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À minha maneira eu sempre fiz parte da luta antirracista, sempre, desde sempre, foi sempre um elemento fundamental inclusive para meus estudos de história e sociologia da cultura, quando cursei ciências sociais.

Estudei bastante escravidão, muito, tentei ler o máximo sobre racismo, só parei quando as circunstâncias acadêmicas me guiaram por outros caminhos, envolvidos em outro pedaço da história que sempre estudei, que foi a Coluna Prestes.

Li textos políticos da quarta Internacional ao anarquismo, passando por textos maravilhosos do SWP inglês tratando da íntima relação entre capitalismo e racismo.

Participei de movimentos sociais de luta antirracista, mesmo sendo branco e com uma certa sensação de estar no lugar errado por fazer parte da etnia que oprime negros desde sempre, mas fui aceito e por isso participei, e sempre tangenciei e fiquei de olho no debate, porque é fundamental e necessário.

Visões da Liberdade”, “Cidade Febril”, “Trabalho lar e Botequim” de Sidney Chalhoub; “Revoltas escravas no Brasil” de Joaquim José Reis e “Negociação e conflito” dele e do Eduardo Silva; “As Camélias do Leblon” de Eduardo Silva, tudo isso me ajudou a ter um bom cenário sobre o processo de formação da sociedade brasileira a partir da escravidão como base formadora de uma estrutura cultural racista.

O debate sobre apropriação cultural eu leio pelo menos desde 2007.

Inclusive percebi a relação com a mesma categoria a partir do conceito de Representação do Chartier e entendi que esse debate permeia o que Joyce Appleby, Lynn Hunt e Margareth Jacob escrevem na introdução de “A Telling the Truth about History”:

A maior parte dos norte-americanos aceitou uma única narrativa da história nacional como parte de sua herança e esta narrativa é tratada como objetividade e essa objetividade reclamada foi usada para excluir grupos inteiros de participação plena na vida pública do país.”

Serve pro Brasil e serve pro debate em torno da apropriação cultural e em especial sobre como brancos, inclusive, pasmem, intelectuais brancos, estão reagindo a este debate.

E não, não vou nem falar da questão da jovem branca que relatou uma suposta agressão feita a ela por uma negra porque ela usava turbante.

Isso foi parte de um processo de extrema tristeza com o teor dos textos, subtextos, falas, colocações e reclamações de pessoas brancas, muitas como formação universitária de porte, doutores inclusive, que me parece que o episódio que sequer se sabe se foi real, foi apenas um catalisador de um urro de parte da população letrada branca brasileira contra o que eles consideram um absurdo: A negativa pelo menos textual de que são senhores absolutos de toda a cultura.

Como assim apropriação cultural se a cultura circula e influencia a todos? Perguntam alguns.

Se apropriação cultural não pode porque usam calças se calças são invenções europeias? Vomitam outros.

O que tem em comum as duas perguntas e a maioria dos absurdos que lemos vindos de gente branca supostamente intelectualizada, informada, militante, libertária,etc? Ignorância, e uma ignorância por opção em um mundo de fácil pesquisa e apreensão de saber.

A maioria dos intelectuais e militantes brancos ou não pesquisou ou se contentou com o básico a respeito do debate sobre apropriação cultural.

Pior, bastam exemplos escolhidos a dedos da estupidez militante de alguns elementos dos movimentos negros e indígenas que partem pro ataque individual pra combater um processo, e um debate, que discutem o sistema, para que os intelectuais e militantes brancos se sintam satisfeitos em jogar todo o debate pro lixo, toda a militância pela janela.

Senso crítico transformado em senso comum? Tá tendo.

E por que?

Poderia dar inúmeras explicações, mas racismo organiza todas.

Por que racismo explica todas essas manifestações?

Porque gente com capacidade cognitiva pra ser professor universitário, e militância de esquerda ou liberal de fôlego e muita leitura e ferramental analítico complexo tá ignorando todos os intelectuais negros, todas as manifestações teóricas negras, brancas, indígenas e europeias a respeito de apropriação cultural ou tudo o que é similar a ela e perambula na academia para sustentar que aquela utilização plena das culturas a seu bel prazer branco é direito inalienável, foda-se se o debate feito pelos movimentos negros tá cagando pro uso individual e apontando um fenômeno sistêmico de opressão.

De Djamila Ribeiro falando em apropriação cultural a orientalismos do Edward Said; de Chartier a Joyce Appleby; de Ginzburg a Benedict Anderson passando por todos os historiadores brasileiros que falam em cultura, tudo isso é lixo diante da necessidade atávica de exemplos ruins que vão de Beatles a calça comprida, além de ressuscitarem “aculturação” como palavra válida (Deus meu!) para sustentar que “apropriação cultural é bobagem!”.

