Ouroboros

O saldo da empolgação da oposição de esquerda com Dilma, usando como álibi a campanha contra Aécio, ainda não foi feito, nem sequer cheirado.

Pra mim se perdeu uns bons dez anos de trabalho meia boca de base. Pra mim se gastou capital político bancando a campanha do medo, sem nenhum aceno, sem nenhum sinal de guinada, retomada sequer de pautas mínimas, de não haver mais recuos….

Os mais novos e inexperientes vá lá, mas figuras públicas, parlamentares, todos caindo no discurso do medo, no papo do “republicanismo”, do mal menor, do “Sou consciente”, mal mascarando uma empolgação adolescente com a campanha bem fornida do petismo e com o carisma lulista.

A ala lulista do petismo, dentro e fora do PT, já diz que essa campanha foi a mais de massa desde 1989 e tende a explorar isso contra quaisquer crescimentos da esquerda partidária no decorrer dos próximos anos, usando contra os neo aderentes sua própria adesão.

Tudo isso, somado às falhas graves de percepção do real por parte da oposição de esquerda, traduzida na péssima relação com a esquerda e pós-esquerda não partidária, não me cheira bem, não me faz ver um saldo organizativo positivo pra quem faz oposição ao PT.

A sensação é clara: se jogou fora um bom esforço, mesmo que com um programa meia boca, de constituir uma campanha radical de formação de terreno crítico ao PT em nome de um cálculo temerário de ganho da opinião pública sob o rótulo de “equilibrado”.

No fim e ao cabo ao irem além da declaração de voto, parte da esquerda deu sinais de cooptação pelo PT, deixou claro que não há capacidade de resistir à direita sem a capa do PT, sem sair do guarda-chuva do PT. Se jogou fora todo um discurso de feroz oposição aos abandonos de bandeiras históricas da esquerda em nome de um cálculo temerário de adestramento à lógica de esquerda equilibrada, possível e republicana.

Não adiantam duzentas notas desmentindo o que figuras públicas nitidamente ignoram ao participar de atos públicos, ao participar de programa eleitoral na televisão.

Enfim, quem se diz necessário se torna uma tendência externa à esquerda do PT.

Quem da esquerda partidária pregou voto nulo o fez sob uma perspectiva que desmente a si mesmo ao participar das eleições sem denunciá-las cotidianamente e mais, sem reorganizar seu próprio discurso e diálogo com movimentos, etc.

Enquanto isso o movimento anarquista, enquanto acerta no trabalho de base se perde pela própria imaturidade de boa parte de seus novos adeptos e toca uma campanha de questionamento do status quo correta as com linha pedante e arrogante em muitos sentidos ao abordar a negação das eleições atacando quem vota. Algo que é natural tendo em vista a diversidade e a pulverização da própria ideologia e sua lógica de organização.

Enfim, enquanto o espaço de crescimento à esquerda só aumenta, a esquerda partidária patina em um mar de equívocos que são nitidamente uma falha de percepção estratégica, de consenso sobre unidade de quem prega unidade ou de ação coordenada na diversidade de quem prega diversidade. E por isso a reação à conjuntura de percepção de ideário libertário parece avanço conservador, mas é apenas reação organizada a um crescimento difuso desperdiçado cotidianamente pelos grupamentos anticapitalistas.

Há espaço pra recuperar o tempo perdido de quem souber aproveitar o medo pânico de sair da esfera histórica do PT e da forma partido tradicional, mas esse tempo não é infinito e nem a direita vai ficar dormindo e apenas reagindo.

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