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Qualquer estudante de história ou historiador já se deparou, e se irritou, com expressões como “Perdeu o bonde da história!” ou “O motor da história é implacável!” ou “Não escapará do julgamento da História!”.

Essas expressões fazem parte de toda uma tradição intelectual forjada na consolidação da disciplina História como “ciência” e também da consolidação das ideologias de esquerda como protagonistas das relações de força, das disputas políticas ou, como preferem os marxistas e alguns anarquistas, da luta de classes.

Forjada na modernidade, na herança iluminista da fé na razão libertadora e fomentadora da “evolução da humanidade”, que chegará a um ápice racional limpo de enfermidades, limitações, depressões, dores, amores e bicho do pé, no altar da grande ordem da perfeição racional, essa ideia de História, grudou que nem craca em todas as vertentes ideológicas e intelectuais por boa parte dos últimos dois séculos, só vindo a ser criticada e combatida a partir do fim da segunda guerra mundial com a percepção do resultado da organização racional em prol do genocídio que se convencionou chamar de Nazi Fascismo.

Claro que já no século XIX e início do XX havia essa crítica e esse combate, com Nietszche, e também um pouco com Buckhardt, Benjamin e boa parte da Escola de Frankfurt. A Escola dos Annales em certo sentido também rompeu com essa percepção da história e por exemplo, tensionou a ideia de uma história como locomotiva, trabalhando com a desaceleração da história e sua reformulação das diferentes temporalidades dos eventos históricos.

Mas o grosso do rompimento com a teleologia da modernidade e sua ideia do avanço e progresso da humanidade munida da ciência e da História como guia desta ordenada e progressista marcha veio a ter força no imediato pós-guerra com Foucault, Thompsom e outros grandes pensadores que perceberam que havia um sério problema nessa percepção.

Giovanni Levi, Carlo Ginzburg, Chartier, Thompsom e outros historiadores, discutiram a própria ideia de História como “reveladora da verdade do passado”, rasgando a utopia Rankeana, assim como já fazia Annales desde sua origem, e organizaram uma nova percepção da diversidade do campo da História, seja discutindo seu status como ciência a partir de sua retirada do paradigma galileano, seja produzindo uma investigação com variedade de escala de análise, percebendo o indivíduo ou núcleos populacionais anteriormente ignorados ou negligenciados pela história dos grandes homens ou pela história dos grandes eventos, da superestrutura e da marcha rumo à libertação racional.

O próprio debate em torno da ideia de história como uma construtora de representações do passado a partir de vestígios dele, e não mais de retratos fiéis do pretérito, e a noção das diversas formas de relações entre os povos e suas elites, as formações diferentes de consciência de classe, as diferentes formas de organização dentro das relações de força presentes em cada sociedade, tudo isso rompe com a História enquanto um motor cuja leitura universalizante era simples, fácil até, e permitia inclusive previsões, dado que a marcha racional dos homens era previsível, inexorável.

Dessa forma até o fim da História era possível, e foi inclusive decretado.

A ideia da História enquanto marcha teleológica foi rebatida, rediscutida e hoje não é mais palatável em boa parte dos cursos de história e na produção historiográfica, porém (ah, porém) nas escolas ela ainda é uma construção cotidiana, repetida, mantida sob cárcere privado por uma estrutura cristalizada no século XIX: a própria escola.

O resultado dessa distância entre a produção historiográfica e todos os debates inclusos nela é que a Escola reproduz uma ideologia mofada, uma ideologia onde a nação, a sociedade, todas são filhas da marcha inexorável da História na estrada da razão. Nessa escola a História, assim com H maiúsculo, é uma ciência que deve ser “ensinada” como o era para nossos pais e avós: Como uma revelação construída por Clio e doada aos mortais.

Nessa ideologia positivista e filha dileta do autoritarismo que adorna a alma das direitas nacionais de América e Europa, a mísera ideia da discussão da história local, do protagonismo dos alunos sobre sua história, da própria ideia do protagonismo local, de cada comunidade, sobre suas lutas e identidades, é uma afronta ao Estado-Nação e coisa de comunista.

É aí que o Escola sem Partido nada de braçada, que a direita tosca pira e bebe para atacar as ocupações feitas por alunos e tratar qualquer debate mais amplo sobre a História como uma forma de rebelião comunista comedora de criancinha.

É aí também que entra o “combate à ideologia de gênero” e outras cosias afins.

Porque a escola é reprodutora desse pensamento, a sociedade é formada por esse pensamento. É na sala de professores o primeiro germe da estruturação do Escola sem Partido, mesmo sem querer.

Porque a Escola forma a Sociedade com a ideia de “Não estuda, por isso é incapaz de decidir por si mesmo”.

