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Numa situação de completo descrédito dos poderes da república, com executivo e legislativo chafurdando em corrupção e o judiciário sendo o braço implacável da cassação da democracia, é papel dos anarquistas e autonomistas refletirem como andar no fio da navalha da luta contra o estado sem correr o risco de participar de forma inadvertida do discurso golpista e antidemocrático autoritário da direita ou da esquerda stalinista.

Não é exatamente fácil.

A explicação da corrupção inerente ao estado e ao capitalismo, e como somos diferentes, é infantil e reducionista.

É preciso mais que isso, é preciso entender que o eixo do debate é a defesa do controle diversificado e descentralizado da vida e da administração das necessidades coletivas, controle esse que o estado com a centralização solapa, incluindo na centralização o painel feroz da opacidade e não a da transparência.

A hierarquia é um mecanismo que filtra e distancia do povo o controle e a percepção do universo da administração de suas próprias necessidades. A hierarquia destrói a percepção do homem do povo de como controlam os mecanismos que deveriam existir para satisfazer as necessidades dele e de seus iguais.

O presidente e seus ministros, o governador e seus secretários, o prefeito e seus secretários, cada um deles e seus gerentes e assessores, são mecanismos de construção de opacidade. Assim o homem do povo é afastado do controle sobre os rumos da própria vida e sobre a gestão dos mecanismos que controlam seu ir e vir, seus gastos e necessidades de energia, suas necessidades alimentícias, suas necessidades de informação e educação,seus desejos de lazer, produção artística, cultural, valorização de sua memória e com esse afastamento lhe é solapado o exercício do poder sobre si mesmo e de sua fatia de poder dentro de sua comunidade.

A corrupção é assim mais do que o desvio de dinheiro do povo para bolsos privados, ela é em si a própria existência dos mecanismos de afastamento do povo do exercício do poder sobre si, sua vida, a vida de sua comunidade, de sua rua, de seu bairro e cidade.

A corrupção é o desvio do poder sobre si para o controle de poucos que além do poder recolhem o fruto de seu trabalho transformado em valor, em dinheiro, retiram dele impostos que ao invés de usarem para construção de escolas e hospitais transferem para bolsos privados.

A lava jato pode até num acesso de moralidade raro e inigualável limpar parte dos devoradores de recursos que se encastelam no eixo da corrupção e do autoritarismo chamado estado, mas ela só efetuará uma limpeza superficial que nem arranhará o eixo da corrupção. Zilhões de CPIs e operações podem acontecer, mas elas jamais superarão e limparão a corrupção da voraz máquina do estado.

A solução é sempre a horizontalização e descentralização absoluta dos processos decisórios e dos controles necessários sobre vida, energia, produção, consumo, alimento, tecnologia, arte, cultura e tudo o que é fundamental para a vida das ruas, bairros, cidades, estados e países.

A corrupção é a cassação do poder sobre o ir e vir, a corrupção é o descolamento da vila dos processos decisórios que definem seu cotidiano. Todo o resto é a precificação desta corrupção original. Para libertar o povo é preciso libertar o controle que este precisa ter sobre seu destino, para limpar a corrupção é preciso matar o estado que torna opaco o controle do povo sobre seu cotidiano.

Para lavar a jato ou lentamente o mundo é preciso ir além de listas isoladas e partir para a retomada da horizontalidade das decisões cotidianas para a mão das aldeias, dos povos, das ruas.

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