Usar politicamente as ferramentas, redes sociais e internet? Sim! Mas, apenas atuar nas ferramentas não!

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Desde há muito tempo percebemos que a atuação política via internet é muito forte.

Há dez anos apenas parte da internet era usada para ação política, na maior parte para articulações ou circulação de informações via blogs, listas de e-mail, sites,etc.

Hoje em dia a internet é parte importante de ação política, agitação e propaganda via seus inúmeros meios e ferramentas.

É possível atuar na internet em blogs, redes sociais das mais variadas, nestas com enquetes, memes e a clássica circulação de notícias dos mais variados veículos.

Há também abaixo assinados virtuais como Avaaz ou Change.org e ferramentas de governança via internet como e-cidadania.

Além disso, há ferramentas de pressão, que utilizam e-mails de vereadores e deputados para envio em massa de protestos e reivindicações, como Meu Rio e Panela de pressão.

Tudo isso é extremamente válido e funcional, facilita em muito as coisas,especialmente pra quem é mais velho,mais cansado, com mais problemas de mobilidade.

Também são ferramentas de formação muito eficientes, é possível trabalhar de forma a construir debates e discussões, apontando erros,acertos, caminhos, trabalhar releituras dos clássicos políticos, inserir ganhos teóricos ao debate político,etc..

Os blogs são, ainda, meios de atuação muito interessante para construir propostas teóricas, debates fraternos, crítica e autocrítica. Medium e ferramentas similares também.

A questão é: Essas ferramentas bastam? A meu ver a resposta é simples: Não!

Sem ocupações de escolas, terras, órgãos públicos, ruas, sem pressão cotidiana no estado e nas comunidades, sem escolas de formação, sem construção de assembleias de decisão horizontal, sem construção de redes de economia solidária, de política solidária, de compartilhamento de informações, arquivos, músicas, produção artística e conhecimento nada disso serve para muito além de alívio de consciência pesada.

Política se faz na rua. Quem faz política de gabinete é quem senta na representação e a partir dela usufrui de um poder delegado como se fosse seu. A estes interessa a militância estritamente virtual.

O problema é que cada vez mais mais e mais gente, especialmente entre diletantes e anarquistas, a militância virtual é a única e parca atuação. Por isso muitas vezes o militante virtual é um militante cujas contradições presentes em nós todos aparecem mais claras.

Na militância virtual há o LGBT machista, o anarquistas racista, o socialista homofóbico e por ai vai.

Outro fenômeno é a santa inocência, presente em todos, mas berrante na direita, que aceita informações, quaisquer uma, como verdade mesmo que a fonte seja uma só, sem nenhum endosso de qualquer outra, por mais absurda que seja. Um sub fenômeno desse é aquele clássico “Repassem até chegar em..” mesmo o objetivo final do protesto seja um ator político, como Temer, que vai cagar gomas asiáticas forjadas em Wakanda ao ler o tal protesto.

A relação “mágica” com a Web como se uma voz fosse ouvida com respeito por ser uma voz, u pensamento liberal inclusive, é a crença em coelho da páscoa aplicada à ideologia.

A relação “mágica” com a Web também substitui o Jornal Nacional na cabeça de milhões de brasileiros cujo analfabetismo funcional abraçado à preguiça monstra de olhar a data de notícias transforma qualquer notícia de 1983 em um meio de atacar personagens nascidos em 1996.

Isso tudo é parte da ausência de concretude das lutas, da ausência de vivência de militantes entre si e na comunidade, de ausência de conhecimento prático da política e da extensão do efeito das ações políticas.

Outra coisa linda desse fenômeno é o uso de notícias pelo teor negativo dela para o inimigo, sem sequer fazer um comparativo crítico desta mesma notícia quando aplicada a aliados.

Por isso Temer cancelando o FIES pra uma universidade é mais grave do que Dilma fazendo exatamente o mesmo pra duas, porque é ele, ele é inimigo e ponto.

E a politica nisso? Foi transformada em menos do que intriga de quinta série. Briga de torcida é menos rebaixada.

O interessante desse fenômeno é que ele trabalha em paralelo com outra forma de despolitização feita via internet e pela mídia: A santificação da política institucional como único caminho da atuação política e a transformação da ideologia em uma espécie de arque tipificação de grupos sociais sem nenhum tipo de relação entre o que é o comunismo, por exemplo, e as ações cotidianas dos atores políticos da política institucional, o mesmo para o liberalismo, o conservadorismo,etc..

O mais engraçado é que os mesmos cientistas políticos e âncoras de TV, comentaristas de sites cobram uma política mais “ideológica” e ”programática” enquanto esvaziam em seus discursos toda política de sua ideologia e programa.

Esses comentaristas, cientistas políticos,etc, trabalham com a política como se fosse um manual da institucionalidade estruturalista do XIX, um manual recortado, que ignora a complexidade do real e trabalha as instituições francesas, inglesas e estadunidenses como idênticas as brasileiras porque tem o mesmo nome e porque as constituições dialogam. Além disso, transformam o MST em ideológico, o Bolsonaro em não -ideológico. Difícil dizer quanto isso é estupidez e o quanto é desonestidade intelectual.

Quando juntamos esses fenômenos o que temos?

Uma redução da política a um teatro de aparências e ações que esvaziam as ruas e todo o locus de disputa cotidianos e a transformam em ferramentas de representação, em suas múltiplas formas de categorização, onde o parecer ação é mais importante que a ação.

Esse tipo de mimetização da política em parecer política acaba permitindo que o “engajado” seja apenas um construtor de memes, enquanto isso as ruas, as praças, os parlamentos, os debates nas padarias e botecos tornam-se hegemonizados por um senso comum que nunca vai ler o construtor de memes e abaixo-assinados da esquerda porque ele jamais leva esse debate com ele pra rua. Na rua ele é anônimo.

E ser anônimo na rua é ser nada.

Fazer política é, de alguma forma, ocupar as ruas. Nem que seja construindo aulas, falando na padaria,mas sempre, disputando espaços ideológicos.

