coyote-gospel

Escrever sobre política hoje em dia me cansa bastante.

Especialmente porque hoje não sei exatamente como me localizar dentro do espectro político a não ser pela ideia de ser de esquerda e ser anarquista.

Mas mesmo sendo de esquerda e anarquista, ou me enxergando desta forma, não consigo entender nenhum encaixe claro no que vejo a maior parte das pessoas defender como “ser de esquerda”, da mesma forma que me incomoda demais a ideia das pessoas de entenderem o que é ser inteligente ou “pensar” e sim os dois assuntos tem profunda relação.

E a relação entre o encaixe num modelo de ser de esquerda, seja um modelo da direita ou da esquerda, e o incômodo com a ideia das pessoas sobre sua própria inteligência, bondade e seu “pensar” se entrelaçam exatamente porque ambos tangenciam a ausência de certezas absolutas e a percepção que na maior parte das vezes o que constrói hoje os grupos mais “sólidos” das ideologias é de um arrogância que só encontra paralelo na própria estupidez.

Além disso, a maior parte dos processo ideológicos e seus grupos se encastelou na desumanização de si mesmo e do outro, na destruição de laços de solidariedades e também na politica enquanto performance.

Da xenofobia, racismo, homofobia, machismo e misoginia como armas para atingir o outro até a aceitação de tortura, assassinatos, inclusive os de reputação, defesa de tutela de um povo conscientemente tido como estúpido e até sacrificável diante dos grandes objetivos, tudo obedece a um mesmo caminho de transformação das grandes narrativas ideológicas em defesas de credo dogmático, de cariz autoritário.

E o objetivo final, de em tese mudança da sociedade para melhor para que o tal povo, essa entidade metafísica,seja liberto ou tenha sua vida melhorada? Ah,que se dane! O povo, o tal povo, se perde no meio das grandes narrativas e é atropelado como por um caminhão chamado de “Fins”, que por acaso justificam os meios.

E os meios acabam sendo apenas o domínio do outro, muitas vezes mimetizado em aparato ou estado ou país,mas no fundo é o domínio sobre o outro.

E nessa toada o que não vira “mimimi”, vira secundário dependendo do espectro ideológico do qual se ouve o discurso.

Por que se ouve o discurso? Porque a maior parte dos entes dos espectros ideológicos em curso não debatem ou dialogam, discursam.

E isso não ocorre apenas os portadores de discursos plenos de sublimação de traumas e ódios anteriores, de mediocridades mal alimentadas e patologias.

Isso ocorre com comunistas, anarquistas, sociais democratas e até com liberais, que um dia foram até bons parceiros em diversas lutas e hoje parece terem se colocado como ovelhas disponíveis para oportunistas elitistas dançarem seu mambo sobre nossas sociedades.

Envolvam tudo isso numa arrogância de almanaque e temos o debate político cotidiano.

E não, isso não reflete nenhuma sociedade radicalizada,mas uma sociedade conservadora e apenas aparentemente polarizada.

Essa aparência de polarização se dá no ajustamento dos grupos em nichos firmes de defesa de interesses da classe dominantes envoltos em discursos mais ou menos liberais ou mais ou menos “comunistas”. No final das contas nenhum dos discursos busca nenhuma transformação ou se organiza em qualquer espectro claro para fora da institucionalidade e que tenha algum tipo de cara de participar do lado proletário da luta de classes.

O proletário nesse suposto embate aparece como eleitor ou vítima. E o mesmo vale para negros, mulheres, índios, LGBTs, etc.

Quando vota a favor o proletário é consciente. Quando vota contra ou é mortadela, ou pobre de direita.

E tome silenciamento.

Mas podemos avançar nesse debate se analisarmos o crescimento do fascismo no Brasil e o avanço idêntico do discurso de “vai estudar” ou “A má educação é o que fez do Brasil o que é hoje” e defesas de nova moral ou da família ou da pátria,sempre falando em educação e de educação e civilidade como elementos que andam de braços dados e de elogios a outros países,etc..

Esse discurso do “vai estudar” e a “síndrome de vira latas” são primos de um desprezo mórbido pelo povo brasileiro, que tem muito ou quase tudo de racismo (Mas isso é outro assunto).

