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Falar de Mariana a partir do crime ecológico promovido pela Samarco ainda me é muito doloroso. O nível de perdas em matéria de vidas, de humanas à microscópicas, é gigante, ultrapassa qualquer tragédia que eu tenha presenciado ou ouvido falar.

Quando ampliamos a lente para além da dor humana a coisa piora, e muito. Porque se a imensurável dor humana não é facilmente compreendida sem uma boa dose de empatia, se o impacto dessa dor história afora é igualmente imensurável, a destruição de ecossistemas inteiros, entre o Rio Doce e o próprio oceano Atlântico vai além de ser imensurável, é aterrorizante,assustadora. E isso porque atua de uma forma ampla e transversal numa reação em cadeia de danos que progridem geometricamente que amplia a noção de ecologia em níveis absurdos, holísticos até.

Explico: O impacto ambiental do desastre promovido pela Samarco tem pelo menos três níveis.

O primeiro nível do impacto é o impacto imediato no ponto zero do desastre, ou seja, na região de Mariana, as vidas ali afetadas, os danos ambientais diretos,etc.

O segundo nível de impacto é o da praticamente inevitável extinção do rio Doce, e tudo o que isso significa em se tratando da quinta maior bacia hidrográfica do Brasil, de toda a economia,abastecimento de água, vida, existente e dependente do entorno do rio.

A terceira camada, e a mais assustadora, é o impacto em um dos maiores criadouros de vida marinha do Atlântico, pra não dizer o principal, cuja contaminação por cerca de trezentos anos deve afetar bem mais que a vida marinha imediatamente “brasileira”.

Pra assustar mais ainda a partir da terceira camada, não é desprezível o risco da contaminação se expandir pela corrente marítima do Brasil e chegar a contaminar até a foz do rio da Prata.

Esses três níveis propõem um problema de progressão geométrica de uma reação em cadeia de danos ambientais cujo resultado final torna-se catastrófico,assustador, apocalíptico. Porque os três níveis juntos encadeiam-se numa espiral de danos que vão da manutenção da própria vida em sentido amplo à devastação econômica para além do usual cotidiano de pessoas,empresas,ribeirinhos,pescadores,etc. Estamos falando até da possibilidade de colapso da economia baseada em pesca e mais, da própria vida marinha brasileira, e que pode ser até mais amplo.

O fato da parte onde o litoral do ES será atingido ser um dos principais criadouros da vida marinha no Atlântico torna possível que o dano seja gravíssimo pra própria vida marinha no oceano como pra toda economia relacionada à ela, e não estamos falando só do Brasil nem só da Indústria da Pesca.

A ideia da extinção do principal rio da quinta maior bacia hidrográfica do país é algo assustador, de qualquer ponto de vista possível, do ecológico ao econômico,passando pelo político e pelo cultural.

Qualquer discurso,multa, teoria e cobertura midiática feita neste momento despreza o terrível impacto global do crime ambiental promovido pela Samarco sob a perspectiva que deve ter: a da Hecatombe ecológica.

Qualquer politização binarista político-partidária ao redor do crime é abjeta e escárnio.

Em escala humana,especificamente humana, a hecatombe é similar a uma bomba atômica explodida em Pequim.

E não estou falando a partir do único e unilateral ponto de vista de ambientalista e/ou de historiador,mas sob o assustador ponto de vista de diversos especialistas que ouvidos apontam a dimensão da tragédia como de imensurável medida.

Algo nesse nível era pra parar tudo e não pra discursos vazios que ignoram a dimensão do problema ou os três mil possíveis focos de impacto presentes na hecatombe.

Nenhuma força política do país se expõe e propõe o debate para além do umbigo do discurso fácil, ninguém respeita a análise assustadora que especialistas em vida Marinha, Rios,etc estão descrevendo,ninguém ouve ou reproduz os climatologistas ou debate a sério o modelo de economia e política que extinguem biomas inteiros por negligência,fome de lucros e completo desprezo à vida como um todo.

Estamos diante de uma hecatombe e os discursos políticos dos agentes do estado, de todos, até da extrema esquerda, é de uma pantomima arrogante,tola,tosca e que despreza qualquer nível de análise que não seja a formatada pela mise-en-scène da falsa indignação,da obtusa postura de fake de estadista ou do oportunismo do aproveitamento da hecatombe para atacar o adversário.

Senhores, cês não estão entendendo!

Há dimensões do desastre que assustam qualquer observador mais atento e que fazem o desastre da Britsh Petroleum e até Fukushima parecerem festa de criança.

É preciso cobrar mais que multas, dinheiro nenhum resolve o que virá, é preciso fechar essas empresas e todas as demais mineradoras até realizarem um recall em suas barragens, é preciso um enorme compromisso ambiental e uma revisão voraz na legislação ambiental, pra começar, e muitas cabeças corporativas rolando.

Sem isso estamos fazendo piada sobre cadáveres.

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