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Primeiro, é fulcral dizer que a conjuntura se alterou de forma tão brusca que melaram todos os cenários analisados recentemente.

Segundo que a nomeação de Lula aliada à resposta de Moro (Vazamento de gravações, etc) construíram um cenário de absoluto caos institucional no país, que fica impossível de prever qualquer coisa.

Em terceiro é fundamental observar o que essa conjuntura significa enquanto sinal de avanço direto, com apoio midiático, de um ethos absolutamente autoritário.

Tendo isso em mente é preciso ressaltar alguns elementos.

Um deles é o fato do aparato judiciário, midiático e parlamentar estar absolutamente deslocado, hoje, para a deposição de Dilma e estrangulamento do PT no governo.

Vai conseguir? Não se sabe, mas o movimento é esse.

Pra completar temos um cenário de rebelião do judiciário em primeira instância que comprou a narrativa de que Lula como ministro seria “Blindagem” e temos uma nítida situação onde o judiciário federal de primeira instância em peso apoia um Juiz como Moro divulgar grampos cuja legalidade é no mínimo questionável e que é tratado como crime sem que haja nenhuma evidência indiscutível deste fato.

Essa rebelião está para o judiciário como a Revolta dos Sargentos às vésperas de 1964 estiveram para as forças armadas. A diferença é, além de termos uma conjuntura diversa em relação a golpe, que o STF não tem exatamente uma situação de controle hierárquico sobre instâncias mais baixas e é sensível à pressão midiática e corporativa, inclusive vem respondendo a todo o caso sob o ponto de vista da reação corporativa.

Legalmente não há nada nem para o impeachment, nem para a alegação de obstrução da justiça, nem sequer para o entendimento que Lula é criminoso.

Os jornais impressos, os portais, as TVS atuam para construir em torno de todo o caos a impressão social de que há consciente obstrução da justiça e ilegalidade em todo o processo, incluído o tal sítio de Atibaia tomado pela imprensa como de posse de Lula sem um documento assinado por ele provando isso. Uma minuta sem assinaturas tornou-se, pasmem, garantia de posse.

Diante disso os cenários são, sim, de golpe de estado. Não um golpe militar, mas um golpe institucional com raiz no judiciário e reflexos diretos nas relações entre poderes e peso no parlamento.

Ignora-se, todas as forças ignoram inclusive os movimentos de rua, a quantidade de membros deste parlamento envolvidos em ilícitos e indiciados pela Lava Jato, coisa que Lula não é.

Enfim, não só o impeachment tá rolando, como as ruas se enchem de pessoas cujo interesse maior é menos limpar o país da corrupção e mais retirar o PT do poder.

Pras forças partidárias de esquerda não há muita saída além da de ir para as ruas defender a democracia e o governo, até porque uma derrota do PT hoje é derrota para todos os partidos.

Pra ilustrar isso é simples: Redes Sociais e ruas hostilizam qualquer coisa vinculada à cor vermelha, é francamente adversária de Sem Terras, Sem Teto, Feministas, Cotistas, Socialistas em geral.

A cada Jornal Nacional temos uma peça que amplia a narrativa de que derrubar o governo é a chave. A repetição cotidiana dos grampos vazados de forma absolutamente autoritária e ilícita, e contendo nada, é um infográfico da narrativa irresponsável que a imprensa sem nenhuma vergonha tomou como sua tarefa.

E está tendo sucesso.

Diante disso é fundamental cobrar do próprio PT sua responsabilidade na construção deste quadro, através de amplo silenciamento das forças de oposição com acusações diretas que foram de “Quinta Coluna da Burguesia” a “hordas fascistas”.

A narrativa de Golpe construída pelo PT de 2003 até hoje se constrói como fato a partir de erros do próprio PT ao chafurdar na lama da corrupção enquanto trocava bandeiras históricas pela disputa da gerência do capitalismo, lucrativa, inclusive, pro partido.

Pra piorar desde 2013, quando forças de esquerda ocuparam as ruas para barrar aumentos tarifários, combater a corrupção de governos, entre eles governos de aliados do PT que hoje lhe abandonam, como o PMDB, o PT tratou toda a esquerda não alinhada a ele, inclusive a atual linha auxiliar psolista, como fascistas.

Não é preciso esquecer que vários de seus soldados virtuais não tiveram nenhuma vergonha em tratar anarquistas como nazistas, inclusive efetuando montagens que incluíam suásticas no lugar do famoso A anarquista.

A partir daí governos estaduais atuaram com celeridade para criminalizar francamente todas as forças de oposição de esquerda aos governos, colocando vários lutadores na cadeia com base em nada. Entre estes lutadores sobrou até para um morador de rua munido de Pinho Sol, tratado como arma, o Rafael Braga que nem militante era.

