freixo

Marcelo Freixo é o candidato da esquerda melhor posicionado para vencer as eleições municipais de 2016 e a partir deste caráter Freixo se torna quase onipresente no discurso e no imaginário simbólico da esquerda como um todo.

E não é a primeira vez, antes dele Lula ocupou esse lugar, e Prestes antes de Lula.

Freixo é apenas mais um elemento do sebastianismo da vez, sebastianismo esse que realça o aspecto teológico da formação teórica da esquerda desde que Lênin organizou o pensamento de Marx a partir de um foco voltado para a práxis, ou para a construção da experiência de tomada de poder, pra transformação da análise em discurso e prática políticas.

Essa crítica não nasce nem hoje nem em mim, ela é feita desde os primeiros anos do século XX pela Escola de Frankfurt e não só por ela, e ganhou mais especificidade com Walter Benjamin e sua comparação entre o marxismo e as religiões, inclusive elencando parecências com as tradições judaico-cristãs, daí também Benjamin cunha a categoria “marxismo mecânico”.

John Bellamy Foster nos relembra essa crítica ao escrever n’A Ecologia de Marx uma interpretação de Benjamin, incluindo também uma análise de como a esquerda marxiana se afastou das próprias análises de Marx a respeito do sistema representativo, da democracia burguesa e da própria ecologia.

Hoje, às vésperas do segundo turno das eleições para prefeito do Rio de Janeiro, esse escancaramento da transformação da liderança política em liderança místico religiosa, na reencarnação de Dom Sebastião e no Moiśes ideológico que abrirá o Mar Vermelho para que massas e massas de ativistas cheguem à terra prometida do socialismo amarelo onde jorrará leite, mel, especiarias e cerveja gelada retorna com força total.

Todas as críticas são tratadas como antes foram as críticas a Prestes, Lula, Dilma e outros tantos: Como virulentas injustiças ao nobre príncipe do socialismo moderno.

E isso logo de quem se organiza em todo da crítica (e se orienta em Marx, Trostki e Lênin) e que tem entre suas obras de referência obras como “Para uma crítica à economia política”, “A moral deles e a nossa”, “Por um marxismo crítico” ou “Que fazer?”, onde em praticamente todas se organizam uma série de críticas às tradições de parte da esquerda diante dos riscos da cooptação pelo sistema representativo burguês, especialmente n’O que fazer.

Freixo acaba de lançar uma carta onde assume compromissos junto à sociedade carioca, antes lançara um site onde rebate o que chama de mentiras sobre si, e entre estas refutações inclui Black Blocs como violentos e “ajuda” pra caramba os jovens acusados pela morte de Santiago, cuja tese de defesa é que houve um acidente, mas que também podem sequer ter estado no local à hora do acidente, dado que sua prisão foi coberta de irregularidades, além de existir a possibilidade da ação ter sido provocada por outras pessoas, tornando os acusados “violentos” junto com os Black Bloc.

Já escrevi a respeito, Black Blocs praticam a não violência ativa, e já indiquei este texto do Pablo Ortellado para quem quiser ler, mas a questão aqui não é essa: A questão é que Freixo não é unanimidade entre a esquerda, e nem precisa ser, menos ainda o ato de votar.

Além disso, toda crítica é bem-vinda, toda crítica é válida, numa tradição como a da esquerda, como um todo, a crítica nos movimenta e nos limpa da soberba típica de quem acha que está iluminado com a solução final de todas as coisas.

Quem refuta as críticas colocando a necessidade de suavização ou observação da “melhor hora” para que a crítica seja feita, em nome de não “mover os moinhos da direita”, silencia as críticas agora e silenciará posteriormente.

Aliás, é sintomática a aproximação discursiva entre os apoiadores de Freixo e os discursos feitos por petistas e apoiadores do PT, pelas mesmas razões, desde que Lula chegou ao poder e fez a reforma da previdência, nomeou Henrique Meireles (o mesmo ministro da fazenda da PEC241),etc. Sintomático inclusive nos detalhes: Nunca é hora de criticar.

Só que Freixo percorre o mesmo tipo de caminho ideológico já percorrido antes por Lula, etc, pode ser até mais “ético”, mas não é só de honestidade que se trata a política.

Em uma atitude também similar à de Lula em 2002, antes de fazer a Reforma da previdência, Freixo solta agora uma “Carta ao povo carioca”, uma espécie de versão municipal da “Carta ao Povo Brasileiro” de Lula, uma carta de intenções pra dizer “Ó, não vou comer criancinhas!” e vencer as eleições.

A carta tem uma série de indicativos de concessões à direita e de adequação ao tipo de administração “moderna”, sustentada por uma perspectiva liberal, organizada em torno da lei de responsabilidade fiscal (LRF) e que assusta, ou deveria assustar, a quem tem um mínimo de noção quando enfiam “custeio” e “gastos” em discurso político, ou atuam pra permitir que o discurso tecnocrata seja organizado dentro de uma suposta perspectiva de esquerda.

