BALTIMORE, MD - APRIL 30: People protesting the death of Freddie Gray and demanding police accountability move into the streets in the Sandtown neighborhood where Gray was arrested on April 30, 2015 in Baltimore, Maryland. Gray, 25, was arrested for possessing a switch blade knife April 12 outside the Gilmor Houses housing project on Baltimore's west side. According to his attorney, Gray died a week later in the hospital from a severe spinal cord injury he received while in police custody.   Andrew Burton/Getty Images/AFP
BALTIMORE, MD – APRIL 30: People protesting the death of Freddie Gray and demanding police accountability move into the streets in the Sandtown neighborhood where Gray was arrested on April 30, 2015 in Baltimore, Maryland. Gray, 25, was arrested for possessing a switch blade knife April 12 outside the Gilmor Houses housing project on Baltimore’s west side. According to his attorney, Gray died a week later in the hospital from a severe spinal cord injury he received while in police custody. Andrew Burton/Getty Images/AFP

“Ah, a maior quantidade de negros mortos pela polícia não significa racismo, ocorrem porque a região onde as mortes ocorrem é de maioria negra!”, diz o sabichão branco.

E os negros estão ali porque acordaram de manhã e disseram “Porra, acho que vou me fuder e morar numa região sem esgoto, escola, hospital, com invisibilidade midiática e onde a polícia tem carta branca pra me matar!”, né sabichão?

A Escravidão; a gentrificação desde cedo ainda no pós-abolição e primeiros anos da república; o racismo ambiental desde os primeiros anos da república, a partição das cidades entre brancos ricos e pretos pobres a partir de 1889, e com aumento de ênfase no pós 1908; a retomada da secessão urbana nos anos 2010; a colocação profissional dividida por cor da pele,tudo isso é ilusão?

O negro é obrigado a morar onde mora pode trocentas formas de pressão, seja a da jamais ter renda suficiente para residir nos bairros “nobres” por ser destinado desde sempre por racismo às ocupações de mais baixa remuneração e prestígio social; Seja a de ter pouquíssima chance de inclusão social pela via da educação já pra pobres, quase todos pretos, e pretos, quase todos pobres, mesmo pelas cotas, é a minoria que tem a chance de estudar em universidades públicas, e acabam sendo relegados a uma educação sucateada da educação básica às universidades pagas com sua educação fast food.

Além disso, as poucas e ruins políticas de redução do deficit de moradia, que beneficiariam a maioria negra das pessoas pobres, é localizada nas periferias das grandes cidades, reforçando a gentrificação e secessão urbana.

Inclusive, a gentrificação com largos deslocamentos populacionais de remoção de população das favelas e localidades pobres próximos às moradias da elite branca nas grandes cidades para bairros periféricos, gera violento impacto social, ambiental e na mobilidade urbana. Pior, essas políticas são tidas como “doação” e “boa política” porque é “melhor que morar na favela”, ignorando que favela é cidade,que ali residem laços de solidariedade comunitária, que ali residem vidas, memória, amores, valores intangíveis que não são reparados por dinheiro algum no mundo.

A própria possibilidade de recuperação da viabilidade urbana das favelas, da ideia de favela como patrimônio cultural, e até arquitetônico e urbanístico,como solução popular de viabilidade de projetos de moradia para estatais, é tida como absurdo pelo racismo impregnado na academia,opinião pública e estado.

Sem falar na produção cultural imaterial vinda das favelas e periferias, tudo isso tratado como subcultura e algo passível de ser retirado dos bairros centrais para a mais profunda periferia pois é “inapropriado de estar nos bairros de elite”.

Tudo isso pavimenta a invisibilidade dos bairros pobres, e pretos, a política de estado genocida da população negra que desde a criação das polícias militares com o objetivo de policiar as ruas e serem uma espécie de feitoria urbana de negros especializada em por a população preta ”em seu lugar”, nem que este lugar seja uma cova.

E essa estrutura envolvendo a própria visão da polícia, da violência, da moradia, da cultura, da beleza, da pobreza, da vida em si, estrutura uma política de estado violenta, da política de habitação à política de segurança, passando pela economia e pela questão ambiental.

Por isso em nome da maior segurança se elogia a UPP, unidade de polícia pacificadora, inspirada na ocupação militar do Haiti e por sua vez inspirada na ocupação militar israelense na Palestina,que pensa a favela como locus de ocupação de território inimigo por forças “de paz”. Ignorando por opção ou comodidade que esta paz por vezes é sem voz, portanto medo.

Ignorando que esta “paz” é pavimentada com desaparecimento de Amarildos, assassinatos das Claudias e Eduardos, gente negra cujo nome é ocultado, cuja morte é naturalizada, criminalizada, gente que é tornada”bandida”, categoria que abarca uma similaridade com a categoria “intocáveis” da Índia perturbadora, para que seu assassínio seja normalizado em nome da paz da urbe.

Por isso em nome de uma política “de moradia”, de uma “reforma urbana” se elogia remoções que destroem comunidades, vidas inteiras, paz, saúde, culturas inteiras e amplia a gentrificação e a secessão das grandes cidades.

E segue o racismo institucional, ambiental, econômico permeando todas as atitudes do estado e apoiados por uma classe média e elite branca incapaz de um mínimo de empatia e raciocínio mesmo quando finge ser “rebelde” e de esquerda.

Por isso índios e quilombolas que se fodam se seus quilombos e aldeias são atingidos por mega empreendimentos hidrelétricos cuja viabilidade econômica é próxima a zero de tão ruim e cuja obsolência grita aos quatro ventos, com mais impacto do que energia gerada, vide Belo Monte.

Por isso tá tudo de boa se o seguro defeso e o seguro-desemprego vão de vala, pescador Branco é mais raro que diamante negro,né? Branco desempregado tem muito mais chances de recolocação profissional que negro, e provavelmente viabilidade de ajuda da família mais recorrente, não?

A maioria branca que naturaliza a morte de negros é a mesma que chama mato de “sujo” e que precisa ser “limpo”, como sinônimo de desmate de floresta.

Ou seja, a branquitude rima praca com predação, racismo, etnocentrismo, não é preciso esperar algo muito diferente da maior parte dessa gente branca,vão por mim.

Por isso, querido, a resistência negra um dia virá, que eu vi, e à revelia de endossos brancos.

Resta aos, poucos, brancos conscientes que entendam serem também parte do problema e se contentar com sermos aliados, e rezar pra na hora do pau conseguir sobreviver.

Sim, somos o inimigo.

 

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