Sobre a luta de classes e os desafios da esquerda.

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Pra perceber a luta de classes é preciso antes de mais nada discutir o que é uma classe.

Se analisarmos a partir dos cânones a classe se dá pela exploração de uma classe pela outra. A partir dessa percepção a consciência de classe é uma ferramenta de superação da opressão.

Sob outras avaliações, como a encontrada em E. P. Thompsom, a consciência de classe é fundamentadora da próprio entendimento da classe como tal. Até o momento em que adquire essa consciência uma classe existe enquanto ator explorado,mas não é protagonista de si mesma, não tem a característica necessária para seu auto entendimento enquanto classe e a partir disso não é necessariamente uma classe.

Quem coloca que a classe existe*,mesmo sem consciência e que a consciência é o que a move para libertar-se de uma exploração que é o que a faz se a parte da luta de classes em oposição à outra classe, proprietária dos bens de produção, tem muita razão, embora pra mim uma classe só é classe sob a perspectiva de Thompsom, só se é classe quando se reconhece como tal.

Vá lá, vamos concordar aqui pra efeito prático, mas o existir da consciência, o que consolida uma classe como tal é ainda fundamental para que esta classe se mova, correto?

Beleza,mas isso significa o que?

Significa que independente do quanto a gente discuta sobre a classe, é fundamental discutir como tomamos uma classe pelo que se idealiza dela e menos pelo que ela entende a si mesma como classe.

Entendemos a classe, partido da classe, mobilização da classe? Ou entendemos a classe operária, sua mobilização,partido e consciência a partir de uma mitificação nossa do que achamos que é classe?

Na maioria das vezes todos os movimentos que partem dos cânones do século XIX como referência, sejam marxistas ou bakuninistas, parte da categoria “classe operária” e não da classe em si.

Discute-se menos as transformações da classe no decorrer do tempo do que filigranas sobre a movimentação da política a partir da narrativa da intriga palaciana.

A galera precisa da narrativa “midia má, justiça má, mundo mau contra nós os bons”. Funciona muito como apego ficcional ao inimigo externo que nega a autocrítica, que zera o bom senso, que manda pro caralho qualquer tipo de construção política duradoura. Funciona bacanamente como reprodução do aparato ideológico da burguesia, mesmo vestindo esse aparato com significações, rituais,rótulos e signos da luta operária.

Não se busca entender a classe, mas busca-se construir em torno dos jargões nascidos na luta de classes um teatro amparado no ethos da sociedade do espetáculo.

Dilma, Temer, Cunha, tudo isso passeia em textos cada vez maiores, em discussões intermináveis.

Cita-se Marx, Bakunin, Malatesta, Zerzan, Deleuze,mas não se analisa praticamente nada.

O viés de adorno que as teorias ganham é maior que a construção de pressupostos práticos para as transformações urgentes que a sociedade,e a classe, necessitam.

A luta de classes é uma categoria que tá em nove em cada dez textos e discursos, a compreensão dela no entanto..

E por que? Porque provavelmente o teatro de operações de boa parte da esquerda saiu do cotidiano e partiu pras representações dele, seja na vivência nos aparatos burocráticos (estatais ou não) ou no simulacro de luta de classes e pela democracia que são as redes sociais.

A própria ideia de entender os diferentes ethos e abordagens da luta de classes no próprio interior da esquerda (como uma espécie de história da historiografia dos movimentos sociais,organizações e partidos) vira ficção científica diante do cenário montado pela esquerda para desfilar seus andrajos cheios de paetês.

Perde-se mais tempo com substitutos de análise, como o que toma anarquistas como ilusionistas da luta ao “deixarem de assumir suas responsabilidades com a revolução e pegarem apenas os exemplos bons de suas lutas”, do que entender as diferentes abordagens éticas e teóricas para com as lutas e a própria ideia de consciência de classe, elemento fundamental para qualquer lado da esquerda, dos reformistas aos revolucionários, passando por anarquistas que não necessariamente se colocam como o segundo time, embora não façam parte do primeiro.

Enquanto isso a classe em si permanece em sua lida cotidiana, seja procurando viver de bem com a sua terra ou construindo louvores a São Jorge com um viés ético solidário, revolucionário, anárquico e poderoso.

Qual a consciência dessa classe? Sabemos ou a deduzimos de longe a partir dos cânones?

Por que parte da classe apoiava Black Blocs mesmo achando que comunistas são péssimos?

Por que parte da classe quebra trens quando atrasam,mas criticam quem quebra vidraça de banco?

Por que parte da classe vota em Lula,mas odeia o PT?

Por que parte da classe frequenta os movimentos de base , estudam nos cursos, ampliam e mantém suas redes de solidariedade,mas cagam pra Bakunin e Kropotikin?

A maioria de nós não tem a menor ideia, eu incluído.

Mas evangélicos, parte do PMDB, boa parte da direita, o MST, parte do MTST, sabe. A igreja sabe.

Provavelmente porque ouve mais, fala menos.

A ideia de perceber a consciência de classe e o que é a classe, e sua formação é parte fundamental das dinâmicas que a esquerda precisa aprender pra poder transformar o mundo.

Se perdermos menos tempo tentando definir se quem está certo é quem acha que a construção da luta política passa pela realização de um evento escatológico chamado revolução ou quem “deixa de assumir suas responsabilidades com a revolução e pega apenas os exemplos bons de suas lutas” como os anarquistas que muitas vezes entendem que a ideia de revolução é hierarquizante, teológica até, que substitui a construção da sociedade como se quer hoje, das mais diversas formas, pensando até no futuro,mas sem querer defini-lo por portaria enquanto adorna um novo estado pra chamar de seu enquanto se oprime o outro, talvez tenhamos mais sucesso no passo mais óbvio: Entender o que somos e que realidade vivemos.

