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O binarismo político deve ter algum código qualificatório na lista de enfermidades da OMS.

Esse binarismo se manifesta de diversas formas e na maior parte delas adora transformar urubu em meu louro.

Pro binarismo político não existem árvores na floresta, inclusive floresta é um ente único, e não, não estão falando de Yellowstone.

O resultado das eleições municipais brasileiras de 2016 produziram um sem número de textos (este inclusive) e a maioria contendo tanto uma lacrimosidade estupendamente fantasiada de desespero quanto uma pomposa composição de otimismo da vontade com pouco zelo pelo bom senso.

Sim, existiu um enorme avanço nos votos inválidos.

Nenhum pleito teve legitimidade completa, na verdade a maior parte dos pleitos deste ano tiveram menos de 50% de participação, inclusive nas grandes capitais.

Nenhum prefeito foi eleito pela maioria dos eleitores.

Nenhuma câmara foi eleita pela maioria.

Esse fenômeno não é recente, e nem muito antigo.

Ao menos desde 2010 as eleições vem tendo um aumento significativo na abstenção e anulação.

Este ano foi talvez a primeira vez que repetiu-se em eleição municipal um fenômeno que passeava mais pelos pleitos nacionais,mas também foi a primeira eleição municipal depois do furação de 2013, quando as cidades entraram em enorme convulsão informando à toda a classe política que a população não estava nada satisfeita com sua representação.

Esquerda e direita responderam a 2013 de muitas formas, desde pela cooptação de sua ala à direita até a criminalização da sua ala à esquerda, especialmente a apartidária.

A GLO (Garantia de lei e ordem) e a Lei Antiterrorismo vieram em seguida a 2013 e tendo como alvo prioritário os chamados “Black Blocs”, dane-se se também vão criminalizar MST, MTST, índios, Quilombolas,etc.

Em 2014, com a manutenção da esquerda nas ruas e tendo em vista evitar problemas para a “Copa das Copas”, a GLO e a Lei Antiterrorismo foram aprovadas e pôs-se os tanques nas ruas das favelas e anarquistas e autonomistas na cadeia, sob os aplausos da esquerda partidária que assistia triunfante aquele bando de “mascarados” indo em cana e limpando a barra de suas manifestações pacíficas e ordeiras.

Com a repressão caindo em cima, um bando de gente presa, praças sob cerco da Força Nacional e o caralho, 2014 foi aquele espetáculo triunfante do micaretismo patriótico de todas as vertentes políticas amigas da “Festa da Democracia”.

As ruas, vazias de esquerda, permaneceram sendo ocupadas por quem vestia a camisa da CBF, mesmo pós 7×1, e não mais por quem dizia que “Não vai ter Copa!”.

Teve muita Copa, muita, teve muita cadeia também.

E teve eleição, com a população já se recusando a votar. E teve resultado apertado, teve eleito governando com o programa do adversário e mesmo assim com muita dificuldade. E teve Golpe, teve adversário derrubando quem governava com seu programa pra radicalizar mais ainda o programa neoliberal.

Teve isso tudo e teve crise, tá tendo crise, inclusive de representatividade.

Representatividade que foi arrombada pela prisão de anarquistas e autonomistas, criminalização de manifestantes, parte da esquerda batendo palma pra fascista dançar, parte da esquerda batendo pama comemorando a prisão irregular e indiciamento por homicídio doloso de adolescentes pela morte de Santiago, mesmo tendo trocentas dúvidas inclusive se lá estavam os jovens, e ainda tá tendo jornalista eleitor da esquerda partidária achando que a defesa dos jovens é “Criminalização da vítima”. e por ai vai.

E temos uma eleição onde a representatividade foi pro saco e quem mais perdeu foi a esquerda partidária, mesmo boa parte dos prefeitos ter sido eleito sem o endosso de metade da população de suas cidades.

Então a culpa pela queda de votos da esquerda é dos votos anulados e abstenções?

Não, é culpa de quem não se faz mais representante.

Até porque a direita também perdeu voto,mas a direita tá pouco se fudendo pra legitimidade das eleições ou de sua posse, ela não quer é gente na rua, greve e esquerda governando ou organizando resistência.

Mas e a esquerda? Bem, mesmo a esquerda que comemora ir pro segundo turno tendo pouco mais da metade dos votos do pleito anterior deveria ficar preocupada.

Primeiro porque é óbvio que parte de quem anulou nessa eleição ia votar na esquerda.

Segundo porque é óbvio que nem todo mundo ia votar na esquerda, mas não se sente fã do sistema.

E em terceiro é porque o eleito pela esquerda também não vai ter a legitimidade do endosso popular, porque provavelmente vai ter anulação e abstenção também no segundo turno.

Como resolver a questão?

Primeiro tem de parar de culpar o vento, a chuva e a grama porque perdeu o gol.

As pessoas estão fartas do sistema desde 2013 pelo menos. O recado é dado todo dia e a resposta que recebem ou é porrada ou escárnio da classe política, a de esquerda inclusive.

Só que apenas a esquerda liga pra essas frescuras de legitimidade.

Então tem de analisar com cuidado, pesquisar, tentar entender o real e reagir a ele com inteligência.

