1002

Fernand Braudel dedicou toda sua vida à História de Longa duração. Entendia que o tempo histórico se dividia em atemporal, longa e curta duração, e a percepção das pessoas no decorrer da história e sobre cabia nesse tipo de esquema analítico, ou de metodologia analítica sobre a História.

Se explico mal peço perdão, quem quiser uma percepção mais acurada da obra do historiador sugiro que leia esse texto, ótimo por sinal.

Li fragmentos de “O Mediterrâneo” de Braudel, onde ele formula parte dessa percepção, mas nunca deixei de enxergar a percepção do tempo na política sem me lembrar de Braudel.

O “Tempo da Política” poderia ser encaixado segundo a definição de Braudel de “tempo curto” que é o tempo dos acontecimentos, de curta duração. Braudel “Fala do evento como algo explosivo, que enche a consciência das pessoas, mas que, ao mesmo tempo, não dura”.

E cada evento no Brasil, como via de regra mundo afora, o tempo dos eventos vira o protagonista das consciências, ganha roupagens definitivas, torna-se “análise”.

Impossível não comparar com análise de jogos de futebol ou basquete. Cada lance de movimentos torna-se “lance decisivo”, como se o tempo da política se dobrasse automaticamente a cada lance como um jogo se dobra.

Só que o “Tempo da Politica” por mais que seja o tempo dos eventos e seja fruto e pai da curta duração também tem uma duração peculiar em relação ao tempo dos jogos. E a ansiedade não é a melhor conselheira para sua análise.

Os eventos como protagonistas da análise do “Tempo da Política” tem seu papel e sua fundamentalidade, porém os eventos não podem ser os únicos protagonistas. Há leituras e leituras dos eventos e há camadas de percepção sobre os eventos que precisam ser analisadas.

Cada evento possui seus recortes de classe, de gênero, de ideologia, de etnia, de orientação sexual, de identidade de gênero, de grau de educação formal, e a percepção deles também obedece a cada recorte desses.

Sete dias são irrelevantes diante do “Tempo da Política”, que obedece um calendário formal e informal relativo ao tempo dos pelitos eletivos.

Sete dias são fundamentais diante do “Tempo da Política”, que obedece à busca de superar o outro nos pleitos eletivos.

Parece contraditório, mas não é.

O “Tempo da Política” é tanto o espaço entre os pleitos, e as próprias eleições, como o uso do espaço de tempo para a construção de candidaturas e de organização de grupos políticos para as disputas. Com relação ao tempo cronológico, sete dias são irrelevantes em relação ao espaço de dois anos. Em relação ao espaço de tempo necessário para construir ataques ou defesas de um grupo político a outro mirando as eleições à frente, sete dias são fundamentais.

Considerando que estamos em pleno ano eleitoral, o “Tempo da Política” ganha uma percepção mais alinhada ao tempo da disputa e não ao tempo da construção de hegemonia.

Nas últimas duas semanas vivemos movimentos de pêndulo em relação à disputa entre PT e PSDB mirando 2016 e 2018.

Se o PT através de Lula foi alvo de ataques via Lava Jato e MP-SP e respondeu á altura, a oposição lidou com relativa desenvoltura ao pôr milhões nas ruas no dia 13/03.

A questão é: O que isso significa para 2016 e 2018? E mais, o que isso significa para a manutenção do mandato Dilma?

Primeiro vamos lembrar que se a oposição logrou êxito em por milhões nas ruas contra o PT e o governo Dilma, esse êxito foi relativo quando nomes estabelecidos por mídia e por parte dos próprios movimentos como substitutos naturais de Dilma na presidência receberam sonoras vaias paós afora (Com preocupante apoio a figuras públicas identificadas com a extrema direita).

Em segundo aspecto vamos lembrar que o perfil das ruas foi muito pouco popular e mais elitista, embora numericamente isso possa parecer loucura, como bem definiu a Datafolha (Que convenhamos tem pouco a ganhar distorcendo esse dado).

Em terceiro lugar vamos considerar que o mapa dos protestos teve seu centro gravitacional onde a oposição teve maioria dos votos nas eleições de 2014, com exceção relativa do Rio de Janeiro, onde os votos de Marina e Aécio superaram com larga folga a votação de Dilma (O que nunca ocorreu com Lula, por exemplo).

Captura de tela de 2016-03-14 14-45-48
Mapa do resultado das eleições presidenciais no primeiro turno das eleições de 2014 produzido pela Folha de SP.

Tendo esses aspectos em mente vamos tentar deixar o impressionismo de lado e trabalhar com cada etapa analítica como faria Jack “The Ripper”, ou seja, por partes.

No plano eleitoral o cenário deixa claro que para essas eleições teremos uma forte rejeição ao PT, secundada por uma forte rejeição a PSDB e PMDB, e só ai teremos uma busca de alternativas eleitorais por parte da população.