Freixo faz um termo de compromisso, assina e decidi analisar ponto a ponto:

Eu, Marcelo Ribeiro Freixo, comprometo-me a, caso eleito prefeito do Rio de Janeiro no pleito de 2016:

Montar um secretariado inteiramente formado por técnicos com comprovado conhecimento. Integrado, de forma equilibrada, por mulheres e homens. Nenhum secretário será nomeado por indicação de partido político.

Tá, desde quando pertencer ou não a partido político desmerece a capacidade técnica de alguém? Desde quando indicação de partido político é algum problema? Tarcísio, por exemplo, é um professor com capacidade pra dirigir um colégio como o CPII, ser reitor dele, não poderia ser indicado pelo PSOL, um partido político? Ou o PSOL virou grupo de ciranda?

Vamos mais longe: O que é ser “técnico”? O que é “ter perfil técnico”? As chances do discurso ser tecnocrata, parte da estruturação do pensamento neoliberal são enormes, a própria formulação do discurso aqui é tecnocrata e não difere porra nenhuma do discurso da direita nas eleições municipais país afora, ou o candidato sendo historiador esqueceu que análise de discurso é fundamental?

“Ter como prioridade a redução do custo de vida e a melhoria dos serviços públicos.

Beleza, diz ai como? Adoraria. Vago, pra ser bacana.

Garantir o equilíbrio do orçamento municipal, aumentando investimentos com a redução de gastos com custeio e cargos comissionados.

Discurso sustentado pela lógica da Lei de Responsabilidade fiscal. Cargo comissionado é problema? Depende. O que é custeio? Faz diferença cortar cargo comissionado em relação à dívida pública? Por que não cortar o pagamento da dívida até o resultado de uma auditoria e não retirar cargo comissionado sem uma avaliação mais inteligente? Salário de cargo comissionado é custeio ou as nomeações à Bangu é que são? Custeio inclui educação e saúde?

Revisar e tornar públicos todos os contratos da Prefeitura.

Beleza, acho ótimo.

Respeitar os contratos em situação regular. E investigar o que estiver sob suspeita.

Se o Porto Maravilha estiver em “situação regular” vai permanecer? Ser regular sob o ponto de vista legal não é discutível se, como o referido contrato, sob o ponto de vista de privatização de espaço público sem os devidos trâmites consultivos fere flagrantemente a legitimidade do contrato?

Atuar de forma ética e equilibrada junto ao setor privado, garantindo a independência da Prefeitura e o crescimento econômico.

O que é “ético e equilibrado”? É apenas não roubar ou também não mexer em revisão de regulamentações como em relação a transportes, para além de ônibus? E a necessária reforma urbana, no plano da revisão do uso de imóveis pra especulação imobiliária, etc? E a necessária revisão ambiental? Vai rolar ou vai interferir no equilíbrio?

Dialogar com o governo estadual, a União e a Câmara de Vereadores, priorizando os interesses da população do Rio de Janeiro.

Dialogar inclui dialogar sobre a PEC241? Sobre a MP do ensino médio? Sobre as isenções à CSN enquanto corta salário de servidor?

Reparem que em nenhuma linha se fala em diálogo com servidor, com trabalhador, com favelado pra usar UPP, mas tem diálogo com os poderes, diálogo com a iniciativa privada, etc.

Ninguém acha complicado o discurso?

Interessante da “Carta ao Povo Carioca” de Freixo é ZE-RO de menção à pauta ambiental, zero de preocupação com uma cidade feita pra transporte por combustível fóssil e o impacto climático disso.

Freixo na carta dialoga com empresários, iniciativa privada, união, estado, mas com Black Bloc, tornados violentos em site de sua campanha quando nunca o foram (Violência é contra gente, não contra vidraça e acidente não é assassinato) e quem radicaliza a luta, como os estudantes que ocupam escola, não tem diálogo.

Com a Sininho e a FIP não teve diálogo, com a FARJ não tem diálogo, com a juventude favelada que se organiza contra a UPP não tem diálogo (Freixo definiu em grupo de trabalho que vai usar as UPP pra “programa social”), mas com empresários, Temer e Pezão tem.

Mas não é hora de pegar pesado com Freixo, afinal nunca é hora de criticar a esquerda com chance eleitoral que alimentará a próxima geração de burocratas.

Pior é tornarem todas as críticas como de agora, como se tivesse nascido hoje, enquanto são críticas históricas e não só a Freixo.

Ele é apenas mais um elemento desta crítica, mais um ator dela, mais um que é cooptado dentro do processo, e não só ele, mas a maior parte do partido e ouso dizer que da esquerda partidária.

Estamos vivendo um enorme momento de ocupações de escolas e universidades por todo o país, momento histórico, sob o silêncio da mídia, e o candidato a prefeito da esquerda na segunda maior cidade do país não disse UMA ÚNICA PALAVRA a respeito em seu programa de TV.

