unidade

O estabelecimento da ideia de unidade como valor fundamental pro anedotário da esquerda é algo bastante interessante e criativo.

Especialmente se a gente entender que o mito fundador da ideia de unidade perpassa a frase “A esquerda nunca se une, por isso que o capitalismo vence!” ou variáveis dela.

Bem, essa ideia é equivocada, pra ser muito gentil, porque se sustenta na ideia de unidade não contra o capitalismo,mas na ocultação das diferenças, todas transformadas em futilidade, e em torno de uma ideia que se abre como hegemônica (Muitas vezes com base na amplitude numérica os que a defendem) ou de um partido que se impõe como hegemônico (E do ethos que coloca as eleições como ferramenta de transformação).

Além disso, essa ideia oblitera as diferenças ignorando que independente de como estas diferenças se estabelecem todas combatem o mesmo inimigo: O capitalismo.

Dos sociais democratas com sua ideia de capitalismo humanizado aos anarquistas com a luta anticapitalista abraçada à luta anti-estado (E até anti-civilização) todos de alguma maneira combatem o capitalismo.

E é irrelevante se combatem o capitalismo bem, mal, se combatem o capitalismo e entre si tentando colocar quem mais tem razão,etc, no ato coletivo todos de alguma forma atingem o capitalismo com suas lutas.

Seja com ocupações ou com eleições de deputados, todos atrapalham o capitalismo de alguma forma.

Então por que a ideia de unidade se transforma na ideia de uniformidade na retórica da esquerda partidária?

Porque esta parte de pressupostos unitaristas e uniformizantes construídos a partir da ideia de centralismo, depois centralismo democrático, que já nasce em Marx no embate contra Bakunin na AIT e vira norma e esqueleto das organizações partidárias com origem na Social Democracia europeia do fim do século XIX até a fundação do Partido Comunista Soviético pós-1917.

Todos os partidos pós-Lênin abraçam a ideia de centralismo democrático de alguma forma, mesmo que não enquanto partido, mas enquanto valor presente nas tendências que os formam (No caso de PT e PSOL por exemplo).

Essa ideia grosso modo presume que o debate dialético se transforme em posição comum pelo acordo coletivo, mesmo que esse acordo se dê com a vitória da maioria sobre a minoria a partir de debates amplos e munuciosos.

Em resumo: o Centralismo Democrático presume que a posição coletiva se traduza numa posição unitária a partir do esgotamento do debate em torno de um assunto feito pela totalidade de um coletivo e este se convencendo que uma ideia é a melhor para todos daquele coletivo.

Isso em tese, na prática pode ser uma imposição da maioria sobre a minoria que por “disciplina partidária” a acata.

É tão óbvio que esse processo se constrói em torno de opressões que a própria esquerda marxista-leninista o discute e cria soluções relacionadas a ele, especialmente em partidos trotkistas, e parte da esquerda partidária sequer o abraça e inventa novas formas de debate, mas todos, ou praticamente todos, acabam virando o mesmo centralismo mais ou menos radicalizado em formas mais ou menos transformadas e “novas”.

Pouca gente saca que esse tipo de metodologia “inventada por Lênin” tem um tremendo elemento da cultura hierarquizada de fábrica, ou seja, uma tradução política do fordismo por Lênin, e no germe dela, e talvez da própria dialética marxista, tem um tremendo silenciamento dos sons pouco ouvidos, ou de minorias que não conseguem, por inúmeras razões, serem ouvidas na sociedade e também nas máquinas partidárias.

E é ai que o germe do mito fundador da unidade perdida nasce.

Sim, queridos, a ideia de unidade nasce da ideia de centralismo, que é construída em torno de silenciamentos.

E não só eu quem diz e nem apenas críticos do Marxismo: Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai tem textos a respeito (E é sintomático que isso tenha partido de mulheres,não?).

Emma Goldman já no início do século XX apontava pro aspecto autoritário do Leninismo (que Trotski também seguiu).

Bakhtin, marxista, apontava pra ideia de polifonia como crítica necessária à dialética, que na síntese silenciava parte da polifonia de sentidos de uma sociedade ou objeto.

Bookchin a partir do segundo quartel do século XX fazia critica direta ao fordismo leninista.

E sim, até hoje essas críticas são deixadas de lado e a mitologia da unidade perdida segue.