Tudo está servindo para que manifeste e resguarde o privilégio branco de a tudo utilizar, inclusive simbolicamente, mesmo quando este uso não está sendo atacado, apenas está sendo informado que a sociedade branco normativa e seu capitalismo se apropria de elementos culturais de outras culturas não hegemônica para seu usufruto e lucro, ressignificando estes elementos, colocados anteriormente como pejorativos até que o uso branco os resgatasse do domínio das classes “inferiores” ( talvez também “perigosas” a partir do que se lê em Chalhoub) e estabelecesse um uso validado pela cultura dominante.

Parece difícil de entender?

A mim não.

Perceber a apropriação cultural impede branco de usar turbante e índio de usar calças? Não me parece.

Brancos são perseguidos por usarem turbantes? Se no caso de UMA PESSOA BRANCA supostamente perseguida se criou tanta polêmica eu acredito que se fosse um fenômeno realmente concreto, que possuísse mais que UM caso físico e no máximo centenas de casos em redes sociais onde os debates caem pra essa lama, como se todos os debates em internet e em redes sociais não fossem de baixíssimo nível, acho que o Jornal Nacional teria especial de trinta minutos, não?

O fato é que as exceções ao debate viraram o debate em si na ótica das pessoas brancas e essa lente faz um enorme sentido: Ela é um alarme de que quando privilégios são atingidos tudo ganha outras cores.

O que dói é que essa gente sequer se toca que reproduz opressão com seus chiliques lacradores e desinformados, ofendem, reduzem mais ainda a suposta civilização que dizem defender.

E ignoram trabalhos sérios feitos por críticos e acadêmicos a respeito da apropriação cultural do samba por parte da classe média branca carioca, que deu em Bossa nova inclusive, ou do funk que seguiu o mesmo caminho, de marginal a herói e símbolo da cultura brasileira.

É só perceber o samba, analisar o samba e sua absorção pela classe média e elite branca pra sacar o que é apropriação cultural, não dói, não mata.

Quer outra música? “Vá cuidar de sua vida” de Geraldo Filme, gravada também por Itamar Assumpção em Pretobrás I, ela é um desenho musical da apropriação cultural do samba, da capoeira e da religiosidade afro-brasileira, a partir dali fica facílimo entender.

Duvida?

Lê ai:

Vá cuidar da sua vida
Diz o dito popular
Quem cuida da vida alheia
Da sua não pode cuidar
Crioulo cantando samba
Era coisa feia
Esse é negro é vagabundo
Joga ele na cadeia
Hoje o branco tá no samba
Quero ver como é que fica
Todo mundo bate palma
Quando ele toca cuíca
Vá cuidar…
Negro jogando pernada
Negro jogando rasteira
Todo mundo condenava
Uma simples brincadeira
E o negro deixou de tudo
Acreditou na besteira
Hoje só tem gente branca
Na escola de capoeira
Vá cuidar…
Negro falava de umbanda
Branco ficava cabreiro
Fica longe desse negro
Esse negro é feiticeiro
Hoje o preto vai à missa
E chega sempre primeiro
O branco vai pra macumba
Já é Babá de terreiro.

Portanto quando vocês demonstram esse grau de ignorância coletiva pra justificar que se mantenha a apropriação cultural e silenciam o debate como um todo, escrotizando inclusive grandes intelectuais negros, e muitos brancos também, vocês apenas reproduzem um racismo silencioso e encubado no meio da alma branca da sociedade brasileira que t[á tão enrustido que não é enxergado.

Vocês escrotizam o que negros gritam há décadas, cantam e dançam, produzem na universidade, discutem na música, nas artes plásticas, na poesia, nos debates, na militância e tudo porque o privilégio de a tudo absorver por parte de uma elite branca é absoluto na cabeça de todos.

Quando vocês ridicularizam um debate sério vocês silenciam toda uma militância, toda uma luta étnica.

Talvez porque a maioria de vocês jamais viveu algo que era desprezado por ser do subúrbio virar chique porque foi pra zona sul do Rio. E tudo o que você viveu vendo ser chamado de tosco e brega virou chique porque outros passaram a fazer iguala você em endereços mais próximos do centro da cidade.

E isso ocorre sempre no Rio, por exemplo.

O trem do samba era basicamente algo que amantes do samba, suburbanos em sua maioria, curtiam, hoje é um evento que gentrificou-se e afasta as pessoas pobres que antes iam até o evento, a cada dia um evento que exclui os próprios moradores de Oswaldo Cruz que antes iam em peso e hoje não conseguem pagar a cerveja que vende ali, na maioria pelo contrário, trabalham vendendo a cerveja, servem os zona sul quando antes se divertiam.

Mas as pessoas tão intelectualizadas, brancas e lindas não percebem, porque vivem isso de longe, apenas leem a respeito e quando leem algo que invade sua zona de conforto… ai amigo, te segura porque o chilique é alto.

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