Construir apenas virtualmente, podendo ir além, é fazer menos de 10% do processo necessário pra mudar o mundo.

Não adianta compartilhar meme até chegar em Temer, isso sequer é engraçado.

Do Impeachment ao stalinismo: A ampliação do silenciamento de mulheres, LGBT, Negros e índios

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O Brasil passa por milhares de problemas hoje.

Pós-impeachment de Dilma ele acrescentou a uma crise econômica gravíssima dentro de um contexto mundial, um nível de ruptura institucional complicadíssimo pra quem vive a luta institucional.

Acrescente a ampla descrença no sistema político brasileiro que vem em um crescendo ao menos desde 2013 um avanço de conservadores, amplifique com desconfiança tácita em todos os partidos, um judiciário ativista com flexibilidade ética, um governo interino ilegítimo e uma esquerda imobilizada, voilá, temos um caldeirão pronto pra requentar o caos.

Pra piorar o governo ilegítimo acha que o impeachment os legitima pra uma guinada de 180º na linha política já tímida do governo anterior em relação a direitos e a esquerda partidária pira na batatinha endossando o que o Governo Dilma e o PT mais querem: A irreflexão sobre os anos de concessões que pavimentaram o golpe transformada em apoio acrítico, recheado de pânico, ao Partido dos Trabalhadores como se um golpe fosse uma espécie de morte, que a tudo santifica.

É de um lado Alexandre de Moraes afirmando que usará a lei antiterrorismo pra meter a porrada em manifestante e quem criou a lei antiterrorismo e foi cúmplice de violência contra manifestante na copa e sócio do agronegócio no ataque a indígenas dizendo que são lados opostos, porque Dilma foi apenas péssima em DH, enquanto Temer é o horror.

Só que tudo fica mais pantanoso e até leviano quando nos pegamos lendo atitudes que envergonharia a esquerda se essa não tivesse perdido a noção de ética e do que é nossa moral em relação à da burguesia faz tempo, nessa marcha de naturalização do Stalinismo como se fosse pragmatismo e da secundarização de lutas como se fosse “foco na Luta de Classes”.

Bem, o PT e parte da esquerda partidária não satisfeitos em mimetizar a mídia corporativa para atacar Temer, como se precisasse, também está utilizando o momento crítico pra fazer uma caça às bruxas a toda a esquerda que atuava nos movimentos ampliando as pautas e exigindo mais direitos, especialmente os movimentos calo pro PT e governo como LGBT, Mulheres, Negros, Índios, Trans, etc.

Além do clássico “Não é hora de criticar o PT” temos agora o “Essa galera que problematizava turbante, essas ‘‘feminazis’’ são também participantes do golpe!” e variações da ladainha numa ressurreição do movimento de criminalização de ativistas produzido em 2013 que chegou ao ponto dos MAV do PT espalharem fotos fake de anarquistas empunhando bandeira nazista, foto manipulada por Photoshop que apagou o A anarquista e pôs a suástica.

Pra completar ninguém da esquerda partidária faz a mínima autocrítica sobre sua participação na criminalização de anarquistas e autonomistas feitas de 2013 pra cá, e não só, atua pra aparelhar as ocupações de escolas e transformar todo movimento de resistência a Temer em parte da “Frente Povo sem Medo”.

Se juntarmos o avanço de silenciadores secundarizadores de luta tentando silenciar mulheres e negros com o aparelhamento da indignação não é difícil entender o que temos pela frente: além da luta antifascista, que não recebe um pingo de ajuda dos partidos da ordem como PT, PSOL e PSTU, ainda temos um avanço de uma concepção stalinista de esquerda que é um avanço autoritário terrível para a esquerda.

E sim, esse momento contém mais perigos do que podemos imaginar. O avanço do Stalinismo dentro do campo das esquerdas naturaliza o autoritarismo como solução.

Some a contaminação autoritária da esquerda à ampliação do caudal autoritário na sociedade como um todo e o resultado não é exatamente cheiroso.

Se a esquerda é autoritária e a sociedade também é não há Chapolin Colorado que nos salve.

Em tempos onde escolas ocupadas sofrem ataques violentos de estudantes financiados pela direita para agredir quem as ocupa é perigosíssimo transformar quem deveria resistir a isso em espelho.

A complexidade dos problemas e da conjuntura exige mais do que uma reação dura aos ataques conservadores, ela exige uma reação qualitativa ao avanço do conservadorismo.

Não precisamos e nem podemos responder autoritarismo com flores, mas também não precisamos ou podemos responder ao conservadorismo com autoritarismo centralizador, silenciador e até misógino e racista.

É nessa hora que precisamos entender a diferença entre nós e eles. E ela não é só de um suposto lado que ocupamos e arbitrariamente definimos como se fossem uma manifestação binária maniqueísta.

A diferença entre nós e eles é também de valores, de busca de abolição de hierarquias, classes, fronteiras, opressões.

E não, isso não é sonhador, isso é identitário, estruturante.

Não podemos manipular manchetes pra desqualificar Temer, não precisamos disso, temos a defesa dos DH e a luta contra sua violação como tarefa, e isso já dá um enorme caldo pra batermos no governo ilegítimo.

Não, não precisamos sacanear movimentos autônomos ou a luta contra o silenciamento, debatedora do lugar de fala, e contra a apropriação cultural racista pra supostamente focar na luta de classes sufocando “desvios”, porque a luta anti racista e contra privilégios,misoginia, machismo e homofobia SÃO A LUTA DE CLASSES.

E também não precisamos fantasiar o governo Dilma pra chamar Temer de um horror.

Essa é inclusive a hora de E-XI-GIR do PT uma plataforma de real guinada à esquerda, uma reversão programática do que vinha fazendo, concretizando promessas jamais cumpridas, isso pra começar, e não para agirmos como esquerda domesticada pronta a servir o tutor do Campo da esquerda na hora em que ele precisa, mesmo sem merecer uma linha de confiança.

