som-ao-redor

 

Manifesta-se há séculos no país. Da luta abolicionista à Revolta do vintém, da Revolta do vintém à Revolta da Vacina, da Revolta da vacina à Revolta do vinagre, muitas lutas se fizeram nas ruas, nas sombras, nas dunas, nas ondas.

O Brasil jamais foi um país pacífico ou cujo povo foi e é hospitaleiro e doce, o Brasil é um país violentíssimo cuja história contém tantos esqueletos nos armários quantas defesas que se deixe tudo pra trás, como se o sangue na roupa não fosse indício, mas mancha.

O Brasil jamais foi um país inerte, despolitizado, preso em sensos de comunidade que fortalecesse mais a servidão do que o protesto. Sempre se protestou e se protesta no país, da favela que queima pneus à juventude dourada exposta ao sol na espinha das montanhas, arrombando retinas.

A direita também dançou nas ruas, sendo expulsa delas à bala na década de 1920/1930, ou ajudando a causar um golpe em 1964.

A grande novidade das marchas do dia 13 e 15 de março de 2015 é que a segunda, composta em sua ampla maioria pela elite branca, pela classe média mesquinha e pelo eleitorado tucano leitor da Veja, superou as expetativas de número médio de ocupação das ruas pela direita, sendo o maior ato de direita da história do país.

O que isso significa para além do deleite da mídia corporativa que cometeu a falácia de ocultar os números dos atos de 2013 para tornar os atos de direita a maior expressão pública do pais desde as diretas? Significa que antes de mais nada temos um jogo.

Temos um jogo porque pela primeira vez em trinta anos a esquerda cedeu as ruas à direita. Pela primeira vez em trinta anos temos atos de direita, compostos absolutamente por ela em suas inúmeras formas e tons e tudo isso tem muito significado e precisa ser dito e escrito muitas vezes por muitas pessoas para que comecemos a ter uma leve lição sobre o significado destas mudanças.

É fácil demais procurar lideranças e não encontrá-las e esvaziar o significado dos atos, fetiche épico de parte da intelectualidade incapaz de olhar além do manual prático de análise política da velha academia marxista de galinheiro.

É fácil demais centrar as críticas apenas no PT, que ainda faz parte do espectro de esquerda mesmo não governando como tal, e esquecer todo o aparato institucional que envolve e é ocupado pela esquerda, e todos os partidos participantes dela.

O buraco é bem mais embaixo, e a critica é bem maior.

Pra começar a entender é fundamental aprender que as ruas estão dando recados há alguns anos de que a institucionalidade tá fazendo hora extra na paciência da rapaziada, já deu, gastou. Das manifestações contra a tarifa de 2013 pra cá, com um cunho muito mais autonomista de esquerda do que a esquerda partidária gosta de admitir, até os atos de direita onde bolsonaros acharam que fartar-se-iam até serem expulsos exatamente pela população conservadora, é gritante o fato que a população como um todo tá de saco cheio de partidos.

A partir dai o processo de avaliação dos atos não pode simplesmente parar no binarismo Petralhas x coxinhas e nem depreender que uma reforma política genérica, tomada como panaceia, é a solução mágica pra tudo.

Até porque não é, a receita tomada como a tábua de salvação por toda a esquerda partidária no máximo é um engodo fácil de quem não soube tomar pra si a tarefa de disputar as ruas de 2013, e a política daí em diante, com propostas concretas, com trabalho de base e com luta anti-hegemônica, nisso incluído o próprio PT que sendo governo jamais buscou concretizar uma luta anti-hegemônica achando que por ser governo já havia superado a hegemonia conservadora, sendo no máximo cooptado pelo estado como player de segunda classe.

Nenhum elemento da esquerda partidária sequer tentou concretamente estabelecer luta contra hegemônica, seja no âmbito institucional, seja no âmbito organizativo, na política de gênero, LGBT, ambiental,etc, nada, pior, ainda foi cúmplice de uma ação do estado que tirasse das ruas o que não havia sido absorvido por suas organizações e aparatos, e sim, estou falando da omissão partidária para com a repressão e prisão arbitrárias de ativistas no Rio (Onde 23 pessoas estão sendo injustamente perseguidas e criminalizadas como terroristas), São Paulo, Rio Grande do Sul,etc.

Saca-se ao natural, como cowboy de filme ruim, uma proposta mágica, que ninguém concretamente sabe explicar como se tornaria concreta passando pelo congresso mais conservador de todos os tempos, de reforma política onde o cerne é o financiamento público de campanha e aumento de plebiscitos e recall de mandatos. Tudo muito lindo e muito bom, tudo sendo chamado de “democracia direta” como se democracia direta fosse e tá tudo de boa, vamos pra rua!

