DP20

Estabelecer uma análise de conjuntura sobre Pelotas, ainda mais sob a análise do aspecto eleitoral, é bastante complicado para um recém-chegado, estando na cidade há apenas um ano.

Para que essa análise tenha uma mínima clareza e chance de estabelecer parâmetros confiáveis é preciso estabelecer um ponto de partida de fácil mensuração.

O mais confiável diante das circunstâncias é partir para a análise de discurso dos atores diretamente envolvidos ou dos veículos da mídia local (E seus apoios explícitos ou não).

Pra começar é importante assinalar que os três veículos mais conhecidos da cidade (Os jornais Diário Popular e Diário da Manhã e o site Amigos de Pelotas) discursam com apoio mais ou menos explícito à reeleição do prefeito Eduardo Leite. O site Amigos de Pelotas é tão explícito no apoio que se fosse cena de sexo só podia passar de madrugada, e não precisa ser perito na análise de discurso, basta acessar o site.

Há também o programa Pelotas 13 horas, que atua com alguma tentativa de isenção, embora tenha ainda perfil conservador e apoie também, de forma bastante sutil, a reeleição do Prefeito.

Nas redes sociais há uma enorme diversidade de atuações e páginas, especialmente no Facebook, com maior ou menor atuação e tentativa de travar o embate midiático contra a candidatura do prefeito e as candidaturas mais presentes na Câmara de Vereadores, mais precisamente a do Vereador Ornell e do Tenente Bruno.

É de se ressaltar que a participação nas redes é tímida para a maioria das forças politicas, se considerarmos os partidos. Com relação às figuras públicas quem mais participa são os vereadores Vitor Paladini, o Vereador Tenente Bruno e o Vereador Ivan Duarte. Há possíveis candidatos à câmara como o líder comunitário César Brisolara que se destaca buscando visibilidade, além das figuras públicas do PSOL Winnie Bueno e Jurandyr Silva (este último provável candidato a prefeito pela legenda) que também atuam com bastante frequência.

Há, no entanto, um problema coletivo na atuação de todos nas redes sociais e que demonstra amadorismo no embate que há por vir diante do aparato midiático da prefeitura (Inclusive com o uso de redes sociais próprias que dão um banho nas atuações individuais com agilidade e qualidade no uso dos social media): Ninguém discute a cidade.

Analisando rede por rede, perfil por perfil, percebemos pouca afeição à análise concreta da atuação do prefeito e da câmara enquanto atores da gerência da cidade. Há uma política reativa, pouco afeita à proposição e menos ainda à qualificação da discussão sobre os caminhos que Câmara e Prefeitura tomaram por seus mandatários enquanto atores do teatro político.

Seja na discussão por parte da Câmara e da Prefeitura sobre a licitação do transporte público ou pela PPP do SANEP, seja na implementação de UBS a partir da contratação de Organizações Sociais (OS), não se viu nenhuma ação concreta na discussão de mobilidade urbana, água como direito humano ou sobre privatização da saúde.

Se podemos louvar reações aqui e ali à privatização do SANEP não podemos dizer o mesmo sobre a politização da questão.

A política reativa permite que aos jornais e população o discurso da efetividade da gerência do estado ganhe fôlego. Se apenas reagimos às ações de Prefeito e Câmara, sem colocar alternativas e os limites destas ações, nos tornamos ferramenta da acusação de “oposição não propositiva”.

Para começar, falta coletivamente a própria dimensão da discussão da cidade, de seus aspectos de limitação racial, a construção da sua imagem, a ideia de modernização estética e conservadora, a noção própria de Pelotas como cidade feita do centro pra periferia, sem nunca chegar na periferia, e da cidade como paraíso automobilístico, que acaba sendo uma cidade cada vez mais partida e gentrificada.

Não se discute politica concretamente, nem nos jornais e portais nem nas redes sociais, ou se reage à medidas da Prefeitura e Câmara ou se silencia.