Precisamos inclusive entender que as fragilidades do governo Temer tem tudo pra miná-lo mais cedo do que a imprensa encantada com o governo reaça deseja e sequer percebe. E que essas fragilidades fatalmente porão de novo o PT no governo, ou ao fim de 180 dias ou em 2018,mas que recebendo endosso ao que foi Dilma baseado numa espécie de amnésia causada pelo pânico teremos a continuidade de governos terríveis pra DH, meio ambiente, indígenas, favelados, etc..

Não basta, portanto, resistir a Temer, derrubá-lo, precisamos também derrubar no PT o que levou Temer a ser presidente ilegítimo.

E não faremos isso com silenciamento e adesão acrítica, precisamos de mais e um bom começo é saber que nossa moral e a deles não é a mesma.

O que fazer no dia depois de amanhã?

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A esquerda vem sendo reativa há tempos, isolada em seus castelos, transformada em assessoria de gabinete de governos, movimentos organizados inclusive, desde muito tempo antes do PT assumir o poder em 2003.

Funcionou por muito tempo a relçação entre movimentos, partidos, governos e mandatos. Construiu caminhos através da burocracia, programas de governo e projetos de lei.

Só que enquanto se acostumava com a relação íntima com palácios a esquerda foi paulatinamente perdendoas ruas, e quando percebeu isso, especialmente em 2013, outras forças da própria esquerda e da direita começaram a ocupá-las. A saída pra governos e partidos vinculados à esquerda foi criminalizar quem ocupava as ruas, colocando todos no balaio do fascismo.

Isso esvaziou as ruas por um tempo até que a direita se reorganizou, amparada por governos explicitamente de direita, e voltou pras ruas, amparada por policiais que construiram publicamente a diferença entre “manifestante” e “militante”, o segundo, “comunista”, deveria ser reprimido, os demais não.

Atônita a esquerda partidária permaneceu longe das ruas. Aprisionada e processada, a esquerda não partidária também, embora atuasse fortemente nas ocupações de escola, manifestações por passe livre, etc, atuando em geral por vias menos ortodoxas, mais próximas às periferias e vinculadas a bandeiras mais práticas e cotidianas.

E cresceram os movimentos de direita, a classe média conservadora tomou gosto pelas manifestações sem política, sem repressão policial, com muita festa, anticomunismo, ódio racial, ódio a LGBTTS, feminismo e em especial ao comunismo. O fascismo começava a pôr a cabeça de fora.

A esquerda, aidna atônita, mas percebendo o perigo de impeachment saiu às ruas por um breve tempo, depois voltou a aguardar com a fé dos incansáveis, uma solução salvadora vinda das articulações palacianas de suas figuras públicas.

E não teve solução, não teve articulação que desse jeito, Dilma caiu, Temer assumiu com um ministério mais conservador que o de Collor.

Enquanto tudo isso acontecia várias manifestações antifascistas e ocupações de escolas ocorriam, com a esquerda partidária as ignorando ou tentando se apropriar delas pela via de UBES e UNE sem muito mais do que dezenas de estudantes ocupando o Parlamento, enqquanto nas escolas alunos auto-organizados tocavam o baile do ativismo que transforma, conseguindo em São Paulo uma CPI da Merenda e no Rio o fim do SAERJ (Prova de avaliação de “desempenho”). As ocupações horizontais permanecem em vários lugares, como em Goiás, Porto Alegre, Fortaleza.

E ai, e o resto da esquerda, o que faz no dia depois de amanhã do Impeachment de Dilma?

Bem, pouca coisa prática além de choramingar sobre o recuo conservador que é o Governo Temer e listar publicações internacionais criticando o impeachment de Dilma.]

Zero de análise, de auto-crítica, de propostas, zero de percepção de algo além do óbvio sobre o processo.

Parece que Temer, vice de Dilma, desceu de um disco voador vindo de Marte.

A esquerda petista lembrou outro dia que os índios existem e colocou que com Temer eles vão acabar. Bem, pode ser, inclusive Temer precisa apenas olhar como Dilma produziu parte do processo de extermínio indígena e repetir, nem precisa reinventar a roda.

Esse é parte do problema: Cadê ao menos o “Foi mal!” do PT sobre os recuos que empoderaram essa direita que o golpeou pra gente começar a conversar coletivamente sobre resistência? Não vai rolar? Não, não vai rolar, mas então, que tal ao menos propor caminhos de resistência além do Avaaz?

Não sei se vocês notaram, mas dizer o óbvio, que o ministério Temer é um horror, não o transforma no Coelhinho da Páscoa.

A ausência de mulheres e negros, a transferência da titulação de Quilombos pro MEC não é apenas um informe, é uma prática entrando em ação. Alexandre de Moraes na Justiça idem, significa que o pau vai comer.

E não, não adianta vir com aquele papo brabo de “Viram? Sem o PT é pior!”, porque senão a gente lçembra a responsabilidade do próprio PT com alianças à direita e empoderamento do mesmo PMDB dentro dos governos Dilma e Lula. Sim, sem o PT é pior, mas com o PT não estava bom e metade do ministério Temer também foi ministério Lula ou Dilma, de Henrique Meirelles a Henrique Eduardo Alves, Jucá, Kassab, etc. Melhor mudar de assunto, não?

Então, estão vendo as escolas? Estão vendo as manifestações antifas? Que tal baixarem a bola e a sbandeiras e colarem enquanto militantes pra apoiar, dar força sem tentar apropriar, aparelhar, transformar em palco eleitoreiro? Que tal se transformarem de novo naquela galera que não queimava na fogueira valores e bandeiras históricas pra construir o cadafalso que produziu o impeachment de Dilma?

E podemos avançar, há enormes mudanças no quadro teóprico prático da militância anarquista e socialista desde 1917, sabe? Tem as experiências do Curdistão libertário sírio, por exemplo, que dão caldo. E acho que se o Ocalan velho de guerra conseguiu produzir uma teoria libertária vindo de uma tradição leninista a gente consegue também, não?

