The Bookchin is on the table

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Pensar ecologicamente é descentralizar, é construir holisticamente e descentralizadamente um processo coletivo de interação. É gerir-se e gerir a política para além da dialética e do diálogo, buscando a polifonia onde não que tente e nem se construa a síntese, mas se produza um processo que vá além da síntese, do amálgama do processo coletivo e horizontal em um processo amputado, sintético que que se conclui com a tentativa de unidade opinativa e não de construção coletiva concreta onde a isegoria se transforma em liberdade.

Ecologia demanda pensar de forma descentralizada e decentralizante, anti estatal, anti capitalista, indo além da proposta centralizadora da maior parte dos partidos e do próprio ethos partidário, de manter o estado e reformar o método de gerenciamento dele a partir de parâmetros socialmente avançados.

É preciso desconstruir a ideia de mudança pela gestão do estado sem mudar a estrutura, buscando dentro da institucionalidade centralizadora e hierarquizante construir um mundo idealmente descentralizado e comunal.

Se o ecossocialismo despertou em mim esta compreensão, a partir de Tanuro e Lowy, ao ler Bookchin entendi que ser ecológico é ser anticapitalista e antiestatista e que o centro das transformações está na tomada de poder pelas comunidades, pelas aldeias, pelos bairros, pelas mulheres, pelos velhos, pelos índios, pelos quilombolas, pelas crianças.

Se a anarquia despertou de novo em mim o antiestatismo que nunca foi embora e a ideia radical de que sem destruir a hierarquia não se tem anarquia, em Bookchin entendi que além de anarquizar é preciso ecologizar, é preciso ir além de ser horizontal sendo ecológico, participando ativamente da relação integral entre espécies, entre reinos, entre as diversas formas de existência presentes no mundo dito natural.

A ideia de Bookchin é revolucionária por si só quando ele discute a cidade e a ecologia a partir da necessária defesa da diversidade, do papel revolucionário dos bairros e das cidades na luta contra o estado e pela relação de vizinhança, de solidariedade comunal, que rejeita a hierarquia do estado impulsionando a opressão. A partir deste eixo ele constrói a teoria onde bebe em fontes amplas, desde a democracia grega até se referenciar nas associações comunais da Nova Inglaterra, presentes até hoje de alguma forma como eixo de tensionamento com o estado estadunidense em suas diversas esferas, especialmente nos condados e municípios, mas indo até mais longe que isso.

A ecologização da política se reflete para além do discurso, e mais, ataca o eixo de compreensão do estado, coletivos, comunidades partindo da lógica anti hierárquica. Este efeito influenciou os Zapatistas no México, os revolucionários curdos de Rojava e diversos coletivos anarquistas ou não mundo afora. E influencia, pois radicaliza na defesa da horizontalidade e da ideia revolucionária que sem diversidade e ecologia o pensamento anti hierarquia morre por falência múltipla de órgãos.

E por que morre? Porque é fundamental para a sobrevivência de um bioma que ali exista diversidade, ausência de hierarquia, relação de isonomia entre os entes que ali vivem, acesso a alimento, água, presença de múltiplas e igualitárias regras de existência paras que da árvore ao esquilo todos vivam para que nutram-se em equilíbrio.

A tosca analogia entre predador e predado esquece que o predador morre, apodrece, vira adubo que alimenta as árvores, que fornecem vegetais que alimentam os animais menores que alimentam os predadores. Com o perdão da analogia também tosca, mas a ecologia deixa claro que o mais forte não sobrevive sem uma relação de simbiose em algum nível com o mais fraco e que esta relação não é necessariamente opressora e nem precisa ser.

Não há como permanecer uma separação entre produção, economia, consumo, processos decisórios, judiciário, segurança, alimentação e saúde sem a compreensão dos efeitos de interligação entre cada elemento destes, de nossas vidas e do mundo dito natural.

Não há mais espaço, na verdade nunca houve, para humoristas ironizarem em rede nacional em programa de entrevista a luta contra a caça às baleias perguntando para que elas servem (Chico Anysio no programa “Jô onze e meia”).

Não há mais espaços para a defesa de crescimento econômico, de reformas urbanas, políticas, sociais sem a discussão sobre recursos naturais, responsabilidade no consumo, papel da indústria, da cultura de fábrica, direitos comunitários, laços de solidariedade comunal, conhecimentos tradicionais, clima, hidrologia,etc.

Não se pode defender um crescimento econômico a todo custo projetando-se no macro ignorando-se o efeito disso no cotidiano populacional. Mais, é criminoso pensar o macro ignorando-se o somatório de efeitos de processos decisórios nas múltiplas realidades do micro e seus efeitos.

Em suma, não é possível que se mantenha a cegueira optativa de entender que a ampliação de hidrelétricas na Amazônia tem efeitos daninhos lá e esses efeitos ecoam na crise hídrica do sudeste.

Não é possível ignorar que a ampliação do consumo de energia que segundo os “planejadores” da economia obrigam a investimento na ampliação de hidrelétricas e térmicas ocasiona ampliação do aquecimento global, mudanças ecológicas que interferem no regime de chuvas, na sobrevivência de espécias e que isso tem efeito amplo que vai da crise hídrica à ampliação de presença de contaminação por doenças antes desconhecidas a partir de insetos, por exemplo.

A centralização e hierarquização da política, dos processos decisórios, da própria lógica econômica, do estado, dos governos, da ideia de PIB, tudo isso é em si anti ecológico e por consequência criminoso e anti vida.

Enquanto a Economia busca a normatização,regulação e administração (Oikos = Casa; nomos = Costume ou lei) do lugar onde se vive, a Ecologia busca entender o funcionamento do lugar onde se vive (Oikos = Casa; logos = estudo ou lei). E quando a normatização ocorre antes da compreensão a coisa toda degringola.