A classe operária brasileira nunca será a dos manuais, como não o foi a inglesa ou a francesa. Cada qual se constrói a partir de suas estruturas amplas, de econômicas a culturais, e de sua resistência a ela.

A classe operária brasileira nasce sobre uma estrutura de profunda e dura hierarquia, racial e de gênero inclusive, de uma estrutura violenta, cruel, sanguinária. Não que a inglesa tenha nascido na Disney, mas aqui o outro era humano ou não dependendo de sua cor e origem.

E é por isso que não adianta propaganda dizendo que o povo não sabe votar ou que quem vota é “escravo” em uma sociedade onde boa parte e descendente de quem foi escravizado.

Não adianta brandir cânones na frente da estação de trem sem entender o que é andar de trem na hora do rush.

Não adianta maldizer religião sem entender o poder da festa de São Jorge no RJ ou a folia de reis em São Paulo e Minas Gerais e sua construção de um ethos de distribuição de comida da comunidade para a comunidade.

Não adianta falar mal da suposta “alegria alienante” do povo sem sacar como o Samba é construtor de redes de solidariedade comunal, griô de memórias, como o funk é enfrentamento ao patriarcado e como o rap é canção de trabalho da rebeldia.

Se a consciência dessa classe não existe, e existe, então construí-la tem de passar por dialogar com ela a partir do que ela é e não do que ela deveria ser.

Não, ninguém faz samba só porque prefere, então por que o samba é fundamental pra entender que consciência essa classe tem, como essa classe é, como ela quer construir o novo? Porque o samba, pai do prazer, filho da dor, é uma linguagem, e ela nos diz o que teses inteiras falharam em dizer, porque é elemento firme de categorias nativas, é um balaio de significâncias.

Uma festa de São Jorge em Madureira explica mais sobre a classe trabalhadora carioca que dois mil discursos da esquerda partidária.

As pessoas falam em “Partido da classe” pra uma classe que jamais tomará partido dessa gente universitária ensaboada que trata a festa de São Jorge como bibelô de um multiculturalismo que é na verdade apropriação cultural, adorno, perfume de povo a partir da participação condescendente e observante,mas que nunca compreende, aquele distante que é a tal classe.

Depois de uma porrada que a esquerda como um todo, querendo ou não, toma pós impeachment de Dilma, o primeiro passo deveria tentarmos entender essa classe, sua consciência, o que ela é.

Isso pra começar.

  • Depois de uma discussão com a Niara achei melhor ressaltar que a categoria classe tem significâncias diferentes e que não há exatamente uma correção absoluta em categorizar a classe como existente a partir da exploração dela ou a partir de sua consciência.

Das decepções

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Decepcionar-se com política é normal. Política é um pedaço de nossa socialização que mexe com sonhos, aspirações, utopias, projetos, memória, história, afetos, etc e tudo isso mexe com o emocional tanto quanto com o racional.

O delicado equilíbrio entre racional e emocional em política é parte do delicado equilíbrio entre a moral deles e a nossa, e nisso espero estar entendido que vivemos e construímos nossas identidades políticas em campos díspares, no enfrentamento contra as opressões, todas, que constituem a vida em sociedade.

Na dura batalha por este delicado equilíbrio vemos a cada dia sonhos e aspirações derreterem diante da cruel realidade cotidiana, vítimas de muitas coisas que são exímias destruidoras de sonhos e utopias, do suposto pragmatismo político à cooptação, passando pela covardia pura e simples.

Também temos nestes duros dias, que via de regra são sempre duros desde que parte da sociedade buscou a luta contra a outra parte que a oprime, conquistas de novos sonhos e utopias, pois a luta política é feita deles, mesmo que estes sejam sufocados pela ânsia de uma vitória eleitoral e de uma ocupação de lugar no estado que volta e meia vira estratégia em vez de tática.

Desde meados dos anos 1990, parte da minha geração oscilou entre o sonho de uma vitória eleitoral da esquerda e avanços sociais, que pra nós viriam de forma quase óbvia, e a pavimentação de uma estrada que garantisse avanços e mais avanços para todas as futuras gerações à revelia da ocupação do estado.

Pois bem, todos fracassamos.

Fracassamos porque quem estava fora do Estado foi atacado por quem estava dentro, avanços possíveis na organização popular foram frequente e duramente abatidos a tiros de bala de borracha, ou de escopeta mesmo, e gás de pimenta, presos ou mortos, enquanto a parte que ocupou o Estado quando não se omitiu na denúncia de violações de DH e de destruição da esquerda não estatista cometeu a repressão e estas violações, quando não foi cúmplice delas.

Hoje sob a frágil lona do circo da “Luta pela democracia” existem palhaços presos e mortos, pois é nítida pra esquerda partidária que a democracia pela qual se luta é restrita a quem aceita a institucionalidade como mestra da vida.

Enquanto a “luta pela democracia” evolui com leões no picadeiro, indígenas perdem suas terras e são presos pela polícia federal do governo Dilma, com truculenta violação de seus direitos fundamentais, servidores públicos se preparam para perderem direitos e terem sua função “privatizada”, praticamente sendo substituídos por celetistas contratados por Organizações sociais (OS), e pretos e pobres moradores das periferias são observadores participantes do assassinato de seus filhos, jovens e crianças, por uma polícia que mal esconde que seu objetivo real é matar todos que não tem a cor da pele aceita no Leblon das novelas do Manoel Carlos.