Que tal a gente começar a discutir comitês de resistência? Não, dificilmente vai ter a adesãod e autonomistas e anarquistas, mas tem boa parte da esquerda que ainda ama votar e adoraria uma experiência organizada de forma horizontal, mesmo com o exemplo dado recentemente sobre o valor que a eltie política dá ao voto. Sabe o PODEMOS e o SYRIZA? Pois não nasceram cooptados pelo sistema e tem mais horizontalidade que a maior parte dos partidos brasileiros, mas muito mais que PSOL e PT.

Sei que RAIZ e REDE não são similares a PSOL e PT, embora o RAIZ esteja hoje em filiação solidárioa ao PSOL, mas são experiências de organização político partidária bastante mais horizontais e o quadro de recuo conservador não tá deixando barato quem fica pensando apenas no próprio umbigo.

Para além disso há contingentes autonomistas e anarquistas produzindo coisas novas, com resistência a tarifaços, aumento de energia, passagem, com luta por ocupação de imóveis, tem todo um trabalho educacional sendo feito. Tudo isso pode ser exemplo de funcionamento pra quem quiser transformar de novo o quadro político e construir saídas ao recuo conservador.

Ainda mais se analisarmos o quanto esse recuo que tenta atingir cotas, LGBT, mulheres, etc e também não aponta nenhuma saída econômica que vá funcionar em um quadro de crise econômica internacional, que tende a ampliar a recessão, além de pôr fogo no cabaré que é hoje o teatro político brasileiro.

Já tem ocupação do IPHAN, auditores do CGU bastante invocados, pra disso sair greve é dez reais, mesmo o Alexandre de Moraes achando que o Brasil é São Paulo e vai geral protegê-lo de mídia e de exposição.

E ai, que tal parar o mimimi e produzirmos o avanço na marra?

Sobre a luta de classes e os desafios da esquerda.

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Pra perceber a luta de classes é preciso antes de mais nada discutir o que é uma classe.

Se analisarmos a partir dos cânones a classe se dá pela exploração de uma classe pela outra. A partir dessa percepção a consciência de classe é uma ferramenta de superação da opressão.

Sob outras avaliações, como a encontrada em E. P. Thompsom, a consciência de classe é fundamentadora da próprio entendimento da classe como tal. Até o momento em que adquire essa consciência uma classe existe enquanto ator explorado,mas não é protagonista de si mesma, não tem a característica necessária para seu auto entendimento enquanto classe e a partir disso não é necessariamente uma classe.

Quem coloca que a classe existe*,mesmo sem consciência e que a consciência é o que a move para libertar-se de uma exploração que é o que a faz se a parte da luta de classes em oposição à outra classe, proprietária dos bens de produção, tem muita razão, embora pra mim uma classe só é classe sob a perspectiva de Thompsom, só se é classe quando se reconhece como tal.

Vá lá, vamos concordar aqui pra efeito prático, mas o existir da consciência, o que consolida uma classe como tal é ainda fundamental para que esta classe se mova, correto?

Beleza,mas isso significa o que?

Significa que independente do quanto a gente discuta sobre a classe, é fundamental discutir como tomamos uma classe pelo que se idealiza dela e menos pelo que ela entende a si mesma como classe.

Entendemos a classe, partido da classe, mobilização da classe? Ou entendemos a classe operária, sua mobilização,partido e consciência a partir de uma mitificação nossa do que achamos que é classe?

Na maioria das vezes todos os movimentos que partem dos cânones do século XIX como referência, sejam marxistas ou bakuninistas, parte da categoria “classe operária” e não da classe em si.

Discute-se menos as transformações da classe no decorrer do tempo do que filigranas sobre a movimentação da política a partir da narrativa da intriga palaciana.

A galera precisa da narrativa “midia má, justiça má, mundo mau contra nós os bons”. Funciona muito como apego ficcional ao inimigo externo que nega a autocrítica, que zera o bom senso, que manda pro caralho qualquer tipo de construção política duradoura. Funciona bacanamente como reprodução do aparato ideológico da burguesia, mesmo vestindo esse aparato com significações, rituais,rótulos e signos da luta operária.

Não se busca entender a classe, mas busca-se construir em torno dos jargões nascidos na luta de classes um teatro amparado no ethos da sociedade do espetáculo.

Dilma, Temer, Cunha, tudo isso passeia em textos cada vez maiores, em discussões intermináveis.

Cita-se Marx, Bakunin, Malatesta, Zerzan, Deleuze,mas não se analisa praticamente nada.

O viés de adorno que as teorias ganham é maior que a construção de pressupostos práticos para as transformações urgentes que a sociedade,e a classe, necessitam.

A luta de classes é uma categoria que tá em nove em cada dez textos e discursos, a compreensão dela no entanto..

E por que? Porque provavelmente o teatro de operações de boa parte da esquerda saiu do cotidiano e partiu pras representações dele, seja na vivência nos aparatos burocráticos (estatais ou não) ou no simulacro de luta de classes e pela democracia que são as redes sociais.

A própria ideia de entender os diferentes ethos e abordagens da luta de classes no próprio interior da esquerda (como uma espécie de história da historiografia dos movimentos sociais,organizações e partidos) vira ficção científica diante do cenário montado pela esquerda para desfilar seus andrajos cheios de paetês.

Perde-se mais tempo com substitutos de análise, como o que toma anarquistas como ilusionistas da luta ao “deixarem de assumir suas responsabilidades com a revolução e pegarem apenas os exemplos bons de suas lutas”, do que entender as diferentes abordagens éticas e teóricas para com as lutas e a própria ideia de consciência de classe, elemento fundamental para qualquer lado da esquerda, dos reformistas aos revolucionários, passando por anarquistas que não necessariamente se colocam como o segundo time, embora não façam parte do primeiro.

Enquanto isso a classe em si permanece em sua lida cotidiana, seja procurando viver de bem com a sua terra ou construindo louvores a São Jorge com um viés ético solidário, revolucionário, anárquico e poderoso.

