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A tal onda conservadora é um processo mais longo, cujo avanço recente é superestimado e cuja análise impressionista tende a superestimar mais ainda.

Primeiro que esse processo não é uma onda, é um avanço paulatino que vem num crescendo eleição à eleição, a partir das guinadas à direita que o PT foi dando, além do crescimento de alianças do PT e do PSOL com partidos conservadores.

Não entendo que esse processo tem a ver com Junho, Junho é, na verdade, uma reação a isso. Esse processo de avanço conservador é a causa e não o efeito de Junho. E tem tudo a ver com as guinadas do PT à direita, aliança com o ruralismo, desenvolvimentismo removedor de pobres por causa de megaeventos, etc.

Junho não é responsável por essa eleição do congresso, Junho tem mais a ver com a abstenção e crescimento da esquerda, mesmo que pequeno no âmbito numérico e eleitoral. A reação conservadora de quem tava mais quieto foi só um evento oportunista. E acho que se confunde um avanço do fascismo com uma saída do armário de nossa velha cultura de opressão senhorial.

Heinze recebeu votos de ruralistas, de gente com mais presença no campo, com gente que tem um tipo de ódio a quilombolas e índios; Bolsonaro o voto do milico repressor homofóbico, do “bandido bom é bandido morto”; Feliciano recebeu o voto conservador moral, são faixas diferentes do eleitorado que nem sempre se cruzam.

Quem mais sofreu com a repressão não votou neles, quem não compactua com a repressão não votou neles. E não, não foi a maioria do eleitorado que votou neles, o eleitorado conservador focou neles, aliás, concentrou votos mais do que ampliou sua base de votação. O voto nos piores quadros foi um voto concentrado, o que cresceu no varejo foram votos em políticos conservadores ligados ao ruralismo e ai o discurso de progresso econômico funciona mais do que a lógica de posicionamento político repressor e conservador.

Vale lembrar quem eu torno do ruralismo se erguem Oásis econômicos em cidades pequenas e médias, como Campo Verde no Mato Grosso, onde se ergue uma cidade dos proprietários rurais e cuja economia fomenta empregos dos mais pobres. Esses lugares têm o peso político do voto ruralista que engordou essa bancada à direita no congresso. E essas cidades pequenas e médias cresceram muito no país, especialmente no centro-oeste.

Esses grupos não precisam dar golpe para estarem no poder. Ruralistas mandam e desmandam desde FHC. A ala conservadora fundamentalista se sente feliz pelo apoio destes à agenda reacionária comportamental e não quer muito mais que isso. Bolsonaros, minoria dentro dos conservadores, não é ultraliberal, mas ultraestatista.

Ruralistas como Heinze não querem redução do estado, querem um estado forte que impeça o avanço de sem terras/índios/quilombolas sobre suas terras e que subsidie sua produção.

Não existe “golpe utraliberal” em andamento, isso é uma variação tão ficcional quanto a ideia que o governo do PT está sob golpe constante. Aliás, bancos, empreiteiras, agronegócio e petroquímicas controlam o estado faz tempo. Não precisam dar golpe, quanto mais golpe de “ultraliberais”.

A ameaça ao projeto da burguesia hoje é um povo cada vez menos afeito ao acordão de classes que governa o país há doze anos e a uma ala da burguesia financeira que discorda de não ter lucro máximo e articula uma repactuação com os outros setores pra ampliar políticas que beneficiem um reajuste de alianças n plano da política externa que facilite lucros dos mercados financeiros, que aumente juros, etc, e só e essa galera se articula em torno do Aécio com mais força.

Estamos diante de um crescimento do fascismo? Bem, primeiro temos de parar de achar que tudo é fascismo.

Quando todo mundo é fascista ninguém é.

E é de uma irresponsabilidade enorme esse papo de que tudo é fascista ou que há indícios de golpe em andamento. Não há golpe em andamento e nem estamos diante de uma realidade com crescimento orgânico do fascismo.

O mais visível é a repactuação da velha elite conservadora em torno da conquista de hegemonia política e econômica com o crescimento do papel econômico do agronegócio no país com um crescimento, especialmente nas ruas e organizações, da esquerda, cujo reflexo eleitoral é menor do que o reflexo nas mobilizações.

Quem entende que cresce mais o fascismo que a esquerda, olhando só pro congresso, ignora uma série de coisas, como o crescimento da esquerda no congresso, como o crescimento de organizações anarquistas, autonomistas, saldo organizativo nos partidos de esquerda, número de candidatos de fora do PT com chances eleitorais, aumento numérico de parlamentares da esquerda eleitos e ligados aos direitos humanos, etc.

No RJ a esquerda cresceu mais que a direita, percentualmente mais e com penetração em áreas de milícia. Bolsonaro se elegeu batendo no teto, com pulverização dos votos, com clara evidência que ali se houve transferência de votos entre a direita, que muitos que votavam em deputado x da direita passaram a votar em Bolsonaro.

Além disso, organizações de professores, de favela, atuam com mais ênfase do que antes e se tornam mais visíveis. Idem são mais visíveis as contestações ao processo eleitoral nas periferias.