Enquanto a “luta pela democracia” apresenta os acrobatas da retórica de justificativa do injustificável a educação da pátria educadora permanece sendo esquartejada para alimentar as hienas do mercado.

1246312802_850215_0000000001_sumario_normalE quem ocupa as escolas, jovens adolescentes que acendem a esperança em peitos carcomidos pela decepção, são aclamados como heróis, não quando estabelecem novos métodos organizativos horizontais, mas quando apela para a mais inócua das ações: Denunciar para a OEA abusos cometidos pelas polícias militares.

Ou seja, são heróis não quando inovam, mas quando penetram no pântano inerte da institucionalidade que os abandona até o limite de suas resistências, até que sejam cooptados, tenham seus sonhos e ímpetos substituídos pela retórica disciplinada, fordista, hierarquizada qual uma fábrica leninista, dos “lutadores sociais” que no fundo só existem pra alimentar o ogro da burocratização.

E das decepções mais doídas está é a maior ver que quem constrói cotidianamente as ruas, a horizontalidade e a luta contra a hierarquização, ser tragado pela mediocridade das obsoletas máquinas de eleitoralismo chamadas partidos.

Denuncia pra OEA? Sério, em vez de vocês com seus mandatos lutarem nas ruas por esses adolescentes eles têm de ir na OEA? Pra que servem os partidos? Pra pedir Fora Cunha?

Enquanto isso se digladiam nas redes e se tenta cooptar para a “luta pela democracia” quem luta por ela a cada ocupação de escola.

Enquanto ocorre essa luta os cooptadores tomam litros de café negociando apoio ao governo que é sócio de quem reprime essas lutas, mesmo em SP. Ou esqueceremos mesmos que PT e PSDB foram e são cúmplices da criminalização de movimentos desde 2013?

Enquanto meninos nos tentam salvar a utopia o PSOL negocia via Jean Wyllis e Freixo mais e mais apoio ao governo Dilma em nome de uma “luta pela democracia” que nunca incluiu entre os que precisavam dela os indígenas e pretos e pobres favelados reprimidos pelas UPP. E se o PSOL não ignora que a “luta pela democracia” exclui essa gente é calhorda e se ignora é inepto.

A “luta pela democracia” é conduzida por quem vai criminalizar os jovens alunos que ocupam escola país afora assim que essas ocupações atingirem os governos da “Pátria Educadora” que cassam bolsas de iniciação científica das quais jovens pobres necessitam pra poderem permanecer sonhando com atuação como pesquisadores.

E porque escrevi isso tudo para falar das decepções? Porque minha maior decepção está com a minha geração, a que não se atenta nem um segundo do quanto foi,é e será cúmplice do avanço do conservadorismo com sua covardia medrosa na crítica às burocracias partidárias da esquerda, sua covardia na participação efetiva na construção do novo, quando preferiam sempre acompanhar a burocracia à mão, por absoluta preguiça da luta cotidiana, medo até dela.

Minha geração ainda tem salvação se apoiar sem nenhuma indução à institucionalidade essa geração que ocupa escola, que expande o feminismo e a horizontalidade, mas permanecerá decepcionante, eu inclusive, como a geração que optou pela covardia.

E enquanto a gente se esforça pra ser um sujeito normal, há quem faça marchas antifascistas nas ruas, indo muito além da “Luta pela democracia”.

O que a conjuntura atual significa pra anarquistas?

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Primeiro, é fulcral dizer que a conjuntura se alterou de forma tão brusca que melaram todos os cenários analisados recentemente.

Segundo que a nomeação de Lula aliada à resposta de Moro (Vazamento de gravações, etc) construíram um cenário de absoluto caos institucional no país, que fica impossível de prever qualquer coisa.

Em terceiro é fundamental observar o que essa conjuntura significa enquanto sinal de avanço direto, com apoio midiático, de um ethos absolutamente autoritário.

Tendo isso em mente é preciso ressaltar alguns elementos.

Um deles é o fato do aparato judiciário, midiático e parlamentar estar absolutamente deslocado, hoje, para a deposição de Dilma e estrangulamento do PT no governo.

Vai conseguir? Não se sabe, mas o movimento é esse.

Pra completar temos um cenário de rebelião do judiciário em primeira instância que comprou a narrativa de que Lula como ministro seria “Blindagem” e temos uma nítida situação onde o judiciário federal de primeira instância em peso apoia um Juiz como Moro divulgar grampos cuja legalidade é no mínimo questionável e que é tratado como crime sem que haja nenhuma evidência indiscutível deste fato.

Essa rebelião está para o judiciário como a Revolta dos Sargentos às vésperas de 1964 estiveram para as forças armadas. A diferença é, além de termos uma conjuntura diversa em relação a golpe, que o STF não tem exatamente uma situação de controle hierárquico sobre instâncias mais baixas e é sensível à pressão midiática e corporativa, inclusive vem respondendo a todo o caso sob o ponto de vista da reação corporativa.

Legalmente não há nada nem para o impeachment, nem para a alegação de obstrução da justiça, nem sequer para o entendimento que Lula é criminoso.

Os jornais impressos, os portais, as TVS atuam para construir em torno de todo o caos a impressão social de que há consciente obstrução da justiça e ilegalidade em todo o processo, incluído o tal sítio de Atibaia tomado pela imprensa como de posse de Lula sem um documento assinado por ele provando isso. Uma minuta sem assinaturas tornou-se, pasmem, garantia de posse.