Qual a consciência dessa classe? Sabemos ou a deduzimos de longe a partir dos cânones?

Por que parte da classe apoiava Black Blocs mesmo achando que comunistas são péssimos?

Por que parte da classe quebra trens quando atrasam,mas criticam quem quebra vidraça de banco?

Por que parte da classe vota em Lula,mas odeia o PT?

Por que parte da classe frequenta os movimentos de base , estudam nos cursos, ampliam e mantém suas redes de solidariedade,mas cagam pra Bakunin e Kropotikin?

A maioria de nós não tem a menor ideia, eu incluído.

Mas evangélicos, parte do PMDB, boa parte da direita, o MST, parte do MTST, sabe. A igreja sabe.

Provavelmente porque ouve mais, fala menos.

A ideia de perceber a consciência de classe e o que é a classe, e sua formação é parte fundamental das dinâmicas que a esquerda precisa aprender pra poder transformar o mundo.

Se perdermos menos tempo tentando definir se quem está certo é quem acha que a construção da luta política passa pela realização de um evento escatológico chamado revolução ou quem “deixa de assumir suas responsabilidades com a revolução e pega apenas os exemplos bons de suas lutas” como os anarquistas que muitas vezes entendem que a ideia de revolução é hierarquizante, teológica até, que substitui a construção da sociedade como se quer hoje, das mais diversas formas, pensando até no futuro,mas sem querer defini-lo por portaria enquanto adorna um novo estado pra chamar de seu enquanto se oprime o outro, talvez tenhamos mais sucesso no passo mais óbvio: Entender o que somos e que realidade vivemos.

A classe operária brasileira nunca será a dos manuais, como não o foi a inglesa ou a francesa. Cada qual se constrói a partir de suas estruturas amplas, de econômicas a culturais, e de sua resistência a ela.

A classe operária brasileira nasce sobre uma estrutura de profunda e dura hierarquia, racial e de gênero inclusive, de uma estrutura violenta, cruel, sanguinária. Não que a inglesa tenha nascido na Disney, mas aqui o outro era humano ou não dependendo de sua cor e origem.

E é por isso que não adianta propaganda dizendo que o povo não sabe votar ou que quem vota é “escravo” em uma sociedade onde boa parte e descendente de quem foi escravizado.

Não adianta brandir cânones na frente da estação de trem sem entender o que é andar de trem na hora do rush.

Não adianta maldizer religião sem entender o poder da festa de São Jorge no RJ ou a folia de reis em São Paulo e Minas Gerais e sua construção de um ethos de distribuição de comida da comunidade para a comunidade.

Não adianta falar mal da suposta “alegria alienante” do povo sem sacar como o Samba é construtor de redes de solidariedade comunal, griô de memórias, como o funk é enfrentamento ao patriarcado e como o rap é canção de trabalho da rebeldia.

Se a consciência dessa classe não existe, e existe, então construí-la tem de passar por dialogar com ela a partir do que ela é e não do que ela deveria ser.

Não, ninguém faz samba só porque prefere, então por que o samba é fundamental pra entender que consciência essa classe tem, como essa classe é, como ela quer construir o novo? Porque o samba, pai do prazer, filho da dor, é uma linguagem, e ela nos diz o que teses inteiras falharam em dizer, porque é elemento firme de categorias nativas, é um balaio de significâncias.

Uma festa de São Jorge em Madureira explica mais sobre a classe trabalhadora carioca que dois mil discursos da esquerda partidária.

As pessoas falam em “Partido da classe” pra uma classe que jamais tomará partido dessa gente universitária ensaboada que trata a festa de São Jorge como bibelô de um multiculturalismo que é na verdade apropriação cultural, adorno, perfume de povo a partir da participação condescendente e observante,mas que nunca compreende, aquele distante que é a tal classe.

Depois de uma porrada que a esquerda como um todo, querendo ou não, toma pós impeachment de Dilma, o primeiro passo deveria tentarmos entender essa classe, sua consciência, o que ela é.

Isso pra começar.

  • Depois de uma discussão com a Niara achei melhor ressaltar que a categoria classe tem significâncias diferentes e que não há exatamente uma correção absoluta em categorizar a classe como existente a partir da exploração dela ou a partir de sua consciência.

Das decepções

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Decepcionar-se com política é normal. Política é um pedaço de nossa socialização que mexe com sonhos, aspirações, utopias, projetos, memória, história, afetos, etc e tudo isso mexe com o emocional tanto quanto com o racional.

O delicado equilíbrio entre racional e emocional em política é parte do delicado equilíbrio entre a moral deles e a nossa, e nisso espero estar entendido que vivemos e construímos nossas identidades políticas em campos díspares, no enfrentamento contra as opressões, todas, que constituem a vida em sociedade.

Na dura batalha por este delicado equilíbrio vemos a cada dia sonhos e aspirações derreterem diante da cruel realidade cotidiana, vítimas de muitas coisas que são exímias destruidoras de sonhos e utopias, do suposto pragmatismo político à cooptação, passando pela covardia pura e simples.

Também temos nestes duros dias, que via de regra são sempre duros desde que parte da sociedade buscou a luta contra a outra parte que a oprime, conquistas de novos sonhos e utopias, pois a luta política é feita deles, mesmo que estes sejam sufocados pela ânsia de uma vitória eleitoral e de uma ocupação de lugar no estado que volta e meia vira estratégia em vez de tática.

Desde meados dos anos 1990, parte da minha geração oscilou entre o sonho de uma vitória eleitoral da esquerda e avanços sociais, que pra nós viriam de forma quase óbvia, e a pavimentação de uma estrada que garantisse avanços e mais avanços para todas as futuras gerações à revelia da ocupação do estado.

Pois bem, todos fracassamos.

Fracassamos porque quem estava fora do Estado foi atacado por quem estava dentro, avanços possíveis na organização popular foram frequente e duramente abatidos a tiros de bala de borracha, ou de escopeta mesmo, e gás de pimenta, presos ou mortos, enquanto a parte que ocupou o Estado quando não se omitiu na denúncia de violações de DH e de destruição da esquerda não estatista cometeu a repressão e estas violações, quando não foi cúmplice delas.

