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Não é raro que pessoas envolvidas em movimentos de emancipação ou político revolucionário incorram em machismo, racismo, homofobia, transfobia ou até coisa pior.

O motivo disso ocorrer não é desconhecido, dado o caráter estrutural das opressões. Parafraseando pessimamente Simone de Beauvoir: Não se nasce libertário, torna-se.

As opressões estão enraizadas nas culturas, praticamente todas contendo suas opressões,em especial a cultura dita ocidental, ou judaico-cristã, hegemônica mundialmente dada sua expansão nos navios do capitalismo.

O caráter estrutural permite,por isso, negros machistas,misóginos e xenófobos, como indígenas,imigrantes não brancos ou nordestinos. Esse caráter também permite gays e lésbicas transfóbicos, gays misóginos,e por ai vai.

Não é raro também movimentos autoproclamados libertários reproduzindo misoginia, racismo, lesbo-transfobia, lgbtfobia,etc..

Outra questão presente na reprodução de opressão é a ausência de combate à estas opressões. Essa ausência de combate muitas vezes se dá pelo plano da sociabilidade.

O que é o plano da sociabilidade? É o Clássico “fulano? Incapaz de abusar de mulheres,conheço anos a fio!”ou o “Tenho certeza que fulano foi mal interpretado,ele é muito gente boa pra ser machista (ou racista ou transfóbico)”.

O plano da sociabilidade é a clássica suspensão da descrença sustentada pelo afeto. E essa gracinha mantém abusadores/estupradores em partidos, abusadores na academia, misóginos no movimento negro,misóginos na luta LGBT, transfóbicas no feminismo,etc,etc,etc.

É no plano da sociabilidade que nasce o “gentileza gera gentileza”, slogan da hipsterização da luta política que conscientemente opta pelo genteboísmo em vez do rompimento.

E é no “gentileza gera gentileza” que reside o fascistinha assustado que é o pequeno burguês lustrando as xícaras de chá do clube de debate pós-moderno da transformação de sofá que ele confunde com revolução.

O “gentileza gera gentileza” é a versão moderna do trottoir do país dos bacharéis. O “gentileza gera gentileza” é filho dileto do abolicionismo sem negros,da emancipação indígena sem índios,do feminismo sem mulheres.

É no “gentileza gera gentileza” que mora o cara que luta contra os privilégios apenas quando são privilégios que ele não possui.

É no “gentileza gera gentileza” que se constrói o bunker da luta pela igualdade entre os seres humanos desde que ela não afete meu amigo intelectual que abusa de mulheres.

O “gentileza gera gentileza” é a pátria do negro que luta pela emancipação dos negros,mas quando mulheres,inclusive as negras, precisam expandir direitos ele evoca o senhor de engenho a exigir comportamento e civilidade de quem precisa é quebrar a porta pra poder entrar no salão de chá da integração real.

O “gentileza gera gentileza” é o salão de festas do comunista “veja bem” quando exposto diante da debilidade de sua defesa da economia à frente da ecologia.

Porque é no “gentileza gera gentileza” que reside o brutal freio de mão puxado do enfrentamento da questão de classe e de combate às opressões dos militantes dos movimentos emancipacionistas.

A galera quer uma emancipação “gentil”,socialmente aceitável,republicana,vestindo fraque,cartola e Pince Nez pra homens e Vestido de gala para as mulheres.

Mulheres mostram os peitos? Inaceitável para o “gentileza gera gentileza”! E as crianças na Sala?E a Vovó Donalda? E a imagem do sagrado feminino? E nossas mãezinhas?E até o militante do movimento negro entra na criminalização do “atentado ao pudor” envergonhando quem caiu na porrada pra combater as leis Jim Crown.

Aliás, o “gentileza gera gentileza” se escandaliza mais com peitos de fora do que com os absurdos números da violência contra a mulher.

Mulheres denunciando abuso feito pelo starlet intelectual amante de selfie de pênis e fina flor da “inteligentsia” de internet da esquerda fofinha? O“gentileza gera gentileza” cria até comitê central da salvação da inteligentsia amante da fadinha verde da ecologia abraço na lagoa e da emancipação indígena sem índio.

Anarquista sendo preso por quebrar vidraça de banco e sendo chamado de terrorista? E ainda criticam o Príncipe Danilo por defender seu isolamento e apelar pra omissão eloquente em torno do processo de anarquistas e autonomistas por crime de opinião e ativismo? O “gentileza gera gentileza” não tarda a defender que é preciso ser republicano enquanto toma o chá da compactuação da omissão em nome da ação “revolucionária” de defender bandeiras liberais como se revolucionárias fossem.

Por que isso tudo? Porque o “gentileza gera gentileza” no fundo é a âncora do rompimento porque manter a moral burguesa e a solidariedade de classe burguesa,e com a burguesia, é muitíssimo mais importante que construir o rompimento.

Afinal se rolar rompimento o “gentileza gera gentileza “perde o festival de Tambor de Criola que vai rolar depois daquele filminho no Odeon. E como abrir mão do excelente papo do canalha machistas e ele for limado da existência no clube de chá das cinco do debate de Foucault?

Ao “gentileza gera gentileza” o advogado negro misógino,mas gente boa,tem a misoginia perdoada porque é um cara legal pro clube do “gentileza gera gentileza”. Foda-se se a pregação misógina dele envenena milhares de pessoas e alimenta o crescimento do fascismo,como combater o melhor papo do churrasco?

Gentileza até pode gerar gentileza, mas jamais revolução. Por que? Porque inibe processos de transformação pessoal entre grupos e no interior de grupos, e inibe pela sobreposição do afeto à crítica e autocrítica.

A sobreposição do afeto à crítica e autocrítica é o famoso passar pano,ou passar a mão na cabeça,uma atitude paternalista,de fé interpessoal, de maior apego a laços de proximidade afetiva do que à simples ideia de superação de opressões me emancipação humana.

E ao fim e ao cabo a gentileza não só não gera revolução,como gera omissão adocicada.

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