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A esquerda é useira e vezeira da tautologia de achar que a revolução acontecerá, só não se sabe como. A revolução é.

Pra mim, pessoalmente, a revolução não é. Ela ocorre muitas vezes, ela ocorre à nossa revelia, ou produzida por nós, porém não se mantém, pois ao se manter deixa de ser revolução.

A ideia de um evento que supera a estrutura, o passado, a cultura e projeta o novo, mesmo com todas as considerações culturais, políticas e organizacionais a respeito de transições e seus programas, é a negação do evento em si como transformador.

Por isso enxergo na anarquia da produção de transformações a partir do estabelecimento da experiência e ali em si revolucionar, pra produzir construção paulatina ou pra produzir fissuras no tecido histórico-estrutural que permita a permanência ideológica, a percepção ideológica maus acurada sobre a transformação.

A revolução sendo em si mesma um evento dado é inclusive uma percepção política de cariz autoritário, pois nega ao coletivo a transformação a partir de sua diversidade.

Revolucionar é mexer-se é transformar-se, é mudar, permanecer não é revolucionário.

O novo precisa vagar, reler, reconstruir, refazer-se, deglutir canibalisticamente o hoje pra ser amanhã enquanto hoje.

Esperar o amanhã como se o novo se constituísse como uma muralha de estruturas erguidas dos entulhos das estruturas anteriores é efetivamente fazer da transformação um trabalho de Sísifo da remontagem do fracasso como se sucesso fosse.

Prender-se no amanhã como se não existisse hoje e o ontem e como se a construção do novo não fosse também uma remontagem, uma releitura do ontem como uma nova arte, com um novo olhar também é transformar o ato histórico de rebelião e transformação num salto sem chão, numa ilusão também autoritária.

O novo é também antigo, o novo é também reconstrução.

É contraditório? Pode ser,mas a questão é sempre a de entender que o estabelecimento de um novo cuja ruptura promove uma fantasiosa epifania semi religiosa que faz da construção deste novo a partir dos cacos do antigo uma magia que nada traz do passado, que nada carrega consigo dos erros e acertos dos antigos passos, ignorando que o foco do novo é ser novo sempre,mesmo carregando tradições, relendo-as com novos olhos e buscando evitar fazer de tendas palácios é o erro médio do trabalho de Sísifo da esquerda em geral, que trata a ideia de revolução como destino manifesto.

A ideia de revolução em si precisa ser revista não como artesanato da pós-modernidade delirante,mas como releitura dos cânones com novos olhos.

Não foi a toa que Marx ou Bakunin nunca propuseram um amanhã dado,mas foram céleres em propor organizações hoje, transformações hoje.

Transições? Bem, transições postas de cima pra baixo não são transições, são permanências, são reengenharia.

Transformar é mudar, é agir pra fazer o novo a partir do velho e do amanhã um hoje a partir do hoje.

Transformar é transformar todo dia em novo dia, fazer das ocupações portais pra novos mundos, das ruas palcos do novo homem e da nova mulher, dos debates espaços pro novo diálogo.

Transformar é ver unidade como algo além de uniformidade.

Transformar é fazer acontecer no hoje o terreno do que pretende amanhã. É ler a nós mesmos e ao outro com a leitura mútua que constrói a ajuda mútua.

A revolução é permanente, não como foquismo com franquias mundo afora,mas como ferramenta de superação da cultura hierarquizada de fábrica, de gênero e raça, de cor da pele ou funções, pela horizontalidade diversificada e polifônica da ecologia, dos biomas, das interdependências das organizações naturais.

A revolução não pode ser evento,mas entidade.

A revolução precisa ser sintoma da liberdade, e não a causa dela.

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