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Comecei concretamente a militar politicamente em um coletivo anarquista universitário, o Movimento da Incoerência Mineira. Com pendões artísticos e irônicos mais que de ação direta clássica, mais burguês até do que anarquista que produz okupas e outras ações mais radicais, o coletivo era a cara de seu bordão roubado de Oscar Wilde: “Coerência é o último refúgio dos sem imaginação”. Se propunha múltiplo, sarcástico, iconoclasta (Como era óbvio na ironização da Inconfidência Mineira) e foi a base sobre a qual se ergueu minha consciência política.

Do M.I.M ao CELIP foi um pulo, embora jamais tenha participado de quaisquer coletivos anarquistas de ação política fora das universidades ou,hoje,da vida virtual.

Talvez pela percepção,pessoal, da fragilidade do movimento anarquista na década de 1990, talvez pela própria deficiência de compreensão do que é anarquia e pela força de atração dos partidos da esquerda partidária sobre os mais jovens (É desigual a ação de “recrutamento” partidária em relação à ação de coletivos anarquistas,ao menos era) ou talvez pelo baque que foi aprender Marx na Universidade (Baque esse que permeia minha própria escolha metodológica enquanto historiador), acabei me filiando ao PT em 1998.

Aprendi demais no PT e depois no PSOL, não sou daqueles que esquece o passado e ignora aprendizados por romper politicamente, e a proximidade com o Trotskismo me ensinou muito, especialmente sobre aquecimento global,tática e estratégia, e o principal, sobre “A moral deles e a nossa”, que aliás é uma pena que poucos leiam e menos ainda pratiquem o que o “homem que amava cachorros” escreveu neste livro.

Só que o anarquista jamais conseguiu se entender naquela hierarquia que o sufocava e sufocava, como ainda sufoca, inovações, percepções, polifonias. É bem difícil pra mim compreender,sempre foi, como alguém se entende libertário reproduzindo hierarquias e negando-se a inovações, recorrendo eternamente aos mesmos pensadores,produtores de teoria, leis máximas de uma espécie de ciência política própria de partidos que se identificam como marxistas que acabam em poucos anos a transformar movimentos libertários em movimentos de construção de aparatos burocráticos.

Em partidos vi muita teoria boa transformada em jargão pra alimentar burocracias.

Em resumo: me identifico como anarquista, embora tenha militado em partidos por dezessete anos.

A questão é que sou “anarquista de apartamento”, por N razões, muitas bem boas até,mas que não tiram o fato de não estar organizado em nenhum coletivo de ação política concreta e cotidiana exceto o coletivo de agitação e propaganda Anarquia ou Barbárie, que produz o site de mesmo nome. Isso é algum problema? A meu ver não, mas é necessário registrar até para o óbvio juízo de valor que o possível leitor precise formar a respeito do autor a partir do que lerá.

Porque o que espero do anarquismo,ou da anarquia,é fundamental para a explicação da linha crítica exposta neste blog e mais,para entender o tipo de atuação política concreta que opto por promover.

E o que espero da anarquia eu vejo nas ações da FARJ, da FAG, do MOB; Na teoria de Bookchin, Hakim Bey, Bob Black, Malatesta; Nas batalhas promovidas pelos Curdos do PKK,YPG,YPJ na Síria,Iraque e Turquia.

O que espero da anarquia é menos revolta non dense meio juvenil e mais produção de políticas transformadoras não sectárias, que batalha contra xenofobia, racismo, machismo, capitalismo, socialismo, estatolatria, liberalismo, lesbo-tran-homofobia, que atua de forma firme pelo diálogo político nunca travestido de aliança,mas construído em cima de unidade na ação com quem quer que seja, desde que não seja um diálogo pró-capitalismo,hierarquia e opressão.

Por isso não consigo entender anarquista machista e homofóbico, não acredito em anarco capitalismo (É canalhice ultraliberal envergonhada e construída pra atrair jovens toscos com vergonha de se assumir canalhas opressores), acho lamentável que a anarquia seja vista com um elitismo e um dirigismo imenso por quem se admite e se reivindica anarquista.

Anarquista cagando regra sobre o que é ser anarquista e anarquista julgando o povo como burro porque vota? Triste. Tem,se bobear é a maioria, mas é triste e não constrói picas.