Com o devido perdão da simplificação filosófica a partir da semântica, a ideia não distancia-se de uma análise mais profunda da relação entre percepção hierarquizante, centralizadora e autoritária do estado e a ausência nas tradições políticas estatistas de qualquer compreensão ecológica e resistência à ideia de horizontalidade, de gestão comunitária, citadina, de bairro, de rua a rua, de recursos, direitos, justiça, segurança, saúde.

Essa ausência de percepção, essa ausência de entendimento do coletivo, do comunitário, da cidade, bairros, vilas e ruas como eixo da vida cotidiana, das organizações sociais, dos grupos sociais, como fundamentos e não como elementos secundarizantes e secundarizados, provocam a percepção de que é lógica a instalação de grandes siderúrgicas que destroem a vida de pescadores artesanais e o bioma de Santa Cruz, como no caso da TKCSA ou implantam termelétricas como a de Pecém no Ceará, que se alimenta de enorme quantidade de água em uma localidade com enorme carência de recursos hídricos ou ainda pior no caso de Belo Monte, onde além de destroçar a vida de comunidades indígenas e populações tradicionais ainda secam uma grande área do rio Xingu atingindo desde aldeias indígenas até o óbvio, a vida animal e vegetal ali presente, sem considerar em nenhum momento o que isso vem a causar nos demais biomas, nas demais relações ecológicas que respondem pela sobrevivência do planeta e na nossa própria sobrevivência.

Esse descolamento não é sintoma, é a causa do processo de crise ecológica que se tornam visíveis com a crise hídrica e climática, mas cujos efeitos são muito mais amplos, talvez sequer tenhamos a compreensão total destes efeitos.

Até hoje não se tem compreensão completa dos efeitos do vazamento de petróleo das plataformas da British Petroleum no golfo do México. Os efeitos das mudanças climáticas, causadas pela ação humana em especial pela queima de petróleo e outros combustíveis fósseis, possuem efeitos claros e em andamento (Como a crise hídrica mundial, e mais especificamente no sudeste brasileiro), já denunciados e anunciados, porém há uma relação de reação em cadeia para cada efeito deste, a partir do somatório de danos ambientais localizados, que não se pode nem matematicamente medir, dada a grandiosidade.

Essa grandiosidade ocorre porque se pensa o macro ignorando os efeitos de cada ação no âmbito micro e como isso se reflete a partir do somatório de efeitos e das reações em cadeia produzidas. Pensa-se no macro sem na verdade se pensar no macro, ou entende-se o macro sem entendê-lo como um somatório de micros.

A chuva que falta e causa a crise hídrica também seca plantas que deixam de alimentar animais que deixam de ser alimentos de outros animais maiores. E o problema ai não é o aumento de preço no mercado, é a possível extinção de espécies, cujos efeitos não são facilmente mensuráveis e tem tudo pra produzir mudanças no meio ambiente que causam outros tantos danos e mais reação em cadeia.

Em resumo a partir do desprezo pelos processos micro históricos, no interior dos grupos sociais, dos biomas localizados, das micro relações no meio ambiente, a partir da estruturação de uma ideia de relações sociais, econômicas,etc que ignoram a vila, a planta, o bicho e só pensem no nacional, no estado, na transnacional, no continental e no mundial, mas do jeito errado, o que se pavimenta é a destruição estrutural e totalizante de tudo isso.

Por isso the Bookchin is on the table, porque é preciso descentralizar, ecologizar, organizar a transmutação de baixo pra cima, destroçando a generalização, a hierarquização, a ausência de diversidade, o autoritarismo da sociedade que naturaliza o estado e do estado propriamente dito.

É preciso ser mais vila e menos Governo, mais planta e menos plantação, mais bicho e menos manada.

The Bookchin is on the table, basta ler, basta agir, basta ser ecológico e horizontal, porque é lógico, porque é eco.

Jean, as nega e o movimento negro

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Jean Willys em evento recente em Brasília falou como teórico da comunicação pra cagar regra sobre como o movimento negro se sente. Então eu vou cagar regra como historiador pra explicar pra ele que 300 anos de escravidão marcam um país inteiro com racismo, e que inclusive teóricos da comunicação reproduzem  este mesmo racismo em seus elogios, defesas e sua brodagem aos autores, diretores e mandantes de sua nova classe.

Talvez ao ler Althusser demais se tenha lido Thompsom, Gorender, José Murilo de Carvalho, Sidney Chalhoub, João José Reis e Marx de menos, por isso se esquece como funciona a luta de classes, a formação da classe operária, a relação entre classe e costumes, o racismo, a criminalização da pobreza e da cor preta e como se constrói a distância entre a república prometida e a república entregue ao povo, aos pobres, aos pretos,etc.

Talvez por ser um novo querido da emissora global, e tudo o que isso significa em termos de defesa corporativa dela e de seu novo status e locus de classe, fora o deslumbramento clássico com o novo posto na institucionalidade, com o novo lugar de fala teórico e com o novo status social que o permite transitar de forma superficial pelo terreno pantanoso da conciliação de classes, Jean tenha se esquecido da empatia que jamais se furtou a cobrar , e recebeu, sobre sua causa principal, a luta LGBT.

Pena que a empatia que recebeu, e receberá enquanto lutador, não veio de volta para com negros e negras, um movimento inteiro, que contestam a emissora cujo diretor de jornalismo escreveu o livro “Não somos racistas” para negar o racismo da sociedade , do estado, da mídia,etc.

Pena que a empatia que cobra, com razão, quando em luta contra a homofobia não funciona para com negros e negras estereotipados, submetidos à cruel e racista lógica da falta de espaço concreto, contra a hiper sexualização das mulheres negras, contra a colocação do lugar de fala de negros sempre como pedaços de carne favelados,etc.

