chile-set-2011-038-arte-libertaria

Debater o fascismo perpassa debater percepção do real, empatia,medo e alteridade. E por isso perpassa debater educação.

Por que? Porque educação é, entre outras coisas e antes de mais nada, construção da relação entre indivíduo e sociedade. O sujeito sai de casa onde se dão os primeiros passos da relação entre indivíduo e sociedade, e vai pro espaço delimitado pelo estado onde ele passa a receber uma educação não da família, mas do estado, da sociedade.

A Escola é, assim, o espaço extra-familiar de educação, é onde a comunidade atua na sociabilização do indivíduo (ao menos deveria ser assim). Não é o único, talvez nem o principal, mas é o espaço construído com este papel e que recebe em tese mandato social de construção da sociabilidade.

A família, a igreja, a escola,o grupo de amigos na rua, a TV, o Cinema, o Rádio, a Internet, o Clube, a Torcida Organizada, o Vídeo Game, a HQ, o Livro, são todos espaço e/ou objeto de educação, mas único que recebe mandato social, e estatal,para a sociabilização e construção identitária do indivíduo com o parte de uma sociedade e nação é a Escola.

Diante disso tudo qual o papel da escola na construção do fascismo? Bem, nas omissões e nas ações é espaço central de construção do fascismo, seja a partir dela, seja permitindo seu avanço por suas omissões.

Primeiro porque é na escola onde se organiza o papel da hierarquização na construção identitária dos indivíduos, e sabemos que a hierarquização é fundamental para a constituição do fascismo. Também é na escola onde a disciplina ganha papel central na formação identitária das crianças, substituindo muitas vezes a criatividade e a percepção lúdica.

Na escola também se organiza a percepção do outro, é lá onde o doméstico se torna apartado do cotidiano e o indivíduo transita no espaço público, onde os “indivíduos domésticos” interagem, como cruzamento e intersecção entre percepções “familiares” construindo “Percepções comunitárias” ou sociais.

Na escola o estado se relaciona também com a sociedade a partir do currículo base apresentado aos alunos pelos professores, melhor dizendo, é onde o estado (Mesmo nas escolas particulares) se apresenta aos alunos a partir dos filtros dos professores (Nas escolas particulares os filtros são dos professores e dos donos da escola).

A partir da naturalização da hierarquização já se reproduz e cria um processo de estratificação social,também naturalizada. Só que a hierarquização é naturalizada enquanto ordem, significando ordem, e sem contrapontos torna-se ela mesma mais que o significado de ordem, se torna ordem natural. De ordem natural a ordem divina é um passo.

Além do papel da ordem hierárquica naturalizada, há o papel da disciplina como central para a manutenção da ordem. A indisciplina é vista como rompimento do ordenamento “natural”. A discordância é vista como indisciplina, e discordar passa a ser romper com a ordem. Pensar em mudar a ordem, portanto, torna-se grave.

E o que acontece com a percepção do outro a partir do paradigma da ordem e da hierarquização como “naturais”? Torna-se uma percepção que ordena o outro de forma taxionômica, transformando “ser” em “ocupar um determinado lugar em uma determinada lógica hierárquica”.

Romper com isso é indisciplina,ou seja,é romper com a ordem e com isso tornar-se rival direto dela. Discordar,repito, é anátema,é desordem.

Isso é o hoje,como a escola funciona, menos como espaço que constrói a percepção do real, da empatia, do medo e da alteridade a partir do entendimento e racionalização do real e mais como o espaço onde se constrói a classificação não dialógica do real a partir de parâmetros rígidos, estanques, onde qualquer alteridade é desordenante, onde todo diálogo é anátema.

A Escola enquanto espaço de integração do indivíduo ao social já torna-se ela mesma um espaço de reordenamento pessoal e de identidades em nome da classificação e qualificação do ser em uma identidade social hierarquizada e disciplinada, é esta a concepção desde o século XIX. Em momentos onde o fascismo avança ela torna-se campo fértil para seu desenvolvimento.

Há maneiras de se resistir? Claro que há. Inclusive não são poucas as vertentes teóricas que pensam a educação como libertadora e não formatadora de uma sociedade claustrofóbicamente estanque. Podemos ir da educação libertária anarquista a Paulo Freire, e não só, mas e como o Estado e a Sociedade lidam com elas? É só olhar a Escola e se vê,tanto no âmbito público quanto no particular.

A Escola é hoje tudo,menos dialógica. A própria negação de trabalhar o interpretar textos ou de fornecer aprendizado de humanidades (secundarizando o ensino de História, Filosofia e Sociologia, por exemplo), torna a escola hoje um espaço de construção de qualquer coisa, menos de reflexão.

E sem reflexão não há alteridade e sem alteridade,bem, sem alteridade a empatia torna-se ficção e temos ai o mundo de hoje onde o ódio é nossa herança.

E piora quando História, Sociologia e Filosofia viram “propaganda comunista” para parte da sociedade e para parlamentares. Torna-se assustador quando governos verbalizam o sentimento que transforma disciplinas tidas como formadoras de consciência crítica nos Parâmetros Curriculares Nacionais e até na LDB em “dispensáveis”.

Juntando lé com cré temos um ninho de serpentes do tamanho do Maracanã.

E por que a esquerda desistiu? Porque basicamente esqueceu o debate da educação como central pro debate político e pra construção de um amanhã livre.

Quem debate educação hoje? Anarquistas e Autonomistas,que não só debatem,como constroem espaços de formação e de educação libertária.

E a esquerda partidária? Se quer finge ter espaços próprios de formação decentemente e acham que Educar é “passar conhecimento”, ou seja, trabalham com a educação como uma educação “bancária”, onde se deposita conhecimento e assim “liberta o aluno”,numa relação já ela hierarquizada, iluminista, etnocêntrica.

Se a esquerda partidária em seus espaços de educação é ela mesma “bancária”, Iluminista, etnocêntrica, como ela pensa a escola? Basicamente não pensa a escola. Há tempos pensar em educação para a esquerda partidária não é pensar a escola e a educação em si,mas pensar em escola integral, prédios e salários.

Tudo isso é massa, mas que escola se põe dentro da escola construída? Que professores pomos dentro do salário melhor pago? O que colocamos no tempo do aluno que preenchemos de forma integral?

Responder com “História, Capoeira,Teatro”? PEEEEEEEIN, Re-pos-ta er-ra-da.

Pode-se ensinar Capoeira, História e Teatro de forma fascista,sabe?

Então que escola queremos, como a pensamos, como dar as disciplinas, o que fazer? Não adianta ressuscitar Lênin, é preciso procurar em nossas coletividades o que queremos. Estamos dispostos a fazer isso?

Porque a educação capitalista é campo fértil pro fascismo que não só avança, como abre a geladeira e dorme na nossa cama. Ficar dando de mão na educação capitalista pra evitar magoar o tiozinho tijucano de bermuda que se acha progressista por não bater na mulher não vai resolver.

Ah,mas desculpe,esqueci que vocês querem ganhar uma prefeitura antes.

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