Hoje sob a frágil lona do circo da “Luta pela democracia” existem palhaços presos e mortos, pois é nítida pra esquerda partidária que a democracia pela qual se luta é restrita a quem aceita a institucionalidade como mestra da vida.

Enquanto a “luta pela democracia” evolui com leões no picadeiro, indígenas perdem suas terras e são presos pela polícia federal do governo Dilma, com truculenta violação de seus direitos fundamentais, servidores públicos se preparam para perderem direitos e terem sua função “privatizada”, praticamente sendo substituídos por celetistas contratados por Organizações sociais (OS), e pretos e pobres moradores das periferias são observadores participantes do assassinato de seus filhos, jovens e crianças, por uma polícia que mal esconde que seu objetivo real é matar todos que não tem a cor da pele aceita no Leblon das novelas do Manoel Carlos.

Enquanto a “luta pela democracia” apresenta os acrobatas da retórica de justificativa do injustificável a educação da pátria educadora permanece sendo esquartejada para alimentar as hienas do mercado.

1246312802_850215_0000000001_sumario_normalE quem ocupa as escolas, jovens adolescentes que acendem a esperança em peitos carcomidos pela decepção, são aclamados como heróis, não quando estabelecem novos métodos organizativos horizontais, mas quando apela para a mais inócua das ações: Denunciar para a OEA abusos cometidos pelas polícias militares.

Ou seja, são heróis não quando inovam, mas quando penetram no pântano inerte da institucionalidade que os abandona até o limite de suas resistências, até que sejam cooptados, tenham seus sonhos e ímpetos substituídos pela retórica disciplinada, fordista, hierarquizada qual uma fábrica leninista, dos “lutadores sociais” que no fundo só existem pra alimentar o ogro da burocratização.

E das decepções mais doídas está é a maior ver que quem constrói cotidianamente as ruas, a horizontalidade e a luta contra a hierarquização, ser tragado pela mediocridade das obsoletas máquinas de eleitoralismo chamadas partidos.

Denuncia pra OEA? Sério, em vez de vocês com seus mandatos lutarem nas ruas por esses adolescentes eles têm de ir na OEA? Pra que servem os partidos? Pra pedir Fora Cunha?

Enquanto isso se digladiam nas redes e se tenta cooptar para a “luta pela democracia” quem luta por ela a cada ocupação de escola.

Enquanto ocorre essa luta os cooptadores tomam litros de café negociando apoio ao governo que é sócio de quem reprime essas lutas, mesmo em SP. Ou esqueceremos mesmos que PT e PSDB foram e são cúmplices da criminalização de movimentos desde 2013?

Enquanto meninos nos tentam salvar a utopia o PSOL negocia via Jean Wyllis e Freixo mais e mais apoio ao governo Dilma em nome de uma “luta pela democracia” que nunca incluiu entre os que precisavam dela os indígenas e pretos e pobres favelados reprimidos pelas UPP. E se o PSOL não ignora que a “luta pela democracia” exclui essa gente é calhorda e se ignora é inepto.

A “luta pela democracia” é conduzida por quem vai criminalizar os jovens alunos que ocupam escola país afora assim que essas ocupações atingirem os governos da “Pátria Educadora” que cassam bolsas de iniciação científica das quais jovens pobres necessitam pra poderem permanecer sonhando com atuação como pesquisadores.

E porque escrevi isso tudo para falar das decepções? Porque minha maior decepção está com a minha geração, a que não se atenta nem um segundo do quanto foi,é e será cúmplice do avanço do conservadorismo com sua covardia medrosa na crítica às burocracias partidárias da esquerda, sua covardia na participação efetiva na construção do novo, quando preferiam sempre acompanhar a burocracia à mão, por absoluta preguiça da luta cotidiana, medo até dela.

Minha geração ainda tem salvação se apoiar sem nenhuma indução à institucionalidade essa geração que ocupa escola, que expande o feminismo e a horizontalidade, mas permanecerá decepcionante, eu inclusive, como a geração que optou pela covardia.

E enquanto a gente se esforça pra ser um sujeito normal, há quem faça marchas antifascistas nas ruas, indo muito além da “Luta pela democracia”.

O que a conjuntura atual significa pra anarquistas?

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Primeiro, é fulcral dizer que a conjuntura se alterou de forma tão brusca que melaram todos os cenários analisados recentemente.

Segundo que a nomeação de Lula aliada à resposta de Moro (Vazamento de gravações, etc) construíram um cenário de absoluto caos institucional no país, que fica impossível de prever qualquer coisa.

Em terceiro é fundamental observar o que essa conjuntura significa enquanto sinal de avanço direto, com apoio midiático, de um ethos absolutamente autoritário.

Tendo isso em mente é preciso ressaltar alguns elementos.

Um deles é o fato do aparato judiciário, midiático e parlamentar estar absolutamente deslocado, hoje, para a deposição de Dilma e estrangulamento do PT no governo.

Vai conseguir? Não se sabe, mas o movimento é esse.

Pra completar temos um cenário de rebelião do judiciário em primeira instância que comprou a narrativa de que Lula como ministro seria “Blindagem” e temos uma nítida situação onde o judiciário federal de primeira instância em peso apoia um Juiz como Moro divulgar grampos cuja legalidade é no mínimo questionável e que é tratado como crime sem que haja nenhuma evidência indiscutível deste fato.

Essa rebelião está para o judiciário como a Revolta dos Sargentos às vésperas de 1964 estiveram para as forças armadas. A diferença é, além de termos uma conjuntura diversa em relação a golpe, que o STF não tem exatamente uma situação de controle hierárquico sobre instâncias mais baixas e é sensível à pressão midiática e corporativa, inclusive vem respondendo a todo o caso sob o ponto de vista da reação corporativa.

Legalmente não há nada nem para o impeachment, nem para a alegação de obstrução da justiça, nem sequer para o entendimento que Lula é criminoso.

