walter-benjamin

Decepcionar-se com política é normal. Política é um pedaço de nossa socialização que mexe com sonhos, aspirações, utopias, projetos, memória, história, afetos, etc e tudo isso mexe com o emocional tanto quanto com o racional.

O delicado equilíbrio entre racional e emocional em política é parte do delicado equilíbrio entre a moral deles e a nossa, e nisso espero estar entendido que vivemos e construímos nossas identidades políticas em campos díspares, no enfrentamento contra as opressões, todas, que constituem a vida em sociedade.

Na dura batalha por este delicado equilíbrio vemos a cada dia sonhos e aspirações derreterem diante da cruel realidade cotidiana, vítimas de muitas coisas que são exímias destruidoras de sonhos e utopias, do suposto pragmatismo político à cooptação, passando pela covardia pura e simples.

Também temos nestes duros dias, que via de regra são sempre duros desde que parte da sociedade buscou a luta contra a outra parte que a oprime, conquistas de novos sonhos e utopias, pois a luta política é feita deles, mesmo que estes sejam sufocados pela ânsia de uma vitória eleitoral e de uma ocupação de lugar no estado que volta e meia vira estratégia em vez de tática.

Desde meados dos anos 1990, parte da minha geração oscilou entre o sonho de uma vitória eleitoral da esquerda e avanços sociais, que pra nós viriam de forma quase óbvia, e a pavimentação de uma estrada que garantisse avanços e mais avanços para todas as futuras gerações à revelia da ocupação do estado.

Pois bem, todos fracassamos.

Fracassamos porque quem estava fora do Estado foi atacado por quem estava dentro, avanços possíveis na organização popular foram frequente e duramente abatidos a tiros de bala de borracha, ou de escopeta mesmo, e gás de pimenta, presos ou mortos, enquanto a parte que ocupou o Estado quando não se omitiu na denúncia de violações de DH e de destruição da esquerda não estatista cometeu a repressão e estas violações, quando não foi cúmplice delas.

Hoje sob a frágil lona do circo da “Luta pela democracia” existem palhaços presos e mortos, pois é nítida pra esquerda partidária que a democracia pela qual se luta é restrita a quem aceita a institucionalidade como mestra da vida.

Enquanto a “luta pela democracia” evolui com leões no picadeiro, indígenas perdem suas terras e são presos pela polícia federal do governo Dilma, com truculenta violação de seus direitos fundamentais, servidores públicos se preparam para perderem direitos e terem sua função “privatizada”, praticamente sendo substituídos por celetistas contratados por Organizações sociais (OS), e pretos e pobres moradores das periferias são observadores participantes do assassinato de seus filhos, jovens e crianças, por uma polícia que mal esconde que seu objetivo real é matar todos que não tem a cor da pele aceita no Leblon das novelas do Manoel Carlos.

Enquanto a “luta pela democracia” apresenta os acrobatas da retórica de justificativa do injustificável a educação da pátria educadora permanece sendo esquartejada para alimentar as hienas do mercado.

1246312802_850215_0000000001_sumario_normalE quem ocupa as escolas, jovens adolescentes que acendem a esperança em peitos carcomidos pela decepção, são aclamados como heróis, não quando estabelecem novos métodos organizativos horizontais, mas quando apela para a mais inócua das ações: Denunciar para a OEA abusos cometidos pelas polícias militares.

Ou seja, são heróis não quando inovam, mas quando penetram no pântano inerte da institucionalidade que os abandona até o limite de suas resistências, até que sejam cooptados, tenham seus sonhos e ímpetos substituídos pela retórica disciplinada, fordista, hierarquizada qual uma fábrica leninista, dos “lutadores sociais” que no fundo só existem pra alimentar o ogro da burocratização.

E das decepções mais doídas está é a maior ver que quem constrói cotidianamente as ruas, a horizontalidade e a luta contra a hierarquização, ser tragado pela mediocridade das obsoletas máquinas de eleitoralismo chamadas partidos.

Denuncia pra OEA? Sério, em vez de vocês com seus mandatos lutarem nas ruas por esses adolescentes eles têm de ir na OEA? Pra que servem os partidos? Pra pedir Fora Cunha?

Enquanto isso se digladiam nas redes e se tenta cooptar para a “luta pela democracia” quem luta por ela a cada ocupação de escola.

Enquanto ocorre essa luta os cooptadores tomam litros de café negociando apoio ao governo que é sócio de quem reprime essas lutas, mesmo em SP. Ou esqueceremos mesmos que PT e PSDB foram e são cúmplices da criminalização de movimentos desde 2013?

Enquanto meninos nos tentam salvar a utopia o PSOL negocia via Jean Wyllis e Freixo mais e mais apoio ao governo Dilma em nome de uma “luta pela democracia” que nunca incluiu entre os que precisavam dela os indígenas e pretos e pobres favelados reprimidos pelas UPP. E se o PSOL não ignora que a “luta pela democracia” exclui essa gente é calhorda e se ignora é inepto.

A “luta pela democracia” é conduzida por quem vai criminalizar os jovens alunos que ocupam escola país afora assim que essas ocupações atingirem os governos da “Pátria Educadora” que cassam bolsas de iniciação científica das quais jovens pobres necessitam pra poderem permanecer sonhando com atuação como pesquisadores.

E porque escrevi isso tudo para falar das decepções? Porque minha maior decepção está com a minha geração, a que não se atenta nem um segundo do quanto foi,é e será cúmplice do avanço do conservadorismo com sua covardia medrosa na crítica às burocracias partidárias da esquerda, sua covardia na participação efetiva na construção do novo, quando preferiam sempre acompanhar a burocracia à mão, por absoluta preguiça da luta cotidiana, medo até dela.

Minha geração ainda tem salvação se apoiar sem nenhuma indução à institucionalidade essa geração que ocupa escola, que expande o feminismo e a horizontalidade, mas permanecerá decepcionante, eu inclusive, como a geração que optou pela covardia.

E enquanto a gente se esforça pra ser um sujeito normal, há quem faça marchas antifascistas nas ruas, indo muito além da “Luta pela democracia”.

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