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Sem possuir a pretensão de discutir aprofundadamente Kant e toda a tradição racionalista que permeou sua produção filosófica e aponta para o elogio da Razão enquanto ponto final “evolutivo”,mas já incorrendo nela, na pretensão, é fundamental nestes tempos de auge mecanicista de um marxismo sem Marx uma Crítica da Razão Pútrida.

Por que Crítica da Razão Pútrida? Porque em nome de um cientificismo de galinheiro,de um mecanicismo marxista baseado em “socialismo científico”, enrustindo inclusive a ideologia do cientificismo,da ciência como padrão de pensamento e todo etnocentrismo advindo disso, a rapaziadinha anda toda prosa na redução de todo pensamento não marxista, e/ou não científico, como sub lumpem do pensamento.

Aliás, não por acaso é comum também em parte deste “racionalismo” a secundarização das lutas, das diversidades de aspectos das lutas políticas, e também da luta de classes, baseado em perversões da lógica como a que reduz o impacto da legalização do “casamento gay” nos EUA baseado em sofismas que vão desde a caracterização desta conquista como menor por não ser panaceia até a caracterização do mar de pessoas comemorando a conquista como tolas por “Esquecer o imperialismo estadunidense” ou “Por que não comemoraram o casamento gay no Brasil?”,passando pelo inefável “Gays continuarão sendo agredidos e os EUA não se tornaram a Holanda!”.

O bacana disso tudo é o que os comentários enrustem. Tal como a caracterização dos EUA como o ator principal da conquista,ou seja , a conquista não é conquista porque rolou no Império opressor, apesar de ser uma conquista de oprimidos em plena pátria da teologia da prosperidade que serve de esteio teológico ao evangelismo de Malafaia e da direita Tea Party esteio ideológico da direita tupiniquim. Ou a ideia de que “Os EUA não viraram a Holanda”, como se a Holanda não fosse um belo celeiro da extrema direita europeia e tivesse sérios problemas para manter conquistas liberais como a legalização da maconha,direitos LGBT, etc..

Calma que tem mais!

Há também o argumento que a conquista é “modinha” e que não se comemorou com tanta ênfase conquista similar no Brasil, o que é falso ou o problema é que os caras tem amigos errados. Mas não para por ai, há também a ideia de que ocorrendo nos EUA, mesmo o país passando por uma radicalização de lutas pela esquerda(Dentro da divisão deles lá), muito mais acelerada a que aqui, com o governo Obama inclusive comprando pautas caras no campo dos direitos e da luta ambiental, a conquista não presta, pois é na Metrópole opressora. Ou seja raciocínio zero de conjuntura e dez em binarismo pseudo esquerdista,pois não elabora o que significa conquista trabalhista,ou de gênero,ou LGBT, ou racial, ou de desarmamento,num país como os EUA e o que isso significa no plano mundial.

Claro que tal raciocínio esconde a lógica de que se você comemora uma conquista de oprimidos nos EUA você automaticamente isenta os EUA de seu terrorismo de estado,de espionagem,de Guantânamo,etc.. O que, convenhamos, é de uma estupidez atroz.

E continua, porque antes este raciocínio tangencia a lógica de redução do saber indígena, quilombola, do pensamento mágico, das dinâmicas de reorganização da luta de classes, da dinâmica de refundação do pensamento político diante da crise ecológica,climática e civilizacional e da própria crítica ao elogio da Razão “Pura” como um elogio à forma pensamento ocidental sobre todas as outras, em resumo da crítica ao elogio da “Razão Pura” como um elogio etnocêntrico às formas de produção de pensamento ocidental como superiores às demais.

A razão, lida ainda com o esteio lógico estruturalista que foi dominante nos séculos XIX e XX, a tudo explica, a tudo revela e possui uma simples explicação estrutural pra tudo, o que foge dela é a ignorância e o obscurantismo.

O problema dessa lógica antes de mais nada é centrar na categoria Razão apenas a definição de razão conforme os cânones ocidentais, a forma de discurso ocidental,etc. A forma indígena de explicação para a crise climática não presta porque não tem nem forma, nem discurso nem o método analítico do pensamento ocidental,por exemplo. A ideia de que revolução precisa ser antes uma revolução cultural e conquistar corações e mentes também não presta se dita por Kropotkin,mesmo Gramsci seguir a mesma linha, usando a dialética marxista e o materialismo histórico, para definir formas de luta contra hegemônica também no âmbito da disputa ideológica (Ou seja, de pensamento), da mesma forma a luta LGBT, Indígena, Quilombola, Feminista, Transgênero é menor que a luta de classes, e jamais parte dela na cabeça de quem define a “Razão Pura” como acima de todas as coisas.

A razão estruturalizante vira um cânone que a tudo explica,tão similar à fé que até dói.

A merda é que nem toda estrutura cabe em todo lugar,mesmo atingido pelo capitalismo e não existe uma explicação pra tudo,existem muitas explicações pra tudo porque a realidade é extremamente mais complexa hoje do que era para Marx. Isso não diminui a genialidade de Marx, ou de Kant, e nem a serventia de sua metodologia e de sua produção teórica, só diz que só essa produção não explica tudo.

Isso é, pasmem, até marxista no ponto que discute que é preciso ler as variações da realidade, sua percepção concreta, antes de definir uma forma de ação e uma teoria para ela. O lance é que a bunda marxistas doutos em Marx que não são marxistas.

E há outros tantos meios e vieses de debate a respeito da centralidade da razão a partir da miríade de perspectivas culturais de leitura da realidade. A Antropologia, a História, a Micro-história tão aí produzindo teoria, desde o meio do século XX ao menos, que discutem a própria percepção “racional” e “científica” como uma leitura entre tantas leituras da realidade. E essa rapaziada não tava soltando peão ou “a serviço do imperialismo” ou brincando,sabe? Ajuda muito ao próprio marxismo lê-los e aprendê-los, apreendê-los.

Não quer ler algo de fora do Marxismo? Lê Thompsom, Foster, Tanuro.

Ah, é “pós-moderno” pra ti (não é)? Então larga mão e vai pescar porque teoria e pensamento não é tua área.

A questão é que enquanto produtor de pensamento “marxista” ao produzir teoria desta forma você reproduz opressão. Sim, opressão e reprodução do Status Quo, jamais revolução.

Até porque limitar a expansão de direitos,a ampliação da percepção do real e das vozes que o percebem é contrarrevolucionário,encaixotar o pensamento e as vozes dentro de paradigmas estanques idem, pois é limitar a expansão do pensamento à perseguição do Cânone.

É como procurar pela batida perfeita,mas sem batucar e chamar batuqueiro de “tribal”.

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