos em confronto e em curso, confrontos esses que por vezes dão vitórias à esquerda.

Familiares de PMs ocupam a frente de quartéis e parte da esquerda preocupa-se mais em “denunciar” as contradições existentes entre a repressão às ocupações de estudantes e a tolerância com a de familiares de PMs do que a de colocar de forma séria como a direita usa as táticas da esquerda em nome de suas necessidades e o quanto esse debate deve ser feito para que essa direita não criminalize os atos da esquerda.

Ou mesmo dialogando com esses familiares e seus amigos e parentes sobre o quanto o PM ali, que é representado pela família, é tão humano e tem necessidades quanto o estudante e que não, o estudante não é vagabundo, apenas está lutando por suas necessidades assim como eles pelas suas.

Precisamos apoiar os PMs e suas manifestações? Não sei, hoje eu não apoiaria, mas mostrar a seus parentes o quanto eles são injustos com quem luta do outro lado é um caminho de pelo menos criar grilos nas cucas.

As denúncias a fascistas e racistas, misóginos e homofóbicos às empresas, a própria denúncia de empresas por misoginia, racismo,etc tem criado marketing negativo e demissões de preconceituosos, cria um ambiente onde se vê que a punição pode ser pecuniária e de imagem, onde quem sofre as punições tem a oportunidade de refletir, e empresas idem.

Essa tática é uma tática que vem dando pequenas vitórias às lutas anti opressões, mas o que faz parte da esquerda com elas? Reclamam que elas por vezes dão visibilidade aos reaças.

A mesma preocupação não aparece quando se fala em Bolsonaro ou Bolsominions.

Blocos de carnaval por debate entre os foliões de fé, aqueles que vão sempre, abolem cantos racistas e homofóbicos e misóginos de seu repertório e em vez de reconhecermos isso como avanço, que poderia se espalhar para outros blocos a partir do momento em que foliões se incomodam e discutem isso com seus pares, parte da esquerda acha muito ruim um tal de pós-modernismo que só existe no discurso dela.

As análises de conjuntura passam pelo capitalismo, mas não falam da economia e suas mudanças com Trump; Passam pelo Superbowl,mas não fala da cultura pop cada vez mais combativa em relação a direitos humanos,etc; tratam da economia e auditoria da dívida, mas não trabalham com a capilarização do debate sobre economia, ecologia e necessária descentralização do poder como um todo.

Perde-se mais tempo ensinando padre a rezar missa sobre a Globo que perceber que um determinado debate feito a partir da globo penetra em camadas de discurso e cultura popular que nunca tivemos como fazer antes (Além de deixar claro que existem realizadores até na Globo que confrontam determinado discurso conservador).

Enfim, estamos em um momento de imobilidade estéril, broxa, de uma esquerda que se pretende super intelectualizada, mas no máximo é bibliófila e papagaio de autor, que pouco se encoraja pra um debate teórico de fôlego, que inclua ortodoxia e heterodoxia, que vá a fundo na análise do real e na busca de organização.

A esquerda é espectadora de uma luta política onde caminhamos pra uma instrumentalização do autoritarismo a partir da louvação da influência do exército como polícia cotidiana e lastro moral da sociedade.

Em uma perspectiva que analisa Hobbes como pai do fenômeno de entrelaçamento dos conservadores com a violência, autoritarismo e repressão em nome da manutenção da ordem: A esquerda até sabe que o homem é o lobo do homem, mas esquece que ele também pode ser o bom selvagem, e ai compra o discurso do Leviatã, largando o pacto social na mão.

A esquerda comprou o discurso hobbesiano, mas como ele entra em confronto com uma série de elementos de seu próprio ethos ela entra em tela azul.

E nesse quadro é tolice esperar vitórias eleitorais e temeridade não se preparar pro pior.

E em uma realidade onde reforma do ensino médio empala a disciplina de história, chega a ser irresponsável esperar 2018 para resistir.

Há tempo de tentar diminuir o prejuízo que pode levar a sociedade a um quadro de perda de décadas de conquistas e de avanço no discurso anti-conservador, mas para isso esse tempo precisa ser usado.

Esse é o nosso mundo, já dizia Renato Russo, o que é demais nunca é o bastante e a primeira vez é sempre a última chance.