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Pra quem quer ter um parâmetro da desolação de quem viu ontem o debate entre os presidenciáveis e viu o discurso da questão climática ser abordado de forma absolutamente irresponsável, recomendo ler essa entrevista com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e a filósofa Débora Danowsky. Ou se achar muito grande é só ler o blog do companheiro de lutas Alexandre Costa. Também funciona procurar sobre crise climática, crise hídrica e crise ecológica no Google.

Se mesmo assim permanecer a dúvida da gravidade da omissão dos candidatos a presidente em abordar o tema das mudanças climáticas e se insistir no discurso produtivista de que sem mexer na economia nada muda, isso pra justificar uma análise macroeconômica que exclui a ecologia como fazem a maior parte dos militantes da esquerda partidária, eu apenas lamento.

Lamento porque o que se viu no debate pode ser definido como um elogio da loucura. E se o discurso do proto fascista Levy Fidelix chocou pela pregação da violência homofóbica, com razão, a omissão coletiva sobre este tema e sobre a questão climática mais que chocou, ofendeu.

Lamento ver o ecossocialismo, corrente do socialismo marxista que respeito e me formou como ambientalista, ser secundarizado num discurso pálido, omisso, frouxo, irresponsável.

Lamento ver que o ecossocialismo no Brasil é tratado como chacota especialmente no único partido que o mantém como um discurso a princípio apenas parcial, propagandístico, e com todas as oportunidades de produção teórica e política de formarem quadros ecossocialistas, candidaturas ecossocialistas, não o fazem.

O ecossocialismo no Brasil fracassa porque salvo raríssimas exceções é tratado como assessório, como discurso slogan e como discurso espetáculo que jamais é tomado em seu inteiro teor diante da gravidade da crise ecológica e da crise climática, uma embutida na outra e que ocorre na nossa fuça.

Ao tornar o petróleo cláusula pétrea e ao se omitir no abordar o fim dos combustíveis fósseis, metas de redução de emissão de carbono, programa de transição energética e vincular isso à agroecologia, mudanças nos parâmetros de consumo, alimentação, distribuição de alimentos, o PSOL, único partido com um setorial ecossocialista de peso, se omite de ser um partido necessário.

Se a forma partido pra mim já era desnecessária por um em número de questões e se essa sensação já existia quando eu paulatinamente tomava contato com o anarquismo verde e anarco primitivismo e os lia e entendia formas diferentes de organização na luta ecológica, ontem essa forma partido perdeu inclusive a áurea de tensionamento de discurso. Perdeu essa possibilidade porque na prática tensiona muito pouco e perde todas as oportunidades de sair do discurso de combate aos bancos e ao discurso udenista moralista e partir pra porrada concreta com relação às opressões e à crise ecológica.

Não foi só Luciana que perdeu oportunidades ontem, foi o partido. Luciana perdeu oportunidades no debate e é tratada com condescendência por seus companheiros e militantes e nome do espírito de corpo, que na prática também corroboram com ela na completa ignorância da questão ambiental.

Ontem, além do asco que a empatia com todos os LGBT me leva a ter após o desastre da omissão coletiva diante do discurso fascista de Levy Fidelix, me senti como um lixo humano de ter construído por anos uma luta ambiental totalmente ignorada pelo partido e por hoje sua principal figura pública.

Se minha adesão ao PSOL havia falecido quando me voltei novamente para a militância anarquista, ontem vi qualquer resquício de respeito ao programa ecossocialista por parte da candidata ser jogado fora pela manutenção do desprezo pela ecologia em nome do discurso fácil da macroeconomia mais ortodoxa.

Ontem Luciana Genro sepultou o ecossocialismo no PSOL. Eleger deputados foi mais importante que isso. Eleger deputados foi mais importante que a manifestação de completo repúdio à homofobia. Eleger deputados e atacar o PV foi prioridade ao invés do discurso ambiental.

Ontem o PSOL definitivamente acompanhou o PT, o PSB, o PSDB no elogio da loucura.

O partido do SOL ignora o sol como fonte de energia, não se declara ao sol, não fala do sol, não toca no totem do petróleo sonhando um dia ser poder pra entrar na OPEP.