Sim, queridos, Freixo, e o PSOL, escondem seu apoio às ocupações de escola para não ferirem suas chances de ganharem a eleição.

Sim, queridos, a eleição é mais importante pra Freixo e o PSOL do que organizar uma demarcação ideológica que pode, e deve, ter enormes frutos políticos para além do hoje.

Mas quem liga pro amanhã?

Quem liga pra luta cotidiana contra a direita se o mais importante é acomodar com a burguesia, receber o rótulo de fofo querido da Fátima Bernardes e ganhar aparato burocrático do estado, mesmo ao custo de confiança política coletiva em torno de sua figura e da ideologia que representa, não?

E a partir disso tudo, da própria sectária separação da “Esquerda boa”, a de Freixo, da “esquerda má”, a “Black Bloc”, da adequação de seu programa por uma economista liberal da tradição da PUC (alô, Malan!) exigem que toda a esquerda apoie e “suavize as críticas” a Freixo.

Passa amanhã, companheiro!

Primeiro que ninguém é obrigado a ligar o foda-se no pessimismo da razão em nome do otimismo da vontade, sabe?

Se você opta pelo otimismo da vontade pra transformar política em micareta cirandesca eu dou a maior força, mas pra mim política não é hobby.

Política pra mim é arma de transformação a partir da ótica do pobre. E Freixo não atende o diálogo com o pobre, nem com a cidade ou com a sociedade, o fato dele ser menos autoritário e mais liberal que Crivella só o coloca na posição de inimigo menor pra mim, não o transforma em aliado.

Freixo no poder significa uma pessoa que atuou frontalmente para a criminalização de companheiros no poder.

Crivella é pior? É, e repito isso todo dia, mas não soluciona o problema.

Morrer de Câncer é pior que morrer atropelado, o que não torna o atropelamento divertido.

Freixo no poder significa o empoderamento de quem confunde diálogo com consulta, e pior levando o rótulo de esquerda consigo, empoderando um significado de esquerda carrega um documento de filme repetido com chancela cartorial da História do marxismo mecânico, ou seja, repete no discurso e na prática o filme petista, só falta começar a roubar.

Por que Freixo confunde diálogo com consulta?

Porque ele atua com quem está a seu redor e com as comunidades que visita como um iluminado que leva as soluções ao povo, que ele jamais consultou, porque seu partido nunca tentou se organizar de forma capilarizada pra dialogar com o povo.

Sim, Freixo e o PSOL apareceram no subúrbio, mas nunca conversaram com o subúrbio, quando conversaram apontaram sites e plataformas da web pro povo ir até eles, jamais se tentou organizar o diálogo, o ir e vir da fala.

Não à toa os Garis do círculo Laranja optaram por votar nulo, e isso não é pouco.

Freixo pode ser o melhor em comparação a Crivella, mas é o melhor? É novamente do discurso do menos pior que estamos falando e de um menos pior que desde que surgiu só caminha para se tornar uma versão mais conservadora de si mesmo?

Se com a pressão de campanha Freixo já recua em pautas históricas, como o empoderamento de economistas liberais contrários à auditoria da dívida, silêncio sobre a pauta ambiental, combustíveis fósseis, campo de golfe, etc, imagina quando a pressão real começar.

Brizola governou de 1983 a 1987 tomando na cabeça co-ti-di-a-na-men-te pela TV e jornais impressos. Todo dia, toda hora, todo minuto e segundo. Com Freixo não vai ser diferente e Freixo tá absolutamente longe da envergadura política e moral de Brizola.

Brizola, sabendo que apanharia de qualquer jeito, encampou empresas de ônibus, reviu contratos, fez o cacete, Freixo fará?

Freixo recuou na primeira pressão das organizações Globo sobre o caso Santiago, rifou ali um monte de gente e seu discurso abriu caminho para a criminalização real de tudo o que fosse relacionado com Black Blocs, permitindo a base imaginária e discursiva que processo Sininho e os 23 presos da copa. Inclusive o silenciamento de críticas a Freixo começou, interna e externamente, aí.

Nessas eleições Freixo reforçou isso em um site e na carta supracitada ele permite uma série de percepções, e com um discurso absolutamente nítido nisso, que recuará mais ainda, ele repete, conscientemente, a trajetória do lulismo pra chegar ao poder.

Quantos recuos mais virão? Até ele deixar de ser o menos pior e se tornar de vez um deles?

Não, a esquerda não precisa apoiar Freixo e sob meu ponto de vista não só não deveria como deveria combater.

Freixo representa simbolicamente uma nova forma de ataque às ideias de transformações pela esquerda, uma forma de ataque que custa décadas para a reorganização da esquerda no imaginário coletivo.

Até porque temos a moral deles e a nossa, e quem começa a falar na língua deles não abraça a última moral.

Um comentário sobre “Não, a esquerda não precisa apoiar Freixo

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