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A vida no sudeste do Brasil sempre foi um processo festivo. Ao menos pra uma elite e classe média que pediam crescimento e avanço por sobre as selvas da ignorância e da mediocridade nacional, envergonhados de não serem franco-canadenses ou anglo-saxões e conviverem de forma forçada com bugres do norte-nordeste enquanto franqueavam a natureza a visitação gringa.

Para essa elite a vida sempre foi um misto de reclamar do atraso brasileiro, da incapacidade de fazer renovações legais e comportamentais diante do atraso de Pindorama, e um louvar ao avanço por sobre as matas da ignorância e de um atraso tipicamente brasileiro chamado natureza e ausência de lojas Hermés na orla.

Essa elite infectou uma classe média que pagava de progressista e avançada e que pedia revolução no país desde que não atrapalhasse o choppinho da sexta.

Essa classe média acadêmica, intelectual, vivente e amante do povo, registradora da vida do povo, escrevente do cotidiano popular e alegre defensora da ideologia “de esquerda”, também guardava no fundo um desejo atávico que derrubasse as florestas todas e se promovesse o “crescimento econômico” que “tirava quarenta milhões da pobreza” enquanto criticava de forma tímida que esses milhões perdessem as casas, ou fossem índios e quilombolas atacados e removidos, mortos, pra não perder o verniz de esquerda e mantivesse a capa de “voto crítico” no PT em toda eleição.

Se essa classe média gritava contra o governo enquanto se votava nele, afinal não se pode perder o emprego na universidade, no fundo ela também só gritava contra o governo até a página dois, dado que o que importa é que o governo faça mais universidades que empregue mais os filhos desta classe média, todos com doutorado, ou recém chegados nela a partir dos títulos acadêmicos.

Parte da oposição de esquerda também flanava sua indignação e construção da revolução sem ir a Irajá numa boa até que, pasmem, surgiram outros atores menos afim de pagar de pateta da indignação revolucionária pontual.

Essa galera chegou chegando e pondo em prática o que fazia quando a PM matava alguém na favela onde morava: pondo fogo em ônibus e fazendo manifestação deselegante e deseducada, que assusta os filhos da classe média que se reuniam na universidade pra desfilar sua juventude dourada e protestante, domesticada, na cara de um estado pronto pra dar porrada nela.

E ai o estado chegou chegando como o estado sempre faz. E prendeu sem provas, e criminalizou, e meteu a porrada com tiro porrada e bomba.

E ai a classe média deu pra trás e chamou a massa ignara que a ignora de boba, feia e chata.

Mas o problema nem tinha começado. Além do mundo por a esquerda na roda do embate cotidiano entre polícia e rebeldes, entre polícia e pobres, entre a PM e os pretos, entre o povo e quem se posta de frente a ele dizendo representá-lo enquanto o ignora, o mundo resolveu avisar de forma prática que o tal crescimento, o tal avanço por sobre a floresta da ignorância, as matas e as trevas de uma brasilidade que ofende a francofonia e anglosaxonisse de sua psiquê, levou a todos pro pântano da seca no sudeste.

É amigos, o tal crescimento sem eira nem beira deu ruim!

E nesse ruim todos chora sem saber se vão pra sala ou pra cozinha fingindo que queimar petróleo não tem nada a ver, achando que deixar pra lá os votos críticos, os endossos aos governos cretinos e assassinos, achando que tá de boa deixar vinte e três presos políticos se foderem enquanto se tenta eleger prefeito.

Se na rua é pau, é pedra, na natureza é o fim do caminho.

E o que resta pra todos? Um resto de toco, um pouco sozinho.

E é no caco de vidro, na vida, no pó, que se ergue a resistência e uma resistência pouco afeita aos salamaleques das casas do povo que acham que Eduardo Cunha pode ser presidente de algo.

Essa resistência cotidiana é quilombola, indígena, preta, pobre, favelada e tá de saco cheio de ficar sem água enquanto a esquerda passa férias em Medelin pesquisando em como ser prefeito modernizando a cidade sem discutir com os pobres.

Essa resistência feita de gente morta que resolveu desmorrer e não se secar como defende quem nada em piscinas reclamando do Alckmin enquanto vota “responsavelmente” na Dilmãe e desfila sua vida de princesa enquanto se diz chocada com a nomeação da Katia Abreu, tá indo pra rua.

Essa resistência vai pra rua querendo tarifa zero pro ônibus, pra água, pra luz, pra comida, pra saúde e querendo saber pra onde foi a água, a árvore, a chuva e porque mataram o cerrado.

E se ela ainda não disse que quer saber é porque ficaram dizendo pra ela votar na Dilmãe que tudo ia dar certo, até que essa resistência se fodeu com a cassação do seguro desemprego, do seguro-defeso que vai obrigar pescadores artesanais a desobedecerem a lei pra comer, mas ela vai querer saber porque parou de chover no Rio e em SP e porque isso a deixou sem água.

A esquerda vai estar lá? Duvido. Ao menos não a que tá no ar condicionado do gabinete sonhando com Freixo prefeito do Rio.

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