Pena que em vez de citar Althusser para silenciar o movimento negro, Jean não teve, como jamais teve, a humildade de reconhecer um erro e tentar ser tão dócil com o movimento quanto é com a burguesia e foi com o mesmo PT que abriu mão da CDHM da câmara pro Feliciano ao apoiar Dilma com uma plataforma que sabe, como todos que tem mais de dois neurônios sabem, que ela jamais porá pressão para realizar, a da criminalização da homofobia.

Jean que foi prolífico na acusação de que anular o voto era ficar em cima do muro, quando optou por um lado do muro optou pelo lado que tem a voz do branco, louro e que despreza os negros.

Realmente estamos de lado diferente do muro e foi até bom ser visto por quem tá do outro lado como diferente.

PERDEMOS

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Tenho quarenta anos de sonho, de sangue e de América do Sul, por força deste destino um samba da Portela me vai bem melhor que um blue.

Nestes quarenta anos sempre me peguei estupefacto com a facilidade que o discurso amestrado permeia as análises de conjuntura e o medo pânico do confronto como elemento fundamental do embate político e da superação de impasses, de opressões, etc.

O medo pânico do confronto traveste democracia de mediação e insidiosamente inclui entre os artefatos da lógica “de esquerda” a defesa de governos que elegem Katia Abreu como forte candidata ao ministério da agricultura.

Enquanto a Espanha inventou-se e reinventou-se no PODEMOS, nós poderíamos iniciar a fundação do PERDEMOS, porque desde quando não somos competentes pra superar o aprisionamento que o PT levou a toda esquerda e pós-esquerda e seguimos a pauta de seus discursos como única barreira da direita, a defesa do medo do PSDB, todos dançamos uma polca.

Enquanto isso o mesmo governo do PT age como barreira das formas de superarmos as condições objetivas do avanço da gentrificação nas cidades, dos severos danos ambientais que levam à seca no sudeste brasileiro, a uma política ambiental predatória e aliada à ampliação dos efeitos do aquecimento global, a uma política de DH que rifa direitos LGBT, de mulheres, negros que promove garantia de lei e ordem (GLO) nas favelas com uma repressão inaudita a pretos e pobres.

E permanecemos perdidos enquanto tomamos Trabuco na Fazenda, Cid “Professor tem de ensinar por amor” Gomes na Educação e provavelmente Katia “motoserra” Abreu na agricultura.

E na perdição seguimos agindo nas ruas e nas redes sociais como mediadores, defensores mesmo do Partido dos Trabalhadores, contra a imprensa, a mesma imprensa bancada pelo governo com vultuosas verbas publicitárias a ela destinadas, governo este que poderia produzir a regulamentação das comunicações de forma ampla, geral e irrestrita enquanto produtor de uma lei de medios prontinha, feita por Franklin Martins e jamais posta em prática.

Pra quem pensar nisso tudo se podemos coletivamente agir de forma impressionista enquanto emprestamos credibilidade ao governo, ao PT, a quem o banca de dentro e fora do PT?

Pra que pensar nisso tudo, pensar numa ideia ampla, estratégica de combate à direita se podemos nos ocultar no guarda-chuva petista, nos dar bem com os coleguinhas da universidade, do chopp da Brahma?

A ideia da política como um pagamento de preços que nos levam à mobilização contra as opressões mudanças climáticas e secas vai de vala. Não vivemos na maré, não somos quilombolas, índios e pra nós a defesa de direitos LGBT tem o limite da nossa percepção de classe do que são LGBT.

Votamos conscientes e “taticamente” no segundo turno das eleições e seguimos a nave que vai.

Pois é, jamais PODEMOS, porque antecipadamente PERDEMOS.

E PERDEMOS todo dia, toda hora, com o recuo do principal eixo partidário do campo da esquerda, o PT endossado por ela inteira, dos partidos aos anarquistas, com o avanço conservador promovido pela própria lógica de cooptação deste mesmo partido, avanço este promovido pela nomeação a cargos eletivos pela conjuração de uma ampla conciliação de classes promovida com maestria por uma burocracia treinada pr se manter no poder com base em uma eficiente gerência do estado e do capital.

Seguiremos rumo ao Brasil Grande, ao Banco dos BRICS, dane-se que anarquistas são presos isso é problema conjuntural momentâneo, Rafael Braga, Amarildo, Claudia, DG idem, tudo isso é esquecido porque e preciso combater direita antes que ela vire governo, ou quando ela ainda não é governo.

Enfim PERDEMOS, se seguremos perdendo.

E eu to velho demais pra isso.

O eterno retorno da esquerda

Ouroboros

O saldo da empolgação da oposição de esquerda com Dilma, usando como álibi a campanha contra Aécio, ainda não foi feito, nem sequer cheirado.

Pra mim se perdeu uns bons dez anos de trabalho meia boca de base. Pra mim se gastou capital político bancando a campanha do medo, sem nenhum aceno, sem nenhum sinal de guinada, retomada sequer de pautas mínimas, de não haver mais recuos….

Os mais novos e inexperientes vá lá, mas figuras públicas, parlamentares, todos caindo no discurso do medo, no papo do “republicanismo”, do mal menor, do “Sou consciente”, mal mascarando uma empolgação adolescente com a campanha bem fornida do petismo e com o carisma lulista.

A ala lulista do petismo, dentro e fora do PT, já diz que essa campanha foi a mais de massa desde 1989 e tende a explorar isso contra quaisquer crescimentos da esquerda partidária no decorrer dos próximos anos, usando contra os neo aderentes sua própria adesão.

Tudo isso, somado às falhas graves de percepção do real por parte da oposição de esquerda, traduzida na péssima relação com a esquerda e pós-esquerda não partidária, não me cheira bem, não me faz ver um saldo organizativo positivo pra quem faz oposição ao PT.

A sensação é clara: se jogou fora um bom esforço, mesmo que com um programa meia boca, de constituir uma campanha radical de formação de terreno crítico ao PT em nome de um cálculo temerário de ganho da opinião pública sob o rótulo de “equilibrado”.

