O real

A lógica dominante no jornalismo paulatinamente deixa de ser um eixo informativo e passa ser um eixo deformativo.

A “capitalismização” das redações as transformou em algo que não age como um elemento de apuração e informação, mas como ferramenta da venda de uma plataforma de condução de publicidade. Isso transformou paulatinamente algo que era um serviço público que protegia a sociedade dos estados e garantia acesso à informação aos leitores em uma produção de entretenimento acelerada e superficial.

A própria classe dos jornalistas subiu no cadafalso da autocompreensão como elite intelectual, como portadores da verdade, da tarefa de informar, sem no entanto compreenderem em suas ações os princípios básicos da produção de informação confiável: Apuração, senso crítico, responsabilidade na busca do maior número de versões possíveis sobre um fato,etc.

Claro que para isso concorre uma redução do papel do repórter e exaltação do papel do editor, que passa a ser hoje menos um chefe de equipe e redação e mais um controlador de redações para encaixá-las na lógica dos patrões.

Editores hoje mantém a linha editorial não pelo editorial, mas por todas as matérias dos veículos, mantendo uma dominação com rédea curta, com manipulação de textos, de lead, de manchetes com por vezes nenhuma ligação com a apuração pelo repórter, dos que apuram.

Pra piorar todos os veículos são de uma irresponsabilidade medonha em vários níveis ao tratarem de temas de fundamental relevância para a população.

Quantos ai tem ideia do tamanho da crise hídrica? Quantos tem ideia da gravidade da crise climática? Quantos tem noção real da crise econômica pela qual passamos? Quantos sabem o tamanho da mistura entre interesses públicos e privados nos governos e em todos os partidos da ordem em maior ou menor grau? Quantos tem ideia do papel das empreiteiras na política nacional e o quanto sua influência econômica nas eleições não passa de transferência de dinheiro público adquirido no BNDES para campanhas políticas, ou seja, um financiamento público de campanha enviesado?

Poucos tem alguma compreensão disso e os que tem noção não a tem por obra e graça dos grandes jornais do país, dos grandes portais e por vezes nem sequer dos tidos como grandes jornalistas.

Há jornais falando de meio ambiente sem ouvir ambientalistas. Jornalistas falando sobre violência ainda usando dados do século II. Há jornais e jornalistas falando de racismo, machismo, homofobia, misoginia, transfobia, como se isso fosse frescura e mimimi de pessoas se fazendo de vítima.

Enquanto isso leitores se formam como pessoas incapazes de ler, compreender, criticar, se autocriticar e de se informar. Incapazes de ligar pontos entre notícias diversas construindo um quadro geral fiel ao real. Pior, se formam nas redações jornalistas também incapazes disso.

Jornalistas que jamais leram algo sobre história que não fosse bobagem chamam a idade média de obscurantista, ignorando que a inquisição, por exemplo, surge na idade moderna. Jornalistas falando em julgamento dos dois lados das forças políticas que se digladiaram na ditadura militar, como se os partidos, militantes e organizações de esquerda não tivessem sido julgados, condenados, presos, mortos e torturados pela ditadura, enquanto os torturadores saíram assoviando um mambo. Jornalistas ouvindo celebridades minimizando racismo e homofobia sem nenhuma nota crítica pelo autor das entrevistas.

E ainda tomam esse quadro por normal.

É lamentável pelas redes sociais a quantidade de jornalistas desinformados, tomando baile de moleque de vinte anos que basicamente fez o dever de casa usando google, portais, sites e conversando com as pessoas.

O quadro de prisões de anarquistas e autonomistas, as perseguições do judiciário, os aumentos de passagem, remoções, nada disso teve nenhum tipo de cobertura digna pela imprensa e ainda vimos e vemos jornalistas reproduzindo acriticamente a visão do Estado, do poder, da política, do lado mais conservador.

E ai todos se surpreendem quando uma revista meia boca faz matéria sobre o óbvio: A Polícia militar é dirigida por quem acha normal espancar, matar, oprimir e acha lindo citar Hitler. Isso tudo era e foi denunciado por forças políticas, vereadores, população comum há anos, mas se torna surpreendente.

Por que? Porque a imprensa não ouve todos os lados, ridiculariza a oposição e acham isso normal.

O jornalista médio, que vive se entendendo como intelectual por razões que a razão desconhece, ainda se vê confortavelmente na posição de aliado da percepção da elite sobre o mundo e sequer entende que como trabalhador é hoje o dos mais mal pagos e explorados proletários do mundo.

Pior, acha normal defender o ethos da elite, o ethos do estado e não empreender a percepção múltipla da realidade como motor da profissão.

Pior são os que acham-se intelectuais sem leitura e com uma percepção retrógrada e binária das teorias sociais. Os que mal leram Marx, por exemplo, ou só leram anedotas marxistas e tomam isso como apenas uma obra política, ou os que nem sabem o que é antropologia e acham que história é a história positivista.

Tudo isso é de uma tristeza do Jeca latejante e que avança, porque o jornalismo forma, ou deforma, leitores, e forma leitores iguais aos jornalistas deformados das redações: Uma gente incapaz de pensar para além da caixinha, incapaz de ligar lé com cré, que mal sabe interpretar texto.

Por isso quando vejo um jornalista minimizar machismo, racismo, dizer que a ditadura foi ditabranda ou que a escravidão teve um lado bom eu me vejo num espelho que me reflete um mundo doente.

E eu nem sequer tento chorar.

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