O Racismo do preconceito do branco pela naturalização da morte dos negros

BALTIMORE, MD - APRIL 30: People protesting the death of Freddie Gray and demanding police accountability move into the streets in the Sandtown neighborhood where Gray was arrested on April 30, 2015 in Baltimore, Maryland. Gray, 25, was arrested for possessing a switch blade knife April 12 outside the Gilmor Houses housing project on Baltimore's west side. According to his attorney, Gray died a week later in the hospital from a severe spinal cord injury he received while in police custody.   Andrew Burton/Getty Images/AFP
BALTIMORE, MD – APRIL 30: People protesting the death of Freddie Gray and demanding police accountability move into the streets in the Sandtown neighborhood where Gray was arrested on April 30, 2015 in Baltimore, Maryland. Gray, 25, was arrested for possessing a switch blade knife April 12 outside the Gilmor Houses housing project on Baltimore’s west side. According to his attorney, Gray died a week later in the hospital from a severe spinal cord injury he received while in police custody. Andrew Burton/Getty Images/AFP

“Ah, a maior quantidade de negros mortos pela polícia não significa racismo, ocorrem porque a região onde as mortes ocorrem é de maioria negra!”, diz o sabichão branco.

E os negros estão ali porque acordaram de manhã e disseram “Porra, acho que vou me fuder e morar numa região sem esgoto, escola, hospital, com invisibilidade midiática e onde a polícia tem carta branca pra me matar!”, né sabichão?

A Escravidão; a gentrificação desde cedo ainda no pós-abolição e primeiros anos da república; o racismo ambiental desde os primeiros anos da república, a partição das cidades entre brancos ricos e pretos pobres a partir de 1889, e com aumento de ênfase no pós 1908; a retomada da secessão urbana nos anos 2010; a colocação profissional dividida por cor da pele,tudo isso é ilusão?

O negro é obrigado a morar onde mora pode trocentas formas de pressão, seja a da jamais ter renda suficiente para residir nos bairros “nobres” por ser destinado desde sempre por racismo às ocupações de mais baixa remuneração e prestígio social; Seja a de ter pouquíssima chance de inclusão social pela via da educação já pra pobres, quase todos pretos, e pretos, quase todos pobres, mesmo pelas cotas, é a minoria que tem a chance de estudar em universidades públicas, e acabam sendo relegados a uma educação sucateada da educação básica às universidades pagas com sua educação fast food.

Além disso, as poucas e ruins políticas de redução do deficit de moradia, que beneficiariam a maioria negra das pessoas pobres, é localizada nas periferias das grandes cidades, reforçando a gentrificação e secessão urbana.

Inclusive, a gentrificação com largos deslocamentos populacionais de remoção de população das favelas e localidades pobres próximos às moradias da elite branca nas grandes cidades para bairros periféricos, gera violento impacto social, ambiental e na mobilidade urbana. Pior, essas políticas são tidas como “doação” e “boa política” porque é “melhor que morar na favela”, ignorando que favela é cidade,que ali residem laços de solidariedade comunitária, que ali residem vidas, memória, amores, valores intangíveis que não são reparados por dinheiro algum no mundo.

A própria possibilidade de recuperação da viabilidade urbana das favelas, da ideia de favela como patrimônio cultural, e até arquitetônico e urbanístico,como solução popular de viabilidade de projetos de moradia para estatais, é tida como absurdo pelo racismo impregnado na academia,opinião pública e estado.

Sem falar na produção cultural imaterial vinda das favelas e periferias, tudo isso tratado como subcultura e algo passível de ser retirado dos bairros centrais para a mais profunda periferia pois é “inapropriado de estar nos bairros de elite”.

Tudo isso pavimenta a invisibilidade dos bairros pobres, e pretos, a política de estado genocida da população negra que desde a criação das polícias militares com o objetivo de policiar as ruas e serem uma espécie de feitoria urbana de negros especializada em por a população preta ”em seu lugar”, nem que este lugar seja uma cova.

E essa estrutura envolvendo a própria visão da polícia, da violência, da moradia, da cultura, da beleza, da pobreza, da vida em si, estrutura uma política de estado violenta, da política de habitação à política de segurança, passando pela economia e pela questão ambiental.

Por isso em nome da maior segurança se elogia a UPP, unidade de polícia pacificadora, inspirada na ocupação militar do Haiti e por sua vez inspirada na ocupação militar israelense na Palestina,que pensa a favela como locus de ocupação de território inimigo por forças “de paz”. Ignorando por opção ou comodidade que esta paz por vezes é sem voz, portanto medo.