No fim e ao cabo ao irem além da declaração de voto, parte da esquerda deu sinais de cooptação pelo PT, deixou claro que não há capacidade de resistir à direita sem a capa do PT, sem sair do guarda-chuva do PT. Se jogou fora todo um discurso de feroz oposição aos abandonos de bandeiras históricas da esquerda em nome de um cálculo temerário de adestramento à lógica de esquerda equilibrada, possível e republicana.

Não adiantam duzentas notas desmentindo o que figuras públicas nitidamente ignoram ao participar de atos públicos, ao participar de programa eleitoral na televisão.

Enfim, quem se diz necessário se torna uma tendência externa à esquerda do PT.

Quem da esquerda partidária pregou voto nulo o fez sob uma perspectiva que desmente a si mesmo ao participar das eleições sem denunciá-las cotidianamente e mais, sem reorganizar seu próprio discurso e diálogo com movimentos, etc.

Enquanto isso o movimento anarquista, enquanto acerta no trabalho de base se perde pela própria imaturidade de boa parte de seus novos adeptos e toca uma campanha de questionamento do status quo correta as com linha pedante e arrogante em muitos sentidos ao abordar a negação das eleições atacando quem vota. Algo que é natural tendo em vista a diversidade e a pulverização da própria ideologia e sua lógica de organização.

Enfim, enquanto o espaço de crescimento à esquerda só aumenta, a esquerda partidária patina em um mar de equívocos que são nitidamente uma falha de percepção estratégica, de consenso sobre unidade de quem prega unidade ou de ação coordenada na diversidade de quem prega diversidade. E por isso a reação à conjuntura de percepção de ideário libertário parece avanço conservador, mas é apenas reação organizada a um crescimento difuso desperdiçado cotidianamente pelos grupamentos anticapitalistas.

Há espaço pra recuperar o tempo perdido de quem souber aproveitar o medo pânico de sair da esfera histórica do PT e da forma partido tradicional, mas esse tempo não é infinito e nem a direita vai ficar dormindo e apenas reagindo.

Da onda conservadora ao crescimento da esquerda

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A tal onda conservadora é um processo mais longo, cujo avanço recente é superestimado e cuja análise impressionista tende a superestimar mais ainda.

Primeiro que esse processo não é uma onda, é um avanço paulatino que vem num crescendo eleição à eleição, a partir das guinadas à direita que o PT foi dando, além do crescimento de alianças do PT e do PSOL com partidos conservadores.

Não entendo que esse processo tem a ver com Junho, Junho é, na verdade, uma reação a isso. Esse processo de avanço conservador é a causa e não o efeito de Junho. E tem tudo a ver com as guinadas do PT à direita, aliança com o ruralismo, desenvolvimentismo removedor de pobres por causa de megaeventos, etc.

Junho não é responsável por essa eleição do congresso, Junho tem mais a ver com a abstenção e crescimento da esquerda, mesmo que pequeno no âmbito numérico e eleitoral. A reação conservadora de quem tava mais quieto foi só um evento oportunista. E acho que se confunde um avanço do fascismo com uma saída do armário de nossa velha cultura de opressão senhorial.

Heinze recebeu votos de ruralistas, de gente com mais presença no campo, com gente que tem um tipo de ódio a quilombolas e índios; Bolsonaro o voto do milico repressor homofóbico, do “bandido bom é bandido morto”; Feliciano recebeu o voto conservador moral, são faixas diferentes do eleitorado que nem sempre se cruzam.

Quem mais sofreu com a repressão não votou neles, quem não compactua com a repressão não votou neles. E não, não foi a maioria do eleitorado que votou neles, o eleitorado conservador focou neles, aliás, concentrou votos mais do que ampliou sua base de votação. O voto nos piores quadros foi um voto concentrado, o que cresceu no varejo foram votos em políticos conservadores ligados ao ruralismo e ai o discurso de progresso econômico funciona mais do que a lógica de posicionamento político repressor e conservador.

Vale lembrar quem eu torno do ruralismo se erguem Oásis econômicos em cidades pequenas e médias, como Campo Verde no Mato Grosso, onde se ergue uma cidade dos proprietários rurais e cuja economia fomenta empregos dos mais pobres. Esses lugares têm o peso político do voto ruralista que engordou essa bancada à direita no congresso. E essas cidades pequenas e médias cresceram muito no país, especialmente no centro-oeste.

Esses grupos não precisam dar golpe para estarem no poder. Ruralistas mandam e desmandam desde FHC. A ala conservadora fundamentalista se sente feliz pelo apoio destes à agenda reacionária comportamental e não quer muito mais que isso. Bolsonaros, minoria dentro dos conservadores, não é ultraliberal, mas ultraestatista.

Ruralistas como Heinze não querem redução do estado, querem um estado forte que impeça o avanço de sem terras/índios/quilombolas sobre suas terras e que subsidie sua produção.

Não existe “golpe utraliberal” em andamento, isso é uma variação tão ficcional quanto a ideia que o governo do PT está sob golpe constante. Aliás, bancos, empreiteiras, agronegócio e petroquímicas controlam o estado faz tempo. Não precisam dar golpe, quanto mais golpe de “ultraliberais”.

A ameaça ao projeto da burguesia hoje é um povo cada vez menos afeito ao acordão de classes que governa o país há doze anos e a uma ala da burguesia financeira que discorda de não ter lucro máximo e articula uma repactuação com os outros setores pra ampliar políticas que beneficiem um reajuste de alianças n plano da política externa que facilite lucros dos mercados financeiros, que aumente juros, etc, e só e essa galera se articula em torno do Aécio com mais força.

Estamos diante de um crescimento do fascismo? Bem, primeiro temos de parar de achar que tudo é fascismo.

Quando todo mundo é fascista ninguém é.

E é de uma irresponsabilidade enorme esse papo de que tudo é fascista ou que há indícios de golpe em andamento. Não há golpe em andamento e nem estamos diante de uma realidade com crescimento orgânico do fascismo.

