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Fazem cerca de dez anos que uma dissidência do PT chamada PSOL – Partido Socialismo e Liberdade – habituou-se ao slogan “Partido Necessário” para diferenciar-se dos demais partidos e construir uma história de combate no interior da institucionalidade ao sistema capitalista como um todo.

Alternando um discurso entre moralista, excessivamente centrado no combate à corrupção, com uma luta centrada no aspecto republicano da representação de esquerda e socialista, atuando como tribuno do povo, o PSOL mantinha entre seus deputados e com seus mandatos uma conduta de denúncia cotidiana aos acordões que o PT fazia para obter sua governabilidade e seu projeto de governo e poder.

Outra característica era uma atuação centrada na defesa das minorias e de bandeiras largadas pelo chão pelo PT no decorrer de sua assimilação pelo capital como gerente capacitado para a gestão do estado e recuperação dele para realização dos interesses da burguesia.

A denúncia ao PT era acompanhada pela disputa com ele nos âmbitos de luta fora da institucionalidade e diálogo tenso aqui ou ali nesta institucionalidade, especialmente nas comissões de direitos humanas das casas legislativas, onde o PT ainda tinha uma atuação que recordava seu período de participante da egrégora da esquerda socialista.

No decorrer destes cerca de dez anos o PSOL jamais conseguiu atuar como partido para além de seus mandatos e para além da constituição de representação institucional de uma variação do PT pela esquerda, uma alternativa a ele no âmbito eleitoral e da institucionalidade que jamais teve pernas e estrutura política (que demanda programa e unidade) para estabelecer-se como alternativa concreta em todos os aspectos da luta política, seja ela estudantil, sindical, cultural, LGBT, racial,etc.

Esta deficiência era (E é) contornada com a presença cada vez mais forte nas casas legislativas e até no executivo de algumas cidades, ou criação de chances para ocupar estes postos. Porém, este contorno jamais foi o suficiente para a criação de um partido com democracia interna e base organizada que fizesse contraponto concreto ao uso dos mandatos por seus ocupantes de forma a seguir um plano e projeto mínimo coletivo que fornecesse maior ocupação do campo da esquerda com influência ideológica que contrabalançasse a possível e conhecida atração e assimilação pela institucionalidade da “rebeldia” socialista presente nos parlamentares.

Pois bem, nessa trajetória de fortalecimento da presença institucional e de necessidade desta presença haviam algumas cláusulas pétreas para sua militância, da qual fiz parte, onde sabíamos que jamais elegeríamos fundamentalistas religiosos e ou faríamos acordos com eles. Também era bastante nítido e claro que não sossegaríamos na luta e denuncia de todas as injustiças contra quem quer que seja, contra todas as violações de direitos humanos, onde quer que elas se encontrassem.

Haviam, existiam, porque agora não existem mais cláusulas pétreas que garantam um mínimo de descolamento do PSOL da cooptação exercida pelo estado e pela institucionalidade e que gerou o descaminho que o PT construiu para si.

Antes mesmo de ficar público um acordo entre Jean Wyllis, Marcos Feliciano (aquele mesmo do #Forafeliciano), PT e fundamentalistas para que Jean ocupasse a vice presidência da Comissão de Direitos Humanos e minorias da Câmara Federal, o Deputado Federal, recém eleito pelo PSOL, Daciolo entrou com uma proposta de emenda constitucional para alterar o parágrafo primeiro da constituição de “todo poder emana do povo” para “todo poder emana de Deus”. Ou seja, em dois dias duas porradas vindas do fundamentalismo religioso em todo e qualquer militante que presa a luta por direitos humanos a todos e para toda luta pela laicidade do estado e do exercício público do poder.

Em dois dias um dos deputados da bancada do PSOL faz um PEC fundamentalista e outro dos deputados, que se vangloria de ser o master fucker lutador pelos direitos LGBT, faz um acordo (reconhecido por ele em página pessoal em rede social) com Feliciano, Fundamentalistas e PT para exercer a vice presidência da CDHM alegando que “é de batalhas que se vive a vida”, que é uma variante da política do possível, e naturalizando um acordo com fundamentalismo religioso a partir da suspensão da descrença que apenas a presença dele ali, e dos fundamentalistas, a partir de acordo sossegaria a casação ou o impedimento de tramitação de projetos de interesses das minorias.

Antes disso a base lutava até sair sangue para evitar que fundamentalistas ocupassem posição de poder internamente, sendo sabotada pela maioria numérica do partido que tudo fazia, e faz, para obter sucesso eleitoral e não se distanciar tanto da base eleitoral do PT, agindo como uma espécie de tendência externa rebelde.

Antes disso Marcelo Freixo e o PSOL se omitiram coletivamente de dar qualquer tipo de suporte aos presos políticos do estado Brasileiro no Rio de Janeiro, onde são perseguidos com um inquérito construído em torno de ficção e o máximo que o partido e o deputado fizeram foi um depoimento em favor de um dos réus, nada mais, como se não fosse demanda a ser combatida pelo partido a defesa de qualquer perseguido político pelo estado. Alega-se que alguns filiados participam da defesa dos réus, ignorando que como coletivo partidário isso não justifica a omissão enquanto organização, aliás, não só não justifica a omissão como organização como qualifica a organização a partir dela.

Alguns alegam que a divergência de método entre os réus e oi partido justificam a torpe atitude, como se a diferença de método entre eu, anarquista, e um militante do PCdoB, me justificasse a omissão em denunciar uma possível prisão arbitrária deste pelo estado.

Em Pernambuco uma aliança estapafúrdia entre o PSOL e o PMN elegeram Edilson Silva, que naquele estado fez, e faz, aproximações perigosas com fundamentalistas chegando ao ponto de defender que a prisão de duas lésbicas se beijando em um evento público da igreja de Feliciano, em praça pública, não poderia ser perturbado pelas lésbicas se beijando, como se o evento em praça pública pudesse ser privados e como se o ato de amor fosse uma espécie de vandalismo. Tudo isso para obter voto de evangélicos.

E existem outros tantos exemplos e nem vou entrar pela área ambiental pra vergonha não ficar completa.

A questão aqui é que temos mais um exemplo eloquente da cooptação da esquerda pelo estado, e este exemplo nos leva a inquirir se não tem nada de errado na forma organizativa e na forma de qualificação de tática e estratégia pelos partidos.

Será mesmo que a lógica de hierarquização, centralização, controle político e formação que não abrangem o todo de construção teórica, que não permitem oxigenação aberta e ampla, que centralizam e agem de forma messiânica com mandatos, que não fazem a troca na prática do exercício de mandato com rotação para que não se precise de autorização legal para o exercício do poder e do rodízio de figuras públicas para que a atuação de fato gere novas figura, novas pessoas pensando e agindo no estado e fora dele?

Será que ocupar o estado que buscamos transformar é inteligência? Será que não ficou claro que o discreto charme da burguesia não é simbólico?

Enfim, mais uma experiência adernando, e o coletivo anda como colmeia tentando justificar o injustificável, dizendo que “não, somos diferentes!” enquanto caem no chame do estado, da burguesia, da lógica messiânica de liderança.

E la nave Va!

E a paciência idem!

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