O Brasil não dá certo porque a educação ruim, dizem,e por isso o reacionário ou o mortadela precisam estudar para se encaixarem numa ideia de sociedade que caiba nos discursos.

E o que eles sabem da educação? Do que é educação? Do que é História? Nada.

É a educação o problema? E se é como resolvê-la? Porque se for repetir essa educação que acham que ensinar história é decorar data em história e fórmulas em Física, a gente vai permanecer com problemas.

E na real educação para a maioria dos discursos serve para hierarquizar a sociedade e criar meios para que o ente que “sabe” domine o outro “que não sabe”.

E eis que ai reaparece a figura do ”povo”,seja no discurso fascista, seja no discurso comunista e até no cínico discurso dos novos liberais you tubbers que “lacram”.

Porque este discurso, esta narrativa ignora qualquer tipo de diálogo construtor de cidadania no sentido mais amplo: Um pensamento critico que entenda a polifonia das sociedades e construam em comum entre professores e educandos o caminho para cada disciplina em cada aula e cada turma ou escola.

E é aqui que entra o desabafo de um historiador de esquerda que se entende anarquista,mas tem dificuldades enormes tanto com os grupos que compõe a esquerda quanto com o dogmatismo anti libertário que virou a anarquia em geral.

Porque não me transformei em historiador para repetir a produção de uma historiografia que ignora o coletivos de vozes presentes nas sociedades, que silencia as vozes menos audíveis, as de cor mais preta e índia, as vozes femininas, que secundariza lutas ou que elenca o que deve ser a grande narrativa das transformações.

Me transformei em historiador para procurar dar voz aos silenciados e pra entender o outro como parte integrante das transformações coletivas, jamais pra tentar encaixar os diferentes em caixotes de papéis preestabelecidos e estanques.

Não me transformei em historiador pra brincar com a direita a chamando de idiota, mas pra desconstruir através do diálogo o que a direita diz e que é violentador para os coletivos ou para fomentar um combate ininterrupto aos discursos de ódio com o respeito que todo inimigo merece e deve ter, sem menosprezar inteligências, da mesma forma que não menosprezando o grau de solidariedade inerente às comunidades.

Não me tornei historiador para silenciar a miríade de evangélicos atribuindo a todos o papel pusilânime de parte dos fieis e da maioria das lideranças evangélicas. Nem pra transformar uma escolha de fé em estupidez.

Me tornei historiador para dar voz aos silenciados e não para ampliar o silenciamento em nome de uma narrativa que se pretende superior ao homem, ao nós, ao coletivo, à pessoa.

Me tornei historiador não pra dizer “Vai estudar”, mas pra dizer “Discordo de ti e tenho fontes que ajudam a ti a entender melhor”.

Sou historiador para tentar contar a história vista de baixo e não pra tentar contar melhor a historia dos de cima em nome de uma idolatria maluca que não vale nem o pão quentinho da padaria da esquina.

E pra fazer política com o conhecimento, não pra encaixar o conhecimento na política martelando-o numa forma que o distorce.

Porque é preciso politica no conhecimento, sem que isso signifique um desprezo ético pela busca da verdade, ela existindo ou não, ela sendo apenas uma representação do real, um reflexo de um espelho distorcido ou não.

Porque também é preciso muito humanismo e amor no conhecimento, sem que isso signifique dançar ciranda enquanto se omite sobre a prisão do Rafael Braga.

Pode dançar ciranda, mas sem lembrar do Rafael Braga e lutar por ele é vandalismo.

E é preciso fundamentalmente respeitar o povo, sua cultura, fé, seu lugar, seu falar, sua festa, sua cor.

Respeito não significa transformar a pessoa em bibelô tropicalista, mas inclusive discutir e brigar com ele se preciso, lembrando quem mais morre na luta de classes e na lógica de defesa das grandes figuras.

Precisamos repolitizar a política!

E relembrando aos navegantes que humildade não é fingir não ter conhecimento e ter conhecimento não é super poder, nem aumenta a dimensão humana de quem quer que seja.

A ignorância do outro é um elemento que nos ajuda a entender a nossa própria capacidade cognitiva. Se a ignorância do outro pra ti é motivo pra transformá-lo em inferior a ti, você realmente não entendeu nada,

 

Anúncios

Comente, mas cuidado...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s