Foto: Daniel Kfouri
Foto: Daniel Kfouri

O PT tá tão acostumado a contra atacar via ad hominem que tá se esquecendo de organizar-se pra 2016 e 2018 em diante.

Ou seja, o PT é reativo, e isso, hoje, é insuficiente. Desde 2003 o PT não tem resistência concreta a ele nas eleições e no cotidiano,vindo de todos os lados,hoje tem.

O PSOL não é,e nunca foi, resistência concreta ao PT, até porque parte dele nunca quis resistir ao PT, apenas ser consciência do PT, organização externa independente do PT,mas alinhado politicamente ao PT. E isso ficou claro a partir de 2013 quando fez coro, tão assustado quanto o PT com a resistência popular multifacetada indo às ruas, com o discurso de criminalização da resistência popular, especialmente focada nos chamados Black Blocs (Ignorando o que isso significa e não haver ali uma organização, um coletivo),atingindo, com prisão inclusive, anarquistas e autonomistas (mas não só), silenciando sobre processos e prisões ocorridos a partir de 2013, fazendo coro sobre a criminalização “dos vândalos”, sem falar nas aproximações eleitorais, nas participações em atos,etc..

Quem resistia ao PT antes de 2013? Na prática muito pouca gente,na institucionalidade também. O apoio da esquerda era numericamente quase unânime, e isso piorou com a aproximação entre PSOL e PT.

No seio da população as políticas compensatórias (Do bolsa família ao Pro Uni) garantiam uma boa vantagem eleitoral com relação à direita tradicional. Só que essa dianteira jamais permitiu ao PT, por razões múltiplas (Preguiça e acomodação entre elas), investir num processo de conquista de mentes e corações de forma contra-hegemônica. Optou-se pela manutenção de laços e metodologia de ação da direita tradicional, além de processos de cooptação pendular pela direita e pela esquerda, que produziu uma coalização inédita que reunia Katia Abreu e o MST entre os apoiadores do governo. Sem falar nos apoios não declarados, que estão ali,mas não assumem e se constroem como oposição, e que reúne Marcos Feliciano e Bolsonaro, de um lado, e Jean Wyllis de outro.

De 2013 pra cá isso começou a ruir,por diversos motivos, entre eles o crescimento na base de apoio eleitoral do PT da percepção de que tudo aquilo que eles tinham era pouco. A inclusão via consumo não garantia direitos, a TV de plasma era destruída pelo trator da prefeitura removendo sua família pelas obras da Copa, as polícias comandadas pelo PT e aliados matava seus amigos e parentes de forma idêntica à polícia do PSDB, o preço da passagem ferrava seu salário e quando ele resistia era reprimido seja por governos tucanos seja por governos petistas petistas, e por ai vai..

Além disso, parte desta mesma base foi responsável pela sobrevida da editora Abril com aumento de assinaturas da Veja na classe C. Sim,a inclusão via consumo fez com que a classe C e D buscasse aprender a ser classe média, e o caminho sugerido era ler as revistas desta classe média.

Acrescente a isso que a classe média de verdade e a classe alta sentiram o crescimento econômico proporcionado pelos governos petistas por vários lados. Um deles proporcionava ganhos econômicos, o outro desnudava um intolerável compartilhamento de privilégios antes exclusivos de gente branca, como andar de avião ou comprar Smartphone, e esse compartilhamento revelava seu racismo,seu elitismo, seu nojo de pobre,preto,gay,mulher.

E nisso esse compartilhamento de direitos brancos cis-heteros-masculinos tinha o primeiro mandamento que a elite brasileira odeia ver desobedecido: Jamais permitirás revelar seu arcaísmo.

Levando esse quadro ao forno deixemos dourar com pitadas de outros efeitos da primeira década da dinastia PT: A ampliação de pessoas com nível superior moradoras de periferia levou a um contato prático entre uma dinâmica de demandas de militância com práticas de militância, teoria e percepção teórica da sua realidade concreta e dos limites da atuação tradicional da própria esquerda (Nem precisa falar da direita).

Deixemos gratinar com a explosão da percepção nas periferias de que o Estado via UPP era tão assassino e torturador quanto o tráfico e a milícia quando ocupavam (E ocupam) a vida cotidiana dos mais pobres.

Isso tudo explodiu de 2013 em diante e temos ai a receita do bolo de rolo da política cotidiana,que reflete-se numa política institucional que não representa ninguém e faz do episódio Cunha apenas mais um capítulo de novela ruim.