Segundo, tem de acordar pra vida e relacionar a recusa de ocupantes de escola, por exemplo, de ficarem juntos com UNE e UBES, com o fato de parte de quem se organiza e luta cotidianamente tá cagando pra eleição e não enxerga na eleição do Cachorro Vovó a segurança de ter um representante, e nem acha válido ter representante se se pode organizar e lutar com os de baixo.

As pessoas que lutam não se enxergam nos ditos representantes do povo.

Até porque parte dessas pessoas tomou uma porrada na cabeça ao ver quem era o comandante da “Primavera Carioca” e um figurão público que emanava utopia dizer “O PSOL precisa isolar os Black Blocs”.

Imagina você ver um cara que defendeu preso comum a vida inteira, com absoluta razão, botando na reta de quem estava sendo preso porque fazia parte de um bloco de gente que utilizava uma tática de resistência não violenta ativa à violência policial do estado burguês? Imaginou? Pois é, muita gente ficou puta, desiludida e pra usar uma terminologia carioca: Totalmente vendida.

E estamos falando de uma figura pública que era admirada nacionalmente.

Meses depois Sininho, Camila Jourdan, etc foram presas, vinte e três pessoas sendo presas por defenderem ideologias de esquerda, não partidária, entre os procurados estava Bakunin.

O que disse a esquerda partidária? Nada.

Isso mesmo, nada.

Em terceiro a gente vê que não se entendeu muito bem o impacto da Lava Jato em toda a classe política.

Sim, todos, que já eram chamados pelo senso comum de ladrões, sem exceção (Vai fazer panfletagem na feira de domingo em Valqueire que tu descobre isso), tiveram um upgrade em rede nacional.

Geral é ladrão.

E quanto mais parecido com petista mais ladrão, afinal além de uma cruzada ética, que contou com auxilio luxuoso da banalização da questão ética pela própria esquerda, tivemos o ressuscitamento do anticomunismo de galinheiro.

E em quarto tem de entender que o mundo mudou, e não foi pouco, e as lutas passaram a serem travadas no cotidiano, muito além do parlamento, e a resposta de gente na rua foi melhor que a resposta dem parlamentares “combativos”.

Afinal, quem baixou o valor das passagens em 2013 foi o vereador ou as ruas? E o impeachment?

Pois é, as pessoas entenderam que ir às ruas resolve muita coisa. E ai temos um problema sério: A própria esquerda criminalizou as ruas, deixando-as à mercê dos manifestantes a favor.

E isso tudo , e muito mais, responde as abstenções/nulos/brancos. E também abre caminhos de organização e estruturação da resistência,e da reação também.

A recusa ao sistema é um prato cheio pra quem tiver disposição de dialogar mais e catequizar menos.

Tem de ir explicar que educar não é professar,mas guiar.

Tem de ir conversar sobre o preço do ônibus, do feijão, do pão, do aluguel.

Tem de ir com mais vontade de propor coisas que exponham menos os pretos e pobres à violência quando eles forem à luta.

Tem de denunciar cotidianamente o genocídio de pretos e pobres e do lado de pretos e pobres.

Tem de ir saber como é antes de agir e propor.

E tem de ir rápido, porque a direita não tá de bobs.

E os estudantes tão querendo ocupar escolas, índios querem suas terras de volta, quilombolas também.

As coisas permanecem ai para serem reivindicadas, com ou sem vereadores e prefeitos, porque infelizmente com vereadores e prefeitos também não se resolveram as coisas, vide em São Paulo.

O Escola sem Partido precisa dos professores e estudantes nas ruas pra ser barrado e pra mostrar que não basta ser prefeito pra calar a boca e a força da gente.

As mudanças na CLT também, a PEC 241 idem. tudo precisa de gente na rua pra barrar e não tem outro jeito de resolver a crise de representatividade do que se fazer representado nas ruas.

Quem luta contra o sistema, quem acha que eleição é importante, todos precisam se representar no dia a dia.

É a única forma de começar a resolver a crise de representatividade.

E é preciso também discutir representatividade, que é menos importante eleger vereador e mais importante construir comissões de administração das cidades, com a participação plena da população e que ela controle orçamento, que ela discuta os ônibus, os transportes, a qualidade de vida, da água e do ar.

O recado das urnas é que a representação não importa pra praticamente 50% da população. Isso significa que nesta população existe quem quer representar a si mesmo em organizações autônomas e horizontais, quem quer um ditador e quem não quer nada disso,mas tá apenas de saco cheio.

Culpar essas pessoas ajuda a quem quer ditadura.

Dialogar com elas francamente, e horizontalmente e sem cooptação, permite outra coisa, quem sabe uma mudança séria na representatividade para além de plebiscitos tão inúteis quando o voto em si (Já se esqueceram do impeachment?).

Existe todo um debate em toda ocupação, em toda resistência, sobre novas formas de organização e de atuação nas cidades, ruas, estados, países.

Vamos deixar pra lá esse debate? Vamos continuar tratando o outro como idiota?

Rojava tá aí dando seu recado.

Não adianta vir com guaraná de reforma política pra mim, porque é o chocolate das novas formas de organização que eu quero beber.

 

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