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Discutir anarquia é bastante complicado. Não exatamente por ela em si, mas pela percepção social e dentro mesmo da militância de que é preciso dar respostas sobre o que é anarquia na luta cotidiana.

Bem, pra começar é preciso dizer que não, não precisamos dizer como a anarquia funciona nem como será uma sociedade anarquista. Por quê? Porque basicamente quem tiver essa resposta é mais mãe Dinah que lutador político e/ou teórico.

Se olharmos como Bakunin, Malatesta, Kropotkin, Bookchin, etc propõem a organização anarquista encontraremos via de regra posicionamentos diretamente ligados ao momento e à luta em que vivem.

A ideia de uma sociedade futura anarquista é transformar o cotidiano de lutas anarquistas em uma construção runo a um evento escatológico futuro, chamado revolução, quando a anarquia é exatamente o entendimento de que a revolução é agora e ocorre a todo momento, inclusive a transformação do sistema ocorre em cada núcleo organizado de anarquistas, em cada luta, em cada momento.

A ideia de construção da nova sociedade é feita a partir do princípio destruidor da anterior. _Não há futuro, não do ponto de vista do grande evento escatológico, da grande revolução que a todos liberta.

A revolução é todo dia, a revolução é toda hora.

Uma nova sociedade não pode ser descrita antes de sua existência e sua existência não pode ser desenhada sem que esta sociedade se organize, de forma horizontal e sem hierarquia, construindo suas instâncias a partir de decisões coletivas.

Isso, óbvio, não inibe que desejemos um tipo de sociedade e que lutemos por ela, mas dizer como funcionaria a educação é limitar a percepção da educação, ou do que quer que seja, em fronteiras definidas por fora do coletivo, e isso sim seria um anátema para a anarquia.

A sociedade que eu desejo construir tem muito mais de Bookchin que de Bakunin, entendo ser muito mais construtivo organizarmos as sociedades dentro das cidades de forma a ampliar a horizontalidade delas, a partir de organizações de bairro, de vila, que se espalhem cidades afora e atuem firmemente contra o estado, do que se retornarmos a uma lógica organizativa “de fábrica” que era mais comum, e necessária, no século XIX.

Porém os eixos de organização dessa sociedade dependem menos do meu desejo do que o da formação destas sociedades a partir delas mesmas, delas e de suas lutas e suas construções particulares, dentro de suas culturas e organizações horizontais.

O modelo de organização da Federação Curda de Rojava, do Curdistão Libertário, onde conselhos de velhos, jovens, mulheres e etnias convivem horizontalmente grita altíssimo e me agrada profundamente como a sociedade que busco construir.

Organizar rua a rua, bairro a bairro, cidade a cidade, essa é minha anarquia.

Só não consigo reproduzir a limitação do marxismo mecânico que marca a revolução pra dia 15, às 16horas, depois do curso de datilografia, em frente ao amarelinho da Cinelândia.

Porque essa lógica de transformação da revolução em evento, e não em processo, é a recusa da construção da luta política e sua transformação em Teologia da política de São Lênin.

É praticamente a declaração que a revolução como grande evento virá por decreto, como destino manifesto do humano.

E qualquer destino manifesto é estanque e sendo estanque é autoritário, ignora outras culturas onde a palavra anarquia sequer existe, mas cujo poder e sentido da liberdade pulsa com grandes ecos e grandes berros, em cujo sangue jorra um sangue tão vermelho quanto o nosso e cuja resistência à opressão é eloquente.

Essa revolução é branca, tem ensino superior e nenhuma empatia. E a ela eu digo não.

O processo de anarquização, no meu modesto entender, é um processo múltiplo de ações e construções de resistências, nesse sentido tentando remeter ao que Bakunin propõe, que abrange a resistência cotidiana no mundo do trabalho, da resistência étnica, da resistência de gênero, identidade de gênero, orientação sexual, etc..

A anarquização não recusa a revolução, apenas a chama pra dançar no cotidiano, fora dos fóruns esfumaçados onde grandes teorias atropelam as pessoas.

A anarquia como eu penso precisa exigir de si mesma a construção do hoje para jamais esperar o amanhã.

A construção da anarquia hoje exige que lutemos firmemente contra a exploração do homem pelo homem, contra a opressão de gênero, contra a lesbohomotransfobia, contra o racismo, contra o etnocídio, contra o antropocentrismo que esmaga o ecológico.

Pra lutar contra tudo isso a anarquia precisa lutar contra a hierarquia, ouvir mais do que responder.

E quando perguntado sobre como será a sociedade anarquista responder: Não sei.

Porque o anarquista que souber como será o futuro deve jogar na mega sena e não ensinar às sociedades futuras como elas devem ser.

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