Pra mim a anarquia dialoga com a liderança política do bairro, seja ela de partido ou não, dialoga com toda a militância política transformadora, seja ela anarquista ou não,sem confundir diálogo com adesão, como fizeram os anarquistas dos anos 1930 ao dialogar com a ALN, por exemplo.

Pra mim a anarquia atua pra construir a ação transformadora da periferia ao centro,jamais o inverso e pra abolir TODA E QUALQUER HIERARQUIA, inclusive a de formação intelectual,ou percepção de realidade, ou seja, nós anarquistas NÃO POSSUÍMOS A PERCEPÇÃO PERFEITA DA REALIDADE, nossa percepção NÃO É melhor que a do outro,nem a única, nem a mais perfeita, é nossa, e só. Pra espalhar essa visão é preciso agir, e agir com graça,com raça, no cotidiano e pra isso não podemos ter frescurite no diálogo,nem hipocrisia no diálogo ou na ação.

Ação direta é muita coisa e não pode ser reduzida a quebrar vidraça de banco ou ponto de ônibus, embora quebrar vidraça de banco e ponto de ônibus seja sim ação direta,seja importantíssimo como ação política e não possa jamais, ser criminalizado.

Anarquia ou é ecológica ou não é, lamento. E não só por vivermos hoje em plena crise ecológica,mas porque nada mais anarquista que a ecologia e sua percepção da necessidade de equilíbrio entre cada elemento presente na natureza, sua percepção holística da vida, horizontal, quase um arquétipo natural do que foi descrito como ajuda mútua por anarquistas como Kropotkin e Malatesta.

Pra mim quem melhor definiu anarquia foi Murray Bookchin em seus textos. Sua crítica à cultura hierarquizada de fábrica é pra mim central pra compreensão da ação política, sua percepção da cidade como palco da luta antiestatista é fundamental cada vez mais em um mundo urbano. Sua luta ecológica é exemplar para a ação dos anarquistas.

Então eu defendo que tipo de anarquia? Bem a que permita todas as anarquias possíveis em uma polifonia prática e concretamente democrática, em diálogo eterno, que destrua opressões,hierarquias,violências,prisões internas e externas.

A ideia de uma pureza anárquica é em si opressora, repressora e anti-anárquica. E espero que a anarquia entenda cada vez mais que reproduzir sectarismo e hierarquização entre anarquias é,antes de mais nada tolice.

A anarquia que espero tem de ser anarco feminista, antirracista, anti LGBT-fobia,precisa ser ecológica, discutir a própria ideia de tecnologia e civilização, embora eu ainda tenha enorme dificuldade de abandonar a tecnologia e a ciência como paradigmas de “evolução” e também de ganho de melhoria na vida cotidiana da humanidade.

Tenho dificuldades com a luta antitecnologia, mas não com a luta anticivilização, porque a própria ideia de “civilização” é em si etnocêntrica e evolucionista social. Por que? Porque entendem uma civilização centrada na predação ambiental e de povos inteiros como “mais evoluída” que outra baseada com paradigmas diferentes de organização e talvez até por isso com “qualificação” tecnológica dispare da dita “civilizada” (E mesmo nisso há controvérsias). Não existem civilizações hierarquicamente organizadas e baseadas numa suposta superioridade de uma sobre a outra. Essa compreensão básica não ser entendida até hoje é de dar tristeza.

A luta anticivilização não pode ser confundida com primarismo, retorno à lógica primeva, por muitas razões, entre elas porque somos outra coisa hoje, e mesmo os “primitivos” são outros e a própria ideia de “primitivos” é etnocêntrica, por exemplo.

O que espero da anarquia é, portanto, uma esperança de construir uma polifonia de diversidade de percepções não etnocêntricas, de ir da agitação e propaganda à ação direta sem incorrer em hierarquizações, sectarismos e miopias organizativas.

Espero uma anarquia que construa movimentos de base e anarquias cotidianas sem esperar “uma sociedade anarquista”, tão mitológica quanto a Xangri-Lá do socialismo.

A anarquia que espero é municipalista libertária, é curda, indígena, quilombola, LGBT, mulher, é FAG, é FARJ, é FAU, é MOB. É da periferia ao centro, ouve mais do que fala, jamais silencia.

A anarquia que espero aprendeu com Ideal Peres a buscar corpo social para ela, dialogando com o povo,organizando o povo,sendo organizada pelo povo.

Porque “posso sair daqui pra me organizar,posso sair daqui pra desorganizar”.

A anarquia que espero é, antes de mais nada,livre.

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