Vamos pra rua? Vamos, mas não pra defender isso.

Por que a esquerda partidária confunde política com institucionalidade? Que tipo de doença deu na esquerda partidária que a fez jogar pela janela toda produção intelectual de dois séculos ou mais que colocam trezentos meios e formas e discutir política e produzir teoria que se transforme em uma prática transformadora? Cadê o Marx da dita esquerda marxista? Será que nem pra defender reformas cês conseguem ser radicais e param nesse arremedo de demão no estado que vocês vergonhosamente chamam de “reforma política”?

As ruas xingando partidos e institucionalidade e chega a esquerda, que se chama até de radical por vezes, e oferece uma reforma básica no estado e na política centrada nas eleições e em revogação de mandato, ou seja, em eleições?

Não tiveram nenhuma ideia melhor tipo sugerir uma reforma política que tornasse obrigatória a existência de conselhos de rua, bairro, de políticas de gênero e LGBT, racial,etc organizados em distrito, que tivessem caráter deliberativo e propositivo em paralelo às câmaras e prefeituras, e dai por diante até o congresso, que tenha acesso a orçamento, à proposição de leis, à revogação de leis, à discussão de decisões, à discussão, decisão e veto de decisões no âmbito econômico, de gestão de energia, ambiental,etc?

Radical demais? Exatamente e de profunda raiz democrática, ampliando a fiscalização dos três poderes de Montesquieu pelo poder popular e aumentando o caráter democrático com democracia direta e não um arremedo plebiscitário disso. Se a esquerda dita radical não propõe isso, quem proporia, o PT cooptado? Não,né?

Ah, não vai passar? A abolição não passou desde quando foi posta na rua, sabe? O voto feminino não deu em árvore, sabe? A jornada de oito horas por dia, que já tá dando hora extra na paciência também, não brotou no asfalto, entendem?

Mas pra que se aborrecer pensando se a saída mais fácil é correr da sala pra cozinha se mantendo sob o espectro organizativo do PT, sendo linha auxiliar voluntária ou não da lógica da institucionalidade presente na estratégia e tática do partido dos trabalhadores? Pra que assumir o risco de deixar de ser prisioneiro no medinho de perder eleição e por isso ser parte da lógica conciliatória que mantém a esquerda partidária como satélite do PT na maior parte do país, mesmo discursando contra?

Não foi por isso que Freixo e Jean “assumiram a responsabilidade republicana” de apoiar Dilma no segundo turno de 2014? Não foi e é por isso que a bancada federal do PSOL assinou manifesto em apoio à Dilma no segundo turno de 2014 e sequer teve a honestidade intelectual e política de autocrítica depois que Dilma atacou fortemente direitos dos trabalhadores como no ataque ao seguro desemprego e seguro defeso? Pior, Jean ainda fez acordo com o PT e a bancada fundamentalista do congresso pra ser vice presidente da CDHM da câmara alegando que “é de batalhas que se vive a vida” enquanto já faz concessões pra vencer batalhas, mesmo que estas lhe custem a guerra.

E é daí que a avaliação governista apresenta a conta de seus erros à esquerda como um todo e diz: “É preciso agora que a esquerda partidária seja responsável e nos apoie na lutas contra o golpismo”. E eu acho bonito isso, lindo, porque revela a suspensão da descrença como elemento básico pra se fazer política hoje. E é acompanhado por discursos sobre cidadania vindo de “republicanos” de esquerda que olham pra transformação do sistema e só conseguem ver o estado e por gente do “Partido necessário” que acha que temos de “mudar o estado e o sistema dando uma demão de tinta e pondo um slogan maneiro na placa” que afinal de contas vem a ser a tal reforma política pretendida pela rapaziada.

Enquanto isso a olavice saboreia a primeira vitória: A ausência completa de orientação e análise de conjuntura pela esquerda partidária a quem chama de comunista.

Se essa esquerda partidária é comunista o Marighela era a reencarnação de Lênin.

E é por isso tudo que a avaliação tática de que a esquerda partidária errou tá correta. Já a avaliação de que ela deveria atuar contra o golpismo é parcialmente certa, porque imputa a ela a responsabilidade sobre o golpismo que é 70% do PT, e esquece que a esquerda partidária confunde ser contra o golpismo com ser linha auxiliar do governo e do PT, é o que a esquerda partidária vem fazendo anos a fio. A esquerda partidária critica governo e o PT até chegar no segundo turno das eleições, além de fazer o impossível para não desagradar as franjas do governismo de olho em eleições futuras.