Ignorando que esta “paz” é pavimentada com desaparecimento de Amarildos, assassinatos das Claudias e Eduardos, gente negra cujo nome é ocultado, cuja morte é naturalizada, criminalizada, gente que é tornada”bandida”, categoria que abarca uma similaridade com a categoria “intocáveis” da Índia perturbadora, para que seu assassínio seja normalizado em nome da paz da urbe.

Por isso em nome de uma política “de moradia”, de uma “reforma urbana” se elogia remoções que destroem comunidades, vidas inteiras, paz, saúde, culturas inteiras e amplia a gentrificação e a secessão das grandes cidades.

E segue o racismo institucional, ambiental, econômico permeando todas as atitudes do estado e apoiados por uma classe média e elite branca incapaz de um mínimo de empatia e raciocínio mesmo quando finge ser “rebelde” e de esquerda.

Por isso índios e quilombolas que se fodam se seus quilombos e aldeias são atingidos por mega empreendimentos hidrelétricos cuja viabilidade econômica é próxima a zero de tão ruim e cuja obsolência grita aos quatro ventos, com mais impacto do que energia gerada, vide Belo Monte.

Por isso tá tudo de boa se o seguro defeso e o seguro-desemprego vão de vala, pescador Branco é mais raro que diamante negro,né? Branco desempregado tem muito mais chances de recolocação profissional que negro, e provavelmente viabilidade de ajuda da família mais recorrente, não?

A maioria branca que naturaliza a morte de negros é a mesma que chama mato de “sujo” e que precisa ser “limpo”, como sinônimo de desmate de floresta.

Ou seja, a branquitude rima praca com predação, racismo, etnocentrismo, não é preciso esperar algo muito diferente da maior parte dessa gente branca,vão por mim.

Por isso, querido, a resistência negra um dia virá, que eu vi, e à revelia de endossos brancos.

Resta aos, poucos, brancos conscientes que entendam serem também parte do problema e se contentar com sermos aliados, e rezar pra na hora do pau conseguir sobreviver.

Sim, somos o inimigo.

 

Tá pouco de faca, manda mais!

Jovens pedem fim do extermínio da juventude negra no ES
Jovens pedem fim do extermínio da juventude negra no ES

 

Absoluto asco do mimimi de classe média “Deus, estão matando pessoas na facada!”, porque é indignação restrita aos seus.

Morrem às centenas pessoas nas favelas e essa branquitude canalha se cala e apoia.

Apoia porque reflete a política de segurança brasileira onde a polícia é capitão do mato e cabeça de ponte da gentrificação, da barbárie estatal de isolamento étnico, de divisão da cidade entre cidade aquilombada e cidade aburguesada.

Esse ethos não é novo, tampouco deixa de ser um ethos renovado num medo branco que desde o império é o condutor do estado brasileiro e da construção de nossa divisão social e étnica de classe.

Como escrevi aqui:

Gizlene Nader em seu artigo “Cidade, Identidade  e Exclusão Social” (aqui) afirma que: “As preocupações com o controle da massa de trabalhadores pobres revelam o medo branco, ainda presente (…)”. Este medo branco persistente  se revelava em 1908 através de uma  política de controle das “classes perigosas”. Essas classes perigosas precisavam ter um espaço de trânsito controlado, serem vigiadas para que a “ordem” se manifestasse de forma absoluta, permitindo às Classes “bem nascidas” e “educadas” a liberdade de ocupação da cidade, do melhor da cidade, com o mínimo de contato com o que consideram inferior. 

Esta idéia foi colocada em prática através das reformas urbanas de 1908 quando foi criado um cordão “sanitário” da Lapa até o Rio Comprido, evitando a circulação das classes populares nas localidades de moradia da Elite.”

Esse ethos apoia a matança cotidiana de pretos e pobres, quase todos pretos, porque a ascensão de classe no Brasil é embranquecedora. Quanto mais alto o sujeito e a família chegam, menos pretos são e mais brancos ficam.

A classe média e a classe alta reagem com uma indignação à morte de brancos pelo crime inversamente proporcional à empatia que tem com a morte de pretos favelados. Porque o branco morto é um igual, o preto morto é ”aquela gente” que é um outro com o qual só temos alteridade no trem do samba, no carnaval ou quando fingimos civilidade vendendo nosso candidato branco “republicano” ou falamos de educação esquecendo dos professores cuja agressão pela polícia apoiamos.

