Hellblazer_Vol_1_286_Textless

Há dias leio aqui e ali coisas sobre o Brexit, em geral comentários soltos, posições políticas da esquerda, dos jornais, relatos produzidos nas redes sociais por quem analisa a questão in loco,etc.

Preferi não ler enormes análises lotadas de dados e tentar responder menos e perguntar mais.

O motivo dessa opção é porque muitas percepções a respeito do Brexit, ou de qualquer grande fenômeno social, tendem há tempos a virem impregnadas de mecanicismos de direita, esquerda ou até mesmo anarquistas.

Um deles é o que coloca que a saída da Grã Bretanha da União europeia seria um meio de se livrar da Troika, o que me assusta um pouco tendo em vista a construção ideológica da austeridade para além de organismos e Estados A, B ou C.

A Grã Bretanha inclusive foi uma das criadoras da esquerda que segue o receituário neoliberal e da austeridade a partir do New labour de Tony Blair, que se espalhou como pólvora acesa Europa afora, esquerda afora.

E esse é uma das questões que escolhi colocar: a saída da União Europeia resolve o problema da austeridade? Se sim, como resolve?

Sinceramente do que eu vi não há a menor chance da resposta ser sim, ainda mais com uma análise melhor de quem lucrou com a saída sob o ponto de vista político.

Do Britain First a Le Pen, boa parte dos grupos ultra conservadores europeus comemoraram tanto quanto a esquerda radical. Claro que sob perspectivas diferentes.

Os ultra conservadores comemoraram a partir da perspectiva do combate à imigração e fomento ao discurso nacionalista com tinturas fascistas.

A esquerda radical comemorou a partir da percepção do enfraquecimento da Troika, da possibilidade real de libertação nacional por parte de Escócia, Irlanda e Gales dentro da Grã Bretanha,mas também com a abertura de meios para que coletivamente países devastados pela Troika ganhassem um bom álibi para saírem também do âmbito da União Europeia, como Portugal, Espanha, Grécia e Itália.

É até interessante a perspectiva da esquerda radical,mas o que há além de perspectiva?

Porque o discurso ultraconservador me parece que tem um grande trunfo na conquista da hegemonia político-cultural no Reino Unido, e não só, se é que já não é o grande vencedor desta batalha.

Há um real processo de organização pela esquerda radical nos países europeus, e no próprio Reino Unido, que garanta uma vitória dessa perspectiva de esquerda?

Outra coisa, a esquerda europeia fez um brutal esforço nos últimos anos pra se organizar de forma a produzir na União Europeia um cenário de avanço coletivo para enfraquecer a Troika por dentro, esse esforço de PODEMOS, Syriza e Bloco de Esquerda de Portugal foi, e é, inútil?

E como está a organização popular para além dos partidos e das academias?

O avanço conservador europeu é de conhecimento tácito, a perseguição às organizações orgânicas populares idem, o sentimento anti-intelectual também, onde está o avanço de uma perspectiva que não seja alimentadora do ultra conservadorismo praticamente fascista?

Grupamentos autonomistas e anarquistas vem há anos sendo perseguidos pelos Estados Europeus, com a anuência ou omissão de boa parte da esquerda partidária, mesmo antes de uma guinada ultra conservadora, como será a partir de agora?

E com relação aos imigrantes, grande alvo deste plebiscito, e provavelmente dos que se seguirão?

E os resultados econômicos imediatos? E as formas de reversão econômica para os países que saem da União europeia, foram pensadas, estão sendo pensadas para além do discurso de comemoração?

Que a UE era, e é, uma ferramenta de opressão burguesa em larga escala à classe trabalhadora a gente sabe, mas sair dela desarma essa ferramenta, e suas sucursais nacionais? É pra se comemorar quando o discurso mais ouvido não é o da esquerda?

E com o avanço do nacionalismo enquanto eixo discursivo e cultural na Europa, como ficam as ideologias de cunho explicitamente internacionalista como socialistas e anarquistas?

Pra se derrubar a Troika o que mais se derrubou?

O eco que se ouve é o de uma esquerda que comemora um processo ideal a partir de um evento que pode ter múltiplos resultados, inclusive o que a condena.

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