digitalizar0009

 

Quantos foram, como e quais foram os partidos de esquerda que agiram programaticamente de forma a lutar pela abertura dos arquivos da ditadura?

Não, não estou me referindo a figuras A,B ou C que porventura em PSOL, PSTU,PT ou PCB tenham contribuído para isso, estou falando de incluir em seu programa, em atuar de forma transversal em todas as suas frentes de luta pela abertura dos arquivos da ditadura. Alguém sabe responder?

Vamos mais longe, ok? Recentemente a OAB criou a Comissão da Verdade da Escravidão Negra  no Brasil , algo extremamente pertinente e fundamental para mexer no eixo fundamental do alicerce do racismo estrutural, da violência estrutural, da severa hierarquização estrutural da sociedade brasileira,do autoritarismo estrutural entranhado na cultura brasileira. Que partido de esquerda incorporou como parte de seu programa a centralidade não só do apoio a esta iniciativa como incorporou esta luta em seu programa e com o item de acréscimo de debate e discurso em todas as suas frentes de luta?

As perguntas são fundamentais diante do renascimento de um discurso pró-ditadura posto de lado por décadas pela sociedade brasileira e diante da resistência ao combate ao racismo renascendo em grande parte do país,isso só pra começar. Onde tá a esquerda?

Mais uma? Cadê a esquerda no combate aberto contra o etnocídio dos povos indígenas,na participação em conjunto com etnias indígenas na ancestral luta contra sua obliteração? Não, não tô falando de figuras públicas isoladas, tô falando de partidos inteiros em todas as suas frentes de luta, cadê?

Acham que são desnecessárias as perguntas? Pois bem,eu posso explicar a centralidade delas e como são objeto de reflexão sobre eixos fundamentais da luta política cotidiana.

Do racismo ao racismo ambiental; Do modelo energético aos mega empreendimentos; Da expansão do agronegócio ao uso de transgênicos; Da política de (in) segurança voltada para o assassínio da juventude negra ao déficit de moradia,remoções e mega eventos; Do descaso com o meio ambiente ao modelo econômico de amplo crescimento predatório; Da ordem hierárquica agressiva de tratamento que homens brancos cissexuais dão às minorias até a lesbotranshomofobia que mata inúmeros  seres humanos que não são heteronormativos; Da negação à reflexão sobre o fim dos combustíveis fósseis à própria negação da reflexão em si, passando pelo entendimento da educação como treinamento e do professor como saco de pancada,tudo passa pela não abertura dos armários que escondem os milhões de esqueletos da construção de nossa cultura política, de nossa cultura de estado, de nossa cultura, enfim: A escravidão,o genocídio indígena e a ditadura militar  de 1964 (A mais brutal face dessa estrutura violenta, racista, sexista, etnocêntrica e vil).

A esquerda brasileira discute de forma aberta e ampla esses temas? Como a esquerda atua estruturalmente sobre ditadura de 1964? E sobre escravidão? E sobre o etnocídio indígena? Garanto que a leitura de Trotski tá mais em dia que a compreensão do papel de todos estes temas na construção da sociedade que esta mesma esquerda diz querer transformar.

A desmilitarização da polícia, da política e da sociedade pode existir sem que os arquivos da ditadura estejam abertos para revelar a memória que ampliou a feroz militarização das polícias e seus efeitos, que militarizou a educação e a sociedade?

Os Amarildos que sumiram vão aparecer se não aparecerem os Juvenais e Raimundos, tantos Júlios de Santana,que foram os braços esquecidos que fizeram os heróis e hoje são cruzes sem nome, sem corpos,sem data?

Como cobrar a direita e os governos que revelem onde estão os desaparecidos se eles já desapareceram da memória da esquerda que os deveria tratar com o ícones e que deveria perguntar todo dia: Quando amanhecer quem se lembrará? Onde será que está? Onde será que estão?

Quando os filhos de Zumbi, os Eternos Malês e toda nossa herança africana gritará que saiu do cativeiro da memória? É preciso estudar sim História da África,mas é fundamental abrirmos os arquivos da escravidão, saber quem foram as riquíssimas familias que lucraram com o tráfico negreiro, quem foram as famílias que nasceram da brutalização de seus ancestrais, ou viveremos eternamente sob a lorota que fazendeiros fizeram sua fortuna com o suor de seu trabalho e que os amplos latifúndios não foram erguidos sobre o sangue negro?

Até quanto fingiremos que não usurpamos a soberania, a cultura, a paz e a vida de etnias inteiras quando essa ficção chamada Brasil se ergueu pavimentando com sangue indígena o progresso fossilista do país do “O Petróleo é nosso!”?

Claro, não é tarefa apenas de partidos ou coletivos anarquistas (A maioria dos que conheço fazem tudo o que cobrei dos partidos) lutarem por memória,verdade e justiça, mas que socialismo/anarquismo é esse que mantém a memória de seus mártires nos armários de ossos da história auxiliando seus verdugos?

Culpar a sociedade? Leiam as linhas acima.

Tantos negaram liberdade concedida (ela é bem  mais sangue,ela é bem mais vida) e precisam de mais que lembranças  esporádicas e homenagens pontuais.

Enquanto aguardo as respostas prefiro não esquecer dessa legião que se entregou por um novo dia.

E com Gonzaguinha,vou cantando essa mão tão calejada que nos deu tanta alegria.

Comente, mas cuidado...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s