O mais visível é a repactuação da velha elite conservadora em torno da conquista de hegemonia política e econômica com o crescimento do papel econômico do agronegócio no país com um crescimento, especialmente nas ruas e organizações, da esquerda, cujo reflexo eleitoral é menor do que o reflexo nas mobilizações.

Quem entende que cresce mais o fascismo que a esquerda, olhando só pro congresso, ignora uma série de coisas, como o crescimento da esquerda no congresso, como o crescimento de organizações anarquistas, autonomistas, saldo organizativo nos partidos de esquerda, número de candidatos de fora do PT com chances eleitorais, aumento numérico de parlamentares da esquerda eleitos e ligados aos direitos humanos, etc.

No RJ a esquerda cresceu mais que a direita, percentualmente mais e com penetração em áreas de milícia. Bolsonaro se elegeu batendo no teto, com pulverização dos votos, com clara evidência que ali se houve transferência de votos entre a direita, que muitos que votavam em deputado x da direita passaram a votar em Bolsonaro.

Além disso, organizações de professores, de favela, atuam com mais ênfase do que antes e se tornam mais visíveis. Idem são mais visíveis as contestações ao processo eleitoral nas periferias.

Há ainda as mobilizações indígenas, dentro e fora do processo eleitoral, as frentes quilombolas, uma série de elementos que indicam um avanço enorme das lutas para muto além da institucionalidade e que até justificam a reação conservadora, que apontam o motivo pelos quais se construiu essa reação.

É interessante inclusive olhar o mapa dos votos nulos no RJ, em SP, no Nordeste e perceber que estes votos nulos se dão inclusive de forma presente onde os programas sociais do PT mais atingem, o que permite entender que estes programas tiveram efeitos além da retirada da população da miséria, com acréscimo de exigências para além da saída da miséria. Além disso, não se endossou o PT, tampouco a oposição, ou seja, periferias e regiões inteiras do país não se viram representadas no primeiro turno das eleições. E nem falamos dos votos brancos e abstenções.

Por isso tudo, analisar o crescimento da bancada no congresso de forma impressionista tornando isso um crescimento do conservadorismo no país junta muita gente no mesmo saco, analisa quadros complexos de forma simplista e esquece que ao mesmo tempo em que mais deputados conservadores se elegem, existem diferenças entre eles e mais, existem diferentes recados do eleitorado.

Cês sabem que Bolsonaro não quer o estado mínimo que Feliciano quer e que Heinze não gosta nem do estado máximo de Bolsonaro nem do Estado mínimo de Feliciano? Claro que não, é mais fácil escrever “A diferença só existe pra enganar vocês”.

Cês tem ideia da diferença de Heinze, que faz parte da direita que exerce concretamente o poder, e Feliciano, que sequer cogita ter realmente o poder, e Bolsonaro, que tem planos de poder que assusta até os liberais e a direita tradicional?

Pois é, por isso é simplório, simplista e taticamente tolo ignorar essas diferenças e juntar tudo no balaio do fascismo, o que acaba sendo um cair na lei de Goldwyn. Além disso, entrar na teoria da conspiração do “golpe ultraliberal” é misturar iogurte com purẽ de batata. Primeiro que tem de ser claro: ou é fascista ou é ultraliberal.

Até existe um fascismo de novo tipo no mundo, que mistura alas ultraestatistas com elementos liberais e que passeia por ai como o Tea party estadunidense, mas os ruralistas brasileiros, mesmo os por vezes caem nesse fascismo de novo tipo, não são similares aos do Tea Party. Primeiro porque governam, segundo porque precisam e sabem que precisam do estado como parceiro pro avanço mundo afora. Segundo porque entendem que o principal é a garantia da expansão da produção e a garantia da posse da terra, o resto é secundário, inclusive questões de DH, que são apenas meio de mediação entre eles e o eleitorado.

É erro mor chamar de onda fascista o que é a recomposição conservadora dos últimos dez anos, assim como a lógica de que há um golpe em curso. Isso é ignorar a composição do poder pela direita, ou seja, pra que dar golpe se ela já manda, especialmente no congresso?

Pior é tratar a direita tradicional coronelista de fascista, misturando o caráter bolsonarico do fascismo brasileiro com o caráter tradicional da direita coronelista sintetizada n Heinze, Caiado, Kátia Abreu, que é uma direita que já controla o congresso e manda e desmanda na presidência por ser o eixo econômico do capitalismo brasileiro.

Com o agronegócio, penetrando inclusive no mundo financeiro através dos SISCOOB e Sicredi da vida, ou seja, o agronegócio tem banco, empreiteira, o caralho e manda e desmanda no país, pra que dar Golpe? E como chamar isso de fascismo igual ao do Bolsonaro, que é a cara do fascismo brasileiro se ambos divergem sob o tamanho do estado e a ideia de focar em DH para além da retirada de direitos indígenas?

Esse tipo de análise é fundamental para que saibamos como nos organizar diante dos inimigos a serem enfrentados. É fundamental saber concretamente a diferença entre os inimigos para saber como combatê-los. O combate à direita homofóbica é por um flanco, o dos fascistas por outro, o dos ruralistas por outro. Misturá-los e chamar todos de fascistas envenena nossa análise.

Primeiro porque Bolsonaro é muito pior que Feliciano e Heinze juntos, é o Boss do vídeo game do combate à direita. Bolsonaro faz todos os cenários de análise de conjuntura pirarem e acionarem o alarme da corrida pras montanhas. Segundo que o combate a Bolsonaro tem de ter o tamanho concreto do seu crescimento para saber a quem combater. E até o momento o que se viu é a supervalorização deste inimigo que teve ele um crescimento que não constitui ameaça orgânica fora de seu papel de fascista histriônico. Terceiro que a direita ruralista encastelada como jóia da coroa da economia é o centro da ameaça da direita e tá dominando o poder faz tempo.