Diante disso os cenários são, sim, de golpe de estado. Não um golpe militar, mas um golpe institucional com raiz no judiciário e reflexos diretos nas relações entre poderes e peso no parlamento.

Ignora-se, todas as forças ignoram inclusive os movimentos de rua, a quantidade de membros deste parlamento envolvidos em ilícitos e indiciados pela Lava Jato, coisa que Lula não é.

Enfim, não só o impeachment tá rolando, como as ruas se enchem de pessoas cujo interesse maior é menos limpar o país da corrupção e mais retirar o PT do poder.

Pras forças partidárias de esquerda não há muita saída além da de ir para as ruas defender a democracia e o governo, até porque uma derrota do PT hoje é derrota para todos os partidos.

Pra ilustrar isso é simples: Redes Sociais e ruas hostilizam qualquer coisa vinculada à cor vermelha, é francamente adversária de Sem Terras, Sem Teto, Feministas, Cotistas, Socialistas em geral.

A cada Jornal Nacional temos uma peça que amplia a narrativa de que derrubar o governo é a chave. A repetição cotidiana dos grampos vazados de forma absolutamente autoritária e ilícita, e contendo nada, é um infográfico da narrativa irresponsável que a imprensa sem nenhuma vergonha tomou como sua tarefa.

E está tendo sucesso.

Diante disso é fundamental cobrar do próprio PT sua responsabilidade na construção deste quadro, através de amplo silenciamento das forças de oposição com acusações diretas que foram de “Quinta Coluna da Burguesia” a “hordas fascistas”.

A narrativa de Golpe construída pelo PT de 2003 até hoje se constrói como fato a partir de erros do próprio PT ao chafurdar na lama da corrupção enquanto trocava bandeiras históricas pela disputa da gerência do capitalismo, lucrativa, inclusive, pro partido.

Pra piorar desde 2013, quando forças de esquerda ocuparam as ruas para barrar aumentos tarifários, combater a corrupção de governos, entre eles governos de aliados do PT que hoje lhe abandonam, como o PMDB, o PT tratou toda a esquerda não alinhada a ele, inclusive a atual linha auxiliar psolista, como fascistas.

Não é preciso esquecer que vários de seus soldados virtuais não tiveram nenhuma vergonha em tratar anarquistas como nazistas, inclusive efetuando montagens que incluíam suásticas no lugar do famoso A anarquista.

A partir daí governos estaduais atuaram com celeridade para criminalizar francamente todas as forças de oposição de esquerda aos governos, colocando vários lutadores na cadeia com base em nada. Entre estes lutadores sobrou até para um morador de rua munido de Pinho Sol, tratado como arma, o Rafael Braga que nem militante era.

Sininho, Camila Jourdan e mais 21 pessoas foram processadas no Rio com nenhum, absolutamente nenhum indício de nada além de “citarem Bakunin” ou “terem ligações com ações terroristas”,que vinham a ser uma suposta “ligação com os Black Bloc”. Hideki Harano, entre outros, sofreram o mesmo em SP. No Rio Grande do Sul a mesma coisa.

Pra completar a tragicomédia, partidos de esquerda fizeram o possível para corroborar com essa narrativa ao tratar Black Blocs como “cúmplices da violência policial” ou “O PSOL precisa isolar os Black Bloc”, como fizeram PSOL e PSTU.

O abandono de anarquistas e autonomistas à sua própria sorte, o desprezo à análise do Estado Democrático de Direito ser esgarçado por um autoritarismo judiciário e todo aparato policial e avançando por sobre a esquerda, tudo isso foi posto em prática em nome da construção pelo PT da Copa das Copas e por PSOL e PSTU de tentativas de ficarem bem com “seu eleitorado” ou “sua base” e virem a eleger prefeitos, vereadores e deputados.

Ou seja, o que o PT, Lula e o governo sofrem hoje, todos nós anarquistas e autonomistas sofremos de 2013 em diante.

Sim, anarquistas, autonomistas, MPL foram, são e serão perseguidos pelo Estado com toda a sua truculência, sofreram ataques cotidianos pelas TVs e jornais, foram atacados DENTRO DO SINDICATO DOS JORNALISTAS.

A narrativa de que “Black Blocs mataram o cinegrafista Santiago” se tornou uma realidade, inclusive dentro dos partidos da esquerda sem que uma maldita prova aparecesse em qualquer investigação. Pessoas foram processadas a partir desta narrativa.

Durante a Copa de 2014 pessoas foram sitiadas para que não se manifestassem.

Durante a Copa de 2014 ocorreu bombardeio pelas forças de segurança de manifestações absolutamente tranquilas e que chegaram a ter bombas em um Parque da cidade do Rio de Janeiro mesmo com enorme população infantil ali.

De lá pra cá até o MPL foi impedido de se manifestar em 2016 na cidade de SP, pois foi informado que “teria de informar seu trajeto para não atrapalhar o trânsito”.

Tudo isso ocorreu sob absoluto silêncio do PT e dos partidos de esquerda.

Agora a direita marcha pedindo a cabeça do PT, hostilizando movimentos, sem que a Polícia se preocupe com o trânsito.

Todo esse arbítrio foi ensaiado de 2013 até hoje e hoje estoura no colo do PT e da esquerda partidária. Até hoje o silêncio quando nossos companheiros da FIP, da OATL ou da FARJ e FAG eram aprisionados não tinha doído no lombo da esquerda partidária, hoje dói.

Todo esse processo golpista ocorreu sob as barbas dos governos do PT e dos parlamentares da esquerda, foi inclusive endossado por eles com a formulação da “Lei antiterrorista”.