O que tá rolando é que desde 2013 a população vem contestando pela esquerda e pela direita os partidos e o sistema, e aí desde 2013 o PT e o PMDB pelo lado do governo e o PSDB e PSB pela oposição apostaram na porrada e na criminalização dos protestos, e na acusação de golpismo sem olhar pro lado e sem nenhum tipo de cuidado diferenciando A de B. Desculpem, diferencia sim, quando prendem fascistas liberam logo, mas anarquistas e autonomistas mofam.

Pra piorar a esquerda partidária ajudou o governo na criminalização da esquerda não partidária presa e processada, acusando ela de responsável pela violência policial e o caralho, fazendo eco pra mídia, se adequando a ela, tendo medo de qualquer tipo de radicalização, inclusive programática, e sequer sendo solidária com presos e perseguidos.

Aí se criou um espaço, um espaço que o PT desocupou e que PSOL e PSTU se negaram a ocupar e pior, se negaram até a se diferenciar eleitoralmente, jogando todo capital político pela janela a cada segundo turno.

Esse espaço uma hora ia ser ocupado. E não dá pra apoiar governo nenhum que contraria o próprio programa com o qual foi eleito logo depois da eleição, reproduzindo o programa derrotado.

O impeachment se justifica pela esquerda, não pela direita, pela direita é sim golpismo, pela esquerda é parte de sua obrigação a partir dos ataques aos direitos do povo. Mas esse impeachment não foi e nem será pedido e a direita não vai deixar de pedir o seu, ainda mais com a demonstração de força de 15 de março.

A esquerda partidária se condenou desde o segundo turno a discursar contra o impeachment, que deveria ter pedido ela é com o corte de esquerda, tentando desesperadamente sair da absorção inevitável pelo campo petista do qual jamais fez muito esforço pra sair.

A esquerda não partidária tem de denunciar isso tudo, construir a resistência aos tarifaços, à violência policial, ao fascismo, à homofobia, etc e atacar ferozmente a burocracia partidária que nos meteu nessa enrascada.

É dever da esquerda e da pós-esquerda autonomista, anarquista,etc construir novas saídas para a resistência ao capital enquanto come pipoca vendo o debácle de três gerações de esquerda partidárias totalmente entregue à encruzilhada da cooptação pelo estado e pela burocracia partidárias, imóveis diante da ausência de esteio popular à qualquer proposta tímida de reforma que contemple empoderamento real e imediato do povo e não só fornecimento das migalhas que o capital disponibiliza.

Aqui onde o cujo faz a curva a população irritada grita, urra, vai às ruas, independente da cor dos atos e demonstra que o pacto social dançou.

Aqui onde o adjetivo esdrúxulo em u é significativo, as ruas são tomadas por quem resiste à intervenção militar organizada pelos governos estaduais e pelo governo Dilma, pelos governos de todos os partidos, e que é exemplificada pela presença de tanques na favela da Maré.

Aqui no cu do mundo, este nosso sítio, as pessoas saem às ruas para lembrar do Amarildo, sumido há anos, da Cláudia, assassinada e arrastada por PMs pelas ruas do Rio, e outros perseguidos e assassinados pela “polícia de Pacificação” do estado.

Mas é sintomático que partidos e poderes só enxerguem os atos brancos que passam na Globo. Do alto da institucionalidade não se enxerga o amplo mundo político presente nas ruas, nas chuvas, nas favelas, nas casinhas de sapê.

À subsombra desumana dos linchadores no entanto, toda a base populacional que já vive o estado repressivo e autoritário cotidianamente, aquele estado que jamais foi reformado e jamais saiu da ditadura, que jamais deixou de torturar, que jamais deixou de sofrer com a omissão dos poderes no desarquivamento dos arquivos da ditadura, toda essa massa sofre, chora, resiste e grita, se manifesta, sem TV, sem Globonews, sem partido.

E são esses o que continuarão resistindo enquanto a juventude dourada exposta passeia em campanhas eleitorais nas ruas centrais, nas praias, nas charangas festivas eleitorais que nunca, jamais, olham em volta, perdidos na “festa da democracia” que jamais foi na favela ver onde bebê chora e mãe não vê.

Até quando a mais triste nação verá possíveis grupos de linchadores se orgulhar de sua ignorância em um domingo ensolarado?

Até o morro descer e não for carnaval.

 

Um comentário sobre “À subsombra desumana dos linchadores (Ou o adjetivo esdrúxulo em u)

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