Ao fim e ao cabo é menos hora de chamar de onda conservadora o que é um ongo processo e mais hora de organizar a resistência ou amplificar a resistência surgida em 2013 que erroneamente vem sendo tratada como causa do processo de reação conservadora e não reação a ela, e como responsável pela eleição da direita e não como um caudal mal analisado pelos analistas políticos, mal trabalhado pelos atores políticos e que ainda está em curso de resistência e mais, ainda está em busca de organicidade nos diversos movimentos.

Uma dica? Há resistência a partidos.

O elogio da loucura – Um desabafo

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Pra quem quer ter um parâmetro da desolação de quem viu ontem o debate entre os presidenciáveis e viu o discurso da questão climática ser abordado de forma absolutamente irresponsável, recomendo ler essa entrevista com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e a filósofa Débora Danowsky. Ou se achar muito grande é só ler o blog do companheiro de lutas Alexandre Costa. Também funciona procurar sobre crise climática, crise hídrica e crise ecológica no Google.

Se mesmo assim permanecer a dúvida da gravidade da omissão dos candidatos a presidente em abordar o tema das mudanças climáticas e se insistir no discurso produtivista de que sem mexer na economia nada muda, isso pra justificar uma análise macroeconômica que exclui a ecologia como fazem a maior parte dos militantes da esquerda partidária, eu apenas lamento.

Lamento porque o que se viu no debate pode ser definido como um elogio da loucura. E se o discurso do proto fascista Levy Fidelix chocou pela pregação da violência homofóbica, com razão, a omissão coletiva sobre este tema e sobre a questão climática mais que chocou, ofendeu.

Lamento ver o ecossocialismo, corrente do socialismo marxista que respeito e me formou como ambientalista, ser secundarizado num discurso pálido, omisso, frouxo, irresponsável.

Lamento ver que o ecossocialismo no Brasil é tratado como chacota especialmente no único partido que o mantém como um discurso a princípio apenas parcial, propagandístico, e com todas as oportunidades de produção teórica e política de formarem quadros ecossocialistas, candidaturas ecossocialistas, não o fazem.

O ecossocialismo no Brasil fracassa porque salvo raríssimas exceções é tratado como assessório, como discurso slogan e como discurso espetáculo que jamais é tomado em seu inteiro teor diante da gravidade da crise ecológica e da crise climática, uma embutida na outra e que ocorre na nossa fuça.

Ao tornar o petróleo cláusula pétrea e ao se omitir no abordar o fim dos combustíveis fósseis, metas de redução de emissão de carbono, programa de transição energética e vincular isso à agroecologia, mudanças nos parâmetros de consumo, alimentação, distribuição de alimentos, o PSOL, único partido com um setorial ecossocialista de peso, se omite de ser um partido necessário.

Se a forma partido pra mim já era desnecessária por um em número de questões e se essa sensação já existia quando eu paulatinamente tomava contato com o anarquismo verde e anarco primitivismo e os lia e entendia formas diferentes de organização na luta ecológica, ontem essa forma partido perdeu inclusive a áurea de tensionamento de discurso. Perdeu essa possibilidade porque na prática tensiona muito pouco e perde todas as oportunidades de sair do discurso de combate aos bancos e ao discurso udenista moralista e partir pra porrada concreta com relação às opressões e à crise ecológica.

Não foi só Luciana que perdeu oportunidades ontem, foi o partido. Luciana perdeu oportunidades no debate e é tratada com condescendência por seus companheiros e militantes e nome do espírito de corpo, que na prática também corroboram com ela na completa ignorância da questão ambiental.

Ontem, além do asco que a empatia com todos os LGBT me leva a ter após o desastre da omissão coletiva diante do discurso fascista de Levy Fidelix, me senti como um lixo humano de ter construído por anos uma luta ambiental totalmente ignorada pelo partido e por hoje sua principal figura pública.

Se minha adesão ao PSOL havia falecido quando me voltei novamente para a militância anarquista, ontem vi qualquer resquício de respeito ao programa ecossocialista por parte da candidata ser jogado fora pela manutenção do desprezo pela ecologia em nome do discurso fácil da macroeconomia mais ortodoxa.

Ontem Luciana Genro sepultou o ecossocialismo no PSOL. Eleger deputados foi mais importante que isso. Eleger deputados foi mais importante que a manifestação de completo repúdio à homofobia. Eleger deputados e atacar o PV foi prioridade ao invés do discurso ambiental.

Ontem o PSOL definitivamente acompanhou o PT, o PSB, o PSDB no elogio da loucura.

O partido do SOL ignora o sol como fonte de energia, não se declara ao sol, não fala do sol, não toca no totem do petróleo sonhando um dia ser poder pra entrar na OPEP.

Ontem a democracia fracassou, o meio ambiente fracassou, os indígenas fracassaram. Toda a luta ribeirinha, indígena, quilombola foi secundarizada junto com a luta LGBT, outra luta que vira slogan bonito, mas que fora a defesa correta do casamento civil igualitário quando se fez necessário o enfrentamento direto à homofobia se preferiu seguir um script.

Esse marxismo é o marxismo que veste a farda da crítica anarquista ao marxismo. Esse marxismo leninismo de cartilha, pobre, parco teoricamente, omisso e covarde, não é o marxismo de Thompsom, de Lowy. Esse marxismo não é sequer o marxismo de Marx.

Esse Marxismo teológico e teleológico que acha que a revolução é um dado histórico, esse mecanicismo obreiro e disciplinado que ignora o atropelamento da ecologia no cotidiano, sendo cúmplice dela ao tratar a crise ecológica como palavra de ordem. Esse marxismo de galinheiro que opta por elogiar a Diva em vez de perceber a cagada que foi o conjunto da obra da opção entre a defesa de um programa que varreria Eduardo jorge para seu lugar de capacho verde da direita e o ataque às alianças do PV e do silêncio diante da homofobia explícita de Fidelix. Esse marxismo de galinheiro é primo dileto da burocratização e da cooptação do estado.