Hoje o impeachment tá na rua, tem enormes chances de derrubar Dilma e trazer todo o preço, altíssimo, disso para toda a esquerda.

E os anarquistas com isso?

Difícil dizer, mas penso que hoje é fundamental atuar com os movimentos NAS PERIFERIAS que acusam o golpe cotidiano que sofrem com a violência policial, a suspensão de direitos constitucionais e a ocupação militar das periferias. Total solidariedade aos companheiros da periferia que sentem na pele todo dia o que Lula sentiu recentemente.

Agora, solidarizar-se com as marchas organizadas pelos partidos da esquerda que só agora percebem o quanto o Estado é duro para com seus inimigos? Lamento, mas a meu ver é sandice.

Para nós a mídia não fez filme com personagens inspirados em nossos companheiros mais fotogênicos. Para nós os partidos não apontaram que chamar Black Blocs de violentos era narrativa falaciosa. Para nós não vigorou a solidariedade coletiva de socialistas quando companheiros nossos tiveram sua vida destruída, sua carreira prejudicada, foram presos, exilados, humilhados, esmagados.

Dialogar com a periferia na resistência ao golpe do Estado contra os direitos constitucionais não deveria significar apoio a Ex-Mandatários que ocuparam o Estado ampliando sua faceta violenta contra todos nós, em especiais nossos companheiros da periferia.

Para os anarquistas a conjuntura é preocupante, mais do que para a esquerda partidária, mas nosso trabalho permanece o de construir a resistência ao Estado onde ele é mais arbitrário: Nas periferias.

E o mais preocupante da conjuntura atual é a percepção global de como o Estado, os jornais, as TVs, os poderes, o judiciário, são seletivos em sua sanha por “limpar” a vida pública nacional.

Só que essa face a conhecemos bem, e nunca recebemos solidariedade, o irônico e didático é a percepção ter se espalhado.

Portanto para os anarquistas a conjuntura atual significa o que significa o cotidiano: precisamos permanecer lutando e construído o poder popular, porque é negro o couro da gente que segura a batida da vida o ano inteiro.

Tá tendo golpe!

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Em tempos de manifestação com transmissão ao vivo e polícia a favor é fundamental tratarmos do dito Golpe contra “a esquerda” e dos pavores noturnos que povoam o imaginário e o cotidiano de boa parte dos apoiadores dos últimos governos, de suas linhas auxiliares e da esquerda partidária como um todo.

Porque golpe tá tendo sim, já teve e permanecerá tendo, não exatamente como a narrativa busca vender, mas como o contexto político e a conjuntura permitem perceber.

Tá tendo golpe já em 2002 com a “carta ao povo Brasileiro”. Desde 2003 tá tendo golpe, desde antes da reforma da previdência tá tendo golpe.

Tá tendo golpe desde quando o neodesenvolvimentismo do PT, apoiado por CUT e PCdoB, deu as caras no país usando o BNDES para financiar o avanço do capitalismo brasileiro mundo afora.

Tá tendo golpe desde quando o neodesenvolvimentismo achou de bom tom retomar processos de construção de megaempreendimentos hidrelétricos engedrados pela ditadura militar na Amazônia, iniciando por Belo Monte, atingindo o meio ambiente e todas as nações indígenas que residem ali, auxiliando a expansão da fronteira agrícola e com ela as balas das milícias ruralistas.

Tá tendo golpe desde quando os governos do PT frearam a titulação de terras quilombolas e indígenas, permitiram o avanço da PEC 215 e ameaçam direitos indígenas e quilombolas país afora, pouco ou nada protegendo nações inteiras do extermínio pelas mãos do mesmo agronegócio da ministra Kátia Abreu e de Bumlai, amigo do Lula.

Tá tendo golpe desde quando os governos do PT sequestraram o MST e o MTST, boa parte do MAB e a maioria dos movimentos sociais organizados e que viviam nas franjas do PT, em nome de um processo de domesticação que atacou o coração das lutas e da mobilização popular.

Tá tendo golpe desde que os governos do PT desapropriaram menos terras que FHC.

Tá tendo golpe desde que os movimentos e governos do PT fizeram eco à criminalização da pobreza e dos movimentos sociais para construírem a “Copa das Copas”, removendo pessoas de suas casas, prendendo manifestantes e ativistas, cassando seus direitos constitucionais, oferecendo tiro, porrada e bomba a quem apontava os superfaturamentos, as violações de DH promovidas pelos tantos governos.

Tá tendo golpe desde quando os governos do PT promoveram e/ou apoiaram a ocupação militar das favelas.

Tá tendo golpe desde que os governos do PT abraçaram os do PSDB criminalizando o MPL, autonomistas, anarquistas e qualquer um que não estivesse no campo aceito pela ordem.

Tá tendo golpe desde que os militantes do PT fundaram seu ethos discursivo, sua práxis, na destruição do outro, tornando tudo o que não batia bumbo pro avanço de sua versão de gerência do capital, de forma distorcida chamada de “de esquerda”, de “fascismo”.

Tá tendo golpe desde que praticamente toda a esquerda virou linha auxiliar desse governo genocida, etnocida, ecocida.

Tá tendo golpe sim, e um golpe que afastou toda a resistência das ruas, com base em tiro, porrada, bomba e processos judiciais e as deu à direita.

Tá tendo um golpe urdido pelo PT e continuado pela direita que o PT fingiu combater enquanto se aliava a ela em um clube de negócios que os iludiu a ponto de acharem que faziam parte do quadro social permanente.

