anarquia

Fronteiras ideológicas são construtos produzidos pelas diversas organizações e tendências ideológicas através da História.

Se diferenciar do outro é condição Sine qua non da disputa política.

Inclusive, apontar a ausência de diferenciação ou de esquerda e direita como parâmetros de definições ideológicas entre campos diversos é uma diferenciação.

Ao mesmo tempo em que há uma diferenciação natural entre campos ideológicos, há a necessária percepção da flexibilidade das fronteiras entre esses campos. Ou seja, nenhum campo ideológico é absolutamente monolítico.

A inexistência de uma esquerda e de uma direita “puras” é outra condição Sine qua non da percepção da realidade, ou seja, nada é absolutamente representante de uma suposta característica arquetípica ideológica. Existem muitas direitas e muitas esquerdas, enfim.

A questão é que em tempos de muitas modernidades ou da tal “pós-modernidade” a abolição da esquerda e da direita ganhou aliados na construção da “pós-esquerda” por parte de muitos movimentos anarquistas.

E ai de quem ouse discutir a respeito da guinada brusca da tradição ideológica e dos riscos que isso leva a toda a tradição anarquista em tempos de tentativa de sequestro da anarquia por liberais radicais, autoproclamados “anarco capitalistas”, ou de anarco individualistas mais afeitos a um certo tipo de anarquia como estilo de vida.

Porque na ânsia de se desvincular da pesada tradição burocratizante da esquerda tradicional socialista, em geral partidária, parte da anarquia resolveu dar um chute na bunda de toda uma tradição de pertencimento ao campo da esquerda e decretar que é “pós-esquerda”.

Tudo bem, é do jogo, mas a questão é que essa desvinculação em geral acompanha de um descolamento completo da ideia de luta de classes, de toda percepção simbólica, do diálogo entre diversos campos e em geral da própria percepção da anarquia externa a ela, ou seja, como a população nos enxerga.

Não à toa, em tempos de redes sociais e internet, a anarquia ganha enorme fôlego ao mesmo tempo em que seu discurso ganha tons de profunda alienação, no sentido clássico de pouca percepção da realidade e consciência de classe ou mesmo de uso do ferramental teórico amplo produzido pela esquerda como um todo pra produzir meios de sublevação contra o capital, ou mesmo de desconstrução do sequestro do campo da esquerda pelos partidos e sua burocratização.

Diante da dicotomia entre esquerda e direita ser sequestrada por partidos, parte da anarquia esquece a própria identidade de boa parte do movimento com a esquerda e larga pra lá a busca de lutar também contra essa hegemonia de pensamento e com a própria ideia de que a luta de classes é propriedade da esquerda marxista.

Pra isso o movimento muitas vezes envereda por sua própria versão de pós-estruturalismo na construção de uma tradição onde a anarquia não é de esquerda nem de direita, nem de centro. E então, ela é uma diagonal?

Por mais que se respeite a pegada discursiva que enxerga esquerda e direita como disputas dentro do campo do estado, embora se discorde, fica complicado perceber a opção de declarar-se para além destes campos como outra coisa senão uma busca de flutuação.

Só que flutuar sem nenhuma âncora é até poético, o problema é o resultado prático disso.

Porque não dá pra trabalhar em qualquer campo ideológico sem referências posicionais, dado que são estas que localizam o movimento no diálogo com o outro.

Além disso, não se pode esquecer que dialogando com a população a referência posicional ganha mais e mais peso.

Não se fala “campos políticos” por vaidade intelectual ou simplificação de discurso, toda a construção cultural em torno da política se dá com a aplicação de princípios de posicionamento físico, geográfico até, para as ideologias.

O próprio jargão político é prenhe de termos e categorias de definição posicional. Um exemplo? “Manobra” é algo costumeiramente dito em assembleias e reuniões.

“Manobra” é um ato político que muda o sentido de uma reunião na direção que o autor deseja utilizando de ferramentas presentes nas “regras” escritas, ou não, de embasamento das reuniões.

Cunha usa de manobras da câmara dos deputados, por exemplo, a seu bel prazer para sobreviver no cargo. Partidos manobram para excluir movimentos anarquistas da “direção” de atos. O PSOL manobrou para isolar autonomistas e anarquistas nos atos políticos todos levados a cabo de 2013 até hoje.

Ou seja, o posicionamento ideológico obedece parâmetros culturais posicionais. Estar “à esquerda” é estar contra o capitalismo, o conservadorismo, etc, em maior ou menor grau.

Ser “pós-esquerda” é estar onde?

Claro que existem explicações lindas a respeito, só que política se faz para além da complexidade de discursos e teses.

Politica se faz também na disputa de rumos entre posicionamentos, se faz sendo enxergado como parte possível de engajamento pela população, se faz disputando signos, significados, termos, categorias, palavras e, finalmente, espaços.

Definir a “luta de classes” como “categoria datada do século XIX” é termo corrente na academia, lamentamos apenas que não enxergar nisso também um pedaço da disputa politica é de certa forma miopia, e da grossa.

Transformar a luta entre esquerda e direita em uma luta no interior do campo do estado é banalizar toda a compreensão da política às restrições impostas pelos defensores de que política é a luta no interior da institucionalidade.

Ignorar a presença do estado como uma onipresença é também esquecer que lutar contra o estado é também lutar contra o estado em nós, presentes na própria estruturação de nossas identidades e que o estado é parte do todo da sociedade.

Vivemos presos no estado e mesmo não querendo estamos lutando em seu interior mesmo dizendo que somos “pós-esquerda”.

Além disso tudo, a ideia de estar “fora da esquerda” traduz também uma exclusão por parte do movimento anarquista de outra parte do movimento que se enxerga sendo de esquerda.

Fora que se coloca à parte de uma série de campos e debates e lutas que se travam no interior da dicotomia e praticamente coloca para si a tarefa de refundação do universo e tudo o mais, que se não soa como arrogância deveria.

E dói no coração ver parte da anarquia abandonar o campo da esquerda nas mãos de uma esquerda estagnada que chafurda no trabalho de sísifo da construção de partidos que burocratizam, produzem rachas, que produzem partidos que burocratizam.

E abandonando esse campo se abandona o processo de construção identitário que produziu Bakunin, Malatesta, Kropotikin, Bookchin, etc e tudo em nome de uma suposta superação das dicotomias que lembra demais os liberais radicais pregando o fim da história.

Não dá também pra não ver no crescimento desse tipo de abandono uma rima ruim com o crescimento de pessoas se dizendo anarco capitalistas e achando natural vincular o anarquismo, tradicionalmente anticapitalista, com o liberalismo radical.

E vendo isso tudo não dá pra achar algo bom.

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