Semana_tragica

A reconstrução da política passa pela reconstrução dos modos de fazer política e de construir a ideia de política. Parece bazofia, mas é sério.

A política, como é entendida, é tida como naturalização da representatividade, da ideia de um sistema estatal, burocrático e onde democracia é a produção de delegação para a mediação entre quem vota e os ganhos de direitos, o estado, etc.

Se entende, portanto, política como a terceirização da própria vontade, depositada com fé nas urnas, aguardando que quem recebe o endosso para o exercício do poder contemple os desejos individuais e coletivos relativos a quem endossa.

Mas a política assim entendida não é restrita ao ato de votar, é restrita também como a externalização da própria responsabilidade e das lutas cotidianas. Ou seja, se entende a política como externa a si, como produzida pela relação das lutas cotidianas pra fora da gente e contra um ou vários inimigos externos, espantalhos produzidos pela necessidade prática de gerar moinhos de vento que agradem nossos Quixotes.

E é ai que a porca torce o rabo.

A luta política e a própria política entendida como algo externo, onde elegemos representantes de nossa vontade e atores que representam nosso papel concentrando vários papéis que lhe fornecem poder, externaliza questões que são de embate interno e externo.

Racismo e homofobia, machismo, misoginia e etnocentrismo nadam de braçada na gente, em nossos companheiros, nas lutas cotidianas, nos lugares de discurso e disputa política por excelência e permanecem sendo secundarizados, pois os inimigos sempre são eternos.

Os inimigos são o estado, são a direita, são os combustíveis fósseis, a recessão São sempre o outro, jamais nossa própria formação, nós mesmos e nossa participação no cotidiano político.

Por isso é fácil quem diz aos quatro ventos que quer transformar o planeta ignorar o próprio machismo, racismo, defesa de privilégios e se ofender com a dureza de quem combate isso com unhas, dentes, alma. Porque jamais se vê como parte do que se combate, jamais se cobra sinceramente que pra transformar o mundo é preciso também transformar-se e assumir a coerência necessária entre ideia e prática, ideia e ser.

Da mesma forma o fazer politica representa a imensa dificuldade de se transformar o locus privilegiado e hierárquico que foi construído em torno de nossa trajetória. Por isso é mato homens contra o aborto, brancos contra as cotas, socialistas a favor do petróleo, veganos machistas, socialistas e anarquistas punitivistas, anarquistas e socialistas homofóbicos, militantes e ativistas LGBT machistas e racistas, intelectuais produtivistas que se dizem ambientalistas achando que meio ambiente é só árvore, feministas transfóbicas e a lista é imensa.

Quando o inimigo é externo a nós, não interessa nossa própria desconstrução, o inimigo agora é outro. E isso se reflete na forma de se fazer política.

Pouco se apreende que diferenças entre lutadores sejam ultrapassáveis pelos pontos em comum e que é possível construir convergências. O inimigo sendo externo necessita de um foco que limita consensos e inclui entre inimigos todos os que criticam nosso modo de fazer política.

A lógica hierarquizada do fazer política não é apenas marxista ou de direita, é filha dileta da estrutura hierárquica, a mesma que pariu o estado. Ao eleger apenas o capitalismo como o grande vilão, e eleger como co-vilão tudo o que não luta contra o capitalismo da mesma forma como quem usa o processo hierárquico como mote, se estabelece a mesma lógica do inimigo externo e não se traduz o questionamento da hierarquia e da centralização como também um elemento estrutural a ser transformado.

E se o inimigo for a lógica civilizatória ocidental?

Da mesma forma que no racismo e no machismo, na homofobia, a negação da transformação por dentro do eixo hierárquico e centralizado como antípoda da liberdade é a secundarização da transformação do vertical em horizontal, é a negação da luta pela superação do estado ao negar-se superar o estado no interior dos próprios organismos que se dizem combatentes do estado e do capitalismo.

854565001213Nessa negação se constitui o eixo da incoerência da busca pelo comunismo com manutenção de estado tampão, pois essa busca estabelece que para se superar a verticalidade se mantém um espaço vertical de decisão coletiva, e esse espaço não contempla a desconstrução do estado no interior da cultura, ou seja, se nega a ideia da verticalidade e da centralidade opressora como estrutural, assim como o racismo, a homofobia, a misoginia. E ai o método é reflexo de um erro de origem.

O método de centralização e representatividade colocando como externo uma série de estruturas opressoras que devem ser transformadas, secundarizando sempre a maior parte delas em nome da derrubada do sistema, especialmente secundarizando a luta anti-hierárquica, autossabota a transformação estrutural.

Não se muda uma estrutura constituindo-se como seu espelho invertido. E por isso não se muda o estado sendo estado.

Da mesma forma não se muda a estrutura racista, machista, homofóbica, misógina, transfóbica sem mudar o eixo interno, da pessoa pro coletivo, do coletivo pro todo.

Por isso a reconstrução da política passa pela reconstrução dos modos de fazer política. E a reconstrução dos modos de fazer política passa pela reconstrução da ideia de política, de relação do indivíduo com o coletivo, da relação do indivíduo com a delegação de seu poder e com isso a reconstrução da ideia de política.

Por isso não basta se declarar libertário, ambientalista, socialista, ecossocialista ou inca venusiano. É preciso atuar e tem de atuar de fora pra dentro transformando todo o raio de comportamento e pensamento em uma ação prática cotidiana transformadora. Idem mudar a própria relação entre indivíduo e coletivo, coletivo e estado.

Não basta construir uma lógica de emancipação via planejamento democrático ou intervenção municipalista libertária sem transformar a relação entre coletivo e indivíduo, no plano da construção da horizontalidade e do questionamento a si mesmo e seu papel de reforço e reprodução de opressões e predações ambientais.

Não basta construir uma lógica de emancipação sem enxergar a si mesmo como parte da cultura hierarquizada de fábrica nascida no século XIX e se opta por não se transformar da origem produtivista e centralizada, hipernegadora do indivíduo e da liberdade, fiel na fé no progresso e no desenvolvimento das forças produtivas sem considerar recurso naturais, culturas e relações não ocidentais, formas sensíveis de relação com o mudo e o outro. Não adianta pregar uma emancipação que não se retira da própria ideia civilizatória hierarquizada e avessa ao outro.

Não adianta pagar de anarquista e ecossocialista reduzindo tudo á economia, ignorando ecologia, sendo contra o aborto, sendo contra as cotas, achando bonito só desfilar no Leblon.

Não adianta pagar de anarquista ou ecossocialista e não dar bom dia ao porteiro.

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