A resistência a esse golpe (promovido pelo PT de 2003 pra cá e continuado pela trupe de Temer, Aécio, Cunha, Bolsonaro, pelo MBL e seus movimentos protofascistas) pode ocorrer e ocorrerá, já está ocorrendo, mas não pelos vitupérios da milícia boquirrota do petismo, e sim pelas mãos de quem ocupa escola.

Resta saber se o PT vai continuar apoiando o golpe ou vai dar uma reviravolta e apoiar a resistência. Duvido que ocorra.

Gentileza não gera revolução

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Não é raro que pessoas envolvidas em movimentos de emancipação ou político revolucionário incorram em machismo, racismo, homofobia, transfobia ou até coisa pior.

O motivo disso ocorrer não é desconhecido, dado o caráter estrutural das opressões. Parafraseando pessimamente Simone de Beauvoir: Não se nasce libertário, torna-se.

As opressões estão enraizadas nas culturas, praticamente todas contendo suas opressões,em especial a cultura dita ocidental, ou judaico-cristã, hegemônica mundialmente dada sua expansão nos navios do capitalismo.

O caráter estrutural permite,por isso, negros machistas,misóginos e xenófobos, como indígenas,imigrantes não brancos ou nordestinos. Esse caráter também permite gays e lésbicas transfóbicos, gays misóginos,e por ai vai.

Não é raro também movimentos autoproclamados libertários reproduzindo misoginia, racismo, lesbo-transfobia, lgbtfobia,etc..

Outra questão presente na reprodução de opressão é a ausência de combate à estas opressões. Essa ausência de combate muitas vezes se dá pelo plano da sociabilidade.

O que é o plano da sociabilidade? É o Clássico “fulano? Incapaz de abusar de mulheres,conheço anos a fio!”ou o “Tenho certeza que fulano foi mal interpretado,ele é muito gente boa pra ser machista (ou racista ou transfóbico)”.

O plano da sociabilidade é a clássica suspensão da descrença sustentada pelo afeto. E essa gracinha mantém abusadores/estupradores em partidos, abusadores na academia, misóginos no movimento negro,misóginos na luta LGBT, transfóbicas no feminismo,etc,etc,etc.

É no plano da sociabilidade que nasce o “gentileza gera gentileza”, slogan da hipsterização da luta política que conscientemente opta pelo genteboísmo em vez do rompimento.

E é no “gentileza gera gentileza” que reside o fascistinha assustado que é o pequeno burguês lustrando as xícaras de chá do clube de debate pós-moderno da transformação de sofá que ele confunde com revolução.

O “gentileza gera gentileza” é a versão moderna do trottoir do país dos bacharéis. O “gentileza gera gentileza” é filho dileto do abolicionismo sem negros,da emancipação indígena sem índios,do feminismo sem mulheres.

É no “gentileza gera gentileza” que mora o cara que luta contra os privilégios apenas quando são privilégios que ele não possui.

É no “gentileza gera gentileza” que se constrói o bunker da luta pela igualdade entre os seres humanos desde que ela não afete meu amigo intelectual que abusa de mulheres.

O “gentileza gera gentileza” é a pátria do negro que luta pela emancipação dos negros,mas quando mulheres,inclusive as negras, precisam expandir direitos ele evoca o senhor de engenho a exigir comportamento e civilidade de quem precisa é quebrar a porta pra poder entrar no salão de chá da integração real.

O “gentileza gera gentileza” é o salão de festas do comunista “veja bem” quando exposto diante da debilidade de sua defesa da economia à frente da ecologia.

Porque é no “gentileza gera gentileza” que reside o brutal freio de mão puxado do enfrentamento da questão de classe e de combate às opressões dos militantes dos movimentos emancipacionistas.

A galera quer uma emancipação “gentil”,socialmente aceitável,republicana,vestindo fraque,cartola e Pince Nez pra homens e Vestido de gala para as mulheres.

Mulheres mostram os peitos? Inaceitável para o “gentileza gera gentileza”! E as crianças na Sala?E a Vovó Donalda? E a imagem do sagrado feminino? E nossas mãezinhas?E até o militante do movimento negro entra na criminalização do “atentado ao pudor” envergonhando quem caiu na porrada pra combater as leis Jim Crown.

Aliás, o “gentileza gera gentileza” se escandaliza mais com peitos de fora do que com os absurdos números da violência contra a mulher.

Mulheres denunciando abuso feito pelo starlet intelectual amante de selfie de pênis e fina flor da “inteligentsia” de internet da esquerda fofinha? O“gentileza gera gentileza” cria até comitê central da salvação da inteligentsia amante da fadinha verde da ecologia abraço na lagoa e da emancipação indígena sem índio.

Anarquista sendo preso por quebrar vidraça de banco e sendo chamado de terrorista? E ainda criticam o Príncipe Danilo por defender seu isolamento e apelar pra omissão eloquente em torno do processo de anarquistas e autonomistas por crime de opinião e ativismo? O “gentileza gera gentileza” não tarda a defender que é preciso ser republicano enquanto toma o chá da compactuação da omissão em nome da ação “revolucionária” de defender bandeiras liberais como se revolucionárias fossem.

Por que isso tudo? Porque o “gentileza gera gentileza” no fundo é a âncora do rompimento porque manter a moral burguesa e a solidariedade de classe burguesa,e com a burguesia, é muitíssimo mais importante que construir o rompimento.

Afinal se rolar rompimento o “gentileza gera gentileza “perde o festival de Tambor de Criola que vai rolar depois daquele filminho no Odeon. E como abrir mão do excelente papo do canalha machistas e ele for limado da existência no clube de chá das cinco do debate de Foucault?