Enquanto ao mesmo tempo o professor, incapaz de decidir por si mesmo por ser pressionado enquanto classe pela sociedade a ser uma espécie de pároco cuja vocação o permite lecionar sem ter dinheiro pra comer, transforma estudantes em depositários de uma razão externa a eles e se faz opositor da liberdade de compreensão do universo por quem não é “abduzido” pela ciência a partir da escola, ele se torna sacro, silencia a diversidade, transforma os estudantes em autômatos, não liberta ninguém e permite que, a partir dessa destruição da diversidade de compreensão, qualquer um com uma ideologia furreca como o Escola sem Partido, usando a mesma estrutura silenciadora da escola, retire qualquer chance de liberdade pedagógica do mesmo professor, criminaliza a luta dos alunos, as greves, o debate sobre gênero e por ai vai.

Da mesma forma a esquerda e os intelectuais formados por ela e nela silenciam qualquer relação de empatia entre suas ideologias e o povo, entidade da qual se dizem protetores e defensores, reproduzindo a ideia de que a sociedade “precisa” avançar numa direção pré-definida por uma marcha inexorável da história rumo à libertação socialista. Não há diálogo entre os diversos povos e essa esquerda, não há real dialética nas relações construídas entre os partidários das ideologias anarquistas e socialistas ou comunistas e as sociedades que dizem querer libertar.

Não há debate, diálogo, reconhecimento.

A esquerda, os professores, a escola, a modernidade todos “ensinam” ao pasmo “povo” que querem “iluminar’ o seu caminho. Atribuem ao outro de forma autoritária uma identidade de beócio, de muar, de tosco, tolo, de guiado, de teleguiado.

Mesmo quando dizem se aproximar do “povo” aproximam-se de forma tutelar. E não é um ou outro movimento ou um ou outro partido, mas todos.

Pra piorar quando dizem se aproximar do povo o fazem reproduzindo o discurso simplório da direita, mantendo a interdição do debate, apenas maquiando o “falar a língua do povo”, só que com uma tutela coronelista e fisiológica. Nãos e dialoga, não se entende as relações entre povo, terra, família, sexualidade, arte, nada, se constrói uma representação do povo, um Jeca Tatu Descalço moderno e a partir desse espantalho organizam-se teses e recitais de teorias descoladas do bom senso, e do povo, onde o Jeca Tatu Moderno só merece respeito quando ‘vota certo” e se não o faz é “uma besta que aceita cesta básica pra votar”.

É o mesmo iluminismo, é o mesmo distanciamento intelectual do povo, inclusive enquanto pesquisa e objeto, é a mesma ideia do outro como “índio”, limitado em sua escuridão, com táticas “conservadoras” e ‘burrice teológica”.

Esse iluminismo com enorme tinta racista é primo do Escola sem Partido e pai dele, só tem como incomum a tinta discursiva libertária.

Claro, a esquerda defende LGBT, negros, índios, mulheres, mas defende as mulheres mães solteiras, pretas e pobres que são a maior parte das novas famílias economicamente ativas do Brasil? Defendem os gays e lésbicas da favela? Os índios e sua percepção anticapitalista que ignora solenemente o parlamento, dado que nunca os ajudou e depende de uma lógica de correlação de forças que ignora suas relações de força e urgências?

Essa esquerda defende que povo? O povo que tem pavor da droga, porque a droga atinge mais duramente quem tem poucos recursos pra sair dela se rolar uma relação de consumo daninho, e por isso cria uma resistência gigante à legalização, resistência que não é enfrentada nunca porque “esse povo é ignorante”? O povo que não quer ensino da “ideologia de gênero” porque não liga a defesa de estudo das relações de gênero nas escolas com a violência doméstica e estupros e nunca via ligar enquanto for tratado como idiota por esquerda e direita? O povo que tem fé, porque fé é fundamental nas relações comunitárias e de ordenamento psíquico e emocional da maior parte da população, que não à toa tem relação quase zero, por falta de acesso, à psiquiatria e outras formas de combate à depressão e alcoolismo, por exemplo?

Não, esse povo não é defendido pela esquerda. A esquerda o enxerga como estúpido e repete isso sempre que pode.

E na escola esse mesmo povo encontra uma estrutura conservadora, que lembra um cárcere, que não estimula criatividade nenhuma, que os trata como tolos, que reproduz uma educação bancária, com depósito de conhecimento em consciências vazias, que se nega a rediscutir a relação professor-aluno (autoritária e mofada) e que se nega a se reconstruir para se ver livre do próprio conservadorismo, utilizado pelo Escola sem Partido pra nadar de braçada.

Esse iluminismo, essa ausência de interação real, concreta, cotidiana, construtora de horizontalidades, está na escola, no partido, no trabalho, na desumanização cotidiana, na hierarquização de sabres, de ideias, de gêneros, identidades de gênero, etnias, raças e orientações sexuais.

Esse iluminismo mantém próximas a esquerda e a direita institucionais.

Por isso pra ambos as eleições aprontaram uma enorme quantidade de quem não quer participar do jogo. Por isso no cotidiano a rejeição a partidos se amplia, e a luta contra essa escola e essa esquerda, seja de forma conservadora ou pelas ocupações, seja pela direita ou pela esquerda, se amplia.

E vamos alguma vez discutir esse elitismo iluminista tutelador da esquerda, essa educação, essa percepção teleológica da história e das sociedades?

Duvido.

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