Os jornais impressos, os portais, as TVS atuam para construir em torno de todo o caos a impressão social de que há consciente obstrução da justiça e ilegalidade em todo o processo, incluído o tal sítio de Atibaia tomado pela imprensa como de posse de Lula sem um documento assinado por ele provando isso. Uma minuta sem assinaturas tornou-se, pasmem, garantia de posse.

Diante disso os cenários são, sim, de golpe de estado. Não um golpe militar, mas um golpe institucional com raiz no judiciário e reflexos diretos nas relações entre poderes e peso no parlamento.

Ignora-se, todas as forças ignoram inclusive os movimentos de rua, a quantidade de membros deste parlamento envolvidos em ilícitos e indiciados pela Lava Jato, coisa que Lula não é.

Enfim, não só o impeachment tá rolando, como as ruas se enchem de pessoas cujo interesse maior é menos limpar o país da corrupção e mais retirar o PT do poder.

Pras forças partidárias de esquerda não há muita saída além da de ir para as ruas defender a democracia e o governo, até porque uma derrota do PT hoje é derrota para todos os partidos.

Pra ilustrar isso é simples: Redes Sociais e ruas hostilizam qualquer coisa vinculada à cor vermelha, é francamente adversária de Sem Terras, Sem Teto, Feministas, Cotistas, Socialistas em geral.

A cada Jornal Nacional temos uma peça que amplia a narrativa de que derrubar o governo é a chave. A repetição cotidiana dos grampos vazados de forma absolutamente autoritária e ilícita, e contendo nada, é um infográfico da narrativa irresponsável que a imprensa sem nenhuma vergonha tomou como sua tarefa.

E está tendo sucesso.

Diante disso é fundamental cobrar do próprio PT sua responsabilidade na construção deste quadro, através de amplo silenciamento das forças de oposição com acusações diretas que foram de “Quinta Coluna da Burguesia” a “hordas fascistas”.

A narrativa de Golpe construída pelo PT de 2003 até hoje se constrói como fato a partir de erros do próprio PT ao chafurdar na lama da corrupção enquanto trocava bandeiras históricas pela disputa da gerência do capitalismo, lucrativa, inclusive, pro partido.

Pra piorar desde 2013, quando forças de esquerda ocuparam as ruas para barrar aumentos tarifários, combater a corrupção de governos, entre eles governos de aliados do PT que hoje lhe abandonam, como o PMDB, o PT tratou toda a esquerda não alinhada a ele, inclusive a atual linha auxiliar psolista, como fascistas.

Não é preciso esquecer que vários de seus soldados virtuais não tiveram nenhuma vergonha em tratar anarquistas como nazistas, inclusive efetuando montagens que incluíam suásticas no lugar do famoso A anarquista.

A partir daí governos estaduais atuaram com celeridade para criminalizar francamente todas as forças de oposição de esquerda aos governos, colocando vários lutadores na cadeia com base em nada. Entre estes lutadores sobrou até para um morador de rua munido de Pinho Sol, tratado como arma, o Rafael Braga que nem militante era.

Sininho, Camila Jourdan e mais 21 pessoas foram processadas no Rio com nenhum, absolutamente nenhum indício de nada além de “citarem Bakunin” ou “terem ligações com ações terroristas”,que vinham a ser uma suposta “ligação com os Black Bloc”. Hideki Harano, entre outros, sofreram o mesmo em SP. No Rio Grande do Sul a mesma coisa.

Pra completar a tragicomédia, partidos de esquerda fizeram o possível para corroborar com essa narrativa ao tratar Black Blocs como “cúmplices da violência policial” ou “O PSOL precisa isolar os Black Bloc”, como fizeram PSOL e PSTU.

O abandono de anarquistas e autonomistas à sua própria sorte, o desprezo à análise do Estado Democrático de Direito ser esgarçado por um autoritarismo judiciário e todo aparato policial e avançando por sobre a esquerda, tudo isso foi posto em prática em nome da construção pelo PT da Copa das Copas e por PSOL e PSTU de tentativas de ficarem bem com “seu eleitorado” ou “sua base” e virem a eleger prefeitos, vereadores e deputados.

Ou seja, o que o PT, Lula e o governo sofrem hoje, todos nós anarquistas e autonomistas sofremos de 2013 em diante.

Sim, anarquistas, autonomistas, MPL foram, são e serão perseguidos pelo Estado com toda a sua truculência, sofreram ataques cotidianos pelas TVs e jornais, foram atacados DENTRO DO SINDICATO DOS JORNALISTAS.

A narrativa de que “Black Blocs mataram o cinegrafista Santiago” se tornou uma realidade, inclusive dentro dos partidos da esquerda sem que uma maldita prova aparecesse em qualquer investigação. Pessoas foram processadas a partir desta narrativa.

Durante a Copa de 2014 pessoas foram sitiadas para que não se manifestassem.

Durante a Copa de 2014 ocorreu bombardeio pelas forças de segurança de manifestações absolutamente tranquilas e que chegaram a ter bombas em um Parque da cidade do Rio de Janeiro mesmo com enorme população infantil ali.

De lá pra cá até o MPL foi impedido de se manifestar em 2016 na cidade de SP, pois foi informado que “teria de informar seu trajeto para não atrapalhar o trânsito”.

Tudo isso ocorreu sob absoluto silêncio do PT e dos partidos de esquerda.

Agora a direita marcha pedindo a cabeça do PT, hostilizando movimentos, sem que a Polícia se preocupe com o trânsito.

Todo esse arbítrio foi ensaiado de 2013 até hoje e hoje estoura no colo do PT e da esquerda partidária. Até hoje o silêncio quando nossos companheiros da FIP, da OATL ou da FARJ e FAG eram aprisionados não tinha doído no lombo da esquerda partidária, hoje dói.

Todo esse processo golpista ocorreu sob as barbas dos governos do PT e dos parlamentares da esquerda, foi inclusive endossado por eles com a formulação da “Lei antiterrorista”.

