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Fazer politica exige honestidade, ao menos de quem transita na esquerda.

Honestidade tá longe de ser apenas não roubar. Honestidade exige uma postura rígida de princípios. Quem a rifa, mesmo que seja para “vencer” um embate político pontual, manda às favas os escrúpulos de consciência e ai, amigo, é ladeira abaixo da chamada degeneração.

Sim, há uma degeneração política a partir da cooptação, a primeira fase manda pro cacete qualquer vestígio de projeto de longo prazo, de percepção estratégica. Dai em diante o vivente é preenchido por um senso de urgência sempre pontual, focado nas suas necessidades imediatas ou nas de seus grupos políticos, sempre ignorando a necessária avaliação cotidiana de forças e coisas, de movimentos e gestos, de atos e de percepções de conjuntura.

Tudo começa a ser organizado de forma a tratar qualquer crítica a seu grupo político ou ninho habitual de vivência política como “fora de hora”. Nunca é hora de autocrítica, de aprofundamento da análise sobre movimentos políticos de, pela e para a esquerda ou de qualquer cheiro de percepção ampla das próprias organizações e de debates francos sobre movimentos futuros.

Há, e sempre haverá, um espantalho a ser combatido que oblitera qualquer reflexão.

Os monstros são ferramentas eficientes de transformação de gente inteligente em muares.

O mais recente monstro do uso da conjuntura para o silenciamento de crítica e a cooptação de lutadores é a pré criminalização de Guilherme Boulos do MTST.

Digo pré criminalização porque ao menos desde 2013 movimentos e frentes anarquistas e autonomistas como o MEPR, OATL, FIP, FAG, lutadores como Camila Jourdan e Sininho e pessoas pobres pegas como bucha de canhão como Rafael Braga vem sofrendo criminalização frontal violenta, destrutiva, silenciadora, canalha, calhorda, na maior parte das vezes contando com auxílio luxuoso de PT, PSOL, PSTU, MTST, MST, CUT, etc de forma direta ou indireta. E não vimos uma malditinha palavra sendo posta no papel em solidariedade a eles. Rafael Braga até recebeu uma atenção momentânea enquanto o assunto estava quente, agora que esfriou ele foi largado às traças, exceto por FARJ, FAG e outros movimentos que também sofrem e sofreram com a criminalização, como os supracitados.

Estes foram concretamente criminalizados, estão sendo criminalizados, estão sob processo, Boulos sequer perto disso está, há apenas um pedido do PSDB para fazê-lo.

Boulos, MTST, PT e PSOL estão usando a ação do PSDB como o jogador que se joga dentro da área pedindo pênalti. Enquanto fazem isso outro jogador está em pé com os dentes quebrados e tentando jogar, tendo seu time menos 23 jogadores suspensos por um tribunal esportivo venal.

Essa questão toda ocorre em meio a pedidos de solidariedade vindos da esquerda partidária, que ao mesmo tempo diz que não é hora de criticá-la por ter se omitido ou agido de forma intencionalmente criminalizadora de militantes da esquerda não partidária.

Ou seja, o pedido é de solidariedade, mas acompanhado de silêncio diante da necessária acusação a esta esquerda partidária de cúmplice do aparato repressivo do estado quando ele foi interessante ferramenta de eliminação de quem ela considerava indesejável.

Por que a esquerda partidária quer isso? Porque não interessa a ela repensar sua trajetória de auxiliar da marcha de recrudescimento de um ethos fascista na sociedade que ameaça agora seu governo de estimação, que só é de esquerda às vésperas das eleições e dentro dos discursos do mal maior.

Quando a esquerda dizia que era preciso isolar os black bloc, que os movimentos de junho de 2013 eram “despolitizados” e compostos de “vândalos” e que a violência policial era causada por quem resistia a ela e não pela polícia ser um instrumento de opressão do estado burguês aos trabalhadores, (em especial aos pobres, pretos e favelados) ela foi cúmplice da retirada da esquerda das ruas, da esquerda partidária acovardada e da esquerda não partidária criminalizada. E isso, amigos, abriu espaço para que movimentos de direita avançassem sobre as ruas vazias.

Mas agora, que a esquerda partidária e suas boy bands de “lideranças de movimentos” são atacadas com sugestão de criminalização, é preciso solidariedade, mas sem lembrar a esta esquerda suas digitais no processo?

