150512-Boilesen

Recentemente a Agência Brasil noticiou que alguns dos arquivos de registro do DOPS-SP serão digitados pra facilitar a pesquisa.

Bem, pra começo de conversa essa digitação é uma deturpação em si mesma, mesmo que não seja a intenção dos envolvidos.

Por que? Porque a quantidade de possibilidade de distorção dos dados encontrados, de deturpação dos dados e dos registros é enorme, e por inúmeras razões, da intencionalidade dos envolvidos até pelo erro humano.

Além disso, a própria ideia de digitação e não digitalização com uso de tecnologia para permitir inclusive busca textual em documentos digitais é um contrassenso, um absurdo.

Passar pela cabeça de pesquisadores da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo que usar uma transcrição de documento como “facilitação de pesquisa” é transformar fonte primária em secundária sem sequer saber o problema disso.

Veja bem, o registro do DOPS-SP está lá disponível,mas em vez de ficar acessível ao pesquisador o que fica acessível é sua transcrição, mesmo que feita por funcionários qualificados para tal e fiscalizados por quem tem qualificação para exercer uma fiscalização minuciosa para evitar distorções.

E a óbvia ausência de acesso direto distorce automaticamente a pesquisa, torna um dado obtido dos documentos em um dado obtido através da interpretação de outrem sobre os documentos, dado que a digitação é em si uma interpretação, mesmo inconsciente, da fonte original.

Sequer começamos a discutir aqui as possíveis distorções intencionais a partir do viés ideológico, a própria ideia da digitação enquanto trabalho braçal, cansativo, que leva a erros possíveis e potenciais a partir da exposição do digitador ao cansaço, às dificuldades de ergonomia, à própria luz, à questões com sua visão e sua relação com a luminosidade do local de trabalho (O digitador pode ser míope ou sofrer de astigmatismo, os óculos estarão sujos, e as lentes de contato obsoletas, ou não?) e por ai vai.

Percebem o problema? E apenas cogitei alguns.

Em se tratando da memória da repressão, da ditadura militar, digitar arquivos assim, em vez de digitalizá-los, é uma afronta noticiada como boa notícia.

Tudo o que a pesquisa documental sobre ditaduras não precisa é a transformação de fonte primária em fonte secundária.

E mais, isso sendo feito sob um governo de São Paulo que nomeou Ustra para a secretaria de segurança pública e com a possibilidade de envolvimento nos registros da FIESP, que possuiu membros envolvidos diretamente com a operação Bandeirantes, além de financiá-las, como Boilensen, torna essa operação mais preocupante ainda, não necessariamente pela intencionalidade direta, mas pelo espectro de pressão ao redor.

A boa intenção por trás da pesquisadora Maria Carolina Bissoto quando coloca que por estarem em formato digital não permitem cruzamento de dados confronta o bom senso no âmbito da pesquisa.

Até porque o cruzamento de dados pode ser feito dependendo da operacionalidade tecnológica no acesso a esses arquivos, fora que este cruzamento deve ser feito por pesquisadores e não pela fonte.

A facilidade criada pelos detentores das fontes pode se transformar em distorção, não se tornam facilidade, dobram a necessidade de crítica das fontes.

Pode parecer uma boa ideia, mas o resultado pode ser desastroso.

Comente, mas cuidado...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s