classe operaria 2

Pra perceber a luta de classes é preciso antes de mais nada discutir o que é uma classe.

Se analisarmos a partir dos cânones a classe se dá pela exploração de uma classe pela outra. A partir dessa percepção a consciência de classe é uma ferramenta de superação da opressão.

Sob outras avaliações, como a encontrada em E. P. Thompsom, a consciência de classe é fundamentadora da próprio entendimento da classe como tal. Até o momento em que adquire essa consciência uma classe existe enquanto ator explorado,mas não é protagonista de si mesma, não tem a característica necessária para seu auto entendimento enquanto classe e a partir disso não é necessariamente uma classe.

Quem coloca que a classe existe*,mesmo sem consciência e que a consciência é o que a move para libertar-se de uma exploração que é o que a faz se a parte da luta de classes em oposição à outra classe, proprietária dos bens de produção, tem muita razão, embora pra mim uma classe só é classe sob a perspectiva de Thompsom, só se é classe quando se reconhece como tal.

Vá lá, vamos concordar aqui pra efeito prático, mas o existir da consciência, o que consolida uma classe como tal é ainda fundamental para que esta classe se mova, correto?

Beleza,mas isso significa o que?

Significa que independente do quanto a gente discuta sobre a classe, é fundamental discutir como tomamos uma classe pelo que se idealiza dela e menos pelo que ela entende a si mesma como classe.

Entendemos a classe, partido da classe, mobilização da classe? Ou entendemos a classe operária, sua mobilização,partido e consciência a partir de uma mitificação nossa do que achamos que é classe?

Na maioria das vezes todos os movimentos que partem dos cânones do século XIX como referência, sejam marxistas ou bakuninistas, parte da categoria “classe operária” e não da classe em si.

Discute-se menos as transformações da classe no decorrer do tempo do que filigranas sobre a movimentação da política a partir da narrativa da intriga palaciana.

A galera precisa da narrativa “midia má, justiça má, mundo mau contra nós os bons”. Funciona muito como apego ficcional ao inimigo externo que nega a autocrítica, que zera o bom senso, que manda pro caralho qualquer tipo de construção política duradoura. Funciona bacanamente como reprodução do aparato ideológico da burguesia, mesmo vestindo esse aparato com significações, rituais,rótulos e signos da luta operária.

Não se busca entender a classe, mas busca-se construir em torno dos jargões nascidos na luta de classes um teatro amparado no ethos da sociedade do espetáculo.

Dilma, Temer, Cunha, tudo isso passeia em textos cada vez maiores, em discussões intermináveis.

Cita-se Marx, Bakunin, Malatesta, Zerzan, Deleuze,mas não se analisa praticamente nada.

O viés de adorno que as teorias ganham é maior que a construção de pressupostos práticos para as transformações urgentes que a sociedade,e a classe, necessitam.

A luta de classes é uma categoria que tá em nove em cada dez textos e discursos, a compreensão dela no entanto..

E por que? Porque provavelmente o teatro de operações de boa parte da esquerda saiu do cotidiano e partiu pras representações dele, seja na vivência nos aparatos burocráticos (estatais ou não) ou no simulacro de luta de classes e pela democracia que são as redes sociais.

A própria ideia de entender os diferentes ethos e abordagens da luta de classes no próprio interior da esquerda (como uma espécie de história da historiografia dos movimentos sociais,organizações e partidos) vira ficção científica diante do cenário montado pela esquerda para desfilar seus andrajos cheios de paetês.

Perde-se mais tempo com substitutos de análise, como o que toma anarquistas como ilusionistas da luta ao “deixarem de assumir suas responsabilidades com a revolução e pegarem apenas os exemplos bons de suas lutas”, do que entender as diferentes abordagens éticas e teóricas para com as lutas e a própria ideia de consciência de classe, elemento fundamental para qualquer lado da esquerda, dos reformistas aos revolucionários, passando por anarquistas que não necessariamente se colocam como o segundo time, embora não façam parte do primeiro.

Enquanto isso a classe em si permanece em sua lida cotidiana, seja procurando viver de bem com a sua terra ou construindo louvores a São Jorge com um viés ético solidário, revolucionário, anárquico e poderoso.

