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Em todo debate proposto sobre o desarmamento aparecem “argumentistas” da direita política brasileira com argumentos que oscilam entre a alegação que o nazifascismo também promoveu o desarmamento, UM estudo de Harvard “provando” que o desarmamento não funcionou nos EUA e outro sobre como a posse de armas por seus cidadãos salvou a Suíça.

É como um bingo, você posta dados sobre o Mapa da Violência, por exemplo, e aparece lá os mesmos “dados”, o mesmo discurso, idênticos, e que seguem um modelo de debate onde supostamente ao fazer isso “refutam” os argumentos de quem defende o desarmamento da população.

O interessante do modelo de debate que “refuta” os demais argumentos é a extrema simplicidade com que ele atua. A complexificação do debate, um debate sério, é infantilmente reduzida à simplicidade de um único contraponto, ou contraponto mínimo baseado em padrões desligados entre si pelos contextos, com relação à complexidade dos dados pró-desarmamento.

É raciocínio e modelo de debate idêntico ao dos negacionistas do clima, aos discursos contra a legalização do aborto e antifeministas: Um argumento rebate todos os demais, como se um contraponto em si contivesse todo o arcabouço da verdade ao contrário de 98% dos argumentos contrários.

É como se um argumento construído com bom poder de retórica e construído em cima de sofismas contivesse toda a verdade do universo independente do nexo causal existente entre ele e os dados construídos por milhões de estudos,estudiosos,fontes e institutos.

Pra exemplificar, é como se uma tese,única e sólita, defendendo que a Terra é plana,defendendo com argumentos bem construídos,mesmo com base em nada,fossem categoricamente tomados como verdade diante de argumentos construídos com poderosa base de dados e que defendessem o óbvio: Que a Terra é redonda.

Esse tipo de método de raciocínio de debate ignora a multiplicidade da construção de dados,consensos científicos, em nome de um argumento simplista que garanta a segurança da ausência de dúvida. Não raro há uma relação íntima entre a negação das complexidades e raciocínios fundamentalistas políticos e religiosos.

Pros adeptos desse método de nada vale o consenso científico da biologia e medicina que consideram o surgimento da vida a partir da 12ª semana de gestação da mulher,porque se existir um pensador que conteste essa ideia não há consenso, e sem consenso absoluto não há realidade para os adeptos deste método.

Pouco importa também para os adeptos desta linha de ação política e raciocínio que “argumentar” com base (Limitada) na realidade dos EUA e da Suíça para “refutar” os argumentos pró-desarmamento no Brasil é ignorar solenemente todas as gigantescas diferenças entre os contextos relativos a cada país. Também é cômodo pra essa turma citar que o Fascismo desarmou os cidadãos e Ignorar que a Inglaterra também o fez, e faz.

Pior, ignoram que o centro de Controle de Doenças dos EUA defende o desarmamento com base em dados oficiais do impacto da proliferação de armas de fogo nos dados de saúde do país. Pra que analisar que a UNESCO defende o desarmamento com base em seu estudo de anos a fio sobre a violência no Brasil a partir do estudo de dados oficiais, nacionais e internacionais, contidos nos anuais Mapas da Violência?

Tudo isso, a análise e o raciocínio, consistem na construção de uma realidade complexa, e sabemos que a realidade complexa é insegura de per si, como via de regra a realidade o é, e sem a segurança absoluta, contida inclusive na ignorância, o reacionário médio entra em pane.

Sabe-se muito bem que o pano de fundo do fascismo e do conservadorismo extremo é o medo, seja da mobilidade, da insegurança, da ausência de parâmetros confiáveis de ausência de transformações para que se estabeleça o que ele considera uma sociedade confiável: Uma sociedade estática,estamental e cuja segurança, mesmo ilusória, seja defendida pelas próprias mãos.

Não raro o “pró vida” Anti desarmamento não liga tanto pra morte de um “bandido” linchado como liga pra morte do embrião antes da 12ª semana de vida.

Aliás, o amor à vida do “pró vida” anti desarmamento é relativo pacas, danem-se se milhares de mulheres morrem pós aborto clandestino, que a presença de armas de fogo na sociedade civil mantém uma taxa de homicídios fúteis  por arma de fogo próximas de 80% do total de homicídios por arma de fogo em SP, dane-se se a morte por armas de fogo é a principal causa da morte de jovens negros e de mulheres vítimas de violência contra a mulher, mas nunca, jamais, defenda a legalização do aborto, porque a vida em potencial de um suposto nascituro, o vir a ser, é extremamente importante.

É sintomático o caráter metafísico de boa parte dos argumentos da direita pró-vida e anti desarmamento. É só consideramos que a ideia do embrião, um vir a ser que só pode ser considerado cientificamente vivo após a 12ª de gestação, uma vida em potencial, é mais vivo na opinião destas pessoas do que mulheres, LGBT, “bandidos”, crianças pobres e abandonadas,etc.

Outro sintoma claro da enorme simplicidade, quase ficcional, na qual se baseia o raciocínio pró-vida é que em geral nenhum dos “argumentos” defendidos por eles constroem-se e se sustentam para além de uma rede de sites primo irmãos do Instituto Mises. Pra que variedade de fontes (De Conservadores a liberais, de liberais a de esquerda) se a segurança da irrefutável e indubitável fonte de caráter obscuro nos causa o conforto de concordar com nossos medos,não é?

Uma coisa interessante também são os desafios lançados pela mocidade reacionária, como o de provar que os EUA tenham tentado lei de desarmamento, ignorando que a legislação sobre armas nos EUA, como a legislação penal, é de caráter estadual e que lá a federação existe, funciona e não tem o caráter historicamente hiper centralizado como no Brasil. E pra que pesquisar e descobrir que Nova York aprovou maior rigidez na lei de controle de armamentos, que Pittsburgh e o Oregon discutem o mesmo e que a Presidência sob Obama, e provavelmente também sob Clinton ou Sanders se estes se elegerem, propõe sim a discussão de uma lei nacional de redução da posse de armas? Pra que pesquisar sobre o aumento de cidadãos americanos apoiando maior rigidez na compra de armas, mesmo sendo contra a proibição da posse?

Conhecendo os nobres “argumentadores” que sequer conseguem ler que a aprovação do Estatuto do Desarmamento reduziu uma taxa de crescimento de óbitos por arma de fogo e só por isso salvou cerca de 116 mil vidas e ignoram que o Estatuto do desarmamento é menos um desarmamento absoluto e mais uma lei rígida de regulamentação da aquisição de armas de fogo, a própria ideia de pesquisa deve parecer coisa de comunista.

Aliás, nada mais ligado à lógica e método de debate conservador do que o anticomunismo de almanaque.

Quem escreveu um baita estudo sobre o desarmamento foi um sociólogo que também é filiado ao PT? Não presta.

O Desarmamento não é panaceia e não cura Câncer? Lixo.

Tornou um argumento complexo? Comunista.

Enfim, essa estrutura de debate é provavelmente um dos mais perigosos germes do fascismo, o irônico é que seus portadores acreditam piamente que qualquer ideia de conquista de direitos e busca de redução de vítimas de armas de fogo, aborto ilegais, crimes de ódio, tudo isso é fascismo, quando são eles mesmos que por baixo da retórica pseudo liberal é que chocam o ovo da serpente.

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