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Nasci branco, cresci branco, minha identidade branca jamais foi questionada ou ofendida ou humilhada, jamais me pôs pra andar no elevador de serviço, tampouco me levou a ser oprimido pela polícia ou a perder emprego por ser branco.

Ser branco não foi uma escolha e não me causa orgulho. Ser branco é um destino, algo que me foi imposto pela biologia. Ter orgulho de ser branco é como ter orgulho de não ser cadeirante ou orgulho por não usar óculos. É como ter orgulho por não ter nenhum tipo de mancha na carteira de privilégios. Branco e homem então é o alto da cadeia alimentar, se for rico é quase o morador do topo do Himalaia.

Não é difícil entender isso e uma mísera pesquisa no google dá margem à compreensão disso, desde pesquisa sobre renda até sobre ocupação de cargos públicos.

Como este texto enveredará pelo futebol podemos usá-lo como exemplo: No futebol há quase zero de dirigentes negros, técnicos negros, os negros participam como jogadores, seguranças, roupeiros ou torcedores. Negros como dirigentes e técnicos, supervisores, médicos? Pouquíssimos, quase zero.

Por que escrevo tudo isso? Porque o racismo é a mais abjeta forma de opressão que conheço. Racismo me enoja e cumplicidade com ele idem.

Adoraria optar por deixar de ser branco e ter mais que empatia com quem sofre racismo, mas não posso, nem me entendendo negro na cultura, na música, na fé, nos heróis. Essa suposta negritude que busco pra mim numa fantasia delirante é uma escolha que não me dá o ônus de ser negro.

Nos recentes episódio sobre Aranha, Torcida do Grêmio e a torcedora pega em flagrante cometendo racismo, estamos tendo o desfile completo do mais abjeto racismo e endosso ao racismo fazendo troça de nossa racionalidade e enrustido na defesa da honra gauderia ou de uma suposta paixão ao Grêmio.

Não amigos, amor ao time tem limite e o limite é quando o que tá me jogo é nossa própria construção de valores.

Nem o fluminense me faz ser cúmplice de racismo homofobia e machismo, o Fluminense não é mais caro pra mim que minha humanidade e minha luta contra toda forma de opressão.

É triste o que tá acontecendo com cumplicidade de Felipão, do Grêmio e da mídia. É triste a redução do ato racista a um “ato impensado” ou “teatro do Aranha”. Triste porque revelador. Revelador não só do país racista, da mídia racista de um Rio Grande do sul onde o racismo é o menos velado do país, mas triste porque se liga o foda-se do senso crítico em nome do senso comum.

E ai se vê gente de esquerda, socialista, anarquista, etc, gente “de bem” passando a mão na cabeça de racismo em nome da paz, do Papai Noel de Quintino, do Ursinho Puff, das boas relações, da honra gauderia e do amor ao Grêmio.

São “coisas do futebol”, assim como o machismo, a misoginia, a xenofobia, o elitismo que chamava o futebol dos pobres de sururu no início do século XX.

São coisas do futebol como o Bangu jamais ser reconhecido como pioneiro da luta antirracista, sendo secundado pelo Vasco e perseguidos ambos história afora por serem clubes populares, de base popular e fabril.

São coisas do futebol como a homofobia internalizada. São coisas do futebol os mitos e a mitificação que suspende do futebol sua responsabilidade como espelho do cotidiano da sociedade brasileira. E é por causa dessas “coisas do futebol” que todo combate às opressões no Brasil esbarra no sentimento de bom mocismo em relação à sociedade racista.

“Não vamos exagerar”, afinal “somos todos amigos”. As disputas políticas se tratam assim, tudo é mediado, pontuado, ela defende o Bolsonaro, mas é uma boa pessoa. Dai pra chamar racismo de “Ato falho” é um pulo.

É triste e meu asco só aumenta. Um asco composto por anos de construção antirracista sendo esbofeteado pela covardia mau-caráter de milhares de pessoas que optam conscientemente por endossar racismo a se autocriticarem.

Eu nunca tive orgulho de ser branco, ser branco não é motivo de orgulho por ser uma cor da pele.

Eu teria orgulho de ser negro, exige um esforço cotidiano pra manter-se humano e altivo, pra manter-se são e arrotando sua identidade na fuça de gente imbecil orgulhosa de ser parte do lixo humano da sociedade. Ser negro é motivo de orgulho porque ninguém é negro impunemente.

Ser branco me causa cada vez mais asco, asco e revolta pro ser parte de uma minoria privilegiada, obtusa, incapaz de empatia e que se apega a todo sentimento possível de unidade no privilégio para combater qualquer mínimo avanço na luta antirracismo.

Eu tenho nojo de ser branco.

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