Em tempos de eleição toda crítica é silenciada com base nesse trambolho sub teórico que é a ideia que a esquerda algum dia se uniu em torno de algo que não fosse a luta cotidiana.

Pesquisem sobre a AIT,as greves operárias do XIX, aqui inclusive, e sobre a própria revolução russa onde ao menos anarquistas e socialistas revolucionários ladeavam com o Partido Social Democrata Russo (De Bolcheviques e Mencheviques) na luta contra o Czar.

Claro que na construção da cosmogonia da Revolução enquanto evento escatológico e teleológico tudo isso foi esquecido e Lênin e seus Red Caps viraram semideuses que conquistaram tudo sozinhos e ainda tiveram todo o resto da esquerda atrapalhando a inexorável lógica de seus cérebros geniais.

Só que a gente pode ler tudo isso de outra forma e ver já em Lênin, e em toda a metodologia e obra, o germe do que viria a ser nítido: O autoritarismo de Stálin.

E não se libera nem Trotski, basta pesquisar sobre Kronstadt e Makhnovistas, sabe?

Escrevo tudo isso porque do silenciamento de críticas ao Fora Temer ao silenciamento de críticas à própria participação da esquerda em eleições, passando pelo silenciamento de quem lembra da participação do PSOL no voto a favor da cláusula de barreira que hoje o retira dos debates, sempre aparece a ideia de que a esquerda se prejudica porque está “desunida” e que com isso “abre espaço pra Bolsonaro”.

Percebem o tamanho da tolice?

Dizem isso porque a esquerda não está na mesma chapa em vários locais, como se unidade fosse sinônimo de participar de eleições e só se combatesse a direita em espaços eleitorais.

Como se cada seminário, cada ato, cada performance, cada debate, cada comitê contra à PEC 241, cada combate ao Escola sem Partido e cada ocupação fossem ilusões coletivas e não fossem em si um enfrentamento direto a toda a direita, seus valores e também, por tabela, candidatos.

Dizem que quem combate a participação da esquerda em eleições empodera Bolsonaro, quando ignoram o quanto emponderaram Bolsonaro ao criminalizarem as ruas em 2013.

Fora que ignoram que por essa lógica quem endossa as eleições também empondera Bolsonaro.

Além disso, todas as vozes da esquerda que combatem Bolsonaro cotidianamente nas muitas marchas antifascistas, nos embates contra Bolsonaro nas escolas e universidades, nos atos públicos, nas aulas públicas, nas universidades, escolas, favelas,etc, são transformadas em “cúmplices do empoderamento de Bolsonaro” porque não participam de eleições e/ou apoiam o candidato da esquerda partidária.

Que unidade defendem?

Dane-se se há unidade no combate à direita, se não houver unidade de apoio ao candidato da esquerda partidária não há unidade? Querem unidade ou uniformidade? Querem unidade ou silenciamento da diferença?

Essa atitude de esquecimento de que não existe apenas um valor de esquerda, e uma ideia de transformação e um caminho e que apenas o caminho descrito por Lênin a partir de Marx funciona chega a ser infantil, se não fosse um valor que rima com um messianismo teórico de quinta categoria.

Detalhe, ignoram as próprias transformações do marxismo.

Não à toa o machismo dessa esquerda, o racismo, o silenciamento de minorias e pautas, a imensa ignorância da pauta ambiental (Inclusive da própria releitura da ecologia em Marx ou a partir de Marx) campeia dentro da esquerda partidária brasileira atual.

Indígenas, Qulombolas, Transgêneros, tudo isso ou é ignorado ou instrumentalizado com a adaptação grosseira de pautas liberais em torno desses grupos sem nenhuma reflexão coletiva ampla.

Favelas, negros, genocídio, feminismo popular? Ou é instrumentalizado ou tratado com tutela.

Por isso o choque com o descrédito que parte da juventude favelada tem com partidos e o subsequente tratamento autoritário desses como lúmpem, pior ainda se se organizam junto a autonomistas e anarquistas.

Enquanto isso Fora Temer de Starbucks é louvado, e é sintomático.

PS: Pesquisem unidade no Google em busca por imagens e vejam a coincidência entre “Unidade” pra esquerda e pra grupos religiosos cristãos.

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