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Em política é comum que se confunda radicalidade com intolerância ou apenas com intransigência. Também se confunde radicalidade com postura agressiva física ou verbal.

No mar de superficialidade média do debate político radical por vezes é aquele que traduz raiva em citações de autores que ele identifica como radicais, sem sequer perceber quem são os autores, suas nuances ou mesmo sua tradição ideológica.

Por isso é comum a crítica a grupos políticos com os quais se discorda chamando-os de “pós-modernos” e que “precisamos ler os clássicos e nos prender aos clássicos”, citando no minuto seguinte um autor que é acusado de… “pós-moderno” e que rompe com os clássicos.

Ai o cara acha que anarquista tem de ler só os clássicos e cita Bakunin, Kropotkin, Malatesta e …. Murray Bookchin, que é acusado por anarquistas ortodoxos de “trotskista infiltrado” por romper com padrões do anarquismo clássico, como entender ocupação de posições no estado a nível municipal, se assim for decidido pela comunidade, entendendo isso como Municipalismo Libertário e que funciona como uma espécie de “Cidade contra o Estado”.

Aliás, Bookchin chamou o que produziu de reflexão de Municipalismo Libertário exatamente por conta das críticas de anarquistas à suas propostas o que o levou a romper de certa forma com a anarquia.

É, parceiros, Bookchin, inspirador da revolução curda que nos deu o YPG, era (E é) chamado por anarquistas “ortodoxos” de “pós-moderno” e coisa até pior. E tá ai você reivindicando o cara como se fosse “clássico”.

Tetsujin 28-goPior ainda é o anarquista “radical” citando Ayn Rand. Isso, amigo, anarquista “radical” citando a anti-comunista e proto-fascista, ícone de libertarians e da extrema-direita estadunidense Ayn Rand.

Essa confusão toda é parte da confusão concreta entre ser radical, ver pela raiz, e lutar com base em análise profunda e de raiz sobre os problemas, e parecer radical aos olhos alheios.

Piora quando se confunde postura radical, punk por exemplo, com postura raivosa, sem nenhuma transformação concreta estrutural pessoal que seja realmente radical, transformações como rolavam e rolam nos punks por exemplo.

Outra confusão é entre radical e obtuso.

O radical na opinião desses “defensores dos clássicos” é aquele cara que lê tudo superficial, se lê, ou pior, decora tudo como se fosse versículo bíblico, e repete como se mantras mudassem o mundo.

E é por aí que abundam os “ativistas de Meme”, gente que acha que “passar a mensagem” e “convencer pessoas” é impor uma massificação de mensagens sem pé nem cabeça retiradas do contexto de livros de autores clássicos, mostrando apenas um lado das ideias e teorias e achando que isso resolve todos os problemas e “ganha gente”, ou pior, gente que acha que ler, ler o divergente, mudar de opinião, é bobagem.

Não por acaso se vê moderação de grupos de debate anarquistas compactuando com misoginia, transfobia, etc.

Não por acaso anarquista citando Ayn Rand sem sequer pensar a respeito de como aquela frase que parece libertária pra caralho oculta é autoritarismo e defesa de opressão.

Porque na maior parte das vezes nada menos radical que o “radical defensor dos clássicos”, até porque ele defende os clássicos sem tê-los lido, debatido, estudado, entendido, defende por osmose, por adestramento, não por convicção.

E atrapalha, atrapalha quando não consegue entender organizações do peso da FARJ, CAB, Coletivo Anarquista Luta de Classes, FAG realizando debates abertos a todos os tipos de anarquistas como algo excelente, porque divulga os diversos tipos de anarquismo.

Atrapalha porque muitas vezes não produz porra nenhuma concretamente, mas vira sommelier de “reformismo” e da radicalidade alheia, e passa isso adiante, afasta as pessoas de debates, afasta as pessoas de veículos que divulgam todos os tipos de correntes anarquistas porque acha isso “reformismo”.

No fim das contas o “radical” acha que se você é partidário das ideias de Murray Bookchin não pode divulgar Hakim Bey porque Bookchin o critica, ou não pode ler Bookchin e Bakunin, ignorando o quanto Bookchin relê a anarquia pro século XX se baseando exatamente em Kropotkin e Bakunin na releitura, achando necessário rever a teoria diante dos novos tempos.

A distância entre essa “radicalidade” e a tolice não é exatamente nenhum oceano.

Só que isso não agrega, essa tolice detona a reorganização anárquica por miopia. É preciso muitos anarquistas, de todas as cores para ampliar a presença do debate anarquista, clássico ou não, no mundo.

Aliás, não é nada anarquista essa lógica de hierarquização de anarquismos e de centralização política e teórica, nada é mais anti-anárquico do que essa cagação de regra sobre que tipo de anarquia é “melhor”.

Fede mais ainda quando isso não acompanha a crítica ao uso da anarquia por liberais radicais, e até autoritários antiestatistas, pra fazer “political wash” da defesa do capitalismo o mais selvagem possível com namoro próximo ao fascismo, como no caso de Ayn Rand e dos “libertarians”.

Fora a lógica de que anarquia rima com misoginia, racismo, homofobia e transfobia, por exemplo, como fazem muitos grupos e pessoas que se auto intitulam anarquistas ou que “índio e árvore não me interessam,me interessa a classe trabalhadora”,que remete a um autoritarismo que só não tá em partido stalinista porque precisa ter seu próprio nicho de pequeno poder.

Esse tipo de “anarquista” e “radical” não me parece muito interessado em abolir hierarquias, opressões, estado, classes sociais, sabe? Parece muito mais disposto a mantê-las até para poder ele ou seus iguais definir o que é ou não verdade.

Que quem lê tudo de forma tão caricata por vezes segue modelos sem jamais os pôr em prática, quer impor modelos de pensamento à organizações, inclusive organizações de base, acha que ir na favela e repetir versículos de Kropotkin convence pela “força das palavras”,etc. Não é muito diferente do carola, do fundamentalista evangélico.

E daí a necessidade de classificação de grupos e pessoas entre “reformistas” e “revolucionários” sem realizar reformas ou revoluções em si mesmo ou de entender que conjunturas podem fazer revolucionários defenderem reformas ou reformistas acompanharem revoluções, que nada é estanque, binário ou simples, menos ainda o radicalismo.

Pra entender isso é fundamental ser radical e pensar, olhar conjuntura, olhar profundamente o que se lê, diz, é. Pra isso é preciso pensar, mas pra que pensar se repetir que nem papagaio um mantra retirado de contexto de um texto de Bakunin é mais fácil e me faz parecer radical na frente dos amiguinhos?

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