romero-alexandre-nero-a-regra-do-jogo

Tenho quarenta e um anos. Nasci no Engenho de Dentro no Rio de Janeiro. Morei metade da minha vida em Guadalupe, estudei em Realengo, adolescente ia na casa de amigos em Bangu. Depois que voltei de Minas Gerais fui morar em Vila Valqueire, depois em Oswaldo Cruz.

Nesses quarenta e um anos vi a chacina de Acari, Vigário Geral, Candelária e agora Osasco. Sem contar milícia em Jacarepaguá, Campo Grande e Bangu; PM ganhando arrego no Dendê; milícias enrustidas em Valqueire, Oswaldo Cruz, Madureira, Rocha Miranda, Freguesia,etc..

O que eu nunca vi nesses bairros era a esquerda em peso.

Tinha esquerda lá, óbvio, mas não mais que um incrível exército de Brancaleone.

Já na orla, a juventude dourada do socialismo curtia praia e sol, Maracanã, futebol, Domingooo.. E punha na lapela do colete de jornalista cheio de bolsos os lauréis da “consciência política”, curtindo a alegria de “fazer o mundo melhor”.

Sim, berra-se muito “Um outro mundo é possível!”, mas pra quem viveu praticamente meio século perdendo três horas por viagem para ir no centro e voltar esse outro mundo é bem improvável de nascer nas reuniões de acadêmicos, estudantes brancos e cheirosos mudando o mundo enquanto fumam maconha na festa hipster.

Não, não sou pessimista. Vejo a galera preta e pobre fazendo som, fazendo chover, quebrando a banca da babacolândia pseudo radical da branquitude consciente num fazer política mais papo reto, menos papo brabo.

Nada contra nego se divertir fazendo da política um hobbie, uma espécie de chá das cinco da caridade consciente embebida em marxismos de galinheiro. Direito constitucional.

Só que como diz o Playboy consciente Chico Buarque,eu nasci onde “A luz é dura,A chapa é quente”. Onde eu nasci “Não tem frescura nem atrevimento” porque “No avesso da montanha, é labirinto. É contrassenha, é cara a tapa”.

Convivi a vida inteira com gente que, como diz Brown, vivia “estilo é pesado e faz tremer o chão”. E aprendi que é preciso gritar: “Vim pra sabotar seu raciocínio! Vim pra abalar seu sistema nervoso e sanguíneo!”.

Porque já deu desse papo pós-rancor, de etapismo mela cueca, esse culto à personalidade de figuras públicas “republicanas” que conversam com geral pra manter seus mandatos, que fazem concessões pra banqueiro e empreiteira num papo cínico que “é o que dá pra fazer e garantir direitos!” enquanto dobram conta de luz, ferram com emprego e renda, arrebentam indígenas, gays, sapatões, trans, mulheres, pretos, quilombolas, e matam gente, desfilam sua bunda branca nas micaretas socialistas dos grandes centros pra disputar com a direita quem faz passeata mais babaca longe da casa dos pobres.

Já deu o papo! Já encheu o saco essa bundonice pseudo revolucionária que não sabe o que é se fuder todo dia pra ir trabalhar e ter dor de cabeça porque a conta de luz triplicou e a companhia de luz ainda te fode com um cálculo errado porque o medidor pirou.

Encheu o saco porque essa galera Santa Tereza, esses hipsters do socialismo não sabem de porra nenhuma do que é morar no cu do judas,do que é ver o lado selvagem do estado.

Trocentos anos com existência de partidos de esquerda e o pobre ainda lacrimeja sangue e pedras preciosas pra ter energia elétrica, água,internet,etc e não se foder com operadoras lhe roubando, lhe atacando, expropriando. Ninguém faz porra nenhuma!

Energia elétrica e água é direito humano, que partido diz isso e luta por isso? Até Internet e ONU classifica como direito e a esquerda, cadê?

