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Pode não dar em nada essas ocupações de escola,mas me parecem o que venho colocando há anos: Não é simples limitar o universo ao eleitoral e à saída do armário da direita a confundindo com “avanço conservador”.

Desde 2013 a direita saiu do armário, mas a esquerda idem, uma esquerda que fugira, e foge, ao ethos que nasce com o PT e gira em torno do PT (E ai a gente inclui PSOL e PSTU, sabe?) ou que remonta às tradições da esquerda no século XX (PCdoB e PCB) e a todo o ethos de organização política centrada na forma partido e no centralismo.

Direta ou indiretamente essa esquerda partidária desce na boquinha da garrafa do centralismo democrático marxista-leninista, modificando em detalhes seja na tradição trotkista (PSTU) ou na tradição stalinista (PCB e PCdoB) ou construindo uma miríade de centralismos abrigados em um partido de tendência (PSOL e PT). E mesmo nos partidos organizados em tendências o centralismo sobrevoa as divisões internas a partir da política de consenso entre lideranças ou da imposição via força com maior número de cadeiras nas executivas e que vence as votações nas direções nacionais e executiva nacional.

Essa esquerda foi confrontada de 2013 pra cá por novas formas de contestação ao status quo que vagam mais pela não identificação direta com nenhuma tradição específica da esquerda do que pela opção específica por algum tipo de identidade, bambeando entre anarquismo, autonomia e uma mistura muito louca de ethos de diversas tradições da esquerda onde ao mesmo tempo negam-se partidos, autoridade, mas também não se estabelece nenhum tipo de método, teoria ou organização específica presente nas tradições clássicas.

Essas novas formas aparecem nas ocupações de escola, nos adeptos da tática Black Bloc, no Movimento Passe Livre, nos movimentos negro, LGBT e feminista, nas universidades, nas assembleias populares e nas periferias e favelas a partir de uma juventude que experimentou os anos Lula e o acesso a bens de consumo, às universidades e escolas, e não presenciou a redução da desigualdade como prometido, e ainda presenciou um recrudescimento do racismo, da violência policial, homofobia e misoginia a partir da resistência do conservadorismo branco das elites incomodadas com pobre pegando avião e preto na vaga da universidade que antes era reservada ao filho babaca do mar de Ipanema.

E se a esquerda percebeu o contra-ataque da direita incomodada com essa juventude que saiu da ausência de perspectiva pra percepção da perspectiva crítica, ou seja, que entendeu os avanços, mas também viu os recuos ou omissões, ela ignorou e desprezou o papel de toda uma nova esquerda que surge das nuvens de gás lacrimogêneo lançadas nas ruas de 2013 até hoje, uma esquerda que sofre tanto com a criminalização feita por esquerda e direita quanto com a ausência de respeito por parte das forças ditas progressistas com sua recusa à tutela de UNE, UBES, partidos e até do MST.

E por isso é lamentável o sinal claro dado pela esquerda partidária que ao acusar o golpe, com duplo sentido por favor, e falar do avanço da direita apela pra inclusão de tudo o que surgiu de junho de 2013 para cá como parte do “avanço conservador”. Porque demonstra uma série de problemas metodológicos, teóricos, de percepção e até de moral e justiça.

De 2013 para cá explodiu uma série de coisas, mas a maior parte delas foi a recusa a um sistema representativo onde o melhor que temos é ruim, como o PT.

O melhor que o sistema representativo dava a quem saiu às ruas em 2013 era um PT que nadava de braçada na corrupção, aprovava a criminalização de movimentos sociais e já tinha deixado claro que abandonaria o que fosse pra manter a tal governabilidade.

Enquanto isso a direita reagia aos avanços que foram nítidos na sociedade desde os anos 1990, como os avanços nos debates sobre drogas, feminismo, aborto, LGBT, luta antirracista, cotas, questão indígena, questão agrária, ecológica,etc.

E como a esquerda apartidária reagiu à reação da direita? Criminalizando a própria esquerda em nome da afirmação de que a luta dentro do sistema era a úncia coisa a ser feita.

Em um primeiro momento essa ação criou dois resultados pela esquerda: Aumento da luta extra eleitoral e abandono parcial da participação em eleições, com foco total nas ações.

Não à toa a esquerda passou a perder eleições, mas mantendo ações práticas que transformaram as lutas por direitos no Brasil de hoje, como as ocupações de escola.

Ao perder apoio eleitoral a esquerda partidária se viu analisando o universo como se estivéssemos em pleno recuo, enquanto estamos em plena disputa, disputa que já havia quando Dilma era presidenta.

Já disputávamos com a direita antes da eleição de Lula, o mundo nunca foi fácil pra garantir direitos e avanços, vide a reforma da previdência com Lula, vide os recuos nas questões LGBT, racial, indígena, ecológica e de mulheres com Dilma.

Temer assanha um neoliberalismo radical, diferente do que apontava Dilma com um neoliberalismo menos afoito,mas apesar de todo apoio midiático enfrenta enorme desprezo internacional e uma radicalização de esquerda que apavora reacionários fanfarrões e seus Escola sem Partido e “abaixo a ideologia de gênero”.

Essa radicalização da esquerda e das ruas, independente de partidos, que fez com que a direita apelasse pra Bolsonaros e Escola sem Partido e não PT e PSOL.

É para evitar essa juventude independente que “não tem liderança” que se busca censurar professores e destruir a educação pública.

E essa galera tá na rua reconstruindo o que a esquerda partidária não consegue enxergar pregando reforma política e fazendo campanha a cada dois anos.

O que representa isso tudo? No mínimo o novo em matéria de política. No máximo talvez mudanças que precisávamos e nenhum partido tinha nem condições nem a coragem de produzir.

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