O PSOL ontem fez seu canto do cisne pra mim, definitivo e completo. O partido “necessário” se tornou desnecessário arremedo.

Quando a principal voz da esquerda guetificada pelo conjunto de sub-radicalismo com oportunismo eleitoreiro opta, em sua melhor chance, por seguir um script careta e um discurso de eleição de DCE em vez de assumir a responsabilidade sobre a crise ecológica e sobre o combate direto à homofobia ali presente, gritada, ai já deu, sua necessidade não existe mais.

Lamento profundamente ter visto a comédia de justificativas pobres, de ataques velados ou abertos aos críticos ao invés da análise crítica do tamanho da oportunidade perdida.

Pela primeira vez em muitas eleições a crise climática entrou na pauta, mas a atriz com o melhor papel para atuar sobre ela, preferiu o script errado.

Desde que batemos todos os recordes negativos do acúmulo de CO² na atmosfera, que batemos recordes de temperatura, desmatamento, desde que entramos em profunda crise hídrica em um dos países praticamente proibido de tê-la, se exige mais que discurso ecológico da boca pra fora, de discurso ecológico capitalista ou de discurso de privatização das florestas. Mas quem tem como fazer esse contraponto optou conscientemente por não fazê-lo e reduzir o debate a um combate ao desmatamento, sem citar desmatamento zero e pior, ainda gastou mais da metade do tempo pra bater nas alianças do PV em vez de discutir o programa.

Não é de hoje que o debate ecológico no PSOL é negligenciado. Enquanto há setorial não há nenhum respeito a ele, menos ainda absorção das políticas por ele defendida. Diante disso como ter fé em um partido que despreza seu próprio programa ecossocialista?

Diante disso como aturar críticas ao “Não vote, lute!” que diz que nenhum partido cumpre seus programas ou pode garantir este cumprimento se a própria candidata ao assumir a tarefa foi incapaz de seguir seu próprio programa?

É muito fácil questionar os críticos às eleições em nome de argumentos como “Não votar fortalece a direita”, enquanto se discursa um discurso que fortalece a direita, o produtivismo, o negacionismo climático, etc.

É muito fácil questionar a desilusão alheia contribuindo para ela.

Depois se reclama o baixo percentual e se culpabiliza quem abandona o barco, é sempre a saída mais fácil. É sempre mais fácil transformar tudo em mágoa.

Enquanto se constrói um partido que despreza a luta ecológica, se critica quem faz a saída das ocupações, das ecovilas, como lutadores pela saída individual ou pontual, mas estes ao menos estão concretamente reduzindo emissões e discutindo emissões de forma pública e apontando soluções.

E os partidos? O que fazem além de transformar debate político em sociedade do espetáculo, tratando o desenvolvimento como panaceia acrítica, ignorando a necessidade de decrescimento da economia, de redução da estrutura econômica predatória, da obsolência programada, d consumismo devastador, de combate imediato à crise ecológica? Nada.

A ideia do desenvolvimento das forças produtivas, dogma perpétuo dos nano marxistas de cartilha, impede os partidos de olharem pra fora e verem o desastre.

Talvez pensem que no longo prazo estaremos todos mortos. E talvez seja ai a única vez que acertam.

A naturalização do estado e da eleição como elemento estrutural

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A naturalização do estado é um processo arraigado e produzido pelo reforço na cultura e pela educação formal dele como elemento que sustenta a realidade social e que possui uma inevitabilidade, a inevitabilidade do estado e da nação.

Fruto da formação dos estados nacionais e do conceito de cidadania advindo das revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX, da invenção da tradição do estado como elemento inevitável à organização social, a naturalização das eleições, do voto e do estado é elemento que influi diretamente nos debates políticos, seja eles de cunho socialista, anarquista ou liberal.

A partir do momento em que o estado é algo dado, para além de sua existência factual, se elabora todo um processo estratégico de embate em torno das formas como que se lida com ele, seja pelo endosso para construção de ruptura, seja pelo endosso para reforma, seja pelo endosso pela manutenção, seja pela recusa do endosso pela negativa do voto e da participação nele.

O estado, visto como elemento natural da vida humana, é erigido como totem seja pela busca de seu uso para a transformação, seja por seu uso pela manutenção do status quo, seja pela criação dele como moinho de vento a ser removido.

E é nesta naturalização que repousa parte da redução do debate político em torno do estado e da aprovação ou negação do voto como ferramenta transformadora. O estado é discutido, combatido, é defendida sua reforma, mas ele jamais é abandonado ou se busca sua superação como paradigma.

O paradigma do estado naturalizado está intrínseco na percepção politica dos mais variados campos do embate político. Em qualquer cenário a importância do estado é endossada, inclusive por sua negação.

Especialmente nas eleições o estado domina mentes e corações ao tornar-se centro de todo e qualquer debate no âmbito político, de toda tarefa, secundarizando construções múltiplas de transformação social e humana, como a luta ambiental, por igualdade de gênero, por visibilidade trans*, por direitos civis LGBT, por igualdade racial. Tudo se torna secundário, a luta pelo ou contra o estado se torna central, jamais perpassando as ações transversais de sua superação ou transformação.

E especialmente entre anarquistas o estado se transforma em mais que um moinho de vento e espantalho perfeito, ele se torna presente na metodologia de debate e construção, que ao mesmo tempo que grita “Não vote, Lute!”, reforça as eleições como tarefa prioritária, criando uma centralidade das eleições com sinal invertido da dos partidos socialistas.

Tudo se torna uma ameaça paranoide à ideia de anarquia pelo simples fato de flexibilizar a centralidade das eleições e apontar a necessidade de desconstrução do voto como ferramenta a partir da desconstrução do paradigma da eficácia do estado e do papel central de seu endosso para a ótica política transformadora.