E nesse jogo o PT perdeu a capacidade de disputar de forma ativa o dia a dia da política brasileira, nos salões e nas urnas. O PT hoje reage, e mal, ao indício de possibilidade de derrota nas urnas no biênio que virá.

Paralelo a isso a direita tradicional pouco sabe o que fazer, tendo também seus quadros atingidos passo a passo, no peito, um a um,vendo o financiamento de suas campanhas sob suspeita idêntica às que pairam sobre o PT e tendo de operar via táticas complexas e obscuras, que revela ao mesmo tempo o limite de suas operações como abrem perigoso precedente.

Quem paira sobre esse bolo de rolo com alguma possibilidade de ação? No plano institucional a sombra de um bonapartismo qualquer e a REDE. Na articulação das ruas os movimentos autônomos de periferia, os movimentos autonomistas e anarquistas e movimentos sociais não alinhados a partidos e governos.

A REDE sai como alternativa tanto pela imagem de sua maior liderança como quem concretamente apontou a crise e a insuficiência das manobras do governo em contorná-la quanto pela aura de “nem de esquerda nem de direita”, tendo entre seus quadros elementos de todos os espectros ideológicos vinculados a uma categorização “ética” da política e como organização “pós-ideológica”. Só que isso ilustra, na falta de fato novo, limites que a REDE assume e apresenta nos próximos anos de ser absorvida pelo mesmo viés de crise política de representatividade que assola as demais organizações.

Mesmo se pesando a boa atividade de head hunter de Marina Silva na captação de quadros,a heterogeneidade destes quadros aponta rupturas e contradições que tem tudo pra repetir experiências de resistência ao PT, e à direita tradicional, que deram em água, como a própria experiência do PT e a do PSOL,que em dez anos não conseguiu ser muito mais que tendência externa esquizofrênica do PT.

Afinal é complicado ter na mesma legenda Heloísa Helena, Molón e Sirkis e esperar que isso dure sem explodir num show de fogos e luzes nas primeiras tretas de governos futuros possíveis. Sem falar que duvideodó que o pragmatismo velho de guerra de nosso presidencialismo de coalizão não dê cedo às caras. Vamos combinar que se passar pente fino, as necessidade eleitorais da REDE também já apresentam contradições sérias com o discurso de ”Nova Política”.

Nesse sentindo um cheiro forte de Syriza e PODEMOS ecoa pela sala.

Resta à institucionalidade o bonapartismo velho de guerra que até apresenta candidatos (De Joaquim Barbosa a Bolsonaro),mas que pode tirar da cartola velhos atores que mudariam o jogo sem trocar o time (Lula dando uma de Getúlio 18 brumário) ou novos jogadores com um raro faro de gol e uma ambição que só quem nasceu no Jacarezinho e sobreviveu pode ter.

E o PT que perdeu a capacidade de disputar de forma ativa o dia a dia da política brasileira, nos salões e nas urnas, reage, e mal, ao indício de possibilidade de derrota nas urnas no biênio que virá?Bem, esse precisa antes de mais nada reavaliar muito,da militância à cúpula, as táticas recentes,que padecem de uma incompetência na articulação política aliada à esquizofrenia de atacar direitos dos trabalhadores como governo enquanto “resiste” a esses ataques enquanto militância. Sem isso, sem pensar, será fragorosamente derrotado, mesmo se vencer, em 2016/2018.

Sem mudanças, o PT que sair de 2016/2018, será ou um morto vivo ou um PDT de Brizola pela direita, comandado por um Lula cada vez mais poderoso.

Na articulação das ruas, os movimentos autônomos de periferia, os movimentos autonomistas e anarquistas e movimentos sociais não alinhados a partidos e governos tem um problema sério a enfrentar: Reconstruir a resistência cotidiana tendo contra si novos e velhos inimigos,sendo os novos inimigos outrora velhos aliados, a repressão do estado,a cooptação cotidiana e a necessidade de se refazer sem contar com aparatos e tampouco com a centralização silenciadora de partidos e sindicatos.

No plano cotidiano é preciso muito trabalho, teórico e prático, de reconstruir uma prática revolucionária a partir do caco das lutas cotidianas abandonadas ao relento pela sanha institucionalizante.

A boa notícia é que essa reconstrução não só já ocorre há cinco ou mais anos,como ocorre com a beleza polifônica da diversidade, e da divergência, e vem em um crescendo que ocupa ruas, praças, praias, escolas,prédios vazios sem ser gado de garotinhos rebeldes de DCE.

A má notícia é que essa reconstrução vai demorar pra se tornar algo além de resistência.

Mas, como de costume,quem tá com pressa?

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