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Escrevi este texto no Anarquia ou Barbárie e em uma das divulgações recebi nada mais , nada menos que vinte e três comentários idênticos que resumidamente “Qual a alternativa? Ou se apoia Dilma ou se apoia o golpe!”, uma pérola da livre associação reducionista que seria passável se boa parte desta postura não ocorresse em um ambiente onde debatem professores de História, deduzindo o conteúdo do texto a partir do título. Se professores deduzem a partir do título como cobrar alunos por lerem mal?

É horrível a sensação de professor de história ou historiadores reducionistas,binários, autoritários e que deduzem a partir do título, etc,porém isso só é sintoma.

O cerne do debate político em torno de Dilma é reflexo de uma prática discursiva antiga: A criação de espantalhos para reduzir e rebaixar qualquer discussão política a um evento binário, maniqueísta, onde o PT e seu governo são a esquerda, a luz,a verdade e a vida e todo o resto é o mal, o golpe,a ditadura,etc.

Essa criação de espantalhos não é método novo, é uma lógica que permeia a prática stalinista de negação do outro de qualificações a partir da redução do debate à oposições simples, isso facilita a ocultação de erros e de aspectos negativos das posições apoiadas pelo utilizador da tática,cria uma cortina de fumaça e ganha-se tempo para levar a cabo as ações táticas do grupo político ao qual portador do discurso se filia.

A transformação de Trotsky na encarnação do Mal no pós-1929 é um exemplo disso; A perseguição bolchevique ao anarquismo no Brasil e sua transformação no imaginário em exemplo da “porra louquice” anti revolucionária, quinta coluna da burguesia e coadjuvante de auxílio à repressão pela polícia, que envolveu até Astrogildo Pereira, é outro aspecto vindo da mesma fonte; A ação stalinista na revolução espanhola contra anarquistas e trotkistas um terceiro exemplo e a satanização do anarquismo pelos bolcheviques durante a revolução russa,que incluiu assassinatos talvez a marca de origem da metodologia política e retórica.

A metodologia persiste até hoje e não é coincidência que tenha se estabelecido no PT essencialmente após sua chegada ao poder e após dissenções internas à sua esquerda, dissenções que acabaram gerando uma diáspora da esquerda petista,na fundação do PSOL,etc. A repetição dessa metodologia no PSOL quanto mais ele se aproxima do poder também não surpreende, dado que parece tratar-se de um modus operandi que remete a Lênin, mas sobre os efeitos da burocratização trato em outro texto.

A metodologia, no entanto, não tem um fim em si, ela serve a uma tática política, que por sua vez reflete uma estratégia.

E que tática é essa? Serve à qual estratégia?

A relação entre tática e estratégia na retórica stalinista é íntima, assim como é adaptável a tática à também flexível estratégia.

Explico: Pouca coisa no Stalinismo muda tanto quanto a estratégia, talvez só a tática. Se em 1921 Stálin queria salvaguardar a revolução, em 1924 a estratégia era salvaguardar sua posição de liderança na URSS, em 1929 a estratégia já era salvaguardar sua percepção teórica do socialismo para todo o mundo, quando do Pacto Ribentrop-Molotov a coisa já tinha mudado pra garantir a URSS viva, o estado não a revolução, e no pós-guerra a de manter a divisão do mundo entre as superpotências e reduzir qualquer tipo de dissenção à pecha delouca ou traidora, ou seja, durante todo o tempo a posição estratégica mudava de acordo com as necessidades de manutenção do poder nas mãos do grupo Stalinista, ou do próprio Stálin, elevando a manutenção no poder ao status de estratégia única fixa.

As táticas também sofriam alterações bruscas de acordo com as necessidades de cada variável estratégica do eixo de manutenção do poder e foram desde a satanização da social-democracia e não do nazismo nos anos1930 ao combate aos trotkistas e anarquistas,e não a Franco, na revolução Espanhola, passando pela traição a Mao Tsé Tung por este não colaborar com Chiang Kai Shek.

E hoje tudo isso se repete, talvez como farsa, quando ocorrem as ameaças ao poder do PT no governo ou no âmbito eleitoral.

Desde 2003 a lógica é manter apoio ao governo do PT como meio de manter a direita afastada do poder criando-se um espantalho onde toda oposição ao governo é automaticamente jogada prolado da direita, Bolsonaro,etc. As táticas para isso vão da cooptação (Como a que ocorre com a direção e maioria de movimentos como MST e MTST e até com partidos ou alas de partidos como o PSOL) à prisão e criminalização (como no caso dos anarquistas e autonomistas pós-2013 e hoje de qualquer ativismo fora das burocracias cooptadas pelo PT como na repressão e prisão de ativistas contra aumento da passagem em BH ).

A retórica de que tudo é golpe acompanha a defesa de PT e governo praticamente desde sempre, enquanto isso o PT e os governos Dilma e Lula prosseguem com recuos frequentes, guinadas à direita, cessão programática e ataques aos direitos dos trabalhadores, indígenas, pescadores, quilombolas, mulheres e LGBT.

Se ficarmos apenas nesse cenário de dualidade entre o PT e a sombra de algo pior, algo pior cujo programa o PT paulatinamente implanta enquanto é protegido pelo medo de algo pior, talvez chegue um dia onde o algo pior seja o próprio PT. Se é que já não chegamos neste cenário.

E há alternativas de construção de resistência ao capitalismo e a todos os que o gerenciam,nos atacando, entre eles o próprio PT, na organização popular da luta cotidiana

Até porque o PT onde governa, na União e nos estados, age contra quem luta contra o capitalismo,vide RJ, BA e MG, onde Pimental comandou ataque a lutadores com violência similar a de Cabral em 2013/2014. E lembrando que Lula e Dilma abraçam a Agenda Brasil que consiste em um pacote de ampliação das terceirizações e ataques aos direitos de indígenas,etc.

E nem é preciso voltar à destruição do seguro-defeso e do seguro-desemprego.

E a quem serve essa retórica? Ao avanço conservador que se consolida no poder, no imaginário, no discurso,quando a binaridade chega ao redutio ad absurdum de justificar tudo como se ou se é Petista ou se tem ódio ao PT, quando racismo, lesbo-homo-transfobia e misoginia avançam e são consolidados como ação prática pública de resistência a um “comunismo” de almanaque dos anos 1970.

Serve ao avanço conservadore sim, serve à direita e à guinada à direita pelo próprio PT.

Enquanto isso a resistência é aprisionada,violentamente reprimida, sob aplausos de um capitalismo cada vez mais feroz, de um fundamentalismo religioso cada vez mais presentee daprivatização do cotidiano cada vez mais predatória,que incluia militarização da educação, da segurança e da vida.

Enquanto isso periferias recebem ocupação militar de cunho autoritário,inclusive sob gerência petista, e a milícia avança onde o poder militar não ocorre de fato,e não só no Rio de Janeiro e com indícios de participação de membros do próprio PT.

Até quando o maniqueísmo e o discurso conservador da própria militância de esquerda petista e não petista de “infelizmente vivemos no capitalismo e é o que temos de resistência” permeará o debate e servirá de adubo pro avanço do fascismo?

Pelo andar da carruagem por muito tempo ainda e talvez em breve seremos mais do que 23 presos políticos.

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