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Por Gilson Moura Henrique Junior

A História jamais foi feita de leis mágicas inalteráveis, de regras rígidas que estruturam transformações inadiáveis. Tampouco é um elemento atávico do planeta, daqueles que qual terremotos serão vistos sempre como leis inexoráveis que alimentam teleologias e lógicas teológicas aguardando o inadiável apocalipse.

A História é antes de mais nada o processo de ação humana no decorrer do tempo, e como processo e fruto da ação humana tem tudo pra ser praticamente imprevisível.

Temos, claro, semelhanças entre processos distintos, como estamos vendo agora entre o início de nosso século atual e o início do século XX, porém isso tem menos de leis rígidas, naturais, de reprodução eterna de ciclos inevitáveis e mais de aproximações coletivas feitas a partir do que reconhecemos, elementos similares de organização social em um modo de produção, permanências culturais de longo prazo e formações políticas que se mantém vivas, mesmo dando sinais de esgotamento.

Além disso, essa similaridade também é fruto da percepção macro da história e jamais da percepção focada, alimentada pela análise densa, pelo foco do microscópio para a percepção do que há por baixo da pele da História.

Olhando com atenção a similaridade começa a destoar,a desbotar e as diferenças gritam.

E é nessa dessemelhança que percebemos a dinâmica feição da História e o quanto a análise dela, especialmente no plano da educação formal de ensino fundamental e médio, é feita para ocultar mais do que pra revelar.

Cada linha de construção de similitudes forçadas tem ao mesmo tempo o elemento de didatismo superficial (E falho, por ocultar diferenças e plastificar complexidades deseducando o olhar analítico) e o fator de ocultação direcionado das formas de transformação históricas e ocorridas através da História como se fossem processos cotidianos, comuns, iguais, ou até mesmo pasteurizados, datados, sem local,forma ou factualidade concreta. Ocorreu no passado,já foi,já é, nunca ocorrerá nada sequer parecido (A construção de similitudes não costuma construir similitudes revolucionárias).

Enquanto isso se constrói similaridades pra explicar guerras,ocultando as enormes diferenças, e não se discute a similaridade entre Coluna Prestes e a Grande Marcha de Mao pela China,apontando as enormes diferenças. Se discute como o Eduardo Paes é parecido com Pereira Passos, sem discutir na verdade os processos que se buscaram similares para atender uma determinada concepção de cidade que jamais morreu no coração da elite carioca.

Nesses processos de construção de falsas similitudes e ocultação de parecências, de plastificação da diversidade e rompimento da verossimilhança para que o ensino caiba nas caixinhas pseudo didáticas, o que ocorre é a amputação das percepções históricas e da blindagem e cegamento de toda a sociedade para que ela jamais perceba o sorriso do Gato de Ceshire, o Gato de Alice no País das Maravilhas, que era tudo, menos simples e o que tinha de similar a cada manifestação era apenas o enigmático sorriso, que pouco valia como revelação de si, embora fosse o grande elemento de similaridade entre cada manifestação sua.

Mostramos a História como um conto de fadas cíclico, que perversamente distorce a anedota de Marx em que tudo se repete como farsa ao criar farsas repetidas, ciclo inventados, invencionices pseudo didáticas que não contemplam o debate com os alvos do suposto ensino a respeito de como ler a ação humana no decorrer do tempo em vez de demonstrar recortes escolhidos sobre os processos políticos a partir de percepções alienígenas a quem deveria aprender história.

Enquanto isso some Coluna Prestes; as lutas dos trabalhadores nos séculos XIX, XX, XXI; Os ex-escravos que se sindicalizaram; os anarquistas; as mulheres que se organizaram como feministas antes dos anos 1960; os indígenas; os removidos por Eduardo Paes.

E tome-lhe um surgimento falso da política a partir de 1922 quando surge o PCB (Já haviam partidos operários no fim do XIX,sabiam?). Tome-lhe um salto do Tenentismo à revolução de 1930 sem escalas, e ocultamento da relação do Tenentismo com a ditadura de 1964. Pra que Coluna Prestes? Pra que formação de organizações de trabalhadores independentes de partidos? Por que os sindicatos foram estatizados por Vargas? O que a arte refletia das transformações sociais? Por que a música popular explodia dos anos 1920 em diante com o Samba, etc ganhando ruas, salões, rádio, etc?

Tudo isso é oculto ou plastificado de forma a parecer distante, enquanto outras tantas coisas são tratadas de forma absolutamente simplificada e similarizante (como Vargas parecer apenas pela face democrática ou ditatorial, ser comparado com Perón, Lula ou Brizola, ou ser encaixado como parte de um suposto “modelo Populista”) perdendo quase que toda a complexidade e virando o tedioso elemento de inversão da construção de percepção histórica da vida.

E o Gato de Ceshire permanece sorrindo, mostrando a cada momento um pedaço de si, ocultando outros, mas sugerindo enigmaticamente existir ali um gato, convidando à descoberta.

É preciso seguir o Gato ou jamais cresceremos.

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