Há ainda as mobilizações indígenas, dentro e fora do processo eleitoral, as frentes quilombolas, uma série de elementos que indicam um avanço enorme das lutas para muto além da institucionalidade e que até justificam a reação conservadora, que apontam o motivo pelos quais se construiu essa reação.

É interessante inclusive olhar o mapa dos votos nulos no RJ, em SP, no Nordeste e perceber que estes votos nulos se dão inclusive de forma presente onde os programas sociais do PT mais atingem, o que permite entender que estes programas tiveram efeitos além da retirada da população da miséria, com acréscimo de exigências para além da saída da miséria. Além disso, não se endossou o PT, tampouco a oposição, ou seja, periferias e regiões inteiras do país não se viram representadas no primeiro turno das eleições. E nem falamos dos votos brancos e abstenções.

Por isso tudo, analisar o crescimento da bancada no congresso de forma impressionista tornando isso um crescimento do conservadorismo no país junta muita gente no mesmo saco, analisa quadros complexos de forma simplista e esquece que ao mesmo tempo em que mais deputados conservadores se elegem, existem diferenças entre eles e mais, existem diferentes recados do eleitorado.

Cês sabem que Bolsonaro não quer o estado mínimo que Feliciano quer e que Heinze não gosta nem do estado máximo de Bolsonaro nem do Estado mínimo de Feliciano? Claro que não, é mais fácil escrever “A diferença só existe pra enganar vocês”.

Cês tem ideia da diferença de Heinze, que faz parte da direita que exerce concretamente o poder, e Feliciano, que sequer cogita ter realmente o poder, e Bolsonaro, que tem planos de poder que assusta até os liberais e a direita tradicional?

Pois é, por isso é simplório, simplista e taticamente tolo ignorar essas diferenças e juntar tudo no balaio do fascismo, o que acaba sendo um cair na lei de Goldwyn. Além disso, entrar na teoria da conspiração do “golpe ultraliberal” é misturar iogurte com purẽ de batata. Primeiro que tem de ser claro: ou é fascista ou é ultraliberal.

Até existe um fascismo de novo tipo no mundo, que mistura alas ultraestatistas com elementos liberais e que passeia por ai como o Tea party estadunidense, mas os ruralistas brasileiros, mesmo os por vezes caem nesse fascismo de novo tipo, não são similares aos do Tea Party. Primeiro porque governam, segundo porque precisam e sabem que precisam do estado como parceiro pro avanço mundo afora. Segundo porque entendem que o principal é a garantia da expansão da produção e a garantia da posse da terra, o resto é secundário, inclusive questões de DH, que são apenas meio de mediação entre eles e o eleitorado.

É erro mor chamar de onda fascista o que é a recomposição conservadora dos últimos dez anos, assim como a lógica de que há um golpe em curso. Isso é ignorar a composição do poder pela direita, ou seja, pra que dar golpe se ela já manda, especialmente no congresso?

Pior é tratar a direita tradicional coronelista de fascista, misturando o caráter bolsonarico do fascismo brasileiro com o caráter tradicional da direita coronelista sintetizada n Heinze, Caiado, Kátia Abreu, que é uma direita que já controla o congresso e manda e desmanda na presidência por ser o eixo econômico do capitalismo brasileiro.

Com o agronegócio, penetrando inclusive no mundo financeiro através dos SISCOOB e Sicredi da vida, ou seja, o agronegócio tem banco, empreiteira, o caralho e manda e desmanda no país, pra que dar Golpe? E como chamar isso de fascismo igual ao do Bolsonaro, que é a cara do fascismo brasileiro se ambos divergem sob o tamanho do estado e a ideia de focar em DH para além da retirada de direitos indígenas?

Esse tipo de análise é fundamental para que saibamos como nos organizar diante dos inimigos a serem enfrentados. É fundamental saber concretamente a diferença entre os inimigos para saber como combatê-los. O combate à direita homofóbica é por um flanco, o dos fascistas por outro, o dos ruralistas por outro. Misturá-los e chamar todos de fascistas envenena nossa análise.

Primeiro porque Bolsonaro é muito pior que Feliciano e Heinze juntos, é o Boss do vídeo game do combate à direita. Bolsonaro faz todos os cenários de análise de conjuntura pirarem e acionarem o alarme da corrida pras montanhas. Segundo que o combate a Bolsonaro tem de ter o tamanho concreto do seu crescimento para saber a quem combater. E até o momento o que se viu é a supervalorização deste inimigo que teve ele um crescimento que não constitui ameaça orgânica fora de seu papel de fascista histriônico. Terceiro que a direita ruralista encastelada como jóia da coroa da economia é o centro da ameaça da direita e tá dominando o poder faz tempo.

Ao fim e ao cabo é menos hora de chamar de onda conservadora o que é um ongo processo e mais hora de organizar a resistência ou amplificar a resistência surgida em 2013 que erroneamente vem sendo tratada como causa do processo de reação conservadora e não reação a ela, e como responsável pela eleição da direita e não como um caudal mal analisado pelos analistas políticos, mal trabalhado pelos atores políticos e que ainda está em curso de resistência e mais, ainda está em busca de organicidade nos diversos movimentos.

Uma dica? Há resistência a partidos.

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