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Quem disse que ser utópico e radical é ser idealista?

Essa confusão deliberada na desqualificação do utópico em nome de um suposto “realismo” é ostentada como adereço de superioridade de determinadas leituras do real e da ação política, porém mal e porcamente sustentam-se como algo maior do que um imediatismo que constrói paliativos que marcham céleres para a falência. E tudo isso pouco oculta a dimensão da covardia presente.

A desqualificação da utopia como ideal é parte disso,pois desmerece a construção do futuro em nome da adaptabilidade ou da saída mais “fácil e simples”,sendo que a adaptabilidade via de regra tem pouco menos característica de adaptação e mais de submissão, e a saída mais “fácil e simples,na maior parte das vezes constitui-se menos de saída e mais de remediação.

Um exemplo é a política antidrogas. Constrói-se a defesa da proibição em nome dos efeitos das drogas, como se a proibição causasse a extinção do uso e dos efeitos, quando não só não causa como constrói em paralelo um agravamento da condição dos usuários que necessitam de auxílio,tornando-os tão criminosos quanto traficantes, além de expor as áreas periféricas das cidades à violência de uma guerra sem fim ao comércio de drogas entre polícia e “bandidos”. Pra piorar a guerra às drogas produz toda sorte de generalização do status de “bandido” à todos os residentes das áreas periféricas onde se concentra o tráfico.

A legalização das drogas resolveria todos os problemas? Jamais. Toda solução cria outro problema,mas a legalização das drogas permitiria tratar os problemas dos usuários em condições de vulnerabilidade sob o ponto de vista da saúde pública sem que estes carregassem o estigma da criminalidade. Isso permitiria políticas públicas de saúde de redução de danos e até de esclarecimento sobre os efeitos das drogas.

Além disso, políticas públicas que reduzem consumo de álcool,por exemplo,são menos eficientes na proibição do uso e mais eficientes na penalização de seu uso em situações de risco,como na direção ou como agravante em casos de violência,especialmente contra a mulher. A lei Seca nos EUA,que proibia o consumo de álcool,não só foi um fracasso como foi campo fértil para o crescimento do crime organizado.

O consumo de tabaco caiu 20% em seis anos com uma combinação de publicidade negativa, aumento de impostos, proibição de publicidade em determinados horários e proibição de consumo em lugares fechados.

Ou seja, as medidas mais eficientes para a redução do consumo passam pelo encarecimento dos produtos, publicidade negativa, esclarecimento da população e medidas punitivas ou de cessão de uso em condições ou espaços específicos. A pura proibição não só não cessa ou reduz o uso, como ao criminalizá-lo prejudica quem precisa de auxílio dos serviços públicos de saúde para evitar o uso ou fazê-lo de forma segura com assistência.

O crime? Bem, o crime deslocaria investimentos para outro campo e permaneceria,provavelmente na mesma periferia. Como todo ramo do capital. O crime desloca investimentos a partir da existência de demandas. Talvez mantivesse o comércio de drogas de forma “pirata”,ou seja, sem cumprir nenhuma condicionante para a comercialização de substâncias, sem pagar impostos e sem nenhum tipo de controle de qualidade na produção das drogas que ele venderia. A diferença aqui é que mesmo assim o usuário que necessitasse de assistência da saúde pública teria acesso a ela.

Ah,a legalização das drogas elitizaria o uso? Provavelmente como elitizou o uso de álcool e tabaco ou como direcionou aos mais pobres o uso de álcool e tabaco de baixa qualidade ou, como supracitado, de uso de álcool e tabaco “piratas”. Aqui voltamos a ter o fato dos usuários possuindo acesso a atendimento de saúde pública, e por outro lado é provável uma redução do consumo como ocorreu no caso do tabaco.

Ah,mas nossa saúde pública é de má qualidade e/ou não seguraria a onda? Bem,não é exatamente verdade a baixa qualidade de nossa saúde pública, ao menos ela possui as mesmas características da maior parte da saúde privada. Além disso, a saúde pública já absorve enorme quantidade de recursos humanos, de material e financeiros no atendimento a usuários de drogas legais e ilegais,ou a vítimas do mau uso de drogas legais e a vitimas do combate ao comércio de drogas ilegais.

Em resumo, a legalização das drogas deslocaria recursos para os atendimentos que já ocorrem, talvez ampliasse o atendimento num primeiro momento,dada a quantidade de usuários que não buscam atendimento para evitar a prisão,mas isso possivelmente se equilibraria posteriormente. Ainda mais como deslocamento de recursos para a prevenção,talvez inclusão do uso de drogas como parte da política de redução de acidentes de trânsito e outros programas de responsabilização pelo uso de substâncias entorpecentes.

Por que tudo isso acima é tratado como idealismo ou utopia quando é análise prática com exemplos históricos? Porque é muito mais simples ter medo dos efeitos das drogas,anotar o número de famílias destruídas pelo uso de drogas(Jamais se anota o número de famílias não destruídas) sem jamais relacioná-los ao número de famílias destruídas pela guerra às drogas. É muito mais simples proibir e dormir tranquilo porque a lei é uma ameaça ao uso, sem impedi-lo, do que enfrentar o problema disponibilizando recursos e esforços para resolver problemas e não para ocultá-los

Claro que dirão “sua família não foi destruída pelas drogas!”.E realmente não foi,mas as famílias destruídas pelas drogas só o foram porque não há nenhuma política de estado de suporte a usuários. A droga,amigos, não parou de ser usada porque proíbem o uso.

Proibir o uso de álcool não inibiu o uso de álcool nem nos EUA nem na URSS, nem em Cuba,nem reduziu a violência associada ao uso. Ampliar a rede de assistência ao usuário reduziu o uso de álcool e a violência associada a ele em todos os países onde existe rede de assistência ao usuário.

Proibir a cerveja em estádio reduz violência no trânsito e o cara chegar bêbado no bar da rua pra beber mais e talvez bater na esposa quando chegar em casa? Só no terreno dos desejos. Proibir bebida em estádio só faz o vivente beber antes e depois do jogo,atrasa em duas horas o ato de beber pós-jogo e talvez amplie a sede. Já bafômetro e blitz fazem o consumo de álcool cair 45%.

E o que isso tudo tem a ver com estabelecer uma dimensão utópica ser condição sine qua non da política? Tudo.

Estabelecer uma dimensão utópica é condição sine qua non da política é estabelecer o alvo o mais longe de ser atingido,até onde se pode observar, analisando cada elemento das soluções existentes para atingi-lo. Não se chega à Espanha se contentando com Manaus.

Estabelecer uma dimensão utópica é condição sine qua non da política porque é preciso conceber radicalmente as transformações necessárias para a resolução de problemas, não as que dá,as necessárias.

A dimensão da utopia é a dimensão da transformação. A adequação ao real pura e simples,a adaptabilidade ao dado é conservadora e estanque,nada resolve,empurra com a barriga.

Estabelecer uma dimensão utópica é condição sine qua non da política,porque só quem mira a utopia vê todo o campo do real entre o ponto de partida e o da chegada, quem tem medo da utopia não enxerga muito mais do que um palmo à ponta do nariz.

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