À essa indignação eu respondo com um imenso FODA-SE.

Cada branco morto equivale a praticamente cem negros mortos cotidianamente e condenados previamente à morte pela suposição automática de serem criminosos.

Então ou se para a matança como um todo ou a morte é o resultado da política de secessão que apoiam. Então foda-se, que morram!

Que morram porque é esta canalhada afetada, branca, moradora de Leblon e Ipanema, Lagoa, que sustenta a política de desmonte de estado, de educação e saúde, que comemora governador dando porrada em professor, sucateando aparato de reeducação de menores infratores, que por serem pretos são tratados como “bandidos”, categoria desumanizadora que dessocializa e exclui de qualquer esperança qualquer menor infrator pobre e preto pego em flagrante. Enquanto isso a juventude branquela de classe média quando comete infração é condenada a “Está equivocada e precisa de orientação psicológica!”.

Menor infrator preto é bárbaro que merece a masmorra, branco é criança desvirtuada que precisa de apoio? Tá pouco de faca.

A facada é produzida por essa lógica, pelo abandono da juventude negra ao caos, à bala da polícia, ao desprezo e à redução da maioridade penal.

Por isso tá pouco de faca, manda mais!

Quando amanhecer, quem recordará? #desarquivandobr

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Quantos foram, como e quais foram os partidos de esquerda que agiram programaticamente de forma a lutar pela abertura dos arquivos da ditadura?

Não, não estou me referindo a figuras A,B ou C que porventura em PSOL, PSTU,PT ou PCB tenham contribuído para isso, estou falando de incluir em seu programa, em atuar de forma transversal em todas as suas frentes de luta pela abertura dos arquivos da ditadura. Alguém sabe responder?

Vamos mais longe, ok? Recentemente a OAB criou a Comissão da Verdade da Escravidão Negra  no Brasil , algo extremamente pertinente e fundamental para mexer no eixo fundamental do alicerce do racismo estrutural, da violência estrutural, da severa hierarquização estrutural da sociedade brasileira,do autoritarismo estrutural entranhado na cultura brasileira. Que partido de esquerda incorporou como parte de seu programa a centralidade não só do apoio a esta iniciativa como incorporou esta luta em seu programa e com o item de acréscimo de debate e discurso em todas as suas frentes de luta?

As perguntas são fundamentais diante do renascimento de um discurso pró-ditadura posto de lado por décadas pela sociedade brasileira e diante da resistência ao combate ao racismo renascendo em grande parte do país,isso só pra começar. Onde tá a esquerda?

Mais uma? Cadê a esquerda no combate aberto contra o etnocídio dos povos indígenas,na participação em conjunto com etnias indígenas na ancestral luta contra sua obliteração? Não, não tô falando de figuras públicas isoladas, tô falando de partidos inteiros em todas as suas frentes de luta, cadê?

Acham que são desnecessárias as perguntas? Pois bem,eu posso explicar a centralidade delas e como são objeto de reflexão sobre eixos fundamentais da luta política cotidiana.

Do racismo ao racismo ambiental; Do modelo energético aos mega empreendimentos; Da expansão do agronegócio ao uso de transgênicos; Da política de (in) segurança voltada para o assassínio da juventude negra ao déficit de moradia,remoções e mega eventos; Do descaso com o meio ambiente ao modelo econômico de amplo crescimento predatório; Da ordem hierárquica agressiva de tratamento que homens brancos cissexuais dão às minorias até a lesbotranshomofobia que mata inúmeros  seres humanos que não são heteronormativos; Da negação à reflexão sobre o fim dos combustíveis fósseis à própria negação da reflexão em si, passando pelo entendimento da educação como treinamento e do professor como saco de pancada,tudo passa pela não abertura dos armários que escondem os milhões de esqueletos da construção de nossa cultura política, de nossa cultura de estado, de nossa cultura, enfim: A escravidão,o genocídio indígena e a ditadura militar  de 1964 (A mais brutal face dessa estrutura violenta, racista, sexista, etnocêntrica e vil).

A esquerda brasileira discute de forma aberta e ampla esses temas? Como a esquerda atua estruturalmente sobre ditadura de 1964? E sobre escravidão? E sobre o etnocídio indígena? Garanto que a leitura de Trotski tá mais em dia que a compreensão do papel de todos estes temas na construção da sociedade que esta mesma esquerda diz querer transformar.

