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O fenômeno da gurmetização da vida é recente, rola há ao menos dez anos e parte do princípio que um elemento x pode ser transformado em elemento y pela alteração de suas características visíveis, ou seja, a galera doura a pílula pra vender em cima de um produto um conceito que o encarece.

È comum haver coxinha gourmet, boteco gourmet e por ai vai. Sexo gourmet, beijo gourmet, basta acrescentar ao elemento algum tipo de estetização obsessiva, plena de arabescos textuais e malabarismos discursivos e, voilá, temos um elemento gourmet.

O boteco do seu zé troca as mesas de plástico por mesas de madeira, põe os garçons mal pagos vestidos de pinguim, passa a cobrar mil reais a Brahma quente e temos ai um boteco gourmet. Lanchonete com coxinha com perispírito de frango vira gourmet ao pôr coentro na coxinha.

Claro que o mundo político não seria imune à gurmetização, ainda mais mediante a paulatina e cada vez mais radicalizada publicitarização da política.

Só que na política o discurso da gurmetização é afeito à apropriação de parte da dita produção teórica “pós-moderna” para um uso essencialmente textual e discursivo, que poucas vezes é contestado de forma refinada a ponto de deixar gritante não o que revela, mas o que oculta.

Ao se apropriar de conceito guarda-chuva como “Pós-modernidade”, um conceito que abrange tanta coisa que perde a coerência como ferramenta de definição, incluindo tantos tipos diferentes pós-estruturalistas que não guardam nenhuma similaridade entre si além da crítica ao estruturalismo, parte da política que abraça as categorias “pós-modernas” como ferramenta discursiva se apropria muitas vezes da superfície das teorias e das categorias como forma de fomento a um comportamento textual de ocultação da prática política em si.

E ai tome-lhe nova política aliada dos tucanos e nova esquerda abraçando o PT.

O processo muitas vezes se espalha por diversos níveis de consciência crítica e envolvimento militante, ou seja, vai da base organizada à franja acrítica, vai do velho comunista à deslumbrada do Grajaú.

O que este processo de política enquanto espaço de atuação teatral e exibicionismo da consciência crítica oculta é o fato de ser primo dileto da compreensão da mediação e da conciliação como caminhos de transformação, faz parte do círculo íntimo da percepção da conciliação de classes como ferramenta transformadora, é sócio atleta do reformismo tranquilo e odeia que quebrem vidraça de banco.

Ou seja, a lógica discursiva e a práxis amestrada que compõe um feroz campo da esquerda que atua com discurso “radical” ou “transversalmente transformador”, que faz críticas genéricas a um “vaticano vermelho”, sem nenhum engajamento seja prático ou teórico na demolição de ideologização universal estruturalizante e concretamente monolíticas, e parte de uma percepção superficial, que, pasmem, critica comunistas e anarquistas pela radical crítica a programas neoliberais das fadinhas dos dentes da floresta tropical, sem nem notar apoios de contos de fadas a um dos vilões malvados pela própria fada.

Por outro lado há o acriticismo da teoria do golpe, aquele que abraça não a luta de classes como paradigma, mas a teoria da derrubada de um dito governo de esquerda, que em tese existiria aqui, e é pródigo no uso da responsabilidade alheia como ferramenta de chantagem pra servir de linha auxiliar a partidos da esquerda socialista, ou que passaram por lá.

E tome-lhe Lacan e Foucault pra justificar apoio velado ao PT.

Por que essa esquerda é Gourmet e revela um profundo desligamento de qualquer pensamento estratégico ou mesmo tático, de longo prazo ou respeito a mais do que necessidades que vão de ego a fortalecimento do corpo burocrático mais próximo?

Porque a ela pouco interessa uma real transformação, interessa mais mudanças pontuais que não transformem estruturalmente o estado e o planeta, que não sejam elementos de transformação profunda.

Interessa a postura pública de consciência política, uma exibição de como somos bons na exposição de nossas boas intenções e engajamento no mundo enquanto saboreamos uma Paulaner gelada objetificando nossa companheira e pensando em como é bom ela malhar pra ficar gostosa.

Essa gurmetização também é presente no cotidiano, mas pra quem pensar se o discurso tá afinado e se tira onda na cantina da escola de radicalzão dos balangandãs? E ai as minas, os pretos reclamam? Vitimização, bicho!

A gurmetização é a transformação da politica na caridade do século XXI, ou seja, o que as damas da sociedade e as classes médias faziam nos séculos XIX e XX, que era dar sopa aos pobres ou ajudar ao orfanato e ao centro espírita, agora migrou pra política.

Em vez de catar roupa e cobertor pros mais pobres a classe média resolveu comprar bolsa de garrafa PET, assinar petições virtuais, discursar contra a opressão (Mesmo a reproduzindo) enquanto liga o foda-se na práxis.

Ou seja, a pessoa discursa contra a opressão, mas concorda com o deputado que deixa black bloc se fuder preso, afinal onde já se viu quebrar vidraça de banco, não é mesmo?

O outro é um feroz militante da liberdade anarquista, mas, no fundo, só quer fazer o bem pra sua reputação de esquerda moderada que dialoga com todo mundo e consegue ponderar até morte de índio pela expansão do agronegócio em nome do medo da mídia e do Aécio.

Um terceiro, banca que precisamos mudar toda a política como uma proposta de democracia, que é bem-vista na internet, sem jamais ter tido um maldito diálogo com a maioria da população que não tá nem ai pra internet e da democracia só conhece a versão legendada pela PM.

E segue o baile de máscara da banalização do cotidiano político a um convescote digital onde o discurso jamais pensa na ponta, ou seja, o cara sustenta o Príncipe Danilo à mão, pouco se fodendo pro que sustenta em paralelo.

Outro prega destruição do estado sem destruir em si mesmo o machismo, uma terceira é ambientalista até abraçar a lagoa, mas pega o carro todo fim de semana pra chácara em Teresópolis e não faz nada, absolutamente nada nem pra questionar a relação entre combustíveis fósseis, crise ecológica, chácara em Teresópolis pra veraneio, deficit habitacional e sua relação, imensa, com a mesma crise ecológica.

Tudo muito bonito, tudo muito socialmente aceito, mas jamais isso se reflete me saldo organizativo pra mudança social à vera. Todos tem um senão para todos os tipos de organização.

E tome-lhe “jamais achei uma organização que me identificasse!” e ai a gente pode traduzir pra “Jamais achei uma organização que estivesse à minha altura!”, porque no fundo o que falta pra essa galera não é uma organização, mas um palco. Não se interessa pela transformação do mundo, mas pela exibição pública de um desejo difuso de transformação do mundo que tá ali até o momento onde essa transformação exige uma transformação íntima.

A semelhança disso com anarquismo como estilo de vida, indo muito além do anarquismo, não é mera coincidência.

Bonito, né?

2 comentários sobre “A esquerda ostentação ou esquerda gourmet

  1. Só diria que muitas vezes essa gourmetização da esquerda atravessa as próprias organizações e é parte importante das práticas políticas, aproximação de pessoas e da identidade militante, mesmo no cotidiano das “lutas”. Tá foda.

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