Nesse cenário é preciso ter em mente que o recorte analítico da própria rejeição é feito em cima de um perfil de manifestante claramente branco e de elite, o que em termos populacionais é no máximo um terço da população geral. Ou seja, as classes médias e altas dos centros urbanos do centro-oeste, sul e sudeste, que é muita gente, deve rejeitar os maiores partidos e optar por alternativas.

Cravar que essas alternativas serão automaticamente ligadas a Bolsonaro é açodado e pouco preciso, mas é inevitável perceber que sim, estamos vendo uma consolidação da extrema-direita dentro de um período democrático. Desde o fim da ditadura essa extrema-direita não ousava dizer o nome, agora ousa.

A própria escolha do 13/03 como data para as manifestações contra o governo e o PT deixavam claro uma tendência nesse sentido, as vaias a Aécio e Alckmin só reforçam a percepção.

Não podemos também ignorar a chance de parte desse movimento ser hoje mais próximo de Marina, em se observando que parte da composição das manifestações seja de perfil liberal clássico, antiestatista, porém não necessariamente autoritário, e amante de generalidades como uma “paz social” meio anódina.

Ou seja, eleitoralmente podemos ter um cenário de aumento de prefeituras ligadas à extrema-direita e à REDE de Marina, ao menos no bloco centro-sul do mapa do Brasil.

A possibilidade dos maiores derrotados nas eleições serem o PSDB e o PMDB e não o PT, considerando que a chance do PT permanecer sendo vencedor no norte-nordeste não é ilusória e que a crise de representatividade pegou todos os três principais partidos do cenário político, não é nada remota. A tendência é da extrema-direita e da REDE de Marina (que aqui entendo estar no centro do espectro ideológico) galgarem postos como interlocutores dos descontentes, mas sobre votos anteriormente identificados com tucanos e peemedebistas.

Os votos descontentes com o PT, mas outrora seus eleitores, devem migrar pra Marina também, em menor grau pro PSOL ou até pro Raiz de Erundina, filiado democraticamente ao PSOL, mas provavelmente a maioria salta no colo da REDE, que não é tão liberal quanto os tucanos, nem autoritária quanto os Bolsonaros e nunca foi identificada como Linha auxiliar do PT, como o PSOL.

Ainda no plano eleitoral, mas pensando em 2018, é cedo dizer que o PT é o maior derrotado, aliás, o perfil das manifestações tende ao inverso, a reforçar o PT como salvaguarda da democracia junto de Marina Silva, que se descola proposital e inteligentemente do perfil oposicionista clássico encontrado nas manifestações (embora tenha tudo pra receber parte dos votos que sairão dali).

Hoje o PT sofre um grande abalo em uma popularidade que ficou praticamente uma década no auge, porém ainda mantém-se na preferência de boa parte da população e tem na figura de Lula um enorme trunfo para 2018. Para abalar esse trunfo é preciso mais, mas muito mais, que a campanha midiática e jurídica contra ele, que até o momento tem basicamente nenhum elemento para prendê-lo e condená-lo, único fator que o levaria a não ser um fortíssimo player para 2018.

Com as manifestações ficou claro que todos são malvistos pelo perfil médio dos manifestantes, exceto Marina e Bolsonaro, porém poucos podem se descolar o perfil que vaia Aécio e Alckmin, apenas Marina e Lula.

E relembremos: O perfil médio dos manifestantes não é o perfil médio da população.

O PT sofre com elementos clássicos do desgaste político de quatro mandatos presidenciais, além disso sofre com a crise econômica mundial e seu gerenciamento aqui pelo governo Dilma, e também paga o preço das próprias políticas de afastamento de sua base social em nome da aproximação com o perfil de gerenciamento político e econômico do capital produzido pelos tucanos e peemedebistas. Porém o PT tá longe de estar morto e ainda tem a seu lado um imaginário social construído em uma década.

Se o PT não goza mais da confiança absoluta de sua base social e de quem recebeu do estado chances de melhoria de vida, o outro lado também não goza, e no imaginário social em caso de perigo: vote no PT.

Esse movimento já encontra fácil percepção nas redes sociais e nas conversas cotidianas ao entendermos a reação de apavoramento de parte da base social do PT que havia rompido com ele e que agora volta cândida e sofridamente a seu colo em sua defesa contra “a direita”, mesmo que Katia Abreu continue no governo.

Enquanto isso os principais nomes para a sucessão de Dilma são rejeitados pelos manifestantes em pleno epicentro do poder tucano.

E o que isso significa para a manutenção do mandato Dilma?

Bem, se considerarmos a linha sucessória, a rejeição das manifestações aos nomes de Temer, Aécio e Alckmin, ao risco institucional que seria empoderar Cunha, ao risco político óbvio de assumir dois anos de governo em plena crise econômica mundial, ouso dizer que Dilma se mantém no cargo.

E vou mais longe: Não vimos ontem um crescimento real da oposição, ao contrário, vimos uma concentração dela onde ela já era grande.

