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Cuba era uma ditadura em vários aspectos, extremamente autoritária em vários aspectos, tinha problemas sérios na questão LGBT, tinha reduzida liberdade de expressão, falhou miseravelmente no combate à misoginia, mas também foi um dos países com a maior revolução na área social, educação e saúde universais e de qualidade, produção cultural absolutamente foda (Não cabe indústria cultural aqui), tem uma capilaridade de participação política da população que nenhuma potência “democrática” tem (contraditória no talo em relação à factual perseguição política a dissidência e pouca liberdade de expressão) com cada bairro e cidade tendo enorme participação decisória em todos os assuntos que dizem respeito à população e nada disso é excludente um do outro.
 
Nem justifica ser uma ditadura, nem como ditadura exclui o fato de ser uma ditadura sui generis, contraditória e em comparação com Franco, Salazar, Pinochet, Médicis/Costa e Silva/Geisel/Figueiredo, Videla,etc (que só melhoraram a vida dos ricos), incluiu sociedade e melhoraram a vida dos pobres, como Stálin também fez.
 
Nem o imperialismo em ataque fontal a Cuba e a comparação com o que o imperialismo fez com o Haiti se justifica ser uma ditadura, lamento.
 
Dá pra entender, dá pra raciocinar com isso, mas o grau de segurança necessária não justificam, nem justificariam, o que o Estado fez com dissidentes, em todo o largo espectro político, LGBTs,etc.
 
Lembrando que existem anarquistas presos, alguns sumiram outros morreram no cárcere.
 
Não se justifica a hipocrisia coletiva com relação a tudo isso por parte da esquerda, nem os ataques vindos da direita, de quem apoiou e apoia a ditadura assassina de Médici,etc com o argumento calhorda de “fizeram o que fizeram pra livrar o Brasil do comunismo”, com a mesma ferramenta retórica que silencia as críticas a Fidel por tudo o que seu regime tinha e tem de autoritário, e mais desonestidade intelectual porque combatem Fidel pelo que ele fez de parecido com Ulstra, herói dessa direita escrota.
 
E abre o debate sobre o Estado enquanto autoritário em si, em todos os regimes, em todos os parâmetros ideológicos,etc. Cuba, assim como a URSS, era representante de um tipo de autoritarismo, EUA e Brasil de outro. A diferença é enorme entre elas, ambas as formas de autoritarismo tem em comum a misoginia arraigada no Estado, a homofobia, o racismo em maior ou menor grau, a perseguição a dissidentes e aspectos de permissibilidade como totalitarismo, Stalinista de um lado e Fascista do outro.
 
Os argumentos de defensores dos dois lados do espectro transitam pelo grau de “sucesso” econômico das ditaduras, de inclusão social, de melhoria de qualidade de vida ou de enriquecimento e desenvolvimento tecnológico, em ambos os casos os defensores do Estado a seu medo mandam pro cacete questões cruciais como liberdade e fim das opressões.
 
Não há liberdade de imprensa e dissidência em Cuba? Nem no Brasil que encarcera Rafael Braga e cinco famílias controlam o direito à informação, cuja bolha é quebrada a duras penas por uma imprensa alternativa meia boca e pelas redes sociais. Em cuba também há a mesma ação, grupos dissidentes dão seu jeito e fazem o mesmo que nós e sofrem igual. Nos EUA há liberdade de imprensa? Perguntem pros ativistas dos movimentos sociais, vai nos perfis deles nas redes sociais e depois me conta.
 
Homofobia, misoginia, racismo são presentes em todas as estrutura de estado, porque são presentes em todas as estruturas sociais, e são mantidos no Estado porque o poder necessita controlar as resistências e dissidências e críticas para manter-se, seja lá qual for a justificativa em torno dele.
 
E também existia entre os Bolcheviques, que também encarceraram dissidentes antes de Stálin e isso não pode ser oculto numa postura que justifica isso em nome das “condições objetivas” porque sempre vão existir condições objetivas que impõe o cerol, basta procurar direitinho.
 
A questão é de enorme e necessário debate, sem binarismo, sem sectarismo. Em tudo tem aspectos positivos e negativos e que precisam ser debatidos e transformados, melhorados.
 
A mesma Cuba autoritária tem uma democracia decisória maior que no Brasil, assim como os EUA imperialistas tem mecanismos de controle social via conselhos nos condados, com uma feérica participação social que influenciaram a produção do Municipalismo Libertário de Bookchin, pai Confederalismo Democrático Curdo.
 
Duvida? Lê Ecologia social do Bookchin que ele vai te dizer que a inspiração dele foram a democracia ateniense e as organizações políticas em torno de conselhos municipais da Nova Inglaterra no período das Treze colônias que ele mesmo diz que persistem até hoje na maior parte das cidades.
 
O que não dá é silenciar as críticas a Cuba ou a qualquer país e sistema, de forma genérica, com uma apropriação de uma série de “condições objetivas” pra justificar cerol e rodo político.
 
É preciso discutir o Estado, a política, tudo, mas antes é preciso discutir a necessidade atávica das esquerdas de louvar a ancestralidade e a mitologia, a iconografia, de si mesma em vez de discutir organização e prática concretamente.
 
Se a gente abre mão da liberdade já no debate em nome da exemplificação calcada em autores e figuras públicas foi pro saco a porra toda.
 
Melhoremos.

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