A cidade se vende como uma cidade branca e o debate entre candidatos negros jamais toma para si a tarefa de discutir essa questão de forma consistente. O motivo? O movimento negro não elege ninguém. Mas, digamos assim, a tarefa política do embate para na possibilidade real de transferência de votos da ação? Se for assim que alternativa estamos construindo? Nenhuma, né?

A violência na cidade alcança níveis estratosféricos, chegando a termos mais homicídios em média que capitais como PoA, RJ e SP, tendo um caráter especificamente periférico, racial e de gênero claros, morrendo mais jovens negros da periferia e mulheres vítimas de feminicídio, e o máximo que se faz é reagir lamentando as mortes e participando de atos dos movimentos que denunciam-nas. Não dá pra fazer mais?

Se candidatos ou figuras públicas não conseguem dimensionar o papel de Câmara e Prefeitura na discussão e solução da violência em Pelotas é de se discutir para que servem, não?

Na mobilidade urbana é inacreditável que não se discuta desde a eloquente priorização do transporte individual ao coletivo, a opção preferencial pelo transporte rodoviário, a ausência completa de fiscalização da qualidade do transporte até a ausência de pavimentação digna na maior parte da cidade. Exato, metade de Pelotas ainda não tem pavimentação.

E como vem essa pavimentação, quando vem? Com asfalto. Isso em uma cidade que sofre com alagamentos, que é basicamente uma grande baixada e que tem altíssimo índice pluviométrico. Ou seja, o poder público quando se propõe a “solucionar” a ausência de pavimentação opta pelo pior tipo de elemento, o asfalto, famoso por impermeabilizar cidades, ampliar seu aquecimento (inclusive contribuir para aumento das emissões de carbono) e cuja qualidade costumeiramente recebe o apelido de “sonrisal”.

A ideia de pavimentação com absorção de água, como a feita com lajotas de concreto, não passa pela cabeça dos mandatários? E por gentileza, não me venha falar de custo, pavimentação não é custo, é investimento, inclusive permite redução de danos a veículos, inclusive ônibus, permitindo minoração de reajuste de tarifas.

E Pelotas não poderia pensar em VLT? Não há meios de discutir sequer com o Ministério das Cidades? R$ 60 milhões por quilômetro (Valores de 2013) seriam concretamente um absurdo como solução diante do volume de recursos passíveis de aquisição via BNDES e tesouro? E as vantagens em médio/longo prazo não seriam positivas a ponto de minimizar os custos? Se olharmos os custos recentes de pavimentação para Pelotas (Inclusive os R$ 66 milhões do PAC Pavimentação conseguidos em 2013) parece estapafúrdio pensar em VLT, mas se pensarmos os recursos vindos ano a ano (10 milhões em 2014, 5 milhões em 2012..) e nos custos de manutenção de uma faixa restrita de ruas pavimentadas (Lembremos que a maior parte da cidade não tem pavimentação) chegamos fácil a valor superior ao da implementação do VLT.

Foz do Iguaçu, com 263 mil habitantes, tem projeto para isso, porque Pelotas, uma cidade com população maior e tamanho relativamente igual, não pode pensar nisso? Em 2012 foram destinados R$ 7 bilhões para o programa PAC Mobilidade voltado para cidades médias implementarem VLT e metrô, por que Pelotas não construiu um projeto seu?

Percebem como é possível discutir política e apresentar problemas e soluções para além da comezinha briga de bastidores e timidez, para não dizer covardia, assistencialistas das “Lideranças populares”?

No caso da tentativa de privatização do SANEP tivemos um eloquente exemplo do descaso da maior parte das figuras públicas com relação ao debate político. Exceto o vereador Ivan Duarte, ecoando a gritaria do Sindicato dos trabalhadores do SANEP, nenhuma outra figura pública estabelecida na cidade fez qualquer gesto de debate público, não só da privatização em si, como da própria ideia da água como direito humano.

Pior, candidatos a “alternativa” fizeram atuação feroz até a página dois, com movimentos de recuo no combate à privatização quando ela permeou o debate sobre financiamento de campanha.