Sininho, Camila Jourdan e mais 21 pessoas foram processadas no Rio com nenhum, absolutamente nenhum indício de nada além de “citarem Bakunin” ou “terem ligações com ações terroristas”,que vinham a ser uma suposta “ligação com os Black Bloc”. Hideki Harano, entre outros, sofreram o mesmo em SP. No Rio Grande do Sul a mesma coisa.

Pra completar a tragicomédia, partidos de esquerda fizeram o possível para corroborar com essa narrativa ao tratar Black Blocs como “cúmplices da violência policial” ou “O PSOL precisa isolar os Black Bloc”, como fizeram PSOL e PSTU.

O abandono de anarquistas e autonomistas à sua própria sorte, o desprezo à análise do Estado Democrático de Direito ser esgarçado por um autoritarismo judiciário e todo aparato policial e avançando por sobre a esquerda, tudo isso foi posto em prática em nome da construção pelo PT da Copa das Copas e por PSOL e PSTU de tentativas de ficarem bem com “seu eleitorado” ou “sua base” e virem a eleger prefeitos, vereadores e deputados.

Ou seja, o que o PT, Lula e o governo sofrem hoje, todos nós anarquistas e autonomistas sofremos de 2013 em diante.

Sim, anarquistas, autonomistas, MPL foram, são e serão perseguidos pelo Estado com toda a sua truculência, sofreram ataques cotidianos pelas TVs e jornais, foram atacados DENTRO DO SINDICATO DOS JORNALISTAS.

A narrativa de que “Black Blocs mataram o cinegrafista Santiago” se tornou uma realidade, inclusive dentro dos partidos da esquerda sem que uma maldita prova aparecesse em qualquer investigação. Pessoas foram processadas a partir desta narrativa.

Durante a Copa de 2014 pessoas foram sitiadas para que não se manifestassem.

Durante a Copa de 2014 ocorreu bombardeio pelas forças de segurança de manifestações absolutamente tranquilas e que chegaram a ter bombas em um Parque da cidade do Rio de Janeiro mesmo com enorme população infantil ali.

De lá pra cá até o MPL foi impedido de se manifestar em 2016 na cidade de SP, pois foi informado que “teria de informar seu trajeto para não atrapalhar o trânsito”.

Tudo isso ocorreu sob absoluto silêncio do PT e dos partidos de esquerda.

Agora a direita marcha pedindo a cabeça do PT, hostilizando movimentos, sem que a Polícia se preocupe com o trânsito.

Todo esse arbítrio foi ensaiado de 2013 até hoje e hoje estoura no colo do PT e da esquerda partidária. Até hoje o silêncio quando nossos companheiros da FIP, da OATL ou da FARJ e FAG eram aprisionados não tinha doído no lombo da esquerda partidária, hoje dói.

Todo esse processo golpista ocorreu sob as barbas dos governos do PT e dos parlamentares da esquerda, foi inclusive endossado por eles com a formulação da “Lei antiterrorista”.

Hoje o impeachment tá na rua, tem enormes chances de derrubar Dilma e trazer todo o preço, altíssimo, disso para toda a esquerda.

E os anarquistas com isso?

Difícil dizer, mas penso que hoje é fundamental atuar com os movimentos NAS PERIFERIAS que acusam o golpe cotidiano que sofrem com a violência policial, a suspensão de direitos constitucionais e a ocupação militar das periferias. Total solidariedade aos companheiros da periferia que sentem na pele todo dia o que Lula sentiu recentemente.

Agora, solidarizar-se com as marchas organizadas pelos partidos da esquerda que só agora percebem o quanto o Estado é duro para com seus inimigos? Lamento, mas a meu ver é sandice.

Para nós a mídia não fez filme com personagens inspirados em nossos companheiros mais fotogênicos. Para nós os partidos não apontaram que chamar Black Blocs de violentos era narrativa falaciosa. Para nós não vigorou a solidariedade coletiva de socialistas quando companheiros nossos tiveram sua vida destruída, sua carreira prejudicada, foram presos, exilados, humilhados, esmagados.

Dialogar com a periferia na resistência ao golpe do Estado contra os direitos constitucionais não deveria significar apoio a Ex-Mandatários que ocuparam o Estado ampliando sua faceta violenta contra todos nós, em especiais nossos companheiros da periferia.

Para os anarquistas a conjuntura é preocupante, mais do que para a esquerda partidária, mas nosso trabalho permanece o de construir a resistência ao Estado onde ele é mais arbitrário: Nas periferias.

E o mais preocupante da conjuntura atual é a percepção global de como o Estado, os jornais, as TVs, os poderes, o judiciário, são seletivos em sua sanha por “limpar” a vida pública nacional.

Só que essa face a conhecemos bem, e nunca recebemos solidariedade, o irônico e didático é a percepção ter se espalhado.

Portanto para os anarquistas a conjuntura atual significa o que significa o cotidiano: precisamos permanecer lutando e construído o poder popular, porque é negro o couro da gente que segura a batida da vida o ano inteiro.

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