Oficina_planejamento_gestao_territorial (17)

O suposto pragmatismo político tende a classificar o que ele considera “radicais” ou “xiitas” de sonhadores.

“Xiitas” vem a ser aqueles que tem posições ideológicas firmes e bandeiras definidas, entendendo que determinados excessos de flexibilização levam às derrocadas.

Normalmente essa confusão se dá num sofisma onde o “Pragmático” diz que são necessárias concessões ao Estado, ao sistema, etc para governar ou vencer eleições enquanto o “sonhador” ou “xiita” diz que esse tipo de concessão não necessariamente constrói vitórias em eleições e leva às derrotas futuras. Derrotas no sentido amplo da política.

Pois bem, ambos estão, ao mesmo tempo, certos e errados. Os tais pragmáticos acertam que em um sistema político “normal”, o dito burguês, sem concessões é difícil pra caramba vencer eleições. E os sonhadores acertam ao colocar que de concessão em concessão a derrota, cada vez mais fragorosa, enche o papo. Erram ambos quando os pragmáticos acham que só concedendo se vence eleição e os sonhadores colocam-se avessos à qualquer adaptação programática para seguir em frente.

Óbvio que estamos falando dos campos que atuam na institucionalidade.

Porque se olharmos sob o ponto de vista para além da institucionalidade, quando política é o grande campo de disputa entre classes, gêneros, etnias, sistemas, biomas e economias, o debate muda radicalmente de figura.

Porque ai qualquer concessão é derrota, se não for concessão literalmente tática diante de possibilidade de conquistas imediatas ou de salvação de vidas, por exemplo, em ocupações de terra ou imóveis abandonados, ou em ocupações de reitoria e escolas ou resistência à violência policial. Porque a única concessão possível na luta cotidiana é a que salva vidas e a própria luta, todo recuo numa ocupação só pode existir se for pra salvar a ocupação ou a vida das pessoas ali vivendo.

Na prática nenhuma concessão na luta cotidiana é programática, é tática e diante da necessidade imediata da luta, de segurança, etc. Além disso, cada concessão dessa precisa de coletividade, de presença coletiva no âmbito decisivo.

Nenhuma luta cotidiana, de rua, concede os objetivos principais dela em nome de eleger qualquer um a qualquer cargo. E não tem nada de sonhador nisso, pelo contrário, é pragmático.

Uma ocupação só deve ceder quando não tem mais condições de permanecer existindo com os ocupantes em segurança. Idem as greves.

Sequer podemos chamar decisões coletivas sobre as lutas cotidianas de concessões se nelas não existir imiscuída a pelegagem clássica.

Nas lutas cotidianas, seja as de indígenas ou quilombolas, sem-terra, sem teto ou estudantes, qualquer concessão política é recuo, e qualquer recuo pode significar um jagunço pondo fogo na casa do lutador.

Nessas condições a ideologia presente, o horizonte utópico e a sustentação do sonho são primas diletas das decisões práticas cotidianas, das desconstruções, construções, transformações e ações coletivas e pessoais de cada participante. Não existe uma separação, um encaixotamento de planos, sonhos e objetivos em potinhos separados que podem esperar uma eleição para serem postos em prática. Quem faz isso se arrisca a perder-se e geralmente se perde e quando se perde pode morrer.

Nesse plano a ideologia, o sonho e o horizonte utópico são bastante realistas e o ativista ou militante sabe muito bem que vidas estão em jogo em cada decisão. Aqui a ingenuidade mata.

Já no âmbito institucional chega a dar pena o quanto a política é vista como um jogo onde regras escritas num papel, seja na constituição ou no regimento interno de uma câmara ou assembleia, são respeitadas e existe um tal Estado Democrático de Direito.

Aliás, a crença de “pragmáticos” no tal Estado Democrático de Direito é um troço que beira o misticismo que a maioria deles diz ter abandonado em nome de uma “práxis” meio ateia que, no fundo, é só uma substituição modorrenta e poser da fé clássica em Deus por um outro mito construído pelo Iluminismo.

Em tempos de impeachment é irônico ver tanta gente que classificou lutadores pelos direitos de indígenas e quilombolas ou ecologistas de “minorias com projetos políticos irreais” acreditando que gritar nas praças que existem manobras em curso pelo impeachment de Dilma e que isso é “ilegal” (Não é) e golpe (é) e quem faz isso destrói o Estado Democrático de Direito vai resolver o problema e que se não resolver será um “puta mundo injusto”.

Pois e, queridos, é um “puta mundo injusto” e gritando histericamente nas redes sociais que Cunha é ladrão ou que Temer adora Satã não vai torná-lo justo.

Também é um “puta mundo injusto” que o Xingu esteja indo pro saco apesar de toda resistência indígena porque dona Dilma resolveu construir um Monstro obsoleto projetado na ditadura pra “gerar energia”, quando na verdade era pra capitalizar empreiteiras sócias dos projetos eleitorais pragmáticos.

Também é um “puta mundo injusto” anarquistas e autonomistas terem sido presos por denunciarem corrupção, remoções e violações de direitos humanos do Estado Democrático de Direito durante a #copadascopas e todo esse processo ocorrendo com base em nada, sem nenhum indício de crime, sem nenhuma vírgula de ilegalidade cometida por parte dos réus, igualzinho tá acontecendo com a Dilma.

Só que se ambientalistas e indígenas ficarem apenas reclamando nas redes sociais que é um “puta mundo injusto”, o mundo não vai deixar de ser injusto e a caçarola permanecerá queimando pro lado deles.

E se anarquistas e autonomistas chorarem pelas prisões derramadas sua luta não gira, seus grupos, movimentos de base e organizações de educação popular não prosseguem.

Por isso os indígenas do Xingu, os Quilombolas de Oriximiná, os Moradores da Favela da Maré ou do Alemão, os LGBT do país todo e as mulheres, Trans, Travestis, ecologistas, anarquistas e autonomistas não perdem seu tempo apenas xingando muito no twitter ou acusando ladrão de ladroagem e pressionam com rua há anos por mudanças, sem ajuda nenhuma de quem chora hoje por um Estado Democrático de Direito que nunca existiu.

 

Porque esses lutadores sonham são utópicos, mas não são ingênuos. Já os pragmáticos acharam que voto era cinturão de invulnerabilidade e que não haveria tensionamento e derrota possível enquanto Dom Lula caminhasse sobre a Terra.

Enquanto isso esqueceram como ocupar, produzi, resistir e passaram a chantagear, cooptar, destruir.

E tudo isso na crença ingênua que não haveria preço.

Hoje quem sustenta a resistência são os utópicos nada ingênuos, enquanto a ingenuidade impera em redes sociais, ruas e demais habitats do novo esquerdista dançarino de Maxixe na Lapa.

Tá na hora de parar de chorar e começar a mexer o rabo, ainda mais se a derrota do governo vier, porque essa derrota é de todo mundo, não porque o governo nos defendesse, mas porque além de cooptar movimentos ele cooptou o simbolismo da esquerda.

Se for pra chorar vamos chorar por nossos índios e sem-terra mortos, que permanecessem sendo mortos enquanto lutam por sua utopia enquanto pragmáticos se lamentam em frente a câmara que os devora.

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