Na maior parte do próprio combate ele foi reativo até nas denúncias, porque demonstraram o quanto a privatização da água é um modus operandi do PSDB, porém não formularam formas de resistência cotidiano, como o debate sobre a concreta construção de um sistema de fornecimento de água realmente públicos. O debate se resumiu à privatização, não discutiu o atual modelo e como ele tem de ser mais público e menos buscador de lucro, como ainda é, mesmo sob o poder do Município.

O mesmo debate sobre privatização não ocorre na denúncia das PPP na saúde a partir da construção das UBS como a Bom Jesus que integra uma rede chamada Bem Cuidar que faz parte do programa “Juntos pelo desenvolvimento sustentável” da Rede Comunitas, que também tem relação com Benchmark do investimento social corporativo (BISC). E tá na própria página: “O BISC (Benchmarking do Investimento Social Corporativo) é uma ferramenta criada pela Comunitas para o acompanhamento anual dos investimentos sociais privados no Brasil.”. Entendeu? Pois é, investimento social privado.

Investimento social privado tem tudo a ver com a concepção de saúde e educação gerenciados por Organizações Sociais (Modelo presente nas gestões das UPA no Rio de Janeiro) e que acaba sendo destinação de dinheiro público para a gestão privada, com garantia de gestão “moderna” pelas organizações sociais e, por que não, lucratividade. Em resumo? Privatização branca.

E entre os parceiros do BISC? Estão lá do Itaú à Odebrecht. No mínimo suspeito, não? Ou vamos acreditar em bondade empresarial?

Interessante também é a lista de prefeitos do PSDB na lista de cidades que são “parceiras do Juntos Pelo Desenvolvimento sustentável”, lideram as prefeituras relacionadas ao “movimento” sendo seguidos pelo PMDB, PSB e dividem a lanterna o PT, o PTB e o PSL.

E o que disso é discutido pelas figuras públicas da cidade? Nadica de nada.

E isso aponta para uma disputa realmente bastante tranquila para o esteticista, ops, prefeito Eduardo Leite e para os principais destaques da Câmara, não só pelo apoio mais ou menos descarado dos jornais e portais a Prefeito e parte dos vereadores, mas também pela incompetência na ocupação de espaço pela dita oposição.

O PT nas redes sociais resume-se ao vereador Ivan Duarte, que tem severas limitações de discurso e uso das redes como ferramenta.

O PSOL tem ampla presença, mas se preocupa mais com o Cunha que com o cotidiano da cidade, uma das cidades mais vitimizadas pela guerra aos pobres traduzida pela “guerra às drogas” no país, pegando um elemento fundamental do discurso do partido. A quantidade de feminicídios não é pouca coisa e recentemente tivemos mais um crime relacionado à homofobia, e nas páginas do partido o que se viu? Nada. O PSOL em Pelotas é refém do discurso nacional, o que convenhamos não ajuda muito na construção de alternativas locais.

O PSB é um túmulo e seus candidatos a vereador (Ou possíveis candidatos a vereador) são reféns de uma modernização do discurso assistencialista e aversão ao debate político moderno, ainda mais se envolver um necessário e corajoso combate ao sistema de financiamento de campanha e oposição clara a Prefeito e lideranças conservadores da câmara. Aliás, chega-se ao cúmulo de sumir com dados de financiamento de campanha de suas páginas sem razão aparente.

A REDE filiou entre seus quadros um candidato a Daciolo local, o Tenente Bruno, que chegou a tirar o cinto (Em plena Câmara de vereadores) dizendo que vítimas de violência policial que denunciassem a polícia mereciam aquilo.

Ou seja, das alternativas, ou ditas alternativas, nacionais Pelotas só tem a rapa do tacho.

Enquanto isso a cidade bate recorde de homicídios, a CEEE cobra contas altíssimas à população (especialmente,olha só,as concentradas na periferia) alegando que o problema é sempre do cliente, se chove alaga, a frota de ônibus não é renovada, mas a tarifa é. Além disso empresas de ônibus tiveram a licitação dos transportes à sua feição para receberem de forma “legal” mais um presente de natal.

E nós? Basicamente estamos na água.

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