Pessoa

A escrita e a fala são armas políticas, é fato. E por isso mesmo a barreirada língua é uma arma política brutalmente utilizada cotidianamente pelo estado, pelos conservadores, pela esquerda, anarquistas e autonomistas, e inclusive eu.

Por que? Porque a tradição do envolvimento político, da formação política perpassa e perpassou sempre um determinado grau de envolvimento com a língua, um patamar de conhecimento linguístico,um domínio da língua que reproduz uma hierarquização presente na sociedade e que reflete as relações de poder desta.

A tal “politização” nada mais é que domínio da linguagem política e a partir dele de uma cognição superior, formada,transformada em uma classificação dentro da hierarquia político-social, um status.

O “politizado” é “aquele que entende de política”. É um locus social para o bem e para o mal.

É do “politizado” a responsabilidade por sobre a discussão política, assim como sobre o “politizado” caem as ironias daqueles que atuam na política no plano do afeto (a maioria) e sofrem com as críticas aos objetos de seus afetos,como partidos e figuras públicas.

Só que o “politizado” não existe. O “politizado” é apenas o detentor de um domínio linguístico e da linguagem da política, da língua da política tradicional e um reprodutor da barreira linguística, da política que se utiliza desta e parte da sustentação de uma divisão social em torno da política presente na definição, clara ou não,de que política é uma arte cuja compreensão não é para todos.

Só que a política concreta tá em todas as relações que praticamos, em todas as regiões e em todas as tradições, usos e costumes da língua.

Ou seja, a tradição política que se utiliza da língua como barreira, esse texto inclusive, é uma tradição baseada na hierarquização da sociedade, hierarquização esta que é composta por opressão.

Um dos exemplos básicos é o tipo de construção política produzida a partir de textos compartilhados em redes sociais, da linguagem deles, e como se constituem coletivos inteiros baseados na leitura comum de um tipo de análise, produzida por um tipo de linguagem, analisadas por um tipo de ângulo. Eliane Brum produz textos maravilhosos que encaixam-se perfeitamente neste grupo de textos. São ótimos, porém enormes, extremamente difíceis de ler sem um domínio da língua acima da média, são voltados para um tipo de treinamento na língua muito além do básico. Esse treinamento é comum a um determinado grupo de pessoas com nível superior e que fazem parte em sua maioria de coletivos ligados à ideologias de esquerda.

Anarquistas e autonomistas em geral não diferem muito da tradição da esquerda, e até nas citações de autores anarquistas perpetuam um tipo de corte linguístico que mantém uma barreira cognitiva entre leitores e texto.

Outros exemplos são os de textos vindos de sites, blogs e portais vinculados à ideólogos da direita conservadora, cuja assinatura é o simplismo lógico, o sofisma, a linguagem agressiva, autoritária e avessa à construções racionais que abordem a realidade de forma complexa.

O grande problema é que os textos da direita tendem,pela simplicidade, a ter maior aceitação que os das esquerdas, mesmo assim também, até pela natureza autoritária e super hierárquica dos conservadores, mantém o mito da “politização”.

A sorte é que a política concreta, até pelas necessidades diárias da população, obriga à conscientização política para além da tipificação ideal da “politização”,ou seja, a liderança popular, o rapper, o moradora da periferia que se organiza na defesa de seus interesses, se conscientizam e agem produzindo política e discurso a partir de suas linguagens nativas, construindo categorias nativas,práticas próprias, e que acabam por não se enxergar em nenhum grupo político organizado,especialmente nos partidos.

É inclusive este um dos elementos que produziram a crise de representatividade nascidas antes, mas que foram parte da sustentação das jornadas de junho de 2013 no Brasil.

A escrita e a fala são armas políticas, e como tais são parte do campo de luta contra hegemônica, são fundamento de processos de revisão metodológica, de discurso e prática, que ficam à espera, há anos, de receberem a devida atenção pela maior parte dos grupos que defendem as transformações sociais.

E essa ausência de atenção também tem a ver com a frágil discussão do papel da educação na emancipação política. Não só, tem tudo a ver como a educação para a emancipação política é vista pelas forças que se dizem contra hegemônicas como uma educação burocratizante e assimilante, ou seja, como uma educação produzida para formar ”cidadãos”e não livres pensadores, mas isso é papo pra outro texto.

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