Ao “gentileza gera gentileza” o advogado negro misógino,mas gente boa,tem a misoginia perdoada porque é um cara legal pro clube do “gentileza gera gentileza”. Foda-se se a pregação misógina dele envenena milhares de pessoas e alimenta o crescimento do fascismo,como combater o melhor papo do churrasco?

Gentileza até pode gerar gentileza, mas jamais revolução. Por que? Porque inibe processos de transformação pessoal entre grupos e no interior de grupos, e inibe pela sobreposição do afeto à crítica e autocrítica.

A sobreposição do afeto à crítica e autocrítica é o famoso passar pano,ou passar a mão na cabeça,uma atitude paternalista,de fé interpessoal, de maior apego a laços de proximidade afetiva do que à simples ideia de superação de opressões me emancipação humana.

E ao fim e ao cabo a gentileza não só não gera revolução,como gera omissão adocicada.

O Racismo do preconceito do branco pela naturalização da morte dos negros

BALTIMORE, MD - APRIL 30: People protesting the death of Freddie Gray and demanding police accountability move into the streets in the Sandtown neighborhood where Gray was arrested on April 30, 2015 in Baltimore, Maryland. Gray, 25, was arrested for possessing a switch blade knife April 12 outside the Gilmor Houses housing project on Baltimore's west side. According to his attorney, Gray died a week later in the hospital from a severe spinal cord injury he received while in police custody.   Andrew Burton/Getty Images/AFP

BALTIMORE, MD – APRIL 30: People protesting the death of Freddie Gray and demanding police accountability move into the streets in the Sandtown neighborhood where Gray was arrested on April 30, 2015 in Baltimore, Maryland. Gray, 25, was arrested for possessing a switch blade knife April 12 outside the Gilmor Houses housing project on Baltimore’s west side. According to his attorney, Gray died a week later in the hospital from a severe spinal cord injury he received while in police custody. Andrew Burton/Getty Images/AFP

“Ah, a maior quantidade de negros mortos pela polícia não significa racismo, ocorrem porque a região onde as mortes ocorrem é de maioria negra!”, diz o sabichão branco.

E os negros estão ali porque acordaram de manhã e disseram “Porra, acho que vou me fuder e morar numa região sem esgoto, escola, hospital, com invisibilidade midiática e onde a polícia tem carta branca pra me matar!”, né sabichão?

A Escravidão; a gentrificação desde cedo ainda no pós-abolição e primeiros anos da república; o racismo ambiental desde os primeiros anos da república, a partição das cidades entre brancos ricos e pretos pobres a partir de 1889, e com aumento de ênfase no pós 1908; a retomada da secessão urbana nos anos 2010; a colocação profissional dividida por cor da pele,tudo isso é ilusão?

O negro é obrigado a morar onde mora pode trocentas formas de pressão, seja a da jamais ter renda suficiente para residir nos bairros “nobres” por ser destinado desde sempre por racismo às ocupações de mais baixa remuneração e prestígio social; Seja a de ter pouquíssima chance de inclusão social pela via da educação já pra pobres, quase todos pretos, e pretos, quase todos pobres, mesmo pelas cotas, é a minoria que tem a chance de estudar em universidades públicas, e acabam sendo relegados a uma educação sucateada da educação básica às universidades pagas com sua educação fast food.

Além disso, as poucas e ruins políticas de redução do deficit de moradia, que beneficiariam a maioria negra das pessoas pobres, é localizada nas periferias das grandes cidades, reforçando a gentrificação e secessão urbana.

Inclusive, a gentrificação com largos deslocamentos populacionais de remoção de população das favelas e localidades pobres próximos às moradias da elite branca nas grandes cidades para bairros periféricos, gera violento impacto social, ambiental e na mobilidade urbana. Pior, essas políticas são tidas como “doação” e “boa política” porque é “melhor que morar na favela”, ignorando que favela é cidade,que ali residem laços de solidariedade comunitária, que ali residem vidas, memória, amores, valores intangíveis que não são reparados por dinheiro algum no mundo.

A própria possibilidade de recuperação da viabilidade urbana das favelas, da ideia de favela como patrimônio cultural, e até arquitetônico e urbanístico,como solução popular de viabilidade de projetos de moradia para estatais, é tida como absurdo pelo racismo impregnado na academia,opinião pública e estado.

Sem falar na produção cultural imaterial vinda das favelas e periferias, tudo isso tratado como subcultura e algo passível de ser retirado dos bairros centrais para a mais profunda periferia pois é “inapropriado de estar nos bairros de elite”.

Tudo isso pavimenta a invisibilidade dos bairros pobres, e pretos, a política de estado genocida da população negra que desde a criação das polícias militares com o objetivo de policiar as ruas e serem uma espécie de feitoria urbana de negros especializada em por a população preta ”em seu lugar”, nem que este lugar seja uma cova.

E essa estrutura envolvendo a própria visão da polícia, da violência, da moradia, da cultura, da beleza, da pobreza, da vida em si, estrutura uma política de estado violenta, da política de habitação à política de segurança, passando pela economia e pela questão ambiental.

Por isso em nome da maior segurança se elogia a UPP, unidade de polícia pacificadora, inspirada na ocupação militar do Haiti e por sua vez inspirada na ocupação militar israelense na Palestina,que pensa a favela como locus de ocupação de território inimigo por forças “de paz”. Ignorando por opção ou comodidade que esta paz por vezes é sem voz, portanto medo.