Por quê? Porque para esta esquerda a unidade não interessa, a ela interessa uma uniformidade, que rime como apoio, e que apoio rime com sua manutenção e a de seu capital eleitoral na luta pela ocupação de postos no estado, estado esse que utilizará para reprimir, perseguir e processar, com auxílio da lei antiterrorismo, todos os movimentos que não seguirem suas diretrizes políticas.

Unidade na luta? Não. Essa gente quer calar o dissenso e quer receber apoio em nome de uma solidariedade de classe que esquecem de usar quando a esquerda que não está sob suas asas recebe pancada.

E porque isso é importante agora? Primeiro porque uma solidariedade coletiva a Boulos manteria em alta de forma acrítica a narrativa de que quem apoia Dilma, e Boulos apoia Dilma, está na verdade numa cruzada contra a burguesia. E esse discurso não é isolado, militantes do MST conseguem justificar eles e Katia Abreu apoiarem Dilma e “lutarem pela democracia” apelando pra uma analogia com a aliança entre Mao Tsé Tung e Chiang Kai Shek durante a segunda guerra mundial para combater a invasão japonesa.

Ninguém menciona a relação entre MTST e o “Minha Casa, Minha Vida”, né? Pra que?

Em segundo lugar porque o processo de resistência aos processos de impeachment de Dilma tem o chamariz de luta pela democracia, mesmo que no fundo estejam sendo utilizados por PT e Cia como reforço à narrativa de apoio da esquerda ao governo, e que a luta pela democracia precisa da contra narrativa de que existe um processo autoritário em curso e que ele está atingindo lutadores de esquerda.

A narrativa tem uma enorme base de verdade, existe um processo autoritário em curso e ele está atingindo lutadores de esquerda, só que estes lutadores não são os da esquerda partidária e já vem sendo atingidos fazem três anos ou mais e sem uma caceta de palavra de movimentos e partidos ligados à institucionalidade a respeito. No máximo o PCB e Mauro Iasi falaram algo, e muito pouco.

Em terceiro lugar é importante para a esquerda partidária manter o fogo alto pra retirar a direita das ruas, para tensionar o congresso e também para manter sua militância frenética para a conquista de votos agora e em 2018, e se necessário agir para que a militância de partidos como PSOL, PSTU, etc acabem pressionando suas direções para que se aliem ao Pt e a Lula “contra a direita” em 2018.

Ou seja, essa narrativa tem um pano de fundo de cara, corpo e modo de andar stalinista com tática refinada de ocupação de espaço político com fins eleitorais.

E enquanto isso os criminalizados que apodreçam na cadeia, afinal são só anarquistas.

E enquanto isso ocorre Dilma rifa ministérios na quermesse do salvamento do governo na bacia das almas, o MST ganha migalhas pra fingir que tá tendo guinada à esquerda, os movimentos do STF parecem indicar que há fortes pressões para que o impeachment (E a Lava Jato) sejam tornados inviáveis legal e politicamente e a mídia muda lentamente sua linha editorial, atacando Temer, Moro e Cunha, indicando que também ocorreu movimento de refinanciamento do caixa das empresas jornalísticas, além de ter ficado claro que todo o movimento dos últimos meses não vai resolver o problema de gerência do capitalismo em plena crise econômica pelo qual passa o governo Dilma.

O ativismo judiciário de Moro e seus blues caps, além do de Gilmar Mendes, também recebeu fortes críticas de seus próprios pares.

Ou seja, há um cenário de arrefecimento do impeachment, e nada mais bacana que em meio a esse processo e às reações de boa parte da esquerda contra a instrumentalização da luta pela democracia pelo governismo o PSDB tenha resolvido despencar ladeira abaixo com a judicialização dos discursos pedindo a prisão de Boulos, que inclusive esperava isso.

Nada melhor pra manter o fogo da ilusão de uma esquerda desesperada e perdida taticamente e sem estratégia nenhuma de transformação social e sistêmica que contar com a fanfarronice histérica do sublúmpem da direita tucana desesperada com a perda paulatina de chances de ocupar ministérios.

Só que enquanto isso é hora sim de questionar a esta esquerda porque o discurso contra a criminalização e pedindo solidariedade não veio acompanhado da devida autocrítica com relação ầ sua participação na criminalização dos presos da copa.

Porque se o silêncio permanecer a esquerda partidária permanecerá sendo cúmplice.

E continuará fingindo que se aliar à Katia Abreu foi como a aliança entre Mao e Chiang Kai Shek.

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