Se olharmos os números gerais podemos até tender ao susto, mas se olharmos o mapa e avançarmos na análise com cuidado, os atos não ganharam peso numérico real para além da elite e para além do centro-sul.

Pra complicar o cenário, um impeachment de Dilma em 2016 paralisaria o estado brasileiro por meses a fio, e isso paralisaria o fluxo de financiamento dos municípios pela união, lembrando que cerca de 20% do orçamento dos municípios vem do fundo de Participação dos Municípios, mas o peso de programas da União no orçamento deles vai muito além disso.

Muitos dizem que o PMDB ao sair do governo o faria cair, mas se considerarmos que o que faz o PMDB ser um dos principais partidos do país, ou o maior, é sua capilarização e presença nas prefeituras, e o quanto pesa estar no governo federal para a eleição de prefeitos, mudamos de ideia.

Em resumo, as manifestações de 13/03 podem, e vão, ligar o alerta, mas não podem ir muito além disso. Elas dão conta do crescimento da oposição dentro de um espectro de classe definido, da redução da participação da esquerda na composição política da classe média e da elite, mas não dão estrutura nem apoio definido a um determinado tipo de percepção ideológica que embasa os principais partidos do país, pelo contrário, elas deveriam ligar o alerta pra boa parte deles.

E o que o “Tempo da Política” tem a ver com isso? Bem, tudo.

Primeiro temos o tempo da construção de uma dicotomia ideológica que artificialmente opõe “comunistas corruptos” a “defensores do Brasil”, os segundos embasados numa perspicaz e particular noção de ética que apela pra defesa da legalidade apenas para prender os comunistas. Esse tempo foi o tempo construído nos últimos 13 anos pela extrema-direita a partir de uma junção galática de ignorância com espaço midiático fornecido por jornais para vender noções dicotômicas do tempo da Guerra Fria como pertencentes ao cotidiano político até hoje. Esse tempo conquistou um espaço político visível, e perigosamente tendente à expansão se considerarmos o papel de multiplicação que o recorte de classe presente nessas manifestações possui.

Ou seja, esse tempo de construção de imaginário é um tempo que possui características de expansão da duração e se relaciona com o tempo de desmonte da percepção ideológica que levou o PT ao poder.

E esse tempo da de desmonte da percepção ideológica que levou o PT ao poder começa até antes de sua chegada ao poder, quando desde 1996 já começam análises que dão conta da paulatina vitória no interior deste partido de setores mais alinhados com a social-democracia clássica, a comparação com o Labour Party inglês é inevitável.

Em relação à dicotomia ideológica, podemos dizer que a extrema-direita tende ao crescimento, enquanto a esquerda partidária tradicional tende, no imaginário político, a reduzir seu papel.

Em paralelo a isso temos a consolidação de um terceiro campo que flutua entre o liberalismo clássico na economia e o liberalismo politico, e que se divide em muitos partidos, influenciando parte da classe média e se distanciando das ideologias relacionadas à esquerda radical. Essa característica é encontrada em legendas como PSOL, REDE, Raiz, PV, PSB. Esse campo oscila entre PSDB e PT (exceto REDE e Raiz) e ocupa espaços ideológicos à esquerda de um e de outro (Incluídos REDE e Raiz). Alguns tem um verniz socialista, mas no fundo são, no máximo, liberais políticos com tendências sociais-democratas clássicas.

Esse tempo é o tempo político da construção de cenários duradouros para a politica brasileira e sua democracia.

Em segundo lugar temos por outro lado a permanência de valores relativos às ditaduras brasileiras do século XX e que se estabelecem como âncoras para a maturidade do estado democrático de direito, essa permanência de valores é como a permanência de um tempo em outro, como se a raiz do passado agarrasse a construção do presente e tentasse retornar num futuro próximo.

O imaginário presente até tende a ver nesse fantasma de natais passados um desenho de futuro, porém a conjuntura aponta para outros aspectos da realidade. Esse fantasma é só um totem para o estabelecimento de uma ala do espectro ideológico dentro do tabuleiro das disputas pelo estado, não representa ameaça real de golpe de estado.

Em terceiro e último lugar está o tempo da percepção política das classes populares em relação ao teatro político.

Esse tempo persiste em uma multiplicação de noções que permeiam desde a decepção até o imaginário político imediato, passando pela percepção da crise, da ocupação militar das favelas, da repressão a indígenas e quilombolas, da remoção de pobres de suas casas para a Copa do Mundo e olimpíada, do uso de polícia contra filhos de pobres que ocupavam escola para terem uma educação melhor, passa pela inflação e passa pela fome.

Esse tempo remete a uma série de noções de imaginário, simbologia, discursos e análise objetiva do real e não é percebido pelas lentes do Fantástico.

Esse tempo vê redes sociais, esse tempo vê TV, esse tempo lembra de Getúlio, esse tempo tem toda uma tradição que se enxerga em Lula, e em Marina, enquanto quem sobreviveu.

Esse tempo não está sendo ouvido.

Anúncios

Comente, mas cuidado...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s