A desmilitarização da polícia, da política e da sociedade pode existir sem que os arquivos da ditadura estejam abertos para revelar a memória que ampliou a feroz militarização das polícias e seus efeitos, que militarizou a educação e a sociedade?

Os Amarildos que sumiram vão aparecer se não aparecerem os Juvenais e Raimundos, tantos Júlios de Santana,que foram os braços esquecidos que fizeram os heróis e hoje são cruzes sem nome, sem corpos,sem data?

Como cobrar a direita e os governos que revelem onde estão os desaparecidos se eles já desapareceram da memória da esquerda que os deveria tratar com o ícones e que deveria perguntar todo dia: Quando amanhecer quem se lembrará? Onde será que está? Onde será que estão?

Quando os filhos de Zumbi, os Eternos Malês e toda nossa herança africana gritará que saiu do cativeiro da memória? É preciso estudar sim História da África,mas é fundamental abrirmos os arquivos da escravidão, saber quem foram as riquíssimas familias que lucraram com o tráfico negreiro, quem foram as famílias que nasceram da brutalização de seus ancestrais, ou viveremos eternamente sob a lorota que fazendeiros fizeram sua fortuna com o suor de seu trabalho e que os amplos latifúndios não foram erguidos sobre o sangue negro?

Até quanto fingiremos que não usurpamos a soberania, a cultura, a paz e a vida de etnias inteiras quando essa ficção chamada Brasil se ergueu pavimentando com sangue indígena o progresso fossilista do país do “O Petróleo é nosso!”?

Claro, não é tarefa apenas de partidos ou coletivos anarquistas (A maioria dos que conheço fazem tudo o que cobrei dos partidos) lutarem por memória,verdade e justiça, mas que socialismo/anarquismo é esse que mantém a memória de seus mártires nos armários de ossos da história auxiliando seus verdugos?

Culpar a sociedade? Leiam as linhas acima.

Tantos negaram liberdade concedida (ela é bem  mais sangue,ela é bem mais vida) e precisam de mais que lembranças  esporádicas e homenagens pontuais.

Enquanto aguardo as respostas prefiro não esquecer dessa legião que se entregou por um novo dia.

E com Gonzaguinha,vou cantando essa mão tão calejada que nos deu tanta alegria.

The Bookchin is on the table

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Pensar ecologicamente é descentralizar, é construir holisticamente e descentralizadamente um processo coletivo de interação. É gerir-se e gerir a política para além da dialética e do diálogo, buscando a polifonia onde não que tente e nem se construa a síntese, mas se produza um processo que vá além da síntese, do amálgama do processo coletivo e horizontal em um processo amputado, sintético que que se conclui com a tentativa de unidade opinativa e não de construção coletiva concreta onde a isegoria se transforma em liberdade.

Ecologia demanda pensar de forma descentralizada e decentralizante, anti estatal, anti capitalista, indo além da proposta centralizadora da maior parte dos partidos e do próprio ethos partidário, de manter o estado e reformar o método de gerenciamento dele a partir de parâmetros socialmente avançados.

É preciso desconstruir a ideia de mudança pela gestão do estado sem mudar a estrutura, buscando dentro da institucionalidade centralizadora e hierarquizante construir um mundo idealmente descentralizado e comunal.

Se o ecossocialismo despertou em mim esta compreensão, a partir de Tanuro e Lowy, ao ler Bookchin entendi que ser ecológico é ser anticapitalista e antiestatista e que o centro das transformações está na tomada de poder pelas comunidades, pelas aldeias, pelos bairros, pelas mulheres, pelos velhos, pelos índios, pelos quilombolas, pelas crianças.

Se a anarquia despertou de novo em mim o antiestatismo que nunca foi embora e a ideia radical de que sem destruir a hierarquia não se tem anarquia, em Bookchin entendi que além de anarquizar é preciso ecologizar, é preciso ir além de ser horizontal sendo ecológico, participando ativamente da relação integral entre espécies, entre reinos, entre as diversas formas de existência presentes no mundo dito natural.