Ontem a democracia fracassou, o meio ambiente fracassou, os indígenas fracassaram. Toda a luta ribeirinha, indígena, quilombola foi secundarizada junto com a luta LGBT, outra luta que vira slogan bonito, mas que fora a defesa correta do casamento civil igualitário quando se fez necessário o enfrentamento direto à homofobia se preferiu seguir um script.

Esse marxismo é o marxismo que veste a farda da crítica anarquista ao marxismo. Esse marxismo leninismo de cartilha, pobre, parco teoricamente, omisso e covarde, não é o marxismo de Thompsom, de Lowy. Esse marxismo não é sequer o marxismo de Marx.

Esse Marxismo teológico e teleológico que acha que a revolução é um dado histórico, esse mecanicismo obreiro e disciplinado que ignora o atropelamento da ecologia no cotidiano, sendo cúmplice dela ao tratar a crise ecológica como palavra de ordem. Esse marxismo de galinheiro que opta por elogiar a Diva em vez de perceber a cagada que foi o conjunto da obra da opção entre a defesa de um programa que varreria Eduardo jorge para seu lugar de capacho verde da direita e o ataque às alianças do PV e do silêncio diante da homofobia explícita de Fidelix. Esse marxismo de galinheiro é primo dileto da burocratização e da cooptação do estado.

O PSOL ontem fez seu canto do cisne pra mim, definitivo e completo. O partido “necessário” se tornou desnecessário arremedo.

Quando a principal voz da esquerda guetificada pelo conjunto de sub-radicalismo com oportunismo eleitoreiro opta, em sua melhor chance, por seguir um script careta e um discurso de eleição de DCE em vez de assumir a responsabilidade sobre a crise ecológica e sobre o combate direto à homofobia ali presente, gritada, ai já deu, sua necessidade não existe mais.

Lamento profundamente ter visto a comédia de justificativas pobres, de ataques velados ou abertos aos críticos ao invés da análise crítica do tamanho da oportunidade perdida.

Pela primeira vez em muitas eleições a crise climática entrou na pauta, mas a atriz com o melhor papel para atuar sobre ela, preferiu o script errado.

Desde que batemos todos os recordes negativos do acúmulo de CO² na atmosfera, que batemos recordes de temperatura, desmatamento, desde que entramos em profunda crise hídrica em um dos países praticamente proibido de tê-la, se exige mais que discurso ecológico da boca pra fora, de discurso ecológico capitalista ou de discurso de privatização das florestas. Mas quem tem como fazer esse contraponto optou conscientemente por não fazê-lo e reduzir o debate a um combate ao desmatamento, sem citar desmatamento zero e pior, ainda gastou mais da metade do tempo pra bater nas alianças do PV em vez de discutir o programa.

Não é de hoje que o debate ecológico no PSOL é negligenciado. Enquanto há setorial não há nenhum respeito a ele, menos ainda absorção das políticas por ele defendida. Diante disso como ter fé em um partido que despreza seu próprio programa ecossocialista?

Diante disso como aturar críticas ao “Não vote, lute!” que diz que nenhum partido cumpre seus programas ou pode garantir este cumprimento se a própria candidata ao assumir a tarefa foi incapaz de seguir seu próprio programa?

É muito fácil questionar os críticos às eleições em nome de argumentos como “Não votar fortalece a direita”, enquanto se discursa um discurso que fortalece a direita, o produtivismo, o negacionismo climático, etc.

É muito fácil questionar a desilusão alheia contribuindo para ela.

Depois se reclama o baixo percentual e se culpabiliza quem abandona o barco, é sempre a saída mais fácil. É sempre mais fácil transformar tudo em mágoa.

Enquanto se constrói um partido que despreza a luta ecológica, se critica quem faz a saída das ocupações, das ecovilas, como lutadores pela saída individual ou pontual, mas estes ao menos estão concretamente reduzindo emissões e discutindo emissões de forma pública e apontando soluções.

E os partidos? O que fazem além de transformar debate político em sociedade do espetáculo, tratando o desenvolvimento como panaceia acrítica, ignorando a necessidade de decrescimento da economia, de redução da estrutura econômica predatória, da obsolência programada, d consumismo devastador, de combate imediato à crise ecológica? Nada.

A ideia do desenvolvimento das forças produtivas, dogma perpétuo dos nano marxistas de cartilha, impede os partidos de olharem pra fora e verem o desastre.

Talvez pensem que no longo prazo estaremos todos mortos. E talvez seja ai a única vez que acertam.

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