Qual a consciência dessa classe? Sabemos ou a deduzimos de longe a partir dos cânones?

Por que parte da classe apoiava Black Blocs mesmo achando que comunistas são péssimos?

Por que parte da classe quebra trens quando atrasam,mas criticam quem quebra vidraça de banco?

Por que parte da classe vota em Lula,mas odeia o PT?

Por que parte da classe frequenta os movimentos de base , estudam nos cursos, ampliam e mantém suas redes de solidariedade,mas cagam pra Bakunin e Kropotikin?

A maioria de nós não tem a menor ideia, eu incluído.

Mas evangélicos, parte do PMDB, boa parte da direita, o MST, parte do MTST, sabe. A igreja sabe.

Provavelmente porque ouve mais, fala menos.

A ideia de perceber a consciência de classe e o que é a classe, e sua formação é parte fundamental das dinâmicas que a esquerda precisa aprender pra poder transformar o mundo.

Se perdermos menos tempo tentando definir se quem está certo é quem acha que a construção da luta política passa pela realização de um evento escatológico chamado revolução ou quem “deixa de assumir suas responsabilidades com a revolução e pega apenas os exemplos bons de suas lutas” como os anarquistas que muitas vezes entendem que a ideia de revolução é hierarquizante, teológica até, que substitui a construção da sociedade como se quer hoje, das mais diversas formas, pensando até no futuro,mas sem querer defini-lo por portaria enquanto adorna um novo estado pra chamar de seu enquanto se oprime o outro, talvez tenhamos mais sucesso no passo mais óbvio: Entender o que somos e que realidade vivemos.

A classe operária brasileira nunca será a dos manuais, como não o foi a inglesa ou a francesa. Cada qual se constrói a partir de suas estruturas amplas, de econômicas a culturais, e de sua resistência a ela.

A classe operária brasileira nasce sobre uma estrutura de profunda e dura hierarquia, racial e de gênero inclusive, de uma estrutura violenta, cruel, sanguinária. Não que a inglesa tenha nascido na Disney, mas aqui o outro era humano ou não dependendo de sua cor e origem.

E é por isso que não adianta propaganda dizendo que o povo não sabe votar ou que quem vota é “escravo” em uma sociedade onde boa parte e descendente de quem foi escravizado.

Não adianta brandir cânones na frente da estação de trem sem entender o que é andar de trem na hora do rush.

Não adianta maldizer religião sem entender o poder da festa de São Jorge no RJ ou a folia de reis em São Paulo e Minas Gerais e sua construção de um ethos de distribuição de comida da comunidade para a comunidade.

Não adianta falar mal da suposta “alegria alienante” do povo sem sacar como o Samba é construtor de redes de solidariedade comunal, griô de memórias, como o funk é enfrentamento ao patriarcado e como o rap é canção de trabalho da rebeldia.

Se a consciência dessa classe não existe, e existe, então construí-la tem de passar por dialogar com ela a partir do que ela é e não do que ela deveria ser.

Não, ninguém faz samba só porque prefere, então por que o samba é fundamental pra entender que consciência essa classe tem, como essa classe é, como ela quer construir o novo? Porque o samba, pai do prazer, filho da dor, é uma linguagem, e ela nos diz o que teses inteiras falharam em dizer, porque é elemento firme de categorias nativas, é um balaio de significâncias.

Uma festa de São Jorge em Madureira explica mais sobre a classe trabalhadora carioca que dois mil discursos da esquerda partidária.

As pessoas falam em “Partido da classe” pra uma classe que jamais tomará partido dessa gente universitária ensaboada que trata a festa de São Jorge como bibelô de um multiculturalismo que é na verdade apropriação cultural, adorno, perfume de povo a partir da participação condescendente e observante,mas que nunca compreende, aquele distante que é a tal classe.

Depois de uma porrada que a esquerda como um todo, querendo ou não, toma pós impeachment de Dilma, o primeiro passo deveria tentarmos entender essa classe, sua consciência, o que ela é.

Isso pra começar.

  • Depois de uma discussão com a Niara achei melhor ressaltar que a categoria classe tem significâncias diferentes e que não há exatamente uma correção absoluta em categorizar a classe como existente a partir da exploração dela ou a partir de sua consciência.

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