A ideia de Bookchin é revolucionária por si só quando ele discute a cidade e a ecologia a partir da necessária defesa da diversidade, do papel revolucionário dos bairros e das cidades na luta contra o estado e pela relação de vizinhança, de solidariedade comunal, que rejeita a hierarquia do estado impulsionando a opressão. A partir deste eixo ele constrói a teoria onde bebe em fontes amplas, desde a democracia grega até se referenciar nas associações comunais da Nova Inglaterra, presentes até hoje de alguma forma como eixo de tensionamento com o estado estadunidense em suas diversas esferas, especialmente nos condados e municípios, mas indo até mais longe que isso.

A ecologização da política se reflete para além do discurso, e mais, ataca o eixo de compreensão do estado, coletivos, comunidades partindo da lógica anti hierárquica. Este efeito influenciou os Zapatistas no México, os revolucionários curdos de Rojava e diversos coletivos anarquistas ou não mundo afora. E influencia, pois radicaliza na defesa da horizontalidade e da ideia revolucionária que sem diversidade e ecologia o pensamento anti hierarquia morre por falência múltipla de órgãos.

E por que morre? Porque é fundamental para a sobrevivência de um bioma que ali exista diversidade, ausência de hierarquia, relação de isonomia entre os entes que ali vivem, acesso a alimento, água, presença de múltiplas e igualitárias regras de existência paras que da árvore ao esquilo todos vivam para que nutram-se em equilíbrio.

A tosca analogia entre predador e predado esquece que o predador morre, apodrece, vira adubo que alimenta as árvores, que fornecem vegetais que alimentam os animais menores que alimentam os predadores. Com o perdão da analogia também tosca, mas a ecologia deixa claro que o mais forte não sobrevive sem uma relação de simbiose em algum nível com o mais fraco e que esta relação não é necessariamente opressora e nem precisa ser.

Não há como permanecer uma separação entre produção, economia, consumo, processos decisórios, judiciário, segurança, alimentação e saúde sem a compreensão dos efeitos de interligação entre cada elemento destes, de nossas vidas e do mundo dito natural.

Não há mais espaço, na verdade nunca houve, para humoristas ironizarem em rede nacional em programa de entrevista a luta contra a caça às baleias perguntando para que elas servem (Chico Anysio no programa “Jô onze e meia”).

Não há mais espaços para a defesa de crescimento econômico, de reformas urbanas, políticas, sociais sem a discussão sobre recursos naturais, responsabilidade no consumo, papel da indústria, da cultura de fábrica, direitos comunitários, laços de solidariedade comunal, conhecimentos tradicionais, clima, hidrologia,etc.

Não se pode defender um crescimento econômico a todo custo projetando-se no macro ignorando-se o efeito disso no cotidiano populacional. Mais, é criminoso pensar o macro ignorando-se o somatório de efeitos de processos decisórios nas múltiplas realidades do micro e seus efeitos.

Em suma, não é possível que se mantenha a cegueira optativa de entender que a ampliação de hidrelétricas na Amazônia tem efeitos daninhos lá e esses efeitos ecoam na crise hídrica do sudeste.

Não é possível ignorar que a ampliação do consumo de energia que segundo os “planejadores” da economia obrigam a investimento na ampliação de hidrelétricas e térmicas ocasiona ampliação do aquecimento global, mudanças ecológicas que interferem no regime de chuvas, na sobrevivência de espécias e que isso tem efeito amplo que vai da crise hídrica à ampliação de presença de contaminação por doenças antes desconhecidas a partir de insetos, por exemplo.

A centralização e hierarquização da política, dos processos decisórios, da própria lógica econômica, do estado, dos governos, da ideia de PIB, tudo isso é em si anti ecológico e por consequência criminoso e anti vida.

Enquanto a Economia busca a normatização,regulação e administração (Oikos = Casa; nomos = Costume ou lei) do lugar onde se vive, a Ecologia busca entender o funcionamento do lugar onde se vive (Oikos = Casa; logos = estudo ou lei). E quando a normatização ocorre antes da compreensão a coisa toda degringola.

Com o devido perdão da simplificação filosófica a partir da semântica, a ideia não distancia-se de uma análise mais profunda da relação entre percepção hierarquizante, centralizadora e autoritária do estado e a ausência nas tradições políticas estatistas de qualquer compreensão ecológica e resistência à ideia de horizontalidade, de gestão comunitária, citadina, de bairro, de rua a rua, de recursos, direitos, justiça, segurança, saúde.

