quilombo

Como a maioria dos negros forros que se mantinham forros os Capitães do Mato eram homens que lucravam com o trabalho de rastreamento de escravos fugidos e isso incluía o papel de mediador mais do que o de capturador violento.

Lendo ‘Negociação de Conflito do João José Reis e Eduardo Silva a gente compreende que a maior parte dos Quilombos no Brasil eram temporários, que a maioria das fugas, especialmente do século XVIII em diante, eram temporárias também e consistiam em algum tipo de mecanismo reivindicatório.

Capitães do Mato como uma espécie de “Domingos Jorge Velho” são mais lenda que realidade.

A maior parte dos capitães do Mato era negro ou índio e deveriam poder transitar nas trilhas E nos Quilombos, assim podendo conseguir informações sobre escravos e índios fugidos.

Negros e índios armados caçando outros negros e índios? Em uma sociedade sob medo perene de negros armados acho difícil que existissem.

Às vezes brancos livres também eram capitães do mato,mas brancos eram absoluta minoria no país, poucos realmente livres, a maioria camponesa e fixada à terra através de mecanismos de relação econômica onde o senhor mantinha alguns brancos livres para o exercício de funções específicas (Ferreiros, carpinteiros, pequenos agricultores de víveres e pecuária para a alimentação das grandes fazendas,etc).

Capitães do Mato exerciam uma função de enorme importância para serem pobres. Na maior parte das vezes eram pessoas com profundo conhecimento de terreno e de escravos.

Tinham prestígio? Tá.

Pobres em sua maioria eram negros ou mestiços, alguns poucos brancos e nenhum deles tinha prestígio nenhum. Capitães do Mato podiam não ser exatamente pobres,mas eram pretos em sua maioria, e ser preto não dava prestígio, como raramente dá hoje.

A saga do homem livre no Brasil durante o período de escravidão era uma coisa complicadíssima pra brancos, imagina pra pretos,né?

O Capitão do Mato não era vilão de desenho animado, assim como os escravos de ganho que possuíam outros escravos não eram os burgueses negros do mal.

O Capitão do Mato era um sujeito que conhecia o terreno e tinha trânsito, por isso a maioria era preto ou índio, nas mais diversas comunidades, inclusive as quilombolas, para que pudesse reencontrar pretos fugidos e mediar na maioria dos casos este retorno deles às fazendas.

Havia capitães do mato canalhas e violentos como mediadores e negociadores, como em todos os casos e funções.

Capitães do mato não eram pobres, pela função específica, eram menos parte do sistema de repressão que os feitores, porque muitos eram livres sendo pretos e tinham uma função complexa onde o excesso e a violência reduziam a capacidade de mediação e trânsito e por ai vai.

Mas nem tosdos eram livres, fica a dica, e mesmo assim também não eram exatamente pobres mesmo não livres.

Wu fico até convictamente constrangido de ter de dizer isso,mas a esquerda jura que não vê absurdo em demarcar uma parte inteira da classe como idiota porque não pensa como a parte “boa” e pior, a colocá-la como uma vilã de almanaque construído a partir de visões da escravidão que demarcavam a sociedade em classes e em papéis determinados de forma maniqueísta como se a sociedade fosse construída como um mundo de heróis e vilões?

E sério, antes de existirem classes no Brasil se classifica o mundo dividido em classes.

Antes de qualquer organização industrial e concretamente capitalista onde burguesia e proletariado ficam claramente construídos enquanto classe, e isso só passa a ocorrer a vera a partir da primeira década do século XX, é impossível usar categorias como classe pra falar da sociedade escravocrata.

Pior,sem conhecer as dinâmicas da sociedade escravocrata fica complicadíssimo limitar os papéis exercidos pelas diversas figuras, etnias e estamentos em limites estanques entre heróis e vilões.

Piora mais quando além de todo o equívoco construído em cima da ignorância se transforma boa parte da sociedade de hoje em um tipo de ente negativo que é violentamente ofensivo, por ser tomado como burro e por transformar uma maioria absoluta de gente preta em “capitão do mato” a partir de uma visão equivocada deste que o coloca como “caçador de pretos”.

E revela demais, revela ignorância, elitismo, messianismo, desprezo pela consciência que o outro tem, distanciamento do outro, transformação do outro em um tipo de animal rebelde que renega a condução e se isso é revolucionário meu nome é Tamanco.

Não só é absurdo comparar pobre de direita com capitão do mato, como é anacrônico e revela absoluta ignorância sobre o caudal cultural que compunha as organizações sociais e as diferentes partes da estratificação social durante o período da escravidão.

Aliás, revela um problema sério da esquerda de pindorama de conhecer pouco o próprio país, sua história e o que tem de estabelecido na historiografia sobre a escravidão.

João José Reis, Flávio dos Santos Gomes, Sidney Chalhoub, Eduardo Silva pesquisaram a escravidão e a pós-abolição por décadas e tem nos livros deles material o suficiente pra que se entenda a sociedade escravocrata sem esse tipo de anacronismo.

É de uma estupidez solene transformar o “pobre de direita” num ente criado pelo imaginário “intelectual” sobre o Capitão do mato, majoritariamente negativo e que ignora tudo o que foi produzido até hoje a respeito.

O que esperar de quem ignora que as fugas pra quilombo não são como aparece em Escrava Isaura, que a maioria dos Quilombos não foi Palmares, que a relação de boa parte dos escravos com seus senhores foi, especialmente pós Haiti, tão transformada que transformou o imaginário de Pelourinhos e chicotadas em lenda?

Claro que na cabeça dessa galera as Sinhas Pretas, que possuiam escravas, eram calhordas opressoras, ignorando toda a relação de escravidão em posse de ex-escravo como caminho mais rápido pra alforria,né?

E os Capitães do Mato que viraram menos os caras que trabalhavam na mediação entre pretos fugidos e senhores, nem sempre sendo violentos e homicidas,mas também atuando como leva e traz de reivindicações, pra que analisar isso?

O que esperar de uma galera que, pensando no século XX e XXI, pensa que no imaginário do período de escravidão o contrário de escravo era senhor e não “homem livre”, porque a ideia de liberdade foi, em toda a sociedade, algo construído a partir do fim do século XVIII?

Como explicar pra essa gente que a figura do Capitão do mato “retirando os escravos da liberdade” seria inútil em uma sociedade onde a liberdade para negros, e até pra brancos, era um treco impossível, como é até hoje, dado que a determinação da situação de livre ou escravo era principalmente a cor da pele, e não eram raros os forros reescravizados?

Já ouviram falar em “muros invisíveis”? Pois é. Dá até preguiça ler esse tipo de comparação e pior, ler a defesa disso como normal.

Se a esquerda quiser tem alguns livros fundamentais, como “Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil” do João José Reis e Flávio dos Santos Gomes, “Camélias do Leblon” do Eduardo Silva, “Visões da Liberdade” do Sidney Chalhoub, e pra fazer a relação sobre o “pobre de direita’ e o distanciamento que a esquerda faz do próprio marxismo pra formular esta bobagem, recomendo ” A formação da Classe Operária Inglesa” e “Costumes em Comum” do Edward Palmer Thompsom.

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