Hoje o impeachment tá na rua, tem enormes chances de derrubar Dilma e trazer todo o preço, altíssimo, disso para toda a esquerda.

E os anarquistas com isso?

Difícil dizer, mas penso que hoje é fundamental atuar com os movimentos NAS PERIFERIAS que acusam o golpe cotidiano que sofrem com a violência policial, a suspensão de direitos constitucionais e a ocupação militar das periferias. Total solidariedade aos companheiros da periferia que sentem na pele todo dia o que Lula sentiu recentemente.

Agora, solidarizar-se com as marchas organizadas pelos partidos da esquerda que só agora percebem o quanto o Estado é duro para com seus inimigos? Lamento, mas a meu ver é sandice.

Para nós a mídia não fez filme com personagens inspirados em nossos companheiros mais fotogênicos. Para nós os partidos não apontaram que chamar Black Blocs de violentos era narrativa falaciosa. Para nós não vigorou a solidariedade coletiva de socialistas quando companheiros nossos tiveram sua vida destruída, sua carreira prejudicada, foram presos, exilados, humilhados, esmagados.

Dialogar com a periferia na resistência ao golpe do Estado contra os direitos constitucionais não deveria significar apoio a Ex-Mandatários que ocuparam o Estado ampliando sua faceta violenta contra todos nós, em especiais nossos companheiros da periferia.

Para os anarquistas a conjuntura é preocupante, mais do que para a esquerda partidária, mas nosso trabalho permanece o de construir a resistência ao Estado onde ele é mais arbitrário: Nas periferias.

E o mais preocupante da conjuntura atual é a percepção global de como o Estado, os jornais, as TVs, os poderes, o judiciário, são seletivos em sua sanha por “limpar” a vida pública nacional.

Só que essa face a conhecemos bem, e nunca recebemos solidariedade, o irônico e didático é a percepção ter se espalhado.

Portanto para os anarquistas a conjuntura atual significa o que significa o cotidiano: precisamos permanecer lutando e construído o poder popular, porque é negro o couro da gente que segura a batida da vida o ano inteiro.

Tá tendo golpe!

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Em tempos de manifestação com transmissão ao vivo e polícia a favor é fundamental tratarmos do dito Golpe contra “a esquerda” e dos pavores noturnos que povoam o imaginário e o cotidiano de boa parte dos apoiadores dos últimos governos, de suas linhas auxiliares e da esquerda partidária como um todo.

Porque golpe tá tendo sim, já teve e permanecerá tendo, não exatamente como a narrativa busca vender, mas como o contexto político e a conjuntura permitem perceber.

Tá tendo golpe já em 2002 com a “carta ao povo Brasileiro”. Desde 2003 tá tendo golpe, desde antes da reforma da previdência tá tendo golpe.

Tá tendo golpe desde quando o neodesenvolvimentismo do PT, apoiado por CUT e PCdoB, deu as caras no país usando o BNDES para financiar o avanço do capitalismo brasileiro mundo afora.

Tá tendo golpe desde quando o neodesenvolvimentismo achou de bom tom retomar processos de construção de megaempreendimentos hidrelétricos engedrados pela ditadura militar na Amazônia, iniciando por Belo Monte, atingindo o meio ambiente e todas as nações indígenas que residem ali, auxiliando a expansão da fronteira agrícola e com ela as balas das milícias ruralistas.

Tá tendo golpe desde quando os governos do PT frearam a titulação de terras quilombolas e indígenas, permitiram o avanço da PEC 215 e ameaçam direitos indígenas e quilombolas país afora, pouco ou nada protegendo nações inteiras do extermínio pelas mãos do mesmo agronegócio da ministra Kátia Abreu e de Bumlai, amigo do Lula.

Tá tendo golpe desde quando os governos do PT sequestraram o MST e o MTST, boa parte do MAB e a maioria dos movimentos sociais organizados e que viviam nas franjas do PT, em nome de um processo de domesticação que atacou o coração das lutas e da mobilização popular.

Tá tendo golpe desde que os governos do PT desapropriaram menos terras que FHC.

Tá tendo golpe desde que os movimentos e governos do PT fizeram eco à criminalização da pobreza e dos movimentos sociais para construírem a “Copa das Copas”, removendo pessoas de suas casas, prendendo manifestantes e ativistas, cassando seus direitos constitucionais, oferecendo tiro, porrada e bomba a quem apontava os superfaturamentos, as violações de DH promovidas pelos tantos governos.

Tá tendo golpe desde quando os governos do PT promoveram e/ou apoiaram a ocupação militar das favelas.

Tá tendo golpe desde que os governos do PT abraçaram os do PSDB criminalizando o MPL, autonomistas, anarquistas e qualquer um que não estivesse no campo aceito pela ordem.

Tá tendo golpe desde que os militantes do PT fundaram seu ethos discursivo, sua práxis, na destruição do outro, tornando tudo o que não batia bumbo pro avanço de sua versão de gerência do capital, de forma distorcida chamada de “de esquerda”, de “fascismo”.

Tá tendo golpe desde que praticamente toda a esquerda virou linha auxiliar desse governo genocida, etnocida, ecocida.

Tá tendo golpe sim, e um golpe que afastou toda a resistência das ruas, com base em tiro, porrada, bomba e processos judiciais e as deu à direita.

Tá tendo um golpe urdido pelo PT e continuado pela direita que o PT fingiu combater enquanto se aliava a ela em um clube de negócios que os iludiu a ponto de acharem que faziam parte do quadro social permanente.

A resistência a esse golpe (promovido pelo PT de 2003 pra cá e continuado pela trupe de Temer, Aécio, Cunha, Bolsonaro, pelo MBL e seus movimentos protofascistas) pode ocorrer e ocorrerá, já está ocorrendo, mas não pelos vitupérios da milícia boquirrota do petismo, e sim pelas mãos de quem ocupa escola.

Resta saber se o PT vai continuar apoiando o golpe ou vai dar uma reviravolta e apoiar a resistência. Duvido que ocorra.