Essa ausência de percepção, essa ausência de entendimento do coletivo, do comunitário, da cidade, bairros, vilas e ruas como eixo da vida cotidiana, das organizações sociais, dos grupos sociais, como fundamentos e não como elementos secundarizantes e secundarizados, provocam a percepção de que é lógica a instalação de grandes siderúrgicas que destroem a vida de pescadores artesanais e o bioma de Santa Cruz, como no caso da TKCSA ou implantam termelétricas como a de Pecém no Ceará, que se alimenta de enorme quantidade de água em uma localidade com enorme carência de recursos hídricos ou ainda pior no caso de Belo Monte, onde além de destroçar a vida de comunidades indígenas e populações tradicionais ainda secam uma grande área do rio Xingu atingindo desde aldeias indígenas até o óbvio, a vida animal e vegetal ali presente, sem considerar em nenhum momento o que isso vem a causar nos demais biomas, nas demais relações ecológicas que respondem pela sobrevivência do planeta e na nossa própria sobrevivência.

Esse descolamento não é sintoma, é a causa do processo de crise ecológica que se tornam visíveis com a crise hídrica e climática, mas cujos efeitos são muito mais amplos, talvez sequer tenhamos a compreensão total destes efeitos.

Até hoje não se tem compreensão completa dos efeitos do vazamento de petróleo das plataformas da British Petroleum no golfo do México. Os efeitos das mudanças climáticas, causadas pela ação humana em especial pela queima de petróleo e outros combustíveis fósseis, possuem efeitos claros e em andamento (Como a crise hídrica mundial, e mais especificamente no sudeste brasileiro), já denunciados e anunciados, porém há uma relação de reação em cadeia para cada efeito deste, a partir do somatório de danos ambientais localizados, que não se pode nem matematicamente medir, dada a grandiosidade.

Essa grandiosidade ocorre porque se pensa o macro ignorando os efeitos de cada ação no âmbito micro e como isso se reflete a partir do somatório de efeitos e das reações em cadeia produzidas. Pensa-se no macro sem na verdade se pensar no macro, ou entende-se o macro sem entendê-lo como um somatório de micros.

A chuva que falta e causa a crise hídrica também seca plantas que deixam de alimentar animais que deixam de ser alimentos de outros animais maiores. E o problema ai não é o aumento de preço no mercado, é a possível extinção de espécies, cujos efeitos não são facilmente mensuráveis e tem tudo pra produzir mudanças no meio ambiente que causam outros tantos danos e mais reação em cadeia.

Em resumo a partir do desprezo pelos processos micro históricos, no interior dos grupos sociais, dos biomas localizados, das micro relações no meio ambiente, a partir da estruturação de uma ideia de relações sociais, econômicas,etc que ignoram a vila, a planta, o bicho e só pensem no nacional, no estado, na transnacional, no continental e no mundial, mas do jeito errado, o que se pavimenta é a destruição estrutural e totalizante de tudo isso.

Por isso the Bookchin is on the table, porque é preciso descentralizar, ecologizar, organizar a transmutação de baixo pra cima, destroçando a generalização, a hierarquização, a ausência de diversidade, o autoritarismo da sociedade que naturaliza o estado e do estado propriamente dito.

É preciso ser mais vila e menos Governo, mais planta e menos plantação, mais bicho e menos manada.

The Bookchin is on the table, basta ler, basta agir, basta ser ecológico e horizontal, porque é lógico, porque é eco.

Jean, as nega e o movimento negro

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Jean Willys em evento recente em Brasília falou como teórico da comunicação pra cagar regra sobre como o movimento negro se sente. Então eu vou cagar regra como historiador pra explicar pra ele que 300 anos de escravidão marcam um país inteiro com racismo, e que inclusive teóricos da comunicação reproduzem  este mesmo racismo em seus elogios, defesas e sua brodagem aos autores, diretores e mandantes de sua nova classe.

Talvez ao ler Althusser demais se tenha lido Thompsom, Gorender, José Murilo de Carvalho, Sidney Chalhoub, João José Reis e Marx de menos, por isso se esquece como funciona a luta de classes, a formação da classe operária, a relação entre classe e costumes, o racismo, a criminalização da pobreza e da cor preta e como se constrói a distância entre a república prometida e a república entregue ao povo, aos pobres, aos pretos,etc.

Talvez por ser um novo querido da emissora global, e tudo o que isso significa em termos de defesa corporativa dela e de seu novo status e locus de classe, fora o deslumbramento clássico com o novo posto na institucionalidade, com o novo lugar de fala teórico e com o novo status social que o permite transitar de forma superficial pelo terreno pantanoso da conciliação de classes, Jean tenha se esquecido da empatia que jamais se furtou a cobrar , e recebeu, sobre sua causa principal, a luta LGBT.