Ao centrar esforços na negação do voto pura e simples, sem construir um diálogo desconstrutor do papel estrutural do estado na cultura dos homens, os anarquistas acabam o endossando pela alteridade. Ao negarem-se a perceber o papel do estado como elemento naturalizado por séculos de construção ideológica pelas escolas, pelas igrejas, pelo trabalho, os anarquistas endossam o estado como figura central na vida humana. Não se avança na negação ao voto, mas não do eleitor, torna-se o eleitor como vaca braba tangida pelo estado e se assovia um mambo. Se age de forma autoritária excluindo qualquer reflexão que entenda a anarquia como um campo com enorme potencial de crescimento e que precisa prescindir do estado para sobreviver e se espalhar.

Quando negar o voto passa a ser central, o resto é secundário e o voto ganha um poder pela negação que não é enxergado, pois o estado, o voto, são naturalizados como parte integrante do cotidiano. Ao negar voto pura e simplesmente o anarquista torna-se endossador do voto, se dá a ele, às urnas, um poder que precisa ser eliminado pela negação.

Óbvio que não estou aqui dizendo que o voto não é importante, que não é importante a tarefa de negar o processo eleitoral como ferramenta, mas colocando que a negação do voto não pode prescindir da qualificação dessa negação como negação da servidão voluntária. E o não-voto não é central, ele é parte de um longo processo de lutas contra o estado e por auto-organização, que precisa ser centralizado como forma de propaganda político-ideológica.

Ou se nega o voto pura e simplesmente por que anarquista não vota? Se pergunta por que anarquista não vota? Ou se naturalizou o não voto como se naturalizou o estado?

O estado ai, na negação pura e simples do voto, permanece agindo, permanece agindo ao criar um anarquista de almanaque, imune às pressões cotidianas e avesso ao diálogo aberto sore sua negação do voto, do estado, do machismo, da homofobia e pautado pela construção da abolição da hierarquia. A negação do voto vira um fetiche ideológico, um totem tabu irremovível e inquestionável, em outras palavras, vira um nada libertário dogma.

Acaba-se negando-se o voto, mas trazendo-o como central pro espírito da anarquia e com ele trazendo o estado como central, o resto é secundário e acaba-se sendo o estado ao negar todo diálogo em torno do voto, mesmo que seja para negá-lo indo além dos facilitismos de chamar o eleitor de escravo, servo, etc. Opta-se, conscientemente, por uma metodologia de gueto, de manutenção ao redor do anarquista apenas dos puros.

Ai autores como Bookchin, ações como a dos anarquistas escoceses, canadenses e catalães que viam no plebiscito ou na participação pontual em eleições por anarquistas como ferramenta de intervenção, seja para a independência de um povo do jugo do imperialismo, seja pela participação em plebiscitos ou em conselhos como os de orçamento participativo, tudo isso vai pro lixo.

Nesse sectarismo o estado acaba sendo elemento predominante da prática política anarquista, não por negá-lo combatendo-o em saídas do estado, seja por ecovilas ou pelo anarco-sindicalismo ou okupas, mas por centrar-se na negação da institucionalidade pura e simplesmente.

A negação da institucionalidade acaba sendo ai uma opção pela luta institucional quase igual à opção dos partidos socialistas, só que com sinal contrário. Acaba-se fazendo da negação do voto opção estratégica e não tática, de forma idêntica ao que fazem partidos socialistas, só que pela negação do voto.

Ao fim e ao cabo não se combate o estado como se combate o machismo, a misoginia, a homofobia, o racismo, a transfobia, como estrutural, como um mal estrutural que deve ser desconstruído de dentro pra fora, indo além denegá-lo, mas deixando de reproduzi-lo.

Desta forma nega-se o estado pra fora, sem negá-lo pra dentro e assim o companheiro anarquista acaba sendo ele o estado. E ai ele é tão autoritário e hierárquico quando o que nega.

A busca pelo purismo ideológico, calando a diversidade e a polifonia, acaba sendo ai um elemento de hierarquização entre anarquistas que encontraram a iluminação libertária e anarquistas não plenamente convertidos. Não raro isso acaba sendo posto no plano do argumento de autoridade que incide sobre o outro com o argumento hierárquico do “Vai estudar!”.

Quando se comete essa hierarquização e política de gueto o anarquista nega mais do cerne da ideologia do que quem vota, pois atribui a si um guardião de uma pureza ideológica que nega a diversidade típica da ideologia anarquista e acaba sendo uma espécie de guardião de um conhecimento de sociedade secreta, um imitador de uma espécie de maçonaria ideológica.

E é sintomático que tendo o não-voto como cerne da política se ignore a misoginia, a homofobia, o machismo e o racismo praticado por companheiros anarquistas, que por seguirem a cartilha com correção recebem anuência por omissão de seus correligionários.

A eleição e o estado são naturalizados pela educação e pela cultura, para combatê-los é preciso mais que negar-lhes, é preciso sair do plano meramente utópico e partir para um diálogo prático da anarquia como fundamentalmente organizada a partir do hoje e onde o negar o estado é negar-lhe inclusive o domínio da ação política cotidiana, é negar-lhe a pauta política pela eleição.

Se anarquista não vota ele menos ainda se centra na campanha anti-voto, que é sim parte de um arcabouço de lutas que deve ser central na propaganda ideológica.

Quando o “Não vote, Lute!” não aponta as lutas a serem lutadas é uma palavra de ordem vazia.

Quando o anarquista aponta o eleitor como servo ele age como senhor iluminista catequizador e não como libertador.

Por isso não voto, luto contra combustíveis fósseis, contra a homofobia, contra a misoginia. Não voto e luto, sem negar o eleitor e o diálogo para que este vá além de votar, se organize na luta cotidiana.

A luta contra o estado e a eleição necessita de sua desconstrução inclusive em nós.