Na Tijuca não tem “Cavalos Corredores”. O “Mão Branca” não dá as caras em Copacabana. O Batman do Leblon cagaria o pulmão se encarasse o Batman de Rio das Pedras.

Mas há vida após a morte bundona dos “socialistas de apartamento”.

Enquanto alguma coisa acontece no coração de quem cruza a Ipiranga com a Avenida São João, o couro come em Osasco e nas periferias de SP, que se mexem,que se organizam e que revolucionam, à revelia dos doutores do Largo do Machado, passeatas, atos, gritos, urros.

Enquanto a o socialismo amarelo xinga a novela, a juventude autonomista e anárquica toca o samba no Alemão e os núcleos socialistas fazem chover em Campo Grande.

Porque ou é da periferia pro centro ou é micareta patriótica,parça.

Essa coisa de Rio Branco, Avenida Paulista, Copacabana, Largo do Batata é muito bonito pra tentar namorar a gata do DCE, mas não atinge o fudido a não ser atrasando sua volta pra casa.

E é bonito pra caralho fazer coração “cas Mão” pro Mujica enquanto a juventude preta toma tapa na cara no Guabiroba por conversar em grupo numa esquina.

Aliás, fazer cosplay de cheer leader de figura pública em universidade, além de um sebastianismo fedorento, emulando culto à personalidade stalinista,é um lamentável grito de carência psicológica e limitação teórica de uma esquerda que precisa melhorar muito pra ser “Partido necessário” e muito ,mas muito mais, pra ser “ferramenta da classe trabalhadora”.

Enquanto Isso o Curdistão manda lembranças com uma revolução feminista fodona, mas quem liga?

Melhorem!

E não adianta procurar FHC pra melhorar, a não ser que o objetivo seja só tempo de TV pra garantir o bom negócio que é ter mandato.

Porque é preciso realizar: Vocês não tem a menor ideia do que é periferia! Vocês pararam nos anos 1980 e reproduzem em looping uma lógica de organização centralizada que fode pobre, fode periferia, fode preto, fode favelado.

Vocês ainda se acham “conscientizadores das massas” sem terem consciência nenhuma do que são “as massas”! Falta humildade ai,véi!

Vocês ainda tentam matar o velhinho inimigo que morreu ontem!

Enquanto isso o bicho pega e vocês parecem surdo em bingo!

Vocês falam de bandeiras liberais como legalização das drogas, aborto, casamento civil igualitário, etc como se elas fossem a porta da esperança da caceta preta do paraíso igualitário.

E se corretamente as pegaram e empunharam como bandeiras fundamentais, num quadro onde conquistas de direitos é imensa realização,onde estavam com a porra da cabeça de tratar isso como etapa revolucionária?

Beberam o que pra esquecer todo o resto,a questão de classe,a questão climática,meio ambiente, indígenas, quilombolas,etc e a necessidade de luta cotidiana por tudo isso junto e não só por parte? Ah,desculpe,esqueci que vocês trabalham em conquistas de nichos, de público-alvo de garantia de cargos eletivos e não mais que isso.

Porra, véi! Então assume que querem ser torcida organizada de ex-comunista neoliberal, que querem só garantir mandatos nicho com plataformas liberais pontuais e ganhos mínimos de direitos (Se o PT deixar) e parem de tentar cafetinar a periferia, indígenas, quilombolas e a questão ambiental com papo brabo etapista e políticas compensatórias.

Parando de fingir que sequer ligam pras periferias para além de abaixo assinados virtuais já quebra um baita galho pra rapaziada que tá se organizando pra mudar as coisas.

Sim, vão discutir Romero Rômulo e deixem o Movimento Indígena e Quilombola,as juventudes das periferias, pescadores artesanais, putas, travestis, trans e mulheres pretas fazerem seu carnaval sem a tutela zé cu universitária da orla de Copa.

Porque ou a esquerda é da Periferia pro centro ou tem de se repensar. E como não vai se repensar que assumam e parem de encher o saco.

Comente, mas cuidado...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s