Pena que a empatia que recebeu, e receberá enquanto lutador, não veio de volta para com negros e negras, um movimento inteiro, que contestam a emissora cujo diretor de jornalismo escreveu o livro “Não somos racistas” para negar o racismo da sociedade , do estado, da mídia,etc.

Pena que a empatia que cobra, com razão, quando em luta contra a homofobia não funciona para com negros e negras estereotipados, submetidos à cruel e racista lógica da falta de espaço concreto, contra a hiper sexualização das mulheres negras, contra a colocação do lugar de fala de negros sempre como pedaços de carne favelados,etc.

Pena que em vez de citar Althusser para silenciar o movimento negro, Jean não teve, como jamais teve, a humildade de reconhecer um erro e tentar ser tão dócil com o movimento quanto é com a burguesia e foi com o mesmo PT que abriu mão da CDHM da câmara pro Feliciano ao apoiar Dilma com uma plataforma que sabe, como todos que tem mais de dois neurônios sabem, que ela jamais porá pressão para realizar, a da criminalização da homofobia.

Jean que foi prolífico na acusação de que anular o voto era ficar em cima do muro, quando optou por um lado do muro optou pelo lado que tem a voz do branco, louro e que despreza os negros.

Realmente estamos de lado diferente do muro e foi até bom ser visto por quem tá do outro lado como diferente.

PERDEMOS

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Tenho quarenta anos de sonho, de sangue e de América do Sul, por força deste destino um samba da Portela me vai bem melhor que um blue.

Nestes quarenta anos sempre me peguei estupefacto com a facilidade que o discurso amestrado permeia as análises de conjuntura e o medo pânico do confronto como elemento fundamental do embate político e da superação de impasses, de opressões, etc.

O medo pânico do confronto traveste democracia de mediação e insidiosamente inclui entre os artefatos da lógica “de esquerda” a defesa de governos que elegem Katia Abreu como forte candidata ao ministério da agricultura.

Enquanto a Espanha inventou-se e reinventou-se no PODEMOS, nós poderíamos iniciar a fundação do PERDEMOS, porque desde quando não somos competentes pra superar o aprisionamento que o PT levou a toda esquerda e pós-esquerda e seguimos a pauta de seus discursos como única barreira da direita, a defesa do medo do PSDB, todos dançamos uma polca.

Enquanto isso o mesmo governo do PT age como barreira das formas de superarmos as condições objetivas do avanço da gentrificação nas cidades, dos severos danos ambientais que levam à seca no sudeste brasileiro, a uma política ambiental predatória e aliada à ampliação dos efeitos do aquecimento global, a uma política de DH que rifa direitos LGBT, de mulheres, negros que promove garantia de lei e ordem (GLO) nas favelas com uma repressão inaudita a pretos e pobres.

E permanecemos perdidos enquanto tomamos Trabuco na Fazenda, Cid “Professor tem de ensinar por amor” Gomes na Educação e provavelmente Katia “motoserra” Abreu na agricultura.

E na perdição seguimos agindo nas ruas e nas redes sociais como mediadores, defensores mesmo do Partido dos Trabalhadores, contra a imprensa, a mesma imprensa bancada pelo governo com vultuosas verbas publicitárias a ela destinadas, governo este que poderia produzir a regulamentação das comunicações de forma ampla, geral e irrestrita enquanto produtor de uma lei de medios prontinha, feita por Franklin Martins e jamais posta em prática.

Pra quem pensar nisso tudo se podemos coletivamente agir de forma impressionista enquanto emprestamos credibilidade ao governo, ao PT, a quem o banca de dentro e fora do PT?

Pra que pensar nisso tudo, pensar numa ideia ampla, estratégica de combate à direita se podemos nos ocultar no guarda-chuva petista, nos dar bem com os coleguinhas da universidade, do chopp da Brahma?

A ideia da política como um pagamento de preços que nos levam à mobilização contra as opressões mudanças climáticas e secas vai de vala. Não vivemos na maré, não somos quilombolas, índios e pra nós a defesa de direitos LGBT tem o limite da nossa percepção de classe do que são LGBT.

Votamos conscientes e “taticamente” no segundo turno das eleições e seguimos a nave que vai.

Pois é, jamais PODEMOS, porque antecipadamente PERDEMOS.