Ignorando que esta “paz” é pavimentada com desaparecimento de Amarildos, assassinatos das Claudias e Eduardos, gente negra cujo nome é ocultado, cuja morte é naturalizada, criminalizada, gente que é tornada”bandida”, categoria que abarca uma similaridade com a categoria “intocáveis” da Índia perturbadora, para que seu assassínio seja normalizado em nome da paz da urbe.

Por isso em nome de uma política “de moradia”, de uma “reforma urbana” se elogia remoções que destroem comunidades, vidas inteiras, paz, saúde, culturas inteiras e amplia a gentrificação e a secessão das grandes cidades.

E segue o racismo institucional, ambiental, econômico permeando todas as atitudes do estado e apoiados por uma classe média e elite branca incapaz de um mínimo de empatia e raciocínio mesmo quando finge ser “rebelde” e de esquerda.

Por isso índios e quilombolas que se fodam se seus quilombos e aldeias são atingidos por mega empreendimentos hidrelétricos cuja viabilidade econômica é próxima a zero de tão ruim e cuja obsolência grita aos quatro ventos, com mais impacto do que energia gerada, vide Belo Monte.

Por isso tá tudo de boa se o seguro defeso e o seguro-desemprego vão de vala, pescador Branco é mais raro que diamante negro,né? Branco desempregado tem muito mais chances de recolocação profissional que negro, e provavelmente viabilidade de ajuda da família mais recorrente, não?

A maioria branca que naturaliza a morte de negros é a mesma que chama mato de “sujo” e que precisa ser “limpo”, como sinônimo de desmate de floresta.

Ou seja, a branquitude rima praca com predação, racismo, etnocentrismo, não é preciso esperar algo muito diferente da maior parte dessa gente branca,vão por mim.

Por isso, querido, a resistência negra um dia virá, que eu vi, e à revelia de endossos brancos.

Resta aos, poucos, brancos conscientes que entendam serem também parte do problema e se contentar com sermos aliados, e rezar pra na hora do pau conseguir sobreviver.

Sim, somos o inimigo.

 

Tá pouco de faca, manda mais!

Jovens pedem fim do extermínio da juventude negra no ES

Jovens pedem fim do extermínio da juventude negra no ES

 

Absoluto asco do mimimi de classe média “Deus, estão matando pessoas na facada!”, porque é indignação restrita aos seus.

Morrem às centenas pessoas nas favelas e essa branquitude canalha se cala e apoia.

Apoia porque reflete a política de segurança brasileira onde a polícia é capitão do mato e cabeça de ponte da gentrificação, da barbárie estatal de isolamento étnico, de divisão da cidade entre cidade aquilombada e cidade aburguesada.

Esse ethos não é novo, tampouco deixa de ser um ethos renovado num medo branco que desde o império é o condutor do estado brasileiro e da construção de nossa divisão social e étnica de classe.

Como escrevi aqui:

Gizlene Nader em seu artigo “Cidade, Identidade  e Exclusão Social” (aqui) afirma que: “As preocupações com o controle da massa de trabalhadores pobres revelam o medo branco, ainda presente (…)”. Este medo branco persistente  se revelava em 1908 através de uma  política de controle das “classes perigosas”. Essas classes perigosas precisavam ter um espaço de trânsito controlado, serem vigiadas para que a “ordem” se manifestasse de forma absoluta, permitindo às Classes “bem nascidas” e “educadas” a liberdade de ocupação da cidade, do melhor da cidade, com o mínimo de contato com o que consideram inferior. 

Esta idéia foi colocada em prática através das reformas urbanas de 1908 quando foi criado um cordão “sanitário” da Lapa até o Rio Comprido, evitando a circulação das classes populares nas localidades de moradia da Elite.”

Esse ethos apoia a matança cotidiana de pretos e pobres, quase todos pretos, porque a ascensão de classe no Brasil é embranquecedora. Quanto mais alto o sujeito e a família chegam, menos pretos são e mais brancos ficam.

A classe média e a classe alta reagem com uma indignação à morte de brancos pelo crime inversamente proporcional à empatia que tem com a morte de pretos favelados. Porque o branco morto é um igual, o preto morto é ”aquela gente” que é um outro com o qual só temos alteridade no trem do samba, no carnaval ou quando fingimos civilidade vendendo nosso candidato branco “republicano” ou falamos de educação esquecendo dos professores cuja agressão pela polícia apoiamos.

À essa indignação eu respondo com um imenso FODA-SE.

Cada branco morto equivale a praticamente cem negros mortos cotidianamente e condenados previamente à morte pela suposição automática de serem criminosos.

Então ou se para a matança como um todo ou a morte é o resultado da política de secessão que apoiam. Então foda-se, que morram!

Que morram porque é esta canalhada afetada, branca, moradora de Leblon e Ipanema, Lagoa, que sustenta a política de desmonte de estado, de educação e saúde, que comemora governador dando porrada em professor, sucateando aparato de reeducação de menores infratores, que por serem pretos são tratados como “bandidos”, categoria desumanizadora que dessocializa e exclui de qualquer esperança qualquer menor infrator pobre e preto pego em flagrante. Enquanto isso a juventude branquela de classe média quando comete infração é condenada a “Está equivocada e precisa de orientação psicológica!”.

Menor infrator preto é bárbaro que merece a masmorra, branco é criança desvirtuada que precisa de apoio? Tá pouco de faca.

A facada é produzida por essa lógica, pelo abandono da juventude negra ao caos, à bala da polícia, ao desprezo e à redução da maioridade penal.

Por isso tá pouco de faca, manda mais!