E PERDEMOS todo dia, toda hora, com o recuo do principal eixo partidário do campo da esquerda, o PT endossado por ela inteira, dos partidos aos anarquistas, com o avanço conservador promovido pela própria lógica de cooptação deste mesmo partido, avanço este promovido pela nomeação a cargos eletivos pela conjuração de uma ampla conciliação de classes promovida com maestria por uma burocracia treinada pr se manter no poder com base em uma eficiente gerência do estado e do capital.

Seguiremos rumo ao Brasil Grande, ao Banco dos BRICS, dane-se que anarquistas são presos isso é problema conjuntural momentâneo, Rafael Braga, Amarildo, Claudia, DG idem, tudo isso é esquecido porque e preciso combater direita antes que ela vire governo, ou quando ela ainda não é governo.

Enfim PERDEMOS, se seguremos perdendo.

E eu to velho demais pra isso.

O eterno retorno da esquerda

Ouroboros

O saldo da empolgação da oposição de esquerda com Dilma, usando como álibi a campanha contra Aécio, ainda não foi feito, nem sequer cheirado.

Pra mim se perdeu uns bons dez anos de trabalho meia boca de base. Pra mim se gastou capital político bancando a campanha do medo, sem nenhum aceno, sem nenhum sinal de guinada, retomada sequer de pautas mínimas, de não haver mais recuos….

Os mais novos e inexperientes vá lá, mas figuras públicas, parlamentares, todos caindo no discurso do medo, no papo do “republicanismo”, do mal menor, do “Sou consciente”, mal mascarando uma empolgação adolescente com a campanha bem fornida do petismo e com o carisma lulista.

A ala lulista do petismo, dentro e fora do PT, já diz que essa campanha foi a mais de massa desde 1989 e tende a explorar isso contra quaisquer crescimentos da esquerda partidária no decorrer dos próximos anos, usando contra os neo aderentes sua própria adesão.

Tudo isso, somado às falhas graves de percepção do real por parte da oposição de esquerda, traduzida na péssima relação com a esquerda e pós-esquerda não partidária, não me cheira bem, não me faz ver um saldo organizativo positivo pra quem faz oposição ao PT.

A sensação é clara: se jogou fora um bom esforço, mesmo que com um programa meia boca, de constituir uma campanha radical de formação de terreno crítico ao PT em nome de um cálculo temerário de ganho da opinião pública sob o rótulo de “equilibrado”.

No fim e ao cabo ao irem além da declaração de voto, parte da esquerda deu sinais de cooptação pelo PT, deixou claro que não há capacidade de resistir à direita sem a capa do PT, sem sair do guarda-chuva do PT. Se jogou fora todo um discurso de feroz oposição aos abandonos de bandeiras históricas da esquerda em nome de um cálculo temerário de adestramento à lógica de esquerda equilibrada, possível e republicana.

Não adiantam duzentas notas desmentindo o que figuras públicas nitidamente ignoram ao participar de atos públicos, ao participar de programa eleitoral na televisão.

Enfim, quem se diz necessário se torna uma tendência externa à esquerda do PT.

Quem da esquerda partidária pregou voto nulo o fez sob uma perspectiva que desmente a si mesmo ao participar das eleições sem denunciá-las cotidianamente e mais, sem reorganizar seu próprio discurso e diálogo com movimentos, etc.

Enquanto isso o movimento anarquista, enquanto acerta no trabalho de base se perde pela própria imaturidade de boa parte de seus novos adeptos e toca uma campanha de questionamento do status quo correta as com linha pedante e arrogante em muitos sentidos ao abordar a negação das eleições atacando quem vota. Algo que é natural tendo em vista a diversidade e a pulverização da própria ideologia e sua lógica de organização.

Enfim, enquanto o espaço de crescimento à esquerda só aumenta, a esquerda partidária patina em um mar de equívocos que são nitidamente uma falha de percepção estratégica, de consenso sobre unidade de quem prega unidade ou de ação coordenada na diversidade de quem prega diversidade. E por isso a reação à conjuntura de percepção de ideário libertário parece avanço conservador, mas é apenas reação organizada a um crescimento difuso desperdiçado cotidianamente pelos grupamentos anticapitalistas.

Há espaço pra recuperar o tempo perdido de quem souber aproveitar o medo pânico de sair da esfera histórica do PT e da forma partido tradicional, mas esse tempo não é